segunda-feira, 11 de junho de 2012

terça-feira

Acordaram juntos como sempre. Ele, antes de abrir os olhos se certificou que precisava, realmente, acordar. Terça-feira né? Era preciso acordar e honrar os compromissos. Abriu os olhos sem mover mais absolutamente nada. Franziu a testa vendo uma fresta grande na cortina. Esqueceu de fecha-la completamente noite passada? Não lembrava direito. A noite passada tinha muitas lembranças boas, a maioria delas relativas a mulher deitada praticamente em seu peito. Aliás, duas ressalvas: não era a maioria das lembranças, eram todas as lembranças e não era uma mulher... era a sua mulher. Mas nenhuma lembrança da cortina. Sem virar o rosto olhou pro relógio. Estava quase na hora do despertador tocar... com agilidade se estigou e desligou o despertador sem acorda-la. Claro que precisavam acordar e ir trabalhar. Mas ele queria ser o despertador. E assim foi, dando um beijo suave nos cabelos dela "Mô... acorda... já ta quase na hora..." sussurrou.

Sentiu o corpo dela se franzir todo, tal como a testa dela fazendo uma caretinha. Sem muitos movimentos ela se expreguiçou ainda com a cabeça no peito dele e sem o olhar. Ritual diario: ela nunca o olhava diretamente nos primeiros segundos depois de acordada, algo como praguejar com o olhar o dia por tira-la dos seus sonhos. Embora já tenha sido pior, algum tempo atrás ela nem mesmo fazia qualquer menção à ele nas primeiras horas da manhã, por puro mau-humor matinal. Ele mudou ela assim como ele mudou ela. Mesmo na época que ainda não dormiam juntos todas as noites ambos diziam, ao acordar "bom dia" e "boa noite", mesmo que a cama estivesse vazia do outro lado ainda.

Depois de quase um minuto "expreguiçando as pupilas" ela, finalmente olhou pra ele com um sorriso fino "bom dia, Mô", ao que ele respondeu as mesmas palavras, não na mesma entonação, claro, mas na mesma sintonia. Sorriram com os lábios, com os olhos um para o outro. Deram um beijo suave. Ele levantou antes. Fez sua higiene matinal. Ele veio ao pé da porta do quarto "levanta daí preguicinha, que coisa" fazendo uma careta que estava inclassificavel - estava entre a bronca e a contemplação - e, ao vê-la colocar um pé fora da cama, sorriu satisfeito indo na direção da cozinha preparando um café da manha básico, pão, leite, café - pra ela - e achocolatado - pra ele.

Ela veio do banheiro com o cabelo já arrumado, praticamente pronta pra sair - ele ainda trajava o pijama da noite anterior -, e uma fina maquiagem no rosto. Os dialogos matinais foram os corriqueiros, sobre a noite anterior, sobre as noites seguintes, sobre o dia anterior, sobre os proximos dias, sobre a lua, sobre o sol, sobre as estrelas e o final de semana na chacará que haveriam de passar juntos qualquer dia. Terminaram o café com ele arrumando a cozinha rapidamente enquanto ela ia para o quarto terminar de se vestir. Quando ele terminou com a cozinha seguiu para o quarto afim de se arrumar também. Trocou de roupa, tomou uma ducha rápida, vestiu a primeira roupa que a mão alcançou dentro do armário. Ficou pronto alguns minutos antes dela. Fazia isso de proposito, só para poder reclamar "você demora muito pra se arrumar, como se precisasse disso pra ficar linda..." e ela respondia um "cala boca prê" e ambos acabavam rindo.

Enfim ela ficou pronta. Ele recolheu suas chaves, celular. Ela recolheu as chaves, o celular e o - maldito - cigarro sob a careta de repulsa dele. Ela sorriu de canto meio amarela "eu tô parando, não tô?!" ao que ele fez cara feia soltando um hunf qualquer concordando. Caminharam até a porta. Sairam, trancaram a porta. Chamaram o elevador. Agora que tinham se dado conta: estavam de mãos dadas. Iam trocar um beijo longo e apaixonado, não fosse a chegada do elevador. Ao pisar dentro do transporte, no entanto, o beijo apaixonado, enfim, se consumou. Durou pouco, é verdade, mas durou o suficiente pra atiçar a vontade de ambos pelo lábio um do outro. Afastaram as bocas quando sentiram o transporte vertical parar. Ficaram suavemente vermelhos ao ver o porteiro do prédio.

Caminharam de mãos dadas até a portaria, da portaria até a rua. A rua com o sol. Selaram os lábios por quase um minuto. Desejaram um ótimo dia um para o outro e se afastaram. Ele para a esquerda, ela para a direita. Ele tinha certeza de que aquele dia tinha algo especial. Só não conseguia se lembrar. Antes de virar a esquina olhou pra trás. Ela, ao mesmo tempo, fez igual. Sorriram e seguiram.

O dia se passou tranquilo. Calmo para os dois, cada qual em seu lado da cidade, sempre que podiam trocavam alguma mensagem de texto durante o dia, se falaram na hora do almoço. Porém tudo regulado, tudo com tempo certo. No fim da tarde lembrou que dia era. Dia dos namorados. Ela era e sempre haveria de ser sua namorada, independente de estarem casados agora. Ele se sentia igual ao dia que ela - sim ela - o pediu em namoro... Olhou o relógio. Caminhou apressado, queria chegar em casa, muito, antes dela.

Preparou um jantar caprichado, decidiu que era hora de abrir aquele vinho que tinham comprado na viagem ao Rio Grande do Sul... preparou a mesa, a casa toda. Desrosqueou a lâmpada da sala, queria um clima mais romantico., colocou a mesa no centro da sala, afastou o sofá, acendeu as velas e ficou só espiando pela janela. Pediu ao porteiro que desse um toque quando ela estivesse subindo. Quando terminou de cozinhar tomou um belo banho, passou aquele perfume que ela adorava e ouviu o interfone. Acendeu as velas da mesa, pegou a rosa que havia comprado de um menino no sinal. A porta destrancou. A luz do corredor iluminou parcialmente a sala. Pode ver no rosto dela um dia cansativo, um daqueles dias que só se quer chegar em casa e ir para a cama...

Ela entrou jogando as chaves na mesinha ao lado da porta. Ela tentou acender as luzes. Nada. Tentou de novo. De novo. Nada. Ao entrar mais um metro ela viu a luz das velas postadas na mesa e sorriu. "Feliz dia dos namorados, minha eterna namorada!" e entregou a rosa. Ela, nitidamente surpreendida não sabia onde colocava as mãos, o que dizer, os olhos marejados, os lábios tremulos... era o "sinal" que ele esperava. Era o que esperou para fazer o dia todo. Instantes antes dos lábios se unirem, balbuciaram ao mesmo tempo "te amo meu amor, muito e tanto" e selaram os lábios num beijo sem limites de tempo. Sem correrias do despertador, sem portas de elevador, sem horarios, sem absolutamente nada além deles dois que, agora, se tornavam um só.

Um comentário:

Bell ઇ‍ઉ disse...

Ofegante e muito cansada, atirou a bolsa na poltrona, jogou as chaves na mesinha e bateu a mão no botão. (a luz não acendeu e seu coração disparou, parecia haver uma revoada de borboletas em seu estômago) Os dois primeiros passos, foram dados com receio/medo talvez. Quando adentrou de vez na sala de jantar, seu olhar alcançou a luz das velas, a mesa posta e as flores. (Mas nada daquilo, era mais lindo ou mais perfeito, do que aquele olhar. Do que a forma que ele tinha de olhar pra ela. Se não houvesse as velas, a mesa posta, a surpresa, ainda sim, seria perfeito. Era ELE! Ele quem movia os sentidos na vida dela. Ele que fazia de qualquer momento comum... MAGIA)