sábado, 17 de maio de 2014

inquietação

Sentia necessidade de fazer algo. Qualquer coisa que fosse, se sentia sufocado. Aquela sensação o sufocava. Talvez fosse hora de ir atrás dela. Talvez fosse hora de não adiar mais e ir até ela. Claro que não tinha o novo endereço dela, mas, quem liga? Era só passar a conversa no porteiro e pronto. De quebra ainda levaria as eventuais correspondências para ela. Perfeito. Perfeito? Quando já tomava o capacete nas mãos pensou na palavra. Perfeição é o primeiro passo para o fracasso. Nada, absolutamente nada, que dure muito tempo é perfeito. Havia sido assim entre eles. Passavam um tempo em mares tranquilos até que uma simples gota fazia o copo transbordar.

Era essa intranquilidade, essa eterna corda bamba que os mantinha juntos. Até mesmo quando ele, por motivos alheios às vontades de ambos, teve de se mudar. Ainda se viram por um tempo. E todas as vezes que se viam era perfeito. Ora ele fazia aquela cena de cinema, entrando no apartamento dela antes dela chegar cansada do trabalho e preparando o jantar, ora ela indo até ele trazendo uma pizza congelada e uma coca retornavel. Era perfeito demais para durar. Estava na garagem, capacete nas mãos, jaqueta de couro lhe cobrindo os ombros quando se deu conta de tal coisa. Suspirou olhando de relance para o quartinho que ficava na garagem. Lá ainda residiam algumas caixas da mudança sem serem abertas, provavelmente coisas que eram deles e que ele, até o momento, não havia dado por falta.

Estava com a chave do quartinho presa a da motocicleta. Naquele molho de chaves estavam a chave do portão, da porta da cozinha, da porta dos fundos, da motocicleta em si e do quartinho. Com a ponta dos dedos selecionou a chave que abria o diminuto cômodo nos fundos. Provavelmente onde a empregada dos primeiros donos dormia. Não tinha mais do que três por quatro metros, provavelmente caberia aqui uma cama de solteiro e um armário comum. Talvez até um criado-mudo onde uma televisão que seus patrões, pra não jogar fora, deram à tal empregada que se desenhou na mente dele vendo as novelas do vale a pena ver de novo e depois se dividindo entre o filme da sessão da tarde e de recolher a roupa da laje e preparar o café de seus patrões.

Sorriu de canto imaginando a empregada se derretendo pelos atores. Ou assistindo por assistir, afim de relaxar os pés, talvez fosse uma guria vindo do interior, com aspirações altas, nobres e lúcidas e quem sabe se realizaveis, sonhasse em cursar uma faculdade, mandar algum dinheiro para seus pais no interior do estado, pessoas que muito sofriam com a lida diaria de sol a sol carpindo, plantando, colhendo e vendendo em alguma feira da propria cidade pequena à algum atravessador que lhes pagaria uma merreca e, depois, revenderia pelo dobro à outro atravessador que, novamente, dobraria o valor até chegar ao consumidor final que ficaria feliz em achar o produto por preço tão atraente. Talvez ela lutasse para fugir desse ciclo vicioso vindo para outra cidade maior, achando que era o ideal, achando que a quantia de um salário mínimo, que na roça é uma fortuna, seria incrivel em uma cidade onde até água potável teria de pagar. A cidade grande era uma mentira. Para todos. Provavelmente ela logo perceberia isso e acabaria trocando de emprego ou voltaria para a sua cidade natal afim de contar as histórias de suas peripécias na cidade grande, levaria causos, se casaria com um borracheiro e viveria numa felicidade plena até suas filhas repetirem seu sonho de ir para a cidade grande.

Ou talvez, então, fosse uma senhora idosa, que sem oportunidades de emprego para completar sua renda que a aposentadoria não supria - nem mesmo seus remédios ela conseguia pagar! - e sem suporte de sua familia que havia se mudado, anos atrás, para uma cidade ainda maior, havia aceitado o emprego de empregada doméstica nessa casa. Nas suas horas de folga talvez ligasse a televisão na sessão da tarde e, entre uma cena e outra, desse um breve cochilo lendo algum dos livros que seus patrões deixavam na grande estante que ornava a sala. Nesses poucos anos dentro dessa casa, praticamente inserida nessa familia, ela já havia lido quase todos os livros e tinha por sonho ler todos antes de morrer. Ela tinha consciência que logo morreria e queria liquidar algumas curiosidades de histórias que, em um passado remoto, no interior, havia ouvido falar por intermédio de seus professores.

Curioso. Tanto a jovem quanto a idosa, para ele, vieram do interior. Era um esteriótipo típico das empregadas em cidades grandes, não? Pensava ele, quem em sã consciência vai aceitar ser empregada doméstica e dormir num quarto que mede pouco mais do que um banheiro? Tantas divagações que aquela ânsia, aquele desejo, aquele sufocamento lhe veio ao peito novamente. Não era real essa sensação. Era algo que, por mais que lhe fechasse as vias respiratórias, dificilmente o mataria. Resolveu pegar uma das caixas sem nada escrito. Quer dizer. Estava escrito "Sabão em pó". Quem faz muitas mudanças de endereço durante a vida - como ele - sabem que caixas de papelão, grandes, onde veio o sabão em pó para os mercados, são as mais resistentes.

Ao abrir a caixa seu sorriso de alguns segundos atrás se alargou e se afinou diversas vezes enquanto, com a ponta dos dedos, dedilhava o velho toca discos que havia sido de seu pai e que, há vários anos, não via ou emitia algum som. Um velho toca discos philips. As caixas de som estavam ao lado da caixa. Talvez curioso não fosse o toca discos em si mas o vinil menor, um EP. O nome estava apagado, mas, ao limpar a agulha e trazer o aparelho para o lado de dentro e ele, enfim, tornar a emitir som o sorriso se desfez. Ficou preso à voz. Ficou preso àquela música por todas as horas que se seguiram em que o EP foi ouvido acompanhado não da sua eterna companheira vodka, mas de um vinho tinto que havia ganho de alguem da empresa meses atrás. Cada gole era algo além que vinha em seu ser. Aquele sufocamento ia sendo empurrado garganta abaixo a largos goles da bebida. Deixou a música tomar conta de si e lhe fazer viajar. Não restava mais nada na garrafa. O EP tocava uma última vez. Ele deixou a música no volume máximo e se deitou no sofá. Livre de ânsias. O capacete na mesa da cozinha, uma garrafa de vinho vazia e um vinil balbuciando em francês "ne me quitte pas, ne me quitte pas, ne me quitte pas..."

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Pérola Branca

Depois de alguns meses o Pérola Branca - um belo veleiro de casco grande e cabine com os luxos de um pequeno apartamento - sai do cais de NY. Sua capitã ruma sem um destino certo. A única certeza que tem é que quer sair sair dali, talvez pra sempre, talvez por uns meses. Queria conhecer o mundo. Tinha aprendido nos anos que já possuía o veleiro todas as formas de guia-lo mar adentro. Os estoques de comida e água haviam sido abastecidos na noite anterior à sua partida, calma e serena pelo rio Hudson com os primeiros raios da manhã e a calentadora brisa matinal.

Os poucos barcos que se atreviam sair naquela hora tinham como destino ou o golfo do México, Caribe ou ainda alguma ilha particular próxima. O Pérola era o único que saía daquela baía com um destino incerto. Fixado o timão sua hábil capitã foi ao convés, como se fosse se despedir daquela cidade que tanto a acolheu nos últimos tempos. Uma lágrima teimosa ousou sair e lhe escorrer pela face. Mas o vento frio vindo do mar e a névoa aos poucos engoliam a grande maçã atrás dela. Os tempos agora eram outros.

As coisas não tinham saído como ela havia planejado. Poxa, não tinha cometido nenhum de seus deslizes anteriores então porque não deu certo? Tantas dúvidas. Tanto tempo que passaria no mar afim de sepulta-las naquela imensidão de água. Era a hora de uma nova aventura. Dessa vez não era a ruiva que desaparecia ao amanhecer, dessa vez era morena, a quem a ruiva tanto se apegou nos últimos tempos e quem dividia uma parte vital - o fígado, que a ruiva dilacerou nos anos pelos bares mundo afora- quem optava por essa forma de superar as dores e as mágoas vividas. Aspirou grande quantidade de ar e virou, suavemente a embarcação para o sudeste. Velho continente. Primeira parada, Paris.

sábado, 22 de março de 2014

Pedra de Gelo

Se sentou naquele balcão. O garçom levou três, talvez quatro segundos até chegar nele e perguntar o que queria. Por um instante ele olhou fixamente para o homem. Respirou fundo. Talvez ali não fosse o lugar exato pra se estar naquela situação. Os dedos doíam, os pés estavam moles. O corpo com uma dor aqui, outra ali. Do sono nem falava mais: era sua quase-rotina dormir não mais do que quatro horas por noite - não sentia falta do repouso. Piscou demoradamente voltando ao universo atual. Whyski, duas pedras de gelo. Foi seu pedido prontamente atendido. Constatou na comanda que essa era (ou devia ser) uma das bebidas mais caras da casa. Tudo por um punhado de grãos destilados e fermentados na antiga caledônia. Suspirou dando um gole curto. Ao menos aparentava ser original, fiel ao rotulo que postulava atrás do balcão.

Podia arrumar alguma companhia, quem sabe alguem para jogar uma boa conversa fora. Deveriam fazer o quê? Três meses que não falava com ela? Então era assim afinal. Havia superado mais essa. Brindou consigo mesmo sorvendo um gole maior do que o anterior. Ainda era cedo não havia ninguem no lugar. Talvez duas dúzias de pessoas, metade em volta de uma mesa só e duas em outra. As restantes eram um homem barbudo, gordo e com camisa xadrês - um tipico lenhador. O outro era um homem com a barba feita e uma gravata solta. Era sexta afinal de contas. Provavelmente aquele tipo estava esperando colegas do trabalho para comemorarem algum contrato, alguma promoção ou, até mesmo, a morte do chefe. A outra era uma mulher, bonita, bem vestida, que mexia no celular com tanta frequência que devia estar terminando a relação pelo tal do whatsapp. Ponderou se deveria falar com ela. Melhor não, não era correto interferir na briga do casal.

Assim sobrava apenas uma mulher. Aparência simples, sentada em um dos cantos do balcão. A sua frente uma long neck. Será que afogava as mágoas ou apenas esperava as amigas? Decidiu fita-la por alguns instantes. Ela tirou o celular da bolsa. A tela iluminou o rosto dela por alguns instantes. Bonita. A frustração se demonstrou no rosto dela tal qual nuvens de cinzas no céu demonstram a chuva que está por vir. Sorriu de canto, era a hora da caçada. Porém a dúvida lhe resoou de dentro do copo onde apenas as pedras de gelo derretiam silenciosamente: seria presa ou caçador?

sábado, 15 de março de 2014

Talvezes

Talvez a melhor coisa em ser adulto seja poder dar patada em alguem sem precisar explicar o motivo na hora. Depois, se quiser, você explica, mas na hora da patada, é só dar a patada e pronto, é como se todos fossem culpados por algo que te aconteceu. E não eram?! Sempre levei patadas dos adultos quando era criança e sempre achava que a culpa, efetivamente, era só minha. Talvez em algumas vezes fosse mesmo, mas, na maioria das vezes não era.

Desde que Helena se sentou diante de minha porta, com uma mochila e a história de fuga que tenho pensado, seriamente, nisso. Já faz uma semana desde que ela veio e se instalou. Depois de algumas horas conversando com os pais dela ambos chegamos a conclusão de que, antes comigo do que com outra pessoa. Engraçado refletir que, tanto eu, quanto Helena temos praticamente a mesma idade e, mesmo assim, os pais dela me acham mais madura. Talvez porque não me conheçam completamente.

Verdade seja dita: era bom ter alguem comigo. Sobretudo com a proximidade de uma data que selou meu destino, não que a lembrança não viesse dia após dia, mas as datas - digamos assim - "fechadas", que completam ciclos de um ano são as piores. Fossem quantos anos fossem as pessoas só se lembravam no exato dia que completava um ano, ainda que, pra física moderna, um ano nunca seja exatamente um ano. Um ano seria algo como seis horas antes do ciclo completo. De qualquer forma era bom ter Helena aqui. Ainda que o trato com os pais dela fosse dela ficar, no máximo, duas semanas com o objetivo de "tomar juízo". De fato ela tomava, mas não o juízo que seus pais almejavam.

No segundo dia dela aqui a embriaguês dela me fez a arrastar para baixo do chuveiro frio e deixa-la por meia hora. Trancada no banheiro. Enquanto os pais dela falavam que ela, mesmo tendo vinte e um anos, não deveria estar fazendo essas "meninices" eu sabia que tudo tinha um porém, um algo por trás. Em uma noite nos deitamos juntas, sem nenhuma conotação lésbica, praticamente como irmãs e ela, aos prantos - e me fazendo contar minha história depois -, me confessou o quê lhe afligia. E eu concordava que era complicado aquela situação toda. Afinal envolvimento com drogas, amores distantes, pequenos furtos... a história dela parecia coisa de cinema. Ainda que eu achasse que, boa parte, do que ela falava era, sim, mentira. Não, mentira não... talvez uma... ampliação da verdade verdadeira. Como quem diz que quebrou o pé e quando se vê só se quebrou a unha do dedo mínimo.

Quando os dias iam se aproximando eu ia chegando a conclusão de que, logo, ela iria embora e eu teria de contar minha história. Não era uma história bonita. Era triste. Foi ela quem me moldou assim, fria, calculista. Não era má, não fazia nada por mal, apenas não gostava de ceder mais do que o combinado. Se o combinado era dez, era dez e pronto, sem essa de nove. Talvez por pensar assim que minha família que ficou na distante Santa Catarina passou a me ver com outros olhos. Era uma quinta-feira, eu tinha dezessete quando tudo aconteceu. BR-101, não lembro qual quilometro. Apenas lembro que chovia. Curioso como a mente prega peças de eu não lembrar o ano mas lembrar que era uma quinta-feira e chovia. A pista estava molhada, o trânsito sempre carregado e as últimas provas da escola chegando. Nunca fui das melhores alunas, também não era das piores. Morava bem, não me faltava nada. Estava em casa, deitada na cama devorando um livro que havia ganho de presente, eram as últimas páginas. Quando virei a última página o telefone tocou. Ignorei. Terminei de ler e fui ver na bina quem era. Se não me falha a memória era o numero de um tio meu. Dez segundos depois o telefone toca novamente. Atendo. Dali em diante não prestei mais atenção em nada. Lembro do sol na segunda-feira seguinte. Só alguns meses depois a policia trouxe um laudo de que o carro onde eles viajavam aquaplanou e se chocou de frente em uma parede de pedras. Nenhum air-bag do mundo conseguiria deter a violência do impacto. Foi instantaneo, disseram. Ao fim daquele ano vendi a casa, e os dois outros carros que estavam na garagem. Completei dezoito no começo do ano seguinte e tomei meu rumo no mundo. Meus parentes nunca aceitaram completamente a ideia de que eu simplesmente vendi tudo e fui embora.

Amanha Helena vai embora. E hoje ela soube mais de mim. Assim como eu sei mais dela. Talvez seja destino que nos colocou diante uma da outra. Uma precisando de alguem de confiança e a outra só querendo alguem que não tivesse vínculo emocional. Fosse o quê fosse era isso. Ela estava dormindo docemente em meu colo enquanto eu acariciava seus cabelos. Talvez fosse a hora de arriscar alguma coisa, alguma coisa grande. Quem sabe uma arca que pudesse salvar nós duas. Isso. Uma arca. Ótima ideia.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Das Ende

Eu vou morrer. Sim. Não há opção. O fim se aproxima cada vez mais rápido. Lembro-me que, antigamente, os anos duravam muito tempo, hoje vejo que... 2012, o ano do apocalipse maia, já tem quase dois anos atrás. Dois anos no passado. Duas voltas completas da Terra ao redor do Sol. Mais de setecentos dias. Sete centos, sete vezes cem. É muito tempo. Por isso volto a afirmar que, sim, eu estou morrendo nesse exato momento. Digo mais: você, que me lê agora, também está morrendo. Você vai morrer. É estranho? Sim. Com certeza.

O pior é pensar que, depois de morrer, muito provavelmente não há nada. Não que eu não acredite em reencarnação, até acredito, mas não naquela reencarnação onde a pessoa morre e volta como pessoa. Acredito na reencarnação budista: quando você morre volta como outra coisa, minhoca, cachorro, ameba. Qualquer coisa, menos gente. Doi pensar nisso, não? Decididamente pra mim, não doi. Claro que pensar em nunca mais sentir nada me soa estranho... mas... não, realmente não me importo. Até porque, quando eu morrer, eu não vou sentir mais nada. Absolutamente nada.

Podia teorizar no que deve haver no além-vida... mas não, não sou teólogo, muito menos físico. Sou apenas alguem que, descobriu muito cedo uma habilidade não tão comum: escrever. Desde meus seis, sete anos sei ler e escrever (com uma letra feia, admito). E, desde os onze ou doze que escrevo pequenos contos. Quando passei a ter computador em casa é que comecei a escrever com mais frequência. Não tenho nenhum desses escritos mais, pois, naquela época eu realmente não me importava em salvar tudo pra, quem sabe um dia, publicar. Foi no longinquo ano de 2006 em diante que passei a guardar tudo. Comecei acho que como todo escritor começa: com poemas. Poemas de amor, sobretudo. Aos poucos fui me aventurando em um conto aqui, um conto ali... e chegamos aos dias atuais.

Hoje olho em volta. Na minha parede tem um mural onde poucas coisas estão fixadas. Alguns papéis de bala, umas figurinhas, um desenho feito pela, também escritora, Camila (o blog dela esta aqui nos links do "por onde andei"), um crucifixo de prata, alguns carrinhos de papel e um Tsuru, que ganhei de uma senhora japonesa (vinda do japão mesmo) na praça do Japão, em Curitiba. Esse Tsuru já viajou muito, mas muito mesmo, devo ter ele desde 1996... Recentemente eu li sobre a lenda desse pássaro de origami e li que ele simboliza o desejo de felicidade, boa saúde e boa sorte... Reza a lenda niponica que, se dobrar os mil desses pássaros, há de se conseguir uma graça. Será que a senhora que me deu esse meu Tsuru estava buscando algo? Uns dois anos atrás soube que ela já havia falecido um tempo atrás... será que ela conseguiu o que buscava? Tomara que sim.

Pensando nisso agora me lembrei da frase inicial do ótimo livro "A Menina Que Roubava Livros" que dizia: "Eis um pequeno fato: você vai morrer". E assim voltamos ao, provavelmente único, fato imutavel da vida: Nós todos vamos morrer. Quem acompanha o blog desde o inicio (ou desde a semana passada, desde que tenha lido mais do que apenas a última postagem) sabe que meus posts são quase todos sobre sentimentos e sensações. Adoro saber que, em dado momento do que escrevi, alguem se arrepiou ao ler. Enquanto escrevo essas linhas abri o painel do blogger e vi algo que sempre vejo mas hoje me dei conta. Algo como "Estou hoje lúcido como se estivesse para morrer". Cheguei a 100ª postagem. É, sem sombra de dúvidas, o blog onde eu mais escrevi, onde mais, por assim dizer, vivi. Mais de quatro mil e seiscentas visualizações. Deveria ser algo pra se comemorar né? E eu venho e falo de morte.

Talvez morramos todos os dias, partes nossas morrem e nascem a cada minuto, um cacoete de falar enrolado que tinhamos quando criança já não é mais percebido hoje e, aquela compulsão por organização, tão rara na infância hoje é parte de um Transtorno Obcessivo Compulsivo. Talvez, em mim, o meu lado escritor, que foi o precursor de todas as minhas, digamos assim, facetas culturais, divida espaço com meus outros quase-talentos-que-já-foram-hobbies. Sobre a mesa não vejo papel escrito, mas vejo papel desenhado, uma camera fotográfica, vários lápis... não sei mais o quê falo. Sinto que já perdi o fio da meada desse post faz horas. Melhor mata-lo e encerra-lo assim mesmo, sem um fim definido. O blog vai continuar sim, preciso exteriorizar meus sentimentos, minhas sensações, preciso dividir isso com vocês. Todos os blogs e portfólios vão continuar: o de designer, de fotografo, as colaborações esporadicas de sempre no "Cartas", das também escritoras Thata e Jéssica (os blogs de ambas também está nos links aqui do lado), os outros lugares também vão.

Claro, um dia tudo isso vai morrer. E, parafraseando Pessoa, em outros satélites, em outros planetas qualquer coisa como gente vai seguir escrevendo, desenhando, fotografando e publicando tudo em blogs. Uma coisa, aparentemente, tão inutil quanto a outra. Algumas coisas vão, naturalmente, mudar (ou, simplesmente, morrer) e outras vão surgir. Essa é a graça da arte: sempre em movimento, sempre morrendo e renascendo. Sempre assim, sempre nesse ciclo. Até o fim e o novo começo.


Observação: o titulo, como provavelmente só a Jan entendeu (por estar em alemão), quer dizer "O Fim", escolhi alemão por ser um idioma fonéticamente estranho mas que, pra mim, tem uma sonoridade interessante.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Universo em Criação

"Trovões no céu, um corpo ensanguentado no chão e no ar o cheiro de polvora completava o ambiente hostil...". Não. Janaina amassou a folha assim que terminou a frase a atirando ao lixo em seguida. Pensou por um instante em seguir os conselhos de sua amiga Helena e escrever no computador, afinal, no computador é mais "ecologicamente correto". Mas sempre que ela se sentava em frente à máquina ela fazia mil outras coisas e não tinha a concentração suficiente para escrever. Por isso ainda optava pelo papel e lápis - caneta não tem sentimento, lápis, grafite, sim, ele tem sentimento.

Bem dizem que, quando se pensa em uma pessoa, ela acaba aparecendo de alguma forma ou de outra. No visor do celular que tocava aparecia o nome "Helens". Era Helena. Por um instante deixou o aparelho tocando e se lembrou de quando tinha colocado o número da, então sua nova amiga, na agenda. Janaina andava em uma fase meio infantil, havia achado alguns videos antigos dos trapalhões, onde o, finado, Mussum, dizia toda hora as palavras terminando em 's'. Enfim atendeu. Helena queria convidar a amiga para sair, beber... essas coisas que a idade sempre convidava. Janaina, a principio não queria, mas pensou que, assim, poderia ter 'a' inspiração e escrever seu livro de histórias de terror, ficar famosa, rica, dar entrevistas, ganhar premios. Tanta a viagem que sua mente fez que ela acabou sorrindo sozinha enquanto pensava o que vestiria, antes mesmo de desligar o celular.

Não fez grandes escolhas de roupa, não precisava disso. Era naturalmente bonita, cabelos pretos, um corpo esguio com curvas definidas. Unhas parcialmente roídas - sobretudo a do dedo mínimo - e pouca maquiagem completavam o visual. Talvez fosse hora de assumir algumas coisas na vida, ir ver o mundo além dessa cidade. Olhou a caixa de joias que um dia foi de sua mãe. Sorriu passando a ponta dos dedos por sobre os brincos, anéis, correntinhas... não ousava usa-las, não com as taxas de roubos altas como andavam. As peças valiam mais do que o financeiro, eram parte de lembranças. No canto da penteadeira onde repousava a tal caixa de joias havia uma foto de seus pais. Faziam alguns anos desde que aquele acidente havia tirando eles dela. Herança nenhuma a consolou totalmente. Decidiu sair da cidade onde morava - no litoral de Santa Catarina - e vir para a tal cidade grande. Tinha de afastar algumas lembranças ruins. Vendeu a casa, os dois carros, já tinha idade pra viver sozinha, beirava os vinte anos quando se mudou.

Já tinha concluído o colegial e esperava por algum lampejo de ideia de algum curso de faculdade que poderia cursar. "Letras" diziam muito à ela. Não servia pra professora. Até gostava de letras, mas a ideia de lecionar lhe causava arrepios. Enquanto isso administrava alguns fundos que rendiam em bancos e alguns imóveis alugados em São Paulo. Não rendia muito, é verdade, mas dava pra levar o estilo de vida que Janaína tinha. O armário era com poucas roupas caras, a grande maioria era comprada em brechôs, lojas populares... e era uma dessas roupas mais simples que usaria. Helena, ao contrário sempre se vestia muito bem e haveria de reclamar da amiga vestida igual uma hippie. Uma hippie? Não, ela não se via assim. Era despojada e tinha seu proprio estilo de vestir. Maquiagem feita - apenas realçando os lábios e olhos - Janaína saiu trancando a porta atrás de si.

Desceu os lances de escada até a rua e já podia ouvir Helena vindo em um vestido azul-marinho, drapeado da cintura pra baixo, parecido com aqueles dos anos cinquenta. O cabelo displicentemente presos mas fugindo com o vento que cortava a rua. A maquiagem dava a amiga alguns anos a mais do que realmente tinha. Se abraçaram e caminharam na direção de uma rua onde haviam alguns bares, restaurantes. Por irônia ou por destino mesmo, encontraram alguns conhecidos, amigos, conhecidos de amigos e juntaram várias mesas. Janaína morava perto, então não precisava de carro para ir embora e, Helena, caso precisasse, dormiria com ela.

A reunião de amigos que, no começo, era regada a cerveja, batata frita e petiscos diversos, agora tinha uma garrafa de whisky caro rodando de mão em mão. Todos beberam, ao menos, três doses. Helena era uma das mais animadas, já havia bebido sozinha três latas de cerveja e agora estava na quarta do destilado escocês. Quando Janaína sentiu seu limite ela simplesmente parou de beber, não gostava de se sentir bebada, não na rua. Em casa gostava de beber afim de buscar alguma inspiração. As horas passavam e o grupo foi diminuindo. Cada um que saía jogava uma nota de vinte reais pra pagar a conta que, a essa altura, já passava de duzentos reais. Dinheiro não era problema, era a solução.

Janaína bem que tentou levar Helena consigo, mas ela dizia que voltaria com um vizinho, amigo seu. A morena, a principio, não levou muita fé, mas, devido a insistência da amiga, deixou-a ali e saiu a francesa para seu esconderijo. O dia seguinte prometia alguns negocios com aquela empreiteira que havia comprado a casa onde morou. O prédio que subiria ali teria uma dúzia de andares, belas colunas e dois apartamentos de Janaína, pra ela fazer o que bem entendesse. Entrou em casa decidindo que os alugaria. Tomou um banho rápido e se deitou. No dia seguinte tratou de seus negocios - ganhou uma boa quantia. Ao voltar pra casa sua amiga Helena estava sentada ao pé da porta, uma pequena mochila em seus pés e com uma grande história que começava na sarjeta, se desenrolava com extrema sorte e terminava com ela ali no tapete.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Travessia

Eu não vim nos navios, eu não passei a necessidade que meus avós, bisavós passaram ao chegar aqui, nessa terra de mata fechada. Nessa selva coalhada de animais ferozes, de doenças que lá, no velho continente, não existiam. Dos poderosos de coisa nenhuma ganharam, quando muito, dois pacotes de prego, punhados de sementes variadas e mais nada. Mas o preço era alto demais: Tiveram seus nomes, sobrenomes anotados por algum funcionário preguiçoso que os mutilou completamente, o quê um dia foi o símbolo máximo de um clã, de uma família agora era algo diferente, em letras diferentes, em sotaques diferentes. Subiram a gigante serra do mar que, na época, era algo feito de terra batida, quando muito um caminho onde passava - raspando nos galhos das árvores - uma carroça que sacolejava mais que o navio que enfrentou o mar.

Ao chegar na capital a coisa não melhorava. Havia um trem, disseram, um trem que levava até metade do caminho, de lá em diante haveria um barco que levaria à uma cidade. Uma cidade. Todos aqueles homens e mulheres, muitos que abandonaram suas casas vendo a eminência da guerra galgando a passos largos, vindo depressa à soleira das portas. Nessa hora ninguém é covarde se foge afim de sobreviver. Jamais. Ao contrário: tem de ter muita coragem em sair do seu país e ir desbravar algo completamente desconhecido.

O trem lhes custou o resto de suas últimas moedas. Agora estavam apenas com as sementes e o pacote de pregos. Decidiram descer o rio. Acharam um campo que falaram ser fértil, ser tranquilo e o clima lembrar bastante a velha terra amada. Por sorte - ou até mesmo por uma total coincidência - alguns haviam trazido em suas malas algo além de roupas, esperanças e sonhos de recomeço. Haviam trazido coisas práticas como martelos, serrotes... logo após as primeiras árvores derrubadas notaram que os pregos que haviam ganho seriam insuficientes. Rapidamente desenvolveram formas de construir sem usar tantos pregos, logo construiram pequenas casas, foram ocupando subempregos, alguns progrediram, mas o lugar ainda era completamente diferente. A língua, barreira na negociação do nome agora era barreira feroz na hora de se ambientar àquele lugar. Não posso dizer se passaram fome, sede... mas provações, sei que passaram. E superaram.

E hoje, quando olho meu sobrenome na identidade, sinto orgulho, não sou um décimo da garra e da força, a covardia corajosa, a capacidade de se adaptar a algo completamente insosso, algo sem precedentes. Aposto que os ancestrais de meus ancestrais não esperavam por essa mudança, esperavam que toda a família ficasse unida pelos séculos que viriam a frente. Não ocorreu, houve a divisão. Talvez, se não tivesse isso, eu estaria nas ruas protestando. Talvez a família nem existisse mais... pensar nisso me trás uma saudade de meu avô paterno que, pasmem, não conheci e ainda assim sinto falta! Obrigado pela covardia corajosa de vir rumo ao desconhecido! Obrigado por terem dado a seus descendentes o orgulho que pulsa firme em meu peito. Sim, sou brasileiro, mas também tenho uma pontinha de coração batendo lá em minha eterna - ainda que eu não tenha pisado lá - pátria, minha Ucrânia! Chy Bude Ukraina!

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Mexicana

Estava semi-nua, depois de vários dias com a pele exposta e rasgada era de se esperar que já não sentisse mais tanta dor quando aquela lâmina de fio extremamente afiada passa por seu ventre. Não daria a informação, mesmo que isso lhe custasse sua vida. Longe dela querer morrer, porém era tudo uma questão de prioridades: não queria morrer, no entanto, mais que isso, não queria entregar ninguem. Jamais entregaria seu bando para os cães de Escobar. Dizem que em certo ponto até mesmo o cérebro entra em parafuso com a dor e acaba falando até mesmo as coisas que se controlou tanto para não contar. Esperava ou ser salva ou morrer antes disso. Mas como seria salva? Será que alguem do seu bando sabia que ela havia sido sequestrada? Não... ela havia saído daquele prédio ao sul de Tihuana por conta própria, já não conseguia mais sustentar aquela condição de ver Cristina, nos braços de Ruan. Claro, eles formavam um casal incrivelmente perfeito e lindo... O que Carolina queria agora, era a segunda opção, logo. Foi quando o estampido se fez. Seguido de diversos outros, alguns curtos, secos - tipicos tiros de pistola - e outros mais longos - tiros de carabina. Ainda pode se ouvir alguns tiros cadenciados, metralhadora quem sabe? Perdeu totalmente a noção do tempo. Sorriu ao ouvir a voz de Cristina. Sorriu e deixou-se apagar em meio a dor que sentia. A primeira opção venceu. Mais uma vez a morte teria que esperar.