domingo, 6 de agosto de 2017

Rupturas

Dizem que choramos ao nascer porque o ar, ao entrar pela primeira vez nos pulmões traz a sensação de fogo interno, afinal o ar fora do líquido amniótico carrega em si muitas toxinas e por isso choramos. A verdade é que choramos porque sabemos que nunca mais teremos a proteção do ventre. Esse é o motivo daquele choro quando vamos pro nosso primeiro berço, depois para a cama, depois a creche, escola... todos esses choros são choros de rupturas. Ele é necessário, tal qual ritos de passagem.

Mas nem sempre podemos ou até mesmo damos passagem a esse choro. Muitas vezes somos obrigados a deixar ele ali, no cantinho, afinal temos que ser fortes, demonstrar fraqueza é mal visto. E assim vamos deixando esses choros de rupturas se acumularem. Um após o outro. O outro após um. Não há barragem que, depois de certa quantidade de água, não ceda, não transborde, vaze de alguma forma. Há aquele instante onde uma única pedrinha que sustentava o todo resolveu sair de posição, rolar verterdouro abaixo. Uma única pedrinha. Duas dúzias de gramas frente à massa de toneladas de água retida. Há a ruptura. Engenheiros chamam isso de ponto de stress. Uma estrutura é programada a manter determinado peso, passando disso, inevitavelmente, há a ruptura. Sempre o acúmulo, o acúmulo e aquela fração de segundo, aquela grama a mais e tudo desmorona.

Talvez o único "sistema" que funcione bem gerindo esses acúmulos e rupturas sejam as nuvens. Elas condensam a água evaporada até certo ponto e, quando menos se espera elas chovem. 

Não, a chuva não é o choro, chuva é a ruptura necessária para a semente na terra germinar. É o necessário para o romper da casca da semente. Conforme a planta cresce ela rompe o solo. Conforme o solo se rompe a água entra mais fácil. Outras rupturas. Uma ruptura causando outra ruptura que irá causar mais uma ruptura.

Ruptura. No singular. Uma de cada vez. Um romper por tempo. Acho que, apesar de não gostar do som da letra R no começo de palavras, vou fazer uma exceção. Certa vez disse que só haviam duas coisas que me colocavam a pena à mão: amor e dor e que todo o resto que escrevia, por mais elogios que tivesse, não era visceral, não "valia" porque não tinha a emoção de um amor ou uma dor, era vazio. 

Pois agora, lendo as últimas linhas, aceito a exceção. Há mais uma palavra, porém no plural, pois ela é algo vivo e que ocorre sempre. Uso o termo oriental "kanji" pra definir o que me coloca a pena à mão (embora eu saiba que o termo "kanji" são os ideogramas que, em muitos idiomas, representam sílabas e não necessariamente um sentimento ou sensação, que é como eu interpreto os kanjis), o que me fará molhar a ponta de metal no tinteiro e me porá debruçado ao papel: rupturas.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Gota

De tempos em tempos tenho uns momentos que quero escrever, que preciso escrever, que aquela coisa amargura o peito, enche os dedos de ideias, de palavras, de sentimentos. É como um copo que vai se enchendo gota a gota, sentimento a sentimento, palavra a palavra até que chega um momento em que uma única gota se atreve a romper o copo e escorrer pela lateral do copo. Nesse instante é quando vem uma palavra só, um sentimento, uma letra. Nem sempre uma gota é suficiente. Nem sempre uma gota me bota a pena à mão, que me faz ativar o teclado do smartphone. Uma gota não é transbordar, uma gota, muitas vezes, é só uma gota.

sábado, 15 de abril de 2017

Burocrática

Nunca foi fã de leis e códigos em geral. Tanto que fazia faculdade de algo mais aleatório possível. O sistema queria molda-la. A queriam, como dizia Pessoa, "burocrático, tributável" e tudo que ela queria era ser longe disso "inconstante, livre". Ainda que, para Janaína o conceito de "livre", liberdade fosse ser alguém sem compromissos que pudesse optar. Claro que tinha consciência de que perderia a liberdade quando começasse a trabalhar. Perderia a liberdade quando, eventualmente, começasse a namorar a sério. Pensar nisso a fez ter um calafrio. Não queria isso, queria sua liberdade emocional - ao menos ela - livre. Não estava pronta pra ficar sem seu espaço. 

Sem tirar o corpo da cama ou até mesmo se mover mais do que o necessário abriu a cortina vendo que, lá fora, chovia. Não tinha compromissos nesse sábado acinzentado. Seu novo amigo mantinha hábitos semelhantes aos dela: de quando em quando sumia, passava dias sem dar o menor sinal de vida. Talvez por isso que deu certo a amizade deles, se entendiam, tinham mais coisas em comum do que muitos casais ditos perfeitos - ainda que a tal perfeição, na concepção de Janaína, não existia em plano nenhum, nem mesmo um hipotético deus, caso existisse, seria perfeito.

Olhou as gotas d'água escorrendo no vidro enquanto puxava a coberta. "Foda-se", disse sem afastar os lábios. Com a ponta dos dedos puxou o fone. Os pingos, o trânsito, os barulhos eventuais dos vizinhos. Tudo ficou abafado quando ela ligou em alguma web rádio de metal-gótico-escandinavo e deixou-se enebriar pela melodia. Uma lágrima escorreu enquanto pensava nos versos de Pessoa. 

Estava burocrática. Comia. Bebia. Saía. Transava. Dormia. Assistia. Ria. Tudo automático. Tudo burocrático. Tudo pela máscara social que não conseguia tirar. Novamente Pessoa veio como um raio em seus pensamentos. E quando conseguisse tirar essa máscara? Se reconheceria? Estaria velha tal qual o cão tolerado pela gerência por ser inofensivo? Pensava em escrever versos com a essência musical. 

Pare. 

Respira. 

Afunda o rosto no travesseiro. 

Grita com toda a força.

Respira com dificuldade. 

Soluça.

Deixa sair.

Um trovão. 

A chuva aumentou.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Duas Canecas

Era uma vez um vendedor de canecas. Meio hippie, meio comerciante, meio muitas coisas, inclusive meio vendedor de canecas. O vendedor caminhava por aquele balneário turistico onde muita gente morava, onde muitos visitavam. Foi numa de suas andanças que o vendedor encontrou e negociou a caneca de metal que viria ser dele. A gravação do nome foi instantânea. Como ele vivia sozinho tudo se bastava. Cerveja, água, refrigerante, suco, ele bebia de tudo naquela caneca.

Quando o período sabático acabou e tanto ele quanto ela voltaram a dividir o mesmo teto o vendedor reapareceu. Pouca coisa nele havia mudado, apenas o cabelo estava maior e a periodicidade de banhos menor. Fizeram-se as honras. O vendedor com a trouxa cheia de canecas metálicas deu todas as opções. Ela se demorou alguns instantes e escolheu a caneca acinturada. O nome foi gravado mais rápido que o nome dele. Na caneca ela beberia de tudo. Cerveja, água, refrigerante, suco. Tudo mesmo.

Acontece que as canecas, outrora tidas como de metal, na verdade tinham esse nome para simplificar a venda, uma vez que elas eram de uma liga barata de alumínio que, com pouco cuidado, deteriorava-se. Por ela beber mais refrigerante de cola o fundo da caneca acabou por ganhar uma coloração escura antes da dele. 

Alguém lavava ambas as canecas diáriamente. Às vezes até pegava uma palha de aço para devolver parte do brilho original tanto do lado externo quanto do lado interno. Porém, com o passar do tempo essa atividade tornou-se mais penosa, mais demorada e inútil. Com o correr de alguns anos ela desistiu de tentar lavar tal caneca e preferiu jogá-la fora. "Vai pra reciclagem" e lá se foi a caneca dela misturada às latas. Reciclar-se os materiais para que pudessem virar outros materiais úteis.

A caneca dele seguia lá. Agora fosca pelos anos de uso e relaxo no cuidado. Já não era mais usada para bebidas, o fundo estava torto, ao lado do lixo. Vez por outra usada como uma simples caneca que servia para jogar água na pia afim de limpar a pia. Mas, sempre ao fim daquele serviço, ela voltava para a lateral direita do lixo.

Em um dia quase esquecido alguém resolveu buscar o brilho daquela velha caneca. Era em vão. O processo de ariar acabava por riscá-la ainda mais. Talvez fosse a hora da caneca dele seguir o caminho da caneca dela. É chegado o momento da caneca dele ir, muito provavelmente ela iria para a mesma fábrica que foi a caneca dela e, quem sabe tornar-se-ia novamente uma caneca que iria primeiro para a mão dele, depois para a dela...

quarta-feira, 1 de março de 2017

Das Cinzas

Janaína havia declinado várias investidas de seus "amigos-colegas" sobre passar o carnaval em outro lugar. Ao fim de muita insistência e muitas palavras como "eu também não gosto de carnaval, vou pra espairecer esse último ano de faculdade" ela acabou cedendo. Assim ela pegou seu carro e levou uma de suas colegas. Na hora da saída disse que ficaria num quarto sozinha, porque carnaval e "vai que..." e riu. Todos riram. Na verdade tudo que ela queria era um lugar para se esconder quando a agorafobia batesse. Assim a "amiga-colega" entrou no carro e desceram em comboio até a cidade litorânea. Ela sorriu quando viu o mar. Era do mar, mas tinha escolhido se afastar antes que o velho desejo de se misturar a ele fosse para a terceiridade.

Ele estava sozinho. O trabalho ia bem, a motocicleta em dia. Tudo funcionando tal qual um relógio suíço. Não fosse pelo detalhe de não ter sido convidado para nada. Seus amigos já sabiam que era perda de tempo, ele recusaria qualquer oferta de sair, viajar, festa. Só iria quando e para onde quisesse. E tomar essa decisão, no tempo livre, era raro. Seu tempo livre não gostava de se comprometer com ninguém. Ela tinha sumido de novo, como se isso fosse novidade. Com a pianista uma ou duas frases via aplicativo. E, na espera pelas duas, ou nenhuma ou alguma outra que viesse a aparecer, ele preferia ficar na dele. Quieto. Mas hoje imbuiu-se de uma energia diferente. Só queria beber um pouco, quem sabe comer algo diferenciado. Foi assim que redescobriu a maior merda de se morar numa cidade litorânea: todo mundo vinha parar ali.

Quarta-feira de cinzas. Ele entrou no barzinho temático dos anos sessenta. Foi ali que conheceu a pianista. Sentou no balcão e pediu um cowboy. Na televisão passavam alguns clipes de rock mesclados com algumas coisas pops. Janaína entrou torcendo para que não visse nenhum conhecido. Fingiu um mal estar o feriado todo e ficou no quarto até hoje, quando decidiu sair para beber algo. O ambiente era agradável, a música não era samba, pagode, sertanejo ou uma mistura satânica deles. Enquanto pedia uma caipirinha pensava no oásis que tinha acabado de achar.

Ele, mastigando uma pequena porção de torresmo olhava para ela de canto. Moça bonita. Não havia nada de especial nela, parecia uma fugitiva solitária sem ficha criminal. No mínimo havia dado um bolo em todos os amigos e veio para cá se esconder. Tipo ele. Colocou mais um pedaço de torresmo na boca enquanto, na televisão, tocava os primeiros acordes de Hotel California. Na versão com o Eric Clapton. Sua visão foi para a tela.

Janaína foi atraída pelo dedilhar do começo da música. Quando mais nova tentou aprender aquilo. Desistiu quando cortou os dedos nas cordas do violão. Por uma respirada não fez como Pete Townshend e esmigalhou o Tagima no chão. Verdade seja dita: ao olhar para além da televisão viu ele parado, olhar fixo na tela, uma porção de torresmo, o primeiro pensamento foi no pobre do suíno frito salgado. Podia pedir para si uma boa quantidade da mesma iguaria. Mas resolveu se aproximar do estranho. Bonito, introspectivo. A julgar pela roupa não parecia turista. E nem nativo. Era, como dizia aquela música de conhecido compositor gaúcho "vindo de outros tempos mas sempre no horário, peixe fora d'água, borboletas no aquário.". Enquanto ela caminhava na direção dele, para se sentar ao lado do mesmo pensava se ele também estava ali por amor às causas perdidas. 

- Cabe mais uma nessa porção de torresmo?

- Tudo depende dessa uma vir acompanhado de apresentações e mais uma rodada de álcool.

- Acho justo... também fugindo do carnaval?

- Touchê. Aqui é um dos únicos lugares da cidade que não está tocando samba, pagode ou qualquer outra dessas coisas típicas dessa época.

Janaína sorriu estendendo a mão ao, ainda desconhecido se apresentando. Ao passo que ele fez o mesmo. Dez minutos depois ela sorria e contava ao estranho coisas que jamais contaria aos amigos que lhe trouxeram para o carnaval. Quer dizer, aqueles lá não eram verdadeiros amigos. O estranho sim, ele era alguém pra chamar amigo. Desde que Helena havia decidido ir embora Janaína se sentia sem ter com quem conversar. Tentou iniciar um blog, um diário, algo do tipo. Mas desistia no fim da primeira tentativa.

Ele, por sua vez, via na moça um bom papo - algo raro -, porém não conseguia ver nada além de conversa, amizade. Será que ele estava desistindo em definitivo desses sentimentos mais profundos? Provavelmente as últimas vivências dele não foram necessariamente boas a ponto dele querer ter um envolvimento maior. Tudo que ele queria agora era conversar, precisava disso. Merecia isso.

Trocaram números de celular enquanto esperavam o balconista trazer mais uma rodada da combinação álcool e torresmo. Se aproximaram. Talvez fosse um beijo mas não. Sem saber estavam se tornando bons amigos. O sentimento que surgiu entre eles era mais como uma irmandade do que algo baseado em amor ou até mesmo sexo. Por isso Janaína, mesmo tendo desejos aquietou-se frente a ele, viu nele uma tranquilidade, um confidente que só via em Helena.

Ele, por sua vez, com um sorriso sincero que a muito não via a luz do dia viu em Janaína o lado que fez se encantar por Ela. Viu também o lado brincalhão, que discute interesses semelhantes, que entende de assuntos filosóficos, que tem uma cultura a ponto de discutir os viés da obra de Bukowski, Baumann e ainda entender as referências em um clipe do Queen que só tinha visto na pianista. 

Será que Janaína existia? Será que ele existia? Ao fim de mais de três horas de conversa, álcool, torresmo e mais conversa se despediram não sem antes programar algo para a páscoa ou o próximo feriado ou quando desse. A verdade é que os dois não entenderam o que havia acontecido ali. Os próximos dias diriam a eles o que aconteceu e a amizade, parceria, irmandade tenderia a se fixar ainda mais. Dali alguns anos lembrariam que tudo começou em uma quarta-feira de cinzas...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Claridade

Segurava a caneca de chá semi frio com a ponta dos dedos. Precisava achar um lugar pra ficar. Sem essa de ficar um mês em cada cidade. Fixar num lugar e juntar os cacos que sobraram da vida e ver se deles podia aproveitar algo ou a única opção era comprar logo um vaso novo. Pensou em quanto tinha na carteira, o quanto tinha no banco... não era muito, mas o suficiente para dar um pontapé inicial na sua jornada. Na tela do celular olhou as fotos que insistia em guardar, as mensagens pedindo que voltasse. Chega. Deletou tudo. Não guardou nada.

O fato de ter se embrenhado interior adentro do país a fez conhecer muitas pessoas interessantes. Escritores, músicos, donos de bar. Mas sempre preferiu cortar relações, não queria correr o risco de estar perto demais do lugar onde veio. Agora estava em Guaíra, interior do Paraná, pensando no próximo destino. Destino. Sempre boa ouvinte notou a conversa de dois caminhoneiros no balcão do lugar onde estava. Uma garrafa de cerveja era a única parede entre eles. Conversavam sobre ser possível conseguir qualquer coisa no Paraguai. Com os dedos rolando um site de notícias qualquer o ouvido captava cada palavra. Com a ponta dos polegares fechou o site e abriu o aplicativo de mapas. Não estava longe da fronteira. Essa era a oportunidade que esperava.

Mochila nas costas, tênis meia vida nos pés e diversos novos conhecimentos na cabeça. Conhecimentos como: pra que gastar com ônibus quando pode-se arranjar uma carona? Claro que era perigoso por ela ser mulher e estar sozinha. Claro que já teve de saltar de um carro em movimento porque foi assediada por quem lhe dava carona. Mas e daí? Quando chegasse à Ciudad del Leste precisaria de cada moeda que tivesse. Verdade seja dita: só sendo muito doente da cabeça pra querer alguma coisa a mais com ela que tinha cicatrizes nos braços por seu antigo vício de se mutilar.

Normalmente os cortes eram o começo de uma conversa e até o ganho de uma simpatia por parte do motorista. Não raro acabava ganhando uma carona seguinte por conhecer o outro motorista, às vezes alguns trocados, um lanche... e a cada vez contava uma história nova. Ora fugiu por ser abusada pelo pai. Ora fugiu por sofrer ameaças de morte da madrasta. Nunca a história real de que, um dia acordou, e colocou o pé na estrada, sem dramas, sem traumas.

Chegou em Foz do Iguaçu num final de tarde. Ficou em uma pequena hospedaria, pagou barato no pernoite. Jantou o lanche que o último caminhoneiro havia lhe dado: um pastel de queijo com um refrigerante barato. Aos primeiros raios de sol estava pronta para atravessar a ponte que liga os países. Quando viu o posto da Polícia Federal pensou que, ao dar os documentos para a travessia, surgiria o aviso de que ela estava desaparecida. Mesmo sendo maior de idade a polícia leva pessoas desaparecidas de volta aos lares de origem. E ela não queria isso. Quando a fila andou mostrou o documento certa de que sua jornada acabava ali. Um policial que cobria o bocejo com as costas da mão e comentava com o colega que checava a mochila da péssima noite de sono provocada por um ventilador quebrado. Ela sorriu de canto quando o sonolento perguntou o motivo da ida ao Paraguai. "Estou viajando a pé pela América do Sul... quero escrever um livro." Foi a resposta mais plausível que pensou naquele instante. "Legal, escolheu a pior fronteira para passar, aqui perguntam tudo. Enfim, boa viagem e cuide-se...".

Seu documento passou. Viu a nova definição de formigueiro humano ao entrar na principal rua de comércio da cidade. Caminhou não mais que meia hora e descobriu uma pessoa que conseguia documentos. Curiosamente era uma mulher quem comandava tudo. Yolanda, dizia ser espanhola, veio para um concurso de tango em Asunción e acabou ficando depois de um assalto onde perdeu todos os documentos. Tentou os meios legais mas acabou na porta de um falsificador famoso e talentoso. A fagulha surgiu e se enamoraram meses depois. Quando ele foi preso ela assumiu os negócios.

Enquanto esperava que Yolanda digitasse  algumas informações. Ela pediu cidadania argentina, mas ter morado no Brasil desde criança, o que explicaria o espanhol ruim. A espanhola de olhar fraterno ao mesmo tempo que rígido quis saber da moça de que ela fugia. "De tudo e todos" e o olhar baixo deixando aparecer as cicatrizes. Ela era boa dirigindo a cena. Faltava um detalhe apenas: o nome. Pensou um instante. Buscava renovação. Buscava se recriar. Catar dos cacos uma nova vida. Buscava luz. Sorriu de canto, afastou pouco os lábios e, quase num sopro de voz, disse "Clara". O som do novo nome ressoou pelo ambiente até que foi quebrado pela impressora matricial que imprimia tudo. Clara Cabañas.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Estrôncio e Cobre

Janaína. Sempre pensou porque seus pais lhe deram esse nome. Nasceu em cidade litorânea, amava o mar, mas aí ter o nome da rainha do mar? A grande verdade é que estava exausta. A primeira semana de férias sozinha tinha sido ótima, colocou a porra do sono em dia, reviu alguns filmes que adorava, rabiscou algumas coisas que ficariam dentro da gaveta por um bom tempo, limpou a casa... fez tudo quando quis, sem horário definido pra nada - pra você, que lê, ter ideia eram duas da manhã quando ela resolveu passar o espanador na estante.

A segunda semana foi quando o inferno começou. Foi quando as "visitas" chegaram para atormenta-lá. Por isso nesse exato momento ela está sentada no canto da varanda, no chão, sem nenhuma vontade de ir lá dentro buscar a cadeira. Salvo os poucos vasos de plantas - duas pimenteiras vermelhas, uma roxa, um pé de manjericão, uma violeta e um frondoso pé de salsinha - apenas ela estava ali. Todas as casas em volta fechadas com seus respectivos habitantes viajando. Ela podia viajar, afinal estava de férias. Mas sozinha? "Obrigada, não." São as palavras que se formaram na sua mente logo que pensou nisso. E visitar os parentes no sul? Aquela tia tinha convidado para passar as festas. "Nem fudendo". Ainda se lembrava da forma que foi tratada quando depois do ocorrido resolveu vender tudo e ir embora. Claro que se afastar dos problemas não era solução, mas, por ora, era o melhor a se fazer. E já iam longos anos assim.

Uma megalópole de doze milhões de habitantes e ela estava sozinha. Devia ser isso que queria dizer "só na multidão". E Helena? Podia rastrear o celular dela e chegar na cidade dela facilmente. Não. Se ela quis se distanciar e não está precisando de ajuda não era Janaína que iria interferir. Não estragaria o rolê dos rolêzeiros. O próximo ano seria o último que ficaria metade do dia dormindo em um banco acadêmico. Depois era correria diária, um dia inteiro dado pra uma empresa em troca de um punhado de sal.

Ces't la vie. Era o que dizia uma camiseta que viu numa loja dia desses. Quem usaria uma camiseta escrita "é a vida" assim, em português? Acho que ninguém. Por isso  a imensa maioria das roupas com "letras" era em inglês, francês ou outro idioma que pouca gente compreende. Um povo que não valoriza a própria língua... o que esperar deles? A verdade verdeira - será que existe uma verdade mentirosa? - é que aquele cansaço do ano ainda era presente e Janaína não achava formas de descansar. Quantas formas de descanso existem? Dormir. Ler. Viajar. Passar bons momentos com amigos. Nenhum deles era suficiente e, todo dia ao acordar, ela dizia não estar descansada. Quando ouviu o celular pensou que era a solução. Não. Era a tal tia do sul desejando feliz ano novo. Dammit. Hoje era véspera de ano novo. Deixou o celular do lado e focou o olhar em um pássaro  - uma pomba - que limpava as penas sentada em um fio elétrico. Até ela estava se arrumando e Janaína ali, sentada no escuro.

Piscou demoradamente, só tornou a abrir os olhos com os fogos. Em um esforço sobre-humano levantou-se para se apoiar na mureta da varanda vendo clarões que iluminavam o céu. Azul. Amarelo. Vermelho. Roxo. Verde. Branco. Branco? Janaína passou a virada do ano com uma camiseta preta, dessas de banda que faz muito tempo tornou-se "roupa-de-usar-em-casa", passo esse que é o último antes de se tornar pano de chão e depois ir para o merecido descanso no lixo e uma bermuda azul clara que tinha ganho em algum amigo secreto. O que será que tudo isso queria dizer? Faltou a calcinha, quem sabe ela possa ajudar e... não. Era daquelas calcinhas bege, de algodão, boas para dormir. O ano seria isso aí então. Preto, azul e bege. Preto não era boas energias, azul era tranquilidade e bege era marasmo. Vida profissional, faculdade e vida amorosa. Tudo representado perfeitamente. Merda.

Um vizinho, imigrante boliviano que tinha conseguido fugir de se tornar escravo da indústria têxtil e trouxe a família inteiro para viver aqui. Ao vê-la ele sorriu, desejou feliz ano novo. Ela, tirada de seu mar de pensamentos, sorriu e acenou-lhe. "Adeus ó Esteves" foi a frase que veio num lampejo na cabeça dela, o telefone tocando com a foto de Helena na tela foi o universo reconstruindo-se.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Cascabel

Sempre ouviu que tudo que acontece, acontece por alguma razão ou motivo. Mas por que ele? Para quem acredita era deus em sua obra trabalhando para que tudo mantivesse o equilíbrio. Que equilíbrio? Esteban sempre trabalhou duro para ter tudo que tinha, sempre ia para casa com as mãos parcialmente sujas de graxa da pequena oficina que mantinha em Baviácora, México. Era o único mecânico em um raio de centenas de quilômetros, para ele tanto fazia quem eram seus clientes. Fossem da polícia, dos cartéis, moradores ou viajantes. Tinha o coração bom e, tendo pagamento justo por seu trabalho, atendia todos com um largo sorriso nos lábios. Todos no vilarejo o respeitavam e tinham nele um líder, um exemplo de que, trabalhando-se duro, era sim possível sair da pobreza e sofrimento que tanto assolava aquela região esquecida do mundo. 

Ele não era rico justamente por isso, todo o excedente que ganhava - fosse dinheiro ou bens - dívida com os menos favorecidos, e nem por isso ele vivia sem conforto. Esteban, sua esposa Salete, sua filha Clara e seu cachorro Tito tinham o conforto de uma boa casa, sem luxos ou exageros. Tinham.  Tudo por aquele dia. Aquele fatídico dia. Dezesseis de outubro de mil novecentos e noventa e dois. Um dos inúmeros cartéis , tal qual ladrões do velho oeste, invadiram a pequena cidade atrás de tudo que pudesse virar dinheiro. Só faltaram os cavalos, trocados por ágeis motocicletas. Tomaram todos os prédios, bancos, bares, lojas... nem mesmo o padre foi poupado. Quis o destino, criaturas divinas, céus, deus, diabo ou qualquer outro motivo alheio a compressão de Esteban que apenas ele e Tito, seu fiel escudeiro, sobrevivessem frente ao caos. Tantas dúvidas e apenas uma certeza: iria vingar todos, nem que isso demorasse anos. 

Vinte e um anos para ser mais exato. Foi no dia quatorze de março de dois mil e três que Esteban, com a ajuda de um facão comprido, que no México ganha o sonoro nome de machete, separou do corpo a cabeça de Domenico Pérez, traficante de drogas, armas, animais silvestres, pessoas para trabalhar e para abastecer a "américa" de prostitutas a preço baixo e responsável por inúmeras chacinas ao redor do antigo império maia, incluindo o dr Baviácora, tido como um dos mais sangrentos da história . Uma vez vingado ele se sentou ao lado do corpo e chorou toda a dor reprimida por todos esses anos. No dia seguinte policiais não corruptos do México - algo tão raro quanto água no deserto -, aliados a diversas siglas do país vizinho do norte o encontraram. 

Esteban não sabia, mas havia uma gorda recompensa pela captura ou entrega do corpo morto de Pérez. Diversos zeros, uma identidade nova e residência fixa na grande águia. Nada disso traria sua família ou seu cão - morto por idade em uma das muitas cidades que morou e trabalhou para juntar dinheiro. Aceitou a recompensa. Atravessou a fronteira certo de que, um dia, alguém iria procura-lo para vingar Pérez. Enquanto esse dia não chega Esteban voltou a trabalhar no que sempre lhe fez feliz, abriu uma oficina mecânica, casou-se novamente, adotou outro cachorro e, logo há de ser pai de um menino.