domingo, 25 de setembro de 2016

Deseo

Dizem que o corpo tem lá seus desejos e Janaína, do alto dos seus vinte e tantos anos não ousava deixa-los aprisionados. Claro que não teria as atitudes tresloucadas que Helena tinha, mas ainda assim gostava de dar vazão ao que tinha em mente. Ainda que lhe custasse algumas horas que não levariam a lugar nenhum. Aliás, o conceito "lugar nenhum" para ela também era um lugar. Afinal o Coragem morava lá. E se alguém mora em Lugar Nenhum ele existia. Mesmo que fosse num desenho animado.

Havia ouvido falar de alguns amigos/conhecidos de um PUB que tinha um ambiente legal, uma música boa, bebida gelada e não tão cara. Janaína, como boa ouvinte, ouviu a informação e guardou, um dia ela seria útil. E, nessa noite de sábado em que o inverno não tem mais saco de ficar esfriando tudo e o verão ta com preguiça de chegar que essa informação veio a tona. Se arrumou, colocou uma saia, blusa meio aberta, sandália de salto baixo. Se arrumou em menos de dez minutos. Certamente Helena ou qualquer outra de suas amigas, se soubessem que ela havia se aprontado pra sair em menos de dez minutos diriam que ela estava muito básica, porém se as mesmas amigas achassem que ela levou horas se arrumando diriam que ela estava deslumbrante, pronta pra matar. Nunca entendeu essa coisa de mulher. Não que fosse do tipo que não ligava, mas... é. Não se importava tanto com isso.

No elevador que - milagrosamente - estava funcionando pensou pra que reino estava indo dessa vez. Será que nesse lugar haviam príncipes? O taxi estava lhe esperando. Deu um endereço aproximado porque sabia que, se algum carro entrasse naquela rua badalada dificilmente sairia em minutos. Sempre pensou em facilitar a vida de todos e, por isso, sempre foi tida como meio estranha desde a época da escola. Pensou um instante nesse fato e sorriu de canto. Pagou ao homem de meia idade, camisa listrada e uma boina daquelas tipo do Angus Young. Caminhou não mais que dois minutos passando em frente de lanchonetes onde grupos de amigos, grupos de amigas e grupos mistos faziam refeições, riam, bebiam. E Janaína ali, sozinha. Na bolsa nada muito além do celular, cópias dos documentos, dinheiro suficiente para beber alguma coisa e depois voltar de taxi. 

Olhou de soslaio na fachada. O lugar era esse. Não tinha combinado com ninguém. Não gostava dos amigos que tinha a ponto de chama-los para sair. Quer dizer, Helena poderia chamar, mas ela estava no rehab ou já tinha saído? Merda. Por um instante pensou o quanto havia se afastado dela. Sentiu falta. Mas, dizem que notícia ruim chega logo. Então ela devia estar bem. Certo? Certo. Qualquer dia iria ao encontro da amiga para ver o que aconteceu. Deu passagem a um grupo pequeno onde uma moça bonita parecia ser a abelha rainha seguido de zangões machos e fêmeas que entraram cantarolando. Imediatamente ao passar a porta sentiu o cheiro de tabaco e a nuvem de fumaça que pairava na altura do teto. Devia ser o único lugar da cidade onde era permitido o fumo em local fechado. Fez uma careta mas resolveu dar uma chance ao local. Pediu uma gim tônica enquanto pensava no Axl Rose bebendo enquanto tocava November Rain. A música era boa, o barman além de bonito era talentoso com o drink, a localização era boa... sorriu pensando em virar crítica de PUBs, bares e afins.

Logo um tipo mandrake apareceu do seu lado puxando papo. Daqueles típicos que não tem uma boa prosa, corpo normal de lugares como aquele. Tratou de despacha-lo em poucos instantes, disse estar esperando a namorada. Assim que o rapaz se afastou ela riu e pediu mais um drinque. O grupo de abelhas agora estava no meio do salão dançando algum rockzinho antigo que aquela banda tocava. Resolveu assistir a cena. A cada pessoa que passava pela porta uma parte da fumaça era levada pra fora. Numa saídas de fumaça viu que uma fina garoa molhava a rua. Despachou mais um pretendente pensando se teria culhão de ficar com uma garota. Não era impossível, mas também não era plausível. Seus desejos pediam outra coisa. Não uma língua... quer dizer, não só uma língua. Um rapaz entrou em passos galopantes. Decidido foi reto na rainha da colmeia. Focou mais a atenção naquele cortejar. Um, dois minutos depois ele a levou pra fora com um sorriso nos lábios, sentiu na expressão dele a vitória. Merda. Hora de procurar alguém. Um dos zangões não era de se jogar fora e parecia sobrar no que sobrou do enxame.

Desceu do banquinho colocando a comanda na bolsa. Sentiu o efeito do álcool. Não que fosse fraca para tal, mas estava de estômago vazio. Não estava bêbada, mas também não estava sã. Sorriu ao desconhecido. Dançaram. Tentaram se apresentar - em vão, o barulho não era tanto, mas o suficiente para abafar vozes. Passavam das três da manhã quando ela deu a ideia de saírem dali. Em uma sociedade como a atual ainda era relativamente mal visto uma mulher chamar o cara para irem para um lugar mais reservado. E daí? Longe daquela coisa do emponderamento Janaína não reprimia seus desejos. Ele tinha carro, parado logo ali. Enfim conversaram mais um sobre o outro. Paulo. Futuro engenheiro de uma faculdade de uma das inúmeras cidades-satélite da metrópole. Menos mal, não corria o risco de vê-lo tão cedo novamente. Um motel sugeriu ele. Ela sorriu de canto e topou. Por mais que aceitasse e quisesse namorar alguém a sério não negava os desejos que seu corpo tinha.

Com os primeiros raios do sol seu parceiro se ofereceu em leva-la em casa. Janaína, matuta que só ela, indicou um lugar dezenas de quarteirões longe da sua casa. O rapaz se ofereceu em ir até a porta. "O porteiro da manhã é meio fofoqueiro e o síndico não gosta de gente estranha entrando, sabe?". Paulo entendeu e pediu o telefone dela. Ela disse que não lembrava de cabeça pois tinha trocado recentemente e o aparelho na bolsa estava sem bateria. Tudo perfeitamente crível, pois no pós-sexo, enquanto ele tomava um banho, ela tirou a bateria do aparelho. Ele deixou um cartão profissional dele. Nome completo, telefone fixo de onde ele trabalhava - a firma do papai - endereço, site e o escambau. 

Assim que ele se afastou o suficiente ela caminhou até uma padaria. Comprou três pães e oito fatias de presunto enquanto chamava um taxi. Assim que o motorista - sem a boina do Angus Young, sem camisa listrada e idoso - chegou ofereceu um café que ele aceitou prontamente agradecendo a gentileza. Janaína não ligava de ser assim, não morreria por ter pago um café e ele certamente ficaria mais feliz enquanto a cafeína perdurasse em sua corrente sanguínea. Desceu na esquina do seu prédio vendo que aquele domingo seria promissor pra uma tarde vendo filmes velhos e comendo porcarias. Os trabalhos de faculdade que se fodam. Foi quando sentiu o salto no asfalto, um vento frio por baixo da saia, sorriu pro porteiro. Ao entrar no apartamento jogou toda a roupa dentro da máquina de lavar. Durante a tarde batia tudo e estendia, agora seria muita filha-da-putagem com os vizinhos. Mandou uma mensagem para Helena perguntando dela, pedindo desculpas pelo sumiço e se dizendo com saudade. Suspirou se enfiando em um banho demorado pra tirar o cheiro de tabaco dos cabelos e resolveu mudar os planos. Fechou as cortinas, secou o cabelo, checou se sua mensagem tinha resposta - não -, suspirou novamente, espreguiçou, desligou o celular - agora de verdade - e resolveu curtir o domingo da melhor forma: dormindo. A ressaca e pensar em tudo deixa pra depois.

sábado, 3 de setembro de 2016

Baile de Máscaras

Estava tudo pronto. Ela escolheu o vestido. A carruagem estava a sua espera na porta do castelo. Agora tudo que tinha de fazer era descer os lances de escada, tomar a carruagem e ir para o baile de máscaras para o qual havia sido convidada. Não sentia vontade de ir, seu desejo era ficar em casa com seus livros, suas estátuas, seus anjos e seus demônios, suas luzes e suas sombras. Mas, naquele dia imbuiu-se de vontades e desejos e foi. 

Com zelo desceu as escadarias tentando evitar sujar a barra do longo vestido que trajava, tentava, inclusive, evitar pisar com seu sapatinho de cristal na barra do vestido e cair. Não usou nem o corrimão para não correr o risco de manchar as brancas luvas que lhe cobriam da ponta dos dedos até dois palmos além do cotovelo braço acima. Sorriu para o homem que baixou a ponte levadiça que ligava o castelo à estrada. O cocheiro aguardava ansiosamente por ela em seu vestido deslumbrante. Em uma das mãos trazia uma pequena máscara, dessas dos antigos carnavais de Venezia, daquelas que cobririam parte do rosto e tinha de ser amparada por uma pequena haste de madeira fina.

A carroça tinha uma bela parelha de cavalos que seguiam de maneira ordenada, rápida, silenciosa e macia pela estrada esburacada. Apesar da presença de outras carroças o tempo como se estivesse para chover afastou outros transeuntes de polular as ruas. Ela via o movimento do mundo ao seu redor. Paisagens passavam por sua janela como se fugissem, se aproximassem e fugissem novamente. Assim foi durante três quartos de hora até que, enfim, ela chegou ao imenso castelo onde seria o tal baile de máscaras. Com pronta ajuda do cocheiro desceu da carruagem agradecendo ao bom homem pelo auxilio. Como ato de bondade deu algumas moedas, ao passo que ele sorriu e foi-se embora com a bela carruagem.

Munida de uma pequena bolsa e da máscara na outra mão ela entrou no grande castelo. Outras pessoas já estavam ali, uma pequena camerata tocava as últimas composições de grandes músicos. Ela, alheia à toda essa novidade, ouvia cada música, cada nota, como se fosse a primeira vez - e talvez o fosse mesmo -, logo alguém a reconheceu e veio ao encontro dela com duas taças do melhor champagne que havia, aquele produzido na França. Nesse instante ela se deixou sorrir e esqueceu, por alguns instantes, que por pouco não quis vir para esse baile. Uma. Duas. Três taças depois já dançava com aristocratas de todas as classes, desde donos dos castelos menores, situados às margens do reino até os donos de castelos maiores que este que estavam. A chuva que se desenhou no trajeto do castelo dela até aqui se dissipou e estrelas brotaram no céu juntamente de uma lua minguante.

Logo a noite virou começo da madrugada. Não tinha de sair a meia noite. Não era um conto-de-fadas onde precisava sair meia noite se não tornar-se-ia gata-borralheira novamente. Entre uma dança e outra chamou um mensageiro, seus pés latejavam, suas pernas estavam cansadas, ao jovem mensagem pediu uma carruagem para voltar para seu castelo. Dançou mais duas valsas recém escritas por um grande compositor de uma região no interior do reino até que o mensageiro veio lhe falar que sua carruagem já a aguardava na porta do castelo. Ela agradeceu, despediu-se do jovem aristocrata que valsava.

O cocheiro da carruagem que havia pedido a aguardava. A barra do vestido não resistiu ao baile de máscaras e estava com pequenas manchas de sujeira em suas barras. As luvas tinham um tom levemente amarelado. A máscara e a pequena bolsa eram as poucas que voltavam para casa em seu estado praticamente original. Dessa vez a carruagem levou menos tempo para o regresso do grande castelo até o castelo dela. Os cavalos pareciam os mesmo da vinda, o cocheiro levemente mais idoso. Não haviam tantas interrupções no trajeto. E estrada estava umidecida, o que a fez pensar que havia chovido. Ou isso ou a neblina. Lembrou-se de quando era menina e residia em um grande castelo próximo do mar sempre tinha uma névoa úmida que vinha do mar e molhava as pedras das muralhas e cobria o céu entre o fim da tarde e o começo da noite. Sorriu com essa lembrança entretendo-se ao que o ouvia o cocheiro dizer, provavelmente para seu auxiliar, sobre como estava perigoso andar por estas terras. Ouviu atentamente a história de como o auxiliar havia sido saqueado dias atrás por dois jovens empunhando suas balestras prontos a disparar a qualquer movimento brusco do jovem e de sua passageira.

Tudo isso soava como uma realidade distante para ela. Misturou essa conversa com lembranças do baile de máscaras. Em pouco menos de dois quartos de hora estava em seu castelo. Agradeceu ao cocheiro lhe dando um pequeno saco de moedas que, seguramente, lhe pagavam o trajeto e sobraria para uma generosa porção de aveia para sua parelha de cavalos. Ao descer caminhou até a beira do fosso que separava seu castelo da estrada ouvindo o coche se afastar rapidamente. Logo um dos soldados responsáveis pela segurança a reconheceu - tomou o cuidado de não manter a máscara ao rosto - e baixou a ponte. Tão logo ela entrou a ponte tornou-se a levantar. "Segurança nunca é demais milady, estão havendo muitos saques por estas regiões sabe?". Ela assentiu com a cabeça dirigindo-se para a escada afim de chegar em seus aposentos. Tomaria um banho demorado. Ao fim do banho - preparado com uma habilidade pouco vista por uma de suas camareiras - ela trajou uma roupa leve. O sono ainda não viria por isso ateu-se a um livro que a muito residia na cabeceira de sua cama. Demoraria anos para lê-lo assim, duas páginas por dia. Mas não importava. A ficção a tirava, por alguns instantes, do seu mundo.

Por alguns instantes pousou o livro sobre a barriga já estando debaixo das cobertas. Janaína sorriu ao ver o quanto tinha feito de imaginação do simples baile que foi. Desceu pela escada porque o elevador estava quebrado. O longo vestido era de um brechó, o sapatinho de cristal uma rasteirinha que havia pago barato. Chamou um carro pelo aplicativo. Foi para um baile que alguém da faculdade a havia convidado e colocado seu nome na lista. Um clube caro, daqueles que ela, por conta própria não entraria jamais. Dançou com filhos de empresários ricos, filhos de vereadores ricos, até mesmo o filho de um grande advogado da cidade a tirou para dançar. Ao fim de algumas horas - e algumas latas de cerveja a mais - estava exausta e tudo que queria era ir embora. Como era tarde da noite pediu ao rapaz que cuidava do estacionamento que chamasse um taxi. O taxista, junto com o filho, conversavam sobre a violência e o assalto que o filho havia sofrido dias atrás frente a dois menores armados. Logo ela chegou ao seu prédio. O porteiro da madrugada demorou dez segundos para abrir o portão para Janaína. "Segurança nunca é demais dona, tem muito assalto por aqui sabe? Ta foda.". Coube a ela concordar "Ta foda.". Cansada ela se arrastou escada acima. Chegou no seu pequeno apartamento. Tomou um banho demorado com aquele shampoo que comprou em uma loja cara. Depois do banho largou o celular na cabeceira e ficou pensando em um baile de máscaras para o qual havia sido convidada, onde teria de escolher o vestido, a máscara...

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Aeon

Ele se sentia sufocado com tudo que tinha, com tudo que tinha de fazer. A grande verdade é que, por mais que estivesse tranquilo com relação em não ter mais Ela e nem a pianista ele sentia um vazio no peito. Claro. Sempre tinham os classificados do jornal que poderiam suprir sua necessidade física. Os bares locais para suprir um bom papo... mas ninguém para passar a noite, acordar no dia seguinte ouvindo alguém cantarolando Franz Ferdinand naquele banho matinal. Cada amanhecer era silencioso - salvo pelo vizinho com aquele gosto musical extremamente duvidoso que vez por outra o saudava matinalmente com músicas de corno - e sozinho.

Ele pensava que tudo deveria ter um propósito na vida. Não, ele não era daquele tipo que acredita que um deus tece o destino dele. Pelo contrário, ele determinava tudo na vida dele. Todas as escolhas foi ele que, forçado pelas situações, acabou por ter essa ou aquela atitude. Também não podia culpar o universo. Era... quem era que decidia tudo? Não podia ser só ele. Pensou um instante enquanto saía da cama naquela manhã. Faculdade. Amigos. Compromissos sociais. Trabalho. Tudo isso cansava ele. Enquanto o dia passava pensou no quão não estava bem. Na verdade não estava nem bem nem mal. Só estava. Sem um propósito ou razão. Quando voltou pra casa decidiu que ele cantarolaria Franz Ferdinand. Depois cantaria Ira!. Foi cantando Wander Wildner que lembrou de uma garrafa de vinho.

Nessa garrafa de vinho encontrou a lembrança das conversas que tinha, anos atrás, numa cidade litorânea que morou anos atrás, com uma poetisa. Lembrou-se de que, quando se mudou para essa cidade atual, ele, ao contrário do que toda tecnologia podia oferecer, preferiu trocar cartas com a poetisa. Cartas de papel mesmo. Selo. Correio. Fila. Carteiro. Um real e pouco pra enviar. Dias para chegar. Dias para a resposta voltar passando pelo mesmo processo de carta, papel, selo, correio, fila, carteiro, um real e pouco e dias para chegar. Nas cartas amenidades, desejos, histórias "secretas", sonhos compartilhados. Mas, como tudo e sem saber quem foi, as cartas pararam. Falta de tempo de ambos os correspondentes. Tempo. Esse maldito vilão desde os tempos imemoriáveis. Aeon.

Conversou brevemente com a poetisa por meio dos recursos tecnológicos. Compartilharam o desejo de largar tudo e sair correndo mesmo sabendo que isso não era "permitido". Planejaram se programar e ir para uma ilha famosa. Tudo dependeria da Marianne e seu barrete frigio. Novamente a coisa vinha a depender de algo muito maior que ele. E isso, essa coisa de inúmeras coisas terem de acontecer para uma coisa dele dar certo, o sufocava. O matava. Os próximos dias prometiam ser uma mistura entre stress, irritação e depressão. Suspirou dando fim no último gole de vinho que restou na taça - achava absurdo beber vinho direto do gargalo, vinho demandava sofisticação, por isso a taça - pensando no que precisava fazer, como fazer e quanto isso demandaria dele. Foi então que uma figura que ele conhecia apenas da literatura o chamou. Conversaram horas. Ele sorriu com a auto-intitulada-ruiva-da-outra-dimensão-paralela e concordou quando ela falou de lhe transmitir energia e força para não desistir.

Foi então que ele trocou o sorriso de lado nos lábios. Planejou coisas. Respirou fundo. Precisava ser rápido. Tudo aconteceria como tem que acontecer. Lá fora chovia sem força. A partir de amanhã as coisas começariam a mudar. Ou começariam a começar a mudar. Ele sempre teve problemas para mudar. Ou a mudança vinha de uma vez só ou ele tinha de planejar tudo minuciosamente e morrer a cada passo da mudança. Estava pronto para morrer aos poucos? Teria de estar. A ruiva do universo paralelo falava com ele - mesmo ele achando certa esquizofrenia - que era assim mesmo. Que toda ruptura doi. Era isso. Quantas rupturas ele sobreviveu até hoje? Essa era só mais uma. Mais uma.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Hubb

A vida onde Aleph havia nascido não era boa, mas também não consigo chegava a ser ruim, as perspectivas de estudo e de trabalho não eram as melhores. Foi assim, nesse turbilhão de coisas que ele se deixou convencer pelo discurso de um grupo paramilitares desses que vez por outra matam uma centena de pessoas. Recebeu treinamento, sabia usar um kalashnikov como poucos da sua antiga vila, conhecia o complexo onde estava como a palma da sua mão, sabia os corredores, os túneis por que interligavam cada prédio... ele tinha encontrado um propósito pra sua vida. Farlabah, ao contrário dele, não se juntou ao grupo por vontade própria, mas não era prisioneira, ela podia ir embora a hora que quisesse. Mas, como ela mesma dizia, por enquanto estava bom. Aleph, por um acaso trombou com ela num dos tuneis. 

Ela estava cansada da violência que o grupo propagava, mas ele seguia cego, iludido pela propaganda do grupo. Eles não sabiam, mas um amava o outro. Por isso ele foi atras dela quando ela recolheu seus poucos pertences e estava indo pelo caminho que saía do complexo. Ele, desesperado sem saber o que sentia sacou a pistola e apontou para ela. Uma ameaça. Bateram boca. Quando ela deu as costas para ele, ele, com a mão esquerda, a segurou pelo braço. Ela tentou se soltar. Foi aí que veio o estampido. Lado esquerdo, próximo ao rim. Era fatal. Não imediato. Por isso mesmo ela tentou tomar a arma dele. Veio  segundo tiro. Meio do peito, pouco abaixo da caixa toracica. Os dois corpos caíram juntos. No ar as mãos se entrelaçaram. Descobriram o sentimento na hora do fim. Bem dizem que o ápice é a melhor coisa da vida. Vida. Ele dezessete. Ela dezesseis. 

Vida. 

Morte.



Nota do autor: "Hubb" é a pronúncia de "amor" em árabe, se fosse ser escrito em alfabeto árabe seria: حب

terça-feira, 26 de julho de 2016

Álibi e8s2: Parcas

E assim chegamos a esse ápice. A glória dos dois lados. Sem uma explicação plausível de como eles chegaram naquele instante, daquela forma, naquela igualdade de condições dignas de colocar a balança em um equilíbrio tão perfeito que nem mesmo o signo de libra - comum aos dois - era tão exata em sua precisão equilibrística. Tudo por um descuido. Um instante de vacilação bastou para esse momento. Para os que acreditam em destino esse era o destino deles. 

Não cabe nesse momento a explicação de como ou porque eles haviam chegado nesse local, nesse instante, rigorosamente ao mesmo tempo. A "culpabilidade" do ocorrido poderia ser atribuída às Parcas, mitológicas criaturas que teciam o destino. Curioso em se pensar nisso pois Einstein imaginou o espaço-tempo ("local" onde os eventos ocorrem) como um tecido. Mais irônico disso seria ocorrer numa facção onde bolivianos costuravam a próxima tendência da moda a esforço escravocrata. Não era o caso. Se a situação fosse obra de um escritor extremamente suscetível à clichês ele declinaria a esse recurso. Mas, como já foi mencionado, não era o caso. 

Aliás, cabe dizer que não era uma obra escrita. Eram apenas fatos verdadeiros sobre o ocorrido que eram escritos durante o momento em que eles aconteciam. Os jornais do dia seguinte. Os portais de notícia. As redes sociais. Os programas de televisão e de rádio podiam contar a história da sua forma. Ou incriminando Sophia e absolvendo Sérgio ou condenando Sérgio e absolvendo Sophia. Condenando ou absolvendo os dois. Porém a verdade era o descrito aqui. Ao vivo. Como se houvesse uma câmera no ambiente que gravasse todas as cenas e que, agora, eram transcritas.

Verdade seja dita: Aquelas cenas de seara mexicana, onde um aponta a arma para o outro nunca fizeram o menor sentido se ambos estavam um afim de matar o outro. Quem atirasse primeiro ganhava o duelo. Fim. Claro que a dramaticidade da cena era aquele diálogo que não apareceu durante o filme inteiro e que, agora, explicava toda a história. Toda a rixa entre as personagens. Em cinco ou seis minutos de diálogo regado a flashbacks e a fúria onde um jogava seu motivo na cara do outro. Todo esse melodrama existiu de fato. Mas não cabe aqui todas as palavras. Não cabe nesse instante sublime. Não cabe pelo simples fato de que não era necessário. Não havia novidade nos discursos. Bem dizem que a vida imita a arte. Ou seria a arte que imitou a vida?

Sophia. Forjada em terras frias e com um senso de justiça duvidoso estava diante de seu único amor na vida e seu algoz. Aquele que ameaçou a existência dela e ela não conseguiu mata-lo. Muito provavelmente se ela o tivesse matado meses atrás não chegariam a esse momento. Novamente aquele tal de destino fez eles se cruzarem nesse local. Exatamente na mesma hora. Se isso fosse uma obra de ficção essa seria a hora da vida em que tudo faz sentido. Algo que numa peça publicitária é chamada de "ponto de virada". Aquele instante em que a história vira - para o bem ou para o mal - e a peça corre rápida para o fim.

Sérgio. Treinado nas artes da guerra pelo sistema tornou-se um bom policial que resolvia tudo a seu modo, um modo tão duvidoso quanto o senso de justiça de Sophia. Para ele, ela era aquele momento da vida onde tudo faz sentido, ela era o ponto de virada de onde a história viraria para um final - feliz ou não - de forma ágil e sem grandes enrolações ou trechos que desviariam a atenção do interessado na história.

Já que elas foram citadas no começo, que seja dado à elas dados a esse instante. No dia em que Sophia foi até a delegacia junto com as amigas Janaína e Carla relatar o abuso sofrido pela terceira foi quando Sérgio entrou na vida dela. Não foi aquela coisa de bater o olho e se apaixonarem. Esse tipo de coisa só existe em filmes. Foi ali que Nona - Parca responsável por tecer o fio da vida - iniciou seu trabalho no tecido do casal. Posso creditar à Décima - a Parca que da continuidade ao fio da vida - o relacionamento que surgiu em seguida. Uma troca de cartões de visita feita por Sophia e Sérgio fez com que brotasse aquela vontade de conhecer melhor. Foi quando ele tomou a dianteira e a convidou para um café. Depois do café veio um almoço, um cinema, uma páscoa e quando deram por si já dividiam um apartamento na região central da grande metrópole. Agora cabia a última das três Parcas dar números finais à partida. 

E, assim, voltamos ao momento atual. Ao exato instante que começou essa elegia. Ao tratar o relatado como elegia uma parcela já entendeu onde vai parar a trama. A história tem que ser relatada: Sophia tinha planos de vagar por várias cidades país adentro, tudo para voltar à sua cidade natal, e agora estava aqui na grande metrópole. Sérgio, por sua vez, tinha planos de perseguir ela país a dentro e depois voltar a metrópole e, talvez, se aposentar como policial. Os dois planos dariam certo não fosse esse exato momento. Esse instante onde uma fagulha deu inicio ao fogo que derrubou parte das paredes - justamente na proximidade das portas - e que deu para a última Parca o tecido não só da relação de Sophia com Sérgio como para com a vida deles. Coube à ela tomar a linha e tecer o momento atual. Dias depois falaram algo como combustível evaporado de um dos roubados, carros deixados para desmanche naquele depósito, ter entrado em combustão ao tocar uma velha lâmpada incandescente com o vidro quebrado mas que ainda mantinha o filamento metálico inteiro. Foi aí que a terceira Parca tomou as rédeas. Na hora que o teto ia desabar o amor deles ressurgiu. Extintas as chamas acharam Sérgio abraçado à Sophia como se estivesse a protegendo frente ao perigo iminente. Logo as fotos se espalharam por redes sociais e cada um criou sua história. Mas a verdade é que aconteceu o que Sophia devia ter feito. A verdade é que aconteceu o que Sérgio devia ter feito quando teve a chance. Porém, apesar das voltas, a última Parca fez o que eles não tiveram oportunidade ou mesmo coragem de fazer. Coube a tecelã do destino fechar o ciclo. Amarrar as pontas e dar por encerrado esse tecido. E como chama-se essa terceira Parca? Morte.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Álibi e7s2: Galpão

O ano é 1987. Foi o ano que esse terreno de, aproximadamente, oitocentos metros quadrados no canto leste da metrópole foi vendido pelo seu antigo dono, um ex fazendeiro que viu a grande cidade vindo na direção da sua propriedade. Quem comprou era um proeminente empresário que tinha o objetivo de construir o maior mercado do lugar. Dito e feito, em seis meses subiu aos céus um galpão que cobriu praticamente metade do terreno. Mais dois meses de contratações, de arrumações internas e voila. O "Supermercado BR3" abriu suas portas com uma gigantesca inauguração, foi chamado uma dupla sertaneja que despontava nas rádios populares. Lotou. Nas semanas seguintes passou a novidade. O movimento estabilizou.

No ano de 1994, com a mudança de moeda, o empresário começou a ter problemas e acabou por vender sua rede de supermercados para outra rede de supermercados maior. "Os maiores engolem os menores" foi a frase dele ao ir para outras áreas da economia. Mais alguns anos e a grande rede achou aquela loja pouco lucrativa frente à ganância. Venderam o galpão para um jovem mecânico que prosperou por mais de dez anos customizando carros. O sucesso levou o, agora não tão jovem mecânico, para o centro da metrópole. O galpão foi vendido por um décimo do preço que havia sido comprado mais de vinte anos atrás. 

O dono agora tinha uma oficina mecânica de reparos, nada sofisticado. Um ano depois, após uma denúncia anônima, a polícia descobriu que, na verdade, o tal mecânico era na verdade o líder de uma quadrilha que desmontava carros roubados. Depois de inúmeras investigações algumas peças foram devolvidas a seus donos, algumas encaminhadas para leilão, algumas pro carro da esposa do delegado que havia atropelado um mendigo voltando de uma casa de massas onde ela havia bebido taças de vinho a mais, tudo pela frustração na vida de casada. Pelo visto um assassino, ainda que culposo, é capaz de aproximar casais. 

Já no galpão que viu os tempos áureos do bairro via o detrimento do mesmo. O silêncio repousou por ali, só sendo quebrado, vez por outra, uma criança passava por ali correndo atrás de sua pipa. Fora isso o galpão repousava em seu silêncio rumo ao futuro. Até aquele dia. Uma moça entrou, espalhou por entre as pilhas de sucatas de carro fios, explosivos caseiros. Horas mais tarde um rapaz um pouco mais velho que a moça apareceu. Enfim o galpão achou que, depois de muito tempo, veria algum movimento. Palavras rispidas. Foi quando o galpão suspirou vendo a fagulha. O estrondo. Nos dias que se seguiram o terreno voltou à tranquilidade e à paz de quase vinte e tantos anos atrás.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Álibi e6s2: Estalo

O ultimato havia sido dado. Sophia resolveria suas pendências com Sérgio antes de seguir com sua lista. Por isso a invasão do apartamento, por isso a ameaça e por isso a dica de como, onde e quando ir. Claro que não ligava para o fato de, talvez, ele resolvesse vir com toda a tropa policial disponível naquele dia. Por isso havia se planejado e feito pequenas armadilhas que fariam o prédio ruir frente da primeira ameaça. Obviamente tratou de, além de minar o local todo, desenhar uma rota de fuga. 

Era incrível o que se podia aprender na internet, e nem havia se embrenhado pela famosa DeepWeb pra aprender a produzir uma bomba controlável pelo celular. E muito menos precisou traduzir árabe, as instruções estavam em espanhol. Tudo planejado, tudo desenhado na sua mente. Ela sabia que Sérgio tomou a invasão por pessoal e que ele viria sozinho. Repassou tudo mentalmente. Havia deixado o notebook no apartamento de propósito, assim ele poderia guarda-lo pra ela e, assim que as desavenças fossem dissipadas - seja com uma boa conversa ou com um cadáver -, ela passaria lá pegar. 

Tinha tanta confiança no seu plano que teve um pequeno arrepio ao checar os fios da última carga explosiva. Excesso de confiança era o primeiro passo para o fracasso. Algum filosofo havia dito isso, talvez Zun Tsu. Um pequeno pânico tomou conta dela logo dissipado pela falta de falhas na última checagem dos fios, das instalações. Será que esse galpão ruiria? Não sendo na cabeça dela tudo bem. Faltavam menos de cinco minutos para o horário planejado. Ouviu um carro estacionando do lado de fora. Logo a porta de um carro bateu. Antes de se dar conta ouviu passos. 

Sérgio. Estralou o pescoço, os dedos enquanto ele desviava das pilhas de carros roubados. Pena que nenhum desses carros eram inteiros, se não Sophia teria um transporte gratuito por algum tempo. Enfim ele apareceu. Parecia cansado, roupa amarrotada. O cabelo mais branco, mais magro. Tudo isso em menos de seis meses? Sophia sempre passou as camisas dele, sempre o fez comer coisas mais saudáveis. 

O tempo parou enquanto eles se encaravam. Um misto perfeito de saudade e raiva se mesclou nela. Gentil Sérgio deixou que ela falasse primeiro. Não houve história triste de abuso na infância ou algo do gênero. Sophia começou porque quis. E assim pretendia continuar. Quando ele começou a falar ela o ouviu pacientemente. Quando ele terminou de falar o impasse surgiu. Foi aí que um estalo surgiu.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Álibi e5s2: Merda

Agora ela tinha passado de todos os limites aceitáveis. Aquela vadia ia pagar caro por ter invadido meu apartamento, bagunçado tudo e ainda por cima querer marcar um encontro. Sophia não sabia o que tinha plantado quando entrou aqui. E o notebook? Merda. Por que diabos ela deixou a porra do notebook? Pior: Por que eu fiquei entretido com as informações que tinha nele e esqueci da minha pizza? Se bem que o ketchup picante resolvia bem e pizza fria não era de todo ruim.

O molho respingou no canto do teclado enquanto eu buscava qualquer coisa útil pra levar aquela desgraçada pra justiça. Ou pra vala. Tanto faz. A porra é que ela me fez ir até lá embaixo e falar com aquele velhote que cuida da portaria essa hora da madrugada. Ele não era mal funcionário, longe disso, mas ele era tão surdo quanto a porta. Por isso ele não ouviu a hora que perguntei das câmeras de segurança do elevador. Não podia culpar a pessoa errada. O palavrão foi mais forte que eu quando descobri que: Primeiro: essa bosta de prédio só tem câmeras dentro do elevador. Segundo: A Sophia usou as escadas, ela sempre teve uma certa fobia de elevador. Tanta coisa pra ter medo e vai ter medo logo de uma... okay, era uma caixa fechada, sem janelas, que se movia e o sistema de pedir socorro nunca funcionava direito.

Enquanto fuçava descobri que ela não havia começado a fazer o que fez aqui. Aliás, sempre quis ver o que tinha nesse notebook, desde quando a gente resolveu morar juntos, meses atrás. Nada demais. Muitos artigos de leis - que eram justificados por ela fazer faculdade de direito. Muitas fotos do passado no que parece ser o sul - que é de onde ela diz ter vindo. Muitas buscas sobre hotéis, pousadas, hosteis em vários lugares do país - perfeitamente aceitável de pensar que ela estava em fuga e que ela fez das suas em outras cidades pequenas. E em um arquivo com meu nome, uma pequena mensagem.

"Encontrou o que procurava, Sérgio? Cansei de fugir. Venha me encontrar na rua Fernando Pessoa, 3340 depois de amanhã, no fim da noite. Vamos resolver todas as nossas pendências. Não preciso pedir que venha sozinho, porque sei que virá. Não precisa trazer o notebook, depois eu passo aí pegar. Com amor, Soph."

Confesso. Minha vontade foi estourar o notebook da Sophia na parede. Ela era petulante. Petulante ao ponto de que eu me sentia desafiado. No arquivo tinha a data do encontro. Provavelmente cega pela vingança ela não tinha notado que só ia ter a chance de vir aqui no dia seguinte. Ou será que ela me queria lá depois de amanhã? Tanto faz. Amanhã era meu dia de folga, então não custava nada passar lá e, se não tivesse ninguém passaria no dia seguinte dizendo que tinha recebido uma pista de algo. Se não fosse verdade ou o endereço estivesse errado ganharia meio dia de folga. Comi mais dois pedaços de pizza gelada pensando em como resolver e preparando os pentes de munição. Três pentes de vinte e um tiros deviam dar pro que planejava. Ou presa, ou no saco preto. Ela só tinha essas opções.

Tentei dormir um pouco. Mas o máximo que consegui foram pequenos cochilos intercalados por pesadelos que me despertavam e me faziam acordar com a arma em punho. Numa dessas acordadas cheguei a dar um tiro na janela que dava para a rua. Por sorte - ou cagada mesmo - ninguém estava no caminho. O vizinho do lado interfonou perguntando do tiro, falei que estava jogando com o volume alto, pedi desculpas e passei a dormir com a arma debaixo do travesseiro, não sobre o peito. Depois de duas dúzias de sonos com meia hora dormi o resto do dia. Ao fim deles chequei todo o equipamento e liquidei a pizza. Bebi um gole de vodka pura. Perfeito.

Segui de taxi para o endereço indicado, pois se qualquer uma das minhas opções acontecesse eu precisaria deixar meu carro no lugar e seguir com uma viatura. E de acordo com o site de mapas e com o conhecimento do Peçanha, o bairro ali era barra pesada. Por isso evitei ir com o meu carro. Um taxi me levava lá e pronto. Claro que iria sair uma bela facada. Por isso, ao invés do tradicional taxi, preferi aquele aplicativo que todos diziam ser mais em conta. No fim da corrida pareceu mais em conta mesmo. O lugar parecia aqueles depósitos velhos de filme americano onde os ladrões formulavam um plano de assalto ao banco.

Assim que passei pela pilha de carros desmontados reduzidos à carcaças, desviando de peças soltas no chão que, se eu trombasse, podiam fazer algum barulho. Mas o calçado fazia um pouco de barulho nesse chão de concreto armado. Merda. Devia ter ou vindo com aquele tênis de corrida que tinha pago os olhos da cara, ou entrado de meias. Depois de chegar no grande salão do depósito pude ver Sophia parada. Desarmada. Só com um pequeno controle parecido com o de alarme de carro nas mãos. E eu com a pistola na parte de trás da calça. Ela não parecia querer fugir. Por isso deixei que ela falasse primeiro. Não veio aqueles clichês de história triste, de abuso infantil que justificasse o que ela fez. Ela só começou a fazer o que fazia porque deu vontade. Só isso. Depois foi minha vez de falar. Porém minha fala foi interrompida por um estalo. Um barulho forte vindo do lugar onde eu havia acabado de passar veio acompanhado do cheiro de pólvora. Merda.