terça-feira, 26 de julho de 2016

Álibi e8s2: Parcas

E assim chegamos a esse ápice. A glória dos dois lados. Sem uma explicação plausível de como eles chegaram naquele instante, daquela forma, naquela igualdade de condições dignas de colocar a balança em um equilíbrio tão perfeito que nem mesmo o signo de libra - comum aos dois - era tão exata em sua precisão equilibrística. Tudo por um descuido. Um instante de vacilação bastou para esse momento. Para os que acreditam em destino esse era o destino deles. 

Não cabe nesse momento a explicação de como ou porque eles haviam chegado nesse local, nesse instante, rigorosamente ao mesmo tempo. A "culpabilidade" do ocorrido poderia ser atribuída às Parcas, mitológicas criaturas que teciam o destino. Curioso em se pensar nisso pois Einstein imaginou o espaço-tempo ("local" onde os eventos ocorrem) como um tecido. Mais irônico disso seria ocorrer numa facção onde bolivianos costuravam a próxima tendência da moda a esforço escravocrata. Não era o caso. Se a situação fosse obra de um escritor extremamente suscetível à clichês ele declinaria a esse recurso. Mas, como já foi mencionado, não era o caso. 

Aliás, cabe dizer que não era uma obra escrita. Eram apenas fatos verdadeiros sobre o ocorrido que eram escritos durante o momento em que eles aconteciam. Os jornais do dia seguinte. Os portais de notícia. As redes sociais. Os programas de televisão e de rádio podiam contar a história da sua forma. Ou incriminando Sophia e absolvendo Sérgio ou condenando Sérgio e absolvendo Sophia. Condenando ou absolvendo os dois. Porém a verdade era o descrito aqui. Ao vivo. Como se houvesse uma câmera no ambiente que gravasse todas as cenas e que, agora, eram transcritas.

Verdade seja dita: Aquelas cenas de seara mexicana, onde um aponta a arma para o outro nunca fizeram o menor sentido se ambos estavam um afim de matar o outro. Quem atirasse primeiro ganhava o duelo. Fim. Claro que a dramaticidade da cena era aquele diálogo que não apareceu durante o filme inteiro e que, agora, explicava toda a história. Toda a rixa entre as personagens. Em cinco ou seis minutos de diálogo regado a flashbacks e a fúria onde um jogava seu motivo na cara do outro. Todo esse melodrama existiu de fato. Mas não cabe aqui todas as palavras. Não cabe nesse instante sublime. Não cabe pelo simples fato de que não era necessário. Não havia novidade nos discursos. Bem dizem que a vida imita a arte. Ou seria a arte que imitou a vida?

Sophia. Forjada em terras frias e com um senso de justiça duvidoso estava diante de seu único amor na vida e seu algoz. Aquele que ameaçou a existência dela e ela não conseguiu mata-lo. Muito provavelmente se ela o tivesse matado meses atrás não chegariam a esse momento. Novamente aquele tal de destino fez eles se cruzarem nesse local. Exatamente na mesma hora. Se isso fosse uma obra de ficção essa seria a hora da vida em que tudo faz sentido. Algo que numa peça publicitária é chamada de "ponto de virada". Aquele instante em que a história vira - para o bem ou para o mal - e a peça corre rápida para o fim.

Sérgio. Treinado nas artes da guerra pelo sistema tornou-se um bom policial que resolvia tudo a seu modo, um modo tão duvidoso quanto o senso de justiça de Sophia. Para ele, ela era aquele momento da vida onde tudo faz sentido, ela era o ponto de virada de onde a história viraria para um final - feliz ou não - de forma ágil e sem grandes enrolações ou trechos que desviariam a atenção do interessado na história.

Já que elas foram citadas no começo, que seja dado à elas dados a esse instante. No dia em que Sophia foi até a delegacia junto com as amigas Janaína e Carla relatar o abuso sofrido pela terceira foi quando Sérgio entrou na vida dela. Não foi aquela coisa de bater o olho e se apaixonarem. Esse tipo de coisa só existe em filmes. Foi ali que Nona - Parca responsável por tecer o fio da vida - iniciou seu trabalho no tecido do casal. Posso creditar à Décima - a Parca que da continuidade ao fio da vida - o relacionamento que surgiu em seguida. Uma troca de cartões de visita feita por Sophia e Sérgio fez com que brotasse aquela vontade de conhecer melhor. Foi quando ele tomou a dianteira e a convidou para um café. Depois do café veio um almoço, um cinema, uma páscoa e quando deram por si já dividiam um apartamento na região central da grande metrópole. Agora cabia a última das três Parcas dar números finais à partida. 

E, assim, voltamos ao momento atual. Ao exato instante que começou essa elegia. Ao tratar o relatado como elegia uma parcela já entendeu onde vai parar a trama. A história tem que ser relatada: Sophia tinha planos de vagar por várias cidades país adentro, tudo para voltar à sua cidade natal, e agora estava aqui na grande metrópole. Sérgio, por sua vez, tinha planos de perseguir ela país a dentro e depois voltar a metrópole e, talvez, se aposentar como policial. Os dois planos dariam certo não fosse esse exato momento. Esse instante onde uma fagulha deu inicio ao fogo que derrubou parte das paredes - justamente na proximidade das portas - e que deu para a última Parca o tecido não só da relação de Sophia com Sérgio como para com a vida deles. Coube à ela tomar a linha e tecer o momento atual. Dias depois falaram algo como combustível evaporado de um dos roubados, carros deixados para desmanche naquele depósito, ter entrado em combustão ao tocar uma velha lâmpada incandescente com o vidro quebrado mas que ainda mantinha o filamento metálico inteiro. Foi aí que a terceira Parca tomou as rédeas. Na hora que o teto ia desabar o amor deles ressurgiu. Extintas as chamas acharam Sérgio abraçado à Sophia como se estivesse a protegendo frente ao perigo iminente. Logo as fotos se espalharam por redes sociais e cada um criou sua história. Mas a verdade é que aconteceu o que Sophia devia ter feito. A verdade é que aconteceu o que Sérgio devia ter feito quando teve a chance. Porém, apesar das voltas, a última Parca fez o que eles não tiveram oportunidade ou mesmo coragem de fazer. Coube a tecelã do destino fechar o ciclo. Amarrar as pontas e dar por encerrado esse tecido. E como chama-se essa terceira Parca? Morte.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Álibi e7s2: Galpão

O ano é 1987. Foi o ano que esse terreno de, aproximadamente, oitocentos metros quadrados no canto leste da metrópole foi vendido pelo seu antigo dono, um ex fazendeiro que viu a grande cidade vindo na direção da sua propriedade. Quem comprou era um proeminente empresário que tinha o objetivo de construir o maior mercado do lugar. Dito e feito, em seis meses subiu aos céus um galpão que cobriu praticamente metade do terreno. Mais dois meses de contratações, de arrumações internas e voila. O "Supermercado BR3" abriu suas portas com uma gigantesca inauguração, foi chamado uma dupla sertaneja que despontava nas rádios populares. Lotou. Nas semanas seguintes passou a novidade. O movimento estabilizou.

No ano de 1994, com a mudança de moeda, o empresário começou a ter problemas e acabou por vender sua rede de supermercados para outra rede de supermercados maior. "Os maiores engolem os menores" foi a frase dele ao ir para outras áreas da economia. Mais alguns anos e a grande rede achou aquela loja pouco lucrativa frente à ganância. Venderam o galpão para um jovem mecânico que prosperou por mais de dez anos customizando carros. O sucesso levou o, agora não tão jovem mecânico, para o centro da metrópole. O galpão foi vendido por um décimo do preço que havia sido comprado mais de vinte anos atrás. 

O dono agora tinha uma oficina mecânica de reparos, nada sofisticado. Um ano depois, após uma denúncia anônima, a polícia descobriu que, na verdade, o tal mecânico era na verdade o líder de uma quadrilha que desmontava carros roubados. Depois de inúmeras investigações algumas peças foram devolvidas a seus donos, algumas encaminhadas para leilão, algumas pro carro da esposa do delegado que havia atropelado um mendigo voltando de uma casa de massas onde ela havia bebido taças de vinho a mais, tudo pela frustração na vida de casada. Pelo visto um assassino, ainda que culposo, é capaz de aproximar casais. 

Já no galpão que viu os tempos áureos do bairro via o detrimento do mesmo. O silêncio repousou por ali, só sendo quebrado, vez por outra, uma criança passava por ali correndo atrás de sua pipa. Fora isso o galpão repousava em seu silêncio rumo ao futuro. Até aquele dia. Uma moça entrou, espalhou por entre as pilhas de sucatas de carro fios, explosivos caseiros. Horas mais tarde um rapaz um pouco mais velho que a moça apareceu. Enfim o galpão achou que, depois de muito tempo, veria algum movimento. Palavras rispidas. Foi quando o galpão suspirou vendo a fagulha. O estrondo. Nos dias que se seguiram o terreno voltou à tranquilidade e à paz de quase vinte e tantos anos atrás.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Álibi e6s2: Estalo

O ultimato havia sido dado. Sophia resolveria suas pendências com Sérgio antes de seguir com sua lista. Por isso a invasão do apartamento, por isso a ameaça e por isso a dica de como, onde e quando ir. Claro que não ligava para o fato de, talvez, ele resolvesse vir com toda a tropa policial disponível naquele dia. Por isso havia se planejado e feito pequenas armadilhas que fariam o prédio ruir frente da primeira ameaça. Obviamente tratou de, além de minar o local todo, desenhar uma rota de fuga. 

Era incrível o que se podia aprender na internet, e nem havia se embrenhado pela famosa DeepWeb pra aprender a produzir uma bomba controlável pelo celular. E muito menos precisou traduzir árabe, as instruções estavam em espanhol. Tudo planejado, tudo desenhado na sua mente. Ela sabia que Sérgio tomou a invasão por pessoal e que ele viria sozinho. Repassou tudo mentalmente. Havia deixado o notebook no apartamento de propósito, assim ele poderia guarda-lo pra ela e, assim que as desavenças fossem dissipadas - seja com uma boa conversa ou com um cadáver -, ela passaria lá pegar. 

Tinha tanta confiança no seu plano que teve um pequeno arrepio ao checar os fios da última carga explosiva. Excesso de confiança era o primeiro passo para o fracasso. Algum filosofo havia dito isso, talvez Zun Tsu. Um pequeno pânico tomou conta dela logo dissipado pela falta de falhas na última checagem dos fios, das instalações. Será que esse galpão ruiria? Não sendo na cabeça dela tudo bem. Faltavam menos de cinco minutos para o horário planejado. Ouviu um carro estacionando do lado de fora. Logo a porta de um carro bateu. Antes de se dar conta ouviu passos. 

Sérgio. Estralou o pescoço, os dedos enquanto ele desviava das pilhas de carros roubados. Pena que nenhum desses carros eram inteiros, se não Sophia teria um transporte gratuito por algum tempo. Enfim ele apareceu. Parecia cansado, roupa amarrotada. O cabelo mais branco, mais magro. Tudo isso em menos de seis meses? Sophia sempre passou as camisas dele, sempre o fez comer coisas mais saudáveis. 

O tempo parou enquanto eles se encaravam. Um misto perfeito de saudade e raiva se mesclou nela. Gentil Sérgio deixou que ela falasse primeiro. Não houve história triste de abuso na infância ou algo do gênero. Sophia começou porque quis. E assim pretendia continuar. Quando ele começou a falar ela o ouviu pacientemente. Quando ele terminou de falar o impasse surgiu. Foi aí que um estalo surgiu.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Álibi e5s2: Merda

Agora ela tinha passado de todos os limites aceitáveis. Aquela vadia ia pagar caro por ter invadido meu apartamento, bagunçado tudo e ainda por cima querer marcar um encontro. Sophia não sabia o que tinha plantado quando entrou aqui. E o notebook? Merda. Por que diabos ela deixou a porra do notebook? Pior: Por que eu fiquei entretido com as informações que tinha nele e esqueci da minha pizza? Se bem que o ketchup picante resolvia bem e pizza fria não era de todo ruim.

O molho respingou no canto do teclado enquanto eu buscava qualquer coisa útil pra levar aquela desgraçada pra justiça. Ou pra vala. Tanto faz. A porra é que ela me fez ir até lá embaixo e falar com aquele velhote que cuida da portaria essa hora da madrugada. Ele não era mal funcionário, longe disso, mas ele era tão surdo quanto a porta. Por isso ele não ouviu a hora que perguntei das câmeras de segurança do elevador. Não podia culpar a pessoa errada. O palavrão foi mais forte que eu quando descobri que: Primeiro: essa bosta de prédio só tem câmeras dentro do elevador. Segundo: A Sophia usou as escadas, ela sempre teve uma certa fobia de elevador. Tanta coisa pra ter medo e vai ter medo logo de uma... okay, era uma caixa fechada, sem janelas, que se movia e o sistema de pedir socorro nunca funcionava direito.

Enquanto fuçava descobri que ela não havia começado a fazer o que fez aqui. Aliás, sempre quis ver o que tinha nesse notebook, desde quando a gente resolveu morar juntos, meses atrás. Nada demais. Muitos artigos de leis - que eram justificados por ela fazer faculdade de direito. Muitas fotos do passado no que parece ser o sul - que é de onde ela diz ter vindo. Muitas buscas sobre hotéis, pousadas, hosteis em vários lugares do país - perfeitamente aceitável de pensar que ela estava em fuga e que ela fez das suas em outras cidades pequenas. E em um arquivo com meu nome, uma pequena mensagem.

"Encontrou o que procurava, Sérgio? Cansei de fugir. Venha me encontrar na rua Fernando Pessoa, 3340 depois de amanhã, no fim da noite. Vamos resolver todas as nossas pendências. Não preciso pedir que venha sozinho, porque sei que virá. Não precisa trazer o notebook, depois eu passo aí pegar. Com amor, Soph."

Confesso. Minha vontade foi estourar o notebook da Sophia na parede. Ela era petulante. Petulante ao ponto de que eu me sentia desafiado. No arquivo tinha a data do encontro. Provavelmente cega pela vingança ela não tinha notado que só ia ter a chance de vir aqui no dia seguinte. Ou será que ela me queria lá depois de amanhã? Tanto faz. Amanhã era meu dia de folga, então não custava nada passar lá e, se não tivesse ninguém passaria no dia seguinte dizendo que tinha recebido uma pista de algo. Se não fosse verdade ou o endereço estivesse errado ganharia meio dia de folga. Comi mais dois pedaços de pizza gelada pensando em como resolver e preparando os pentes de munição. Três pentes de vinte e um tiros deviam dar pro que planejava. Ou presa, ou no saco preto. Ela só tinha essas opções.

Tentei dormir um pouco. Mas o máximo que consegui foram pequenos cochilos intercalados por pesadelos que me despertavam e me faziam acordar com a arma em punho. Numa dessas acordadas cheguei a dar um tiro na janela que dava para a rua. Por sorte - ou cagada mesmo - ninguém estava no caminho. O vizinho do lado interfonou perguntando do tiro, falei que estava jogando com o volume alto, pedi desculpas e passei a dormir com a arma debaixo do travesseiro, não sobre o peito. Depois de duas dúzias de sonos com meia hora dormi o resto do dia. Ao fim deles chequei todo o equipamento e liquidei a pizza. Bebi um gole de vodka pura. Perfeito.

Segui de taxi para o endereço indicado, pois se qualquer uma das minhas opções acontecesse eu precisaria deixar meu carro no lugar e seguir com uma viatura. E de acordo com o site de mapas e com o conhecimento do Peçanha, o bairro ali era barra pesada. Por isso evitei ir com o meu carro. Um taxi me levava lá e pronto. Claro que iria sair uma bela facada. Por isso, ao invés do tradicional taxi, preferi aquele aplicativo que todos diziam ser mais em conta. No fim da corrida pareceu mais em conta mesmo. O lugar parecia aqueles depósitos velhos de filme americano onde os ladrões formulavam um plano de assalto ao banco.

Assim que passei pela pilha de carros desmontados reduzidos à carcaças, desviando de peças soltas no chão que, se eu trombasse, podiam fazer algum barulho. Mas o calçado fazia um pouco de barulho nesse chão de concreto armado. Merda. Devia ter ou vindo com aquele tênis de corrida que tinha pago os olhos da cara, ou entrado de meias. Depois de chegar no grande salão do depósito pude ver Sophia parada. Desarmada. Só com um pequeno controle parecido com o de alarme de carro nas mãos. E eu com a pistola na parte de trás da calça. Ela não parecia querer fugir. Por isso deixei que ela falasse primeiro. Não veio aqueles clichês de história triste, de abuso infantil que justificasse o que ela fez. Ela só começou a fazer o que fazia porque deu vontade. Só isso. Depois foi minha vez de falar. Porém minha fala foi interrompida por um estalo. Um barulho forte vindo do lugar onde eu havia acabado de passar veio acompanhado do cheiro de pólvora. Merda.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Madrugada

2:48.

O frescor da madrugada atingiu ele parado do outro lado da rua. Ouviu um ranger de metal antigo e, por um instante, pensou que fosse a placa pendurada naquela tabacaria no dois prédios a esquerda. Não, a placa estava imóvel. O que se abriu foi o portão. Aquele portão rangendo parecia o da velha casa em que ele e ela viveram tanto tempo e que hoje era bem cuidada por uma família com dois filhos pequenos que tinha vindo do interior buscando melhores condições de educação para as crianças. O olhar dele estava baixo quando ela se aproximou, quase como se mantivesse um respeito frente à figura dela.

Ele estava envolto em seus pensamentos. Tinha planejado ir embora quando a figura se aproximou mais. Quis sair correndo. Sumir. Fazer qualquer coisa. Mas algo prendeu seus pés ao chão. Correntes mais fortes do aço mais forte que jamais foi forjado mantiveram ele ali. Imóvel. Um vento frio ousou passar entre eles. A rua que antes tinha algum barulho ao longe tinha perdido todo o ruído que pudesse atrapalhar a comunicação dos dois. Foi quando a mão dela se estendeu no ar e ele se deu conta de que era ela mesma. O pé descalço no chão frio e sujo foi a primeira coisa que chamou a atenção dele.

Ele tomou a pequena - e quente - mão dela na dele sendo invadido por um calor que a muito não sentia. "Devia colocar um calçado nesse pé". Ele ignorou a frase dita por ela. Eles não precisavam dos clássicos cumprimentos, as clássicas frases clichês que começa todo dialogo. Essa conexão que trouxe ele, novamente, até a presença dela era a sintonia de que tanto ele, quanto ela, estavam em um momento cinza da vida. A pianista havia sumido da vida dele. A faculdade. Os amigos. O emprego. A comida. Tudo havia perdido a graça. Era como se faltasse algo. Algo que o toque da mão dela o fez arrepiar.

Entre. Café. As duas únicas palavras que havia entendido ditas por ela. Sorriram seguindo pela pequena calçada em que alguns tufos de grama ousavam crescer entre as pedras. Estavam em um silêncio tão gritado que não havia necessidade de palavras. Vibrações sonoras. Diziam tudo que havia para ser dito ali, caminhando ao relento. Entraram na casa. O som estava ligado baixo. A casa em meia luz e o cheiro de café e tabaco inundando o ambiente. Ele fez uma caretinha habitual frente aos vícios dela. Ela sorriu. Foram até a cozinha onde o cheiro de café era quase insuportável. Mas, por estar na presença dela, ele suportava.

Como conhecendo ele mais do que ele mesmo, ela tirou uma lata de achocolatado do armário. Colocou sobre a mesa dizendo que se sentasse. Logo apareceu mais uma xícara, leite, colher e biscoito maria. Aqueles minutos em silêncio só foram quebrados por um cachorro que latiu por um inimigo invisível. Eles, que até então mantinham um cenho formal - apesar de nunca terem sido formais um com o outro - sorriram. Ele começou falando dele. Da vida. Da faculdade. Dos amigos. Do emprego. Da comida. E de como tudo isso havia perdido a graça. De como tudo tinha virado uma paleta de cores monocromática. Depois de vários pares de minutos ele deu por encerrado sua ladainha.

Ela bebericou um gole de café. Até agora ela não havia falado nada. Apenas ouvido. Ele sorriu bebendo um gole do achocolatado a vendo inflar o peito e soltar o ar em seguida. Ela esboçou um sorriso e começou a falar. Da vida. Dos amigos. Do emprego. Da comida. E de como tudo havia perdido a graça. Falou da escala de cinzas que havia tomado sua vida. Falou de seus casos depois que eles se separaram. De como odiava essa vinhança. Do quanto sentia falta da vista que tinha no apartamento e que o tapete de borboleta havia sido destruído por um gato de uma vizinha velha que morava do outro lado da rua. 

Nesse instante, depois de longos pares de minutos falando ela enfim se calou e o som da voz dela ecoou por toda a cozinha por não mais que meio segundo. Em seguida o silêncio imperou. Dois pares de minutos se passaram. O líquido em ambas as xícaras havia esfriado. Foi quando as mãos se tocaram novamente. Com isso os corpos começaram a se atrair como se puxados por uma força maior do que eles. Um magnetismo. Algo maior do que eles. Maior que a rua. Que o bairro. Que a cidade. Que o continente. Que o planeta. Que todo o universo junto. Quando os olhos se fecharam e a ponta dos narizes frios se tocaram veio um sorriso de ambos. Os lábios se tocariam, novamente o beijo deles seria capa de inúmeras revistas, a imagem ganharia inúmeros prêmios por plasticidade da imagem, por verdade no sentimento que demonstravam. O primeiro raio da manhã foi a última coisa que entrecortou-se entre os lábios deles antes do toque.

9:15.

O despertador tocou. Ele abriu os olhos. Tudo não havia passado de um sonho. Outro dia de merda começava.

domingo, 15 de maio de 2016

Para-Quedas

Para ele o universo tinha algo pessoal contra ele. Não podia ser. Tudo bem que ele nunca se esforçou para procurar alguém e os "alguens" sempre "caiam de para-quedas" na sua frente. Mas, estranhamente, todos que apareciam do nada na sua vida subiam no avião para saltar novamente - e, dificilmente, caiam na frente dele novamente. Não que não soubesse se virar, correr atrás do seu, fazer todos os esquemas, cálculos, planejamentos, que precisava fazer para sobreviver.

Falando sobre viver ele não se sentia vivo fazia um bom tempo. A laje, as estrelas e a Lua, suas únicas companheiras. Claro, não podia se esquecer da motocicleta preta estacionada na garagem. Parceira de tantas viagens, de tantos rolés... de súbito pensou que o frio estava chegando. Desceu para a cozinha. Não tinha a menor vontade de fazer chimarrão ou beber uma vodka. Do armário sacou uma caixinha de chá de erva doce que devia residir ali desde o inverno passado. 

Ferveu a água imaginando que ela estaria fervendo água pro café com aquele maldito cigarro entre os dedos. Ele sempre odiou cigarro, o simples cheiro desde criança lhe fazia ter ânsia de vômito. Mas com ela não sentia o cheiro. Não o cheiro completo. Sentia um cheiro fraco, como se quem fizesse o mau hábito estivesse distante uns dez, doze metros. Será que isso era culpa do sentimento? Quem sabe. Hoje ele havia voltado a sentir nojo extremo de cigarros e derivados. Depois que "separaram" nunca mais teve noticias dela. E não era culpa de ninguém. Subiram no mesmo avião, mas depois do salto cada um pousou milhas distantes um do outro.

Enquanto achava uma xícara no armário seu pensamento se perdeu na música que tocava em uma rádio dessas que não tocam a música da moda ou o último sucesso do sei-lá-quem. Era uma versão de Für Elise tocada com maestria por um pianista tcheco gravado dezenas de anos atrás. Foi aí que seu pensamento foi até a pianista. Merda. Essa sim entrou, literalmente, em um avião e saltou distante. O cabo da chaleira esquentou junto com a água. Tomou um pano de prato e jogou a água fervente na xícara onde o saquinho de chá aguardava. Essa era uma que deu as caras no começo do ano e depois sumiu. Provavelmente os ventos levaram o para-quedas dela para longe.

O liquido amarelou-se. Não colocaria açúcar. Nunca colocou. Mesmo em chá mate sempre preferiu beber in natura. Olhou o moedor de pimenta no balcão. Pensou um instante e moeu meia dúzia de voltas de pimenta dentro do chá. Bebericou um gole. E não é que sua invenção ficou boa? Um dia podia patentear isso e comprar um GPS, daria para as pessoas que gostava assim que elas subissem no avião. Quando elas chegassem ao chão ele saberia como procura-las. Terminou de beber sua mais recente invenção e recebeu um telefonema. Teria de ir à metrópole resolver alguns assuntos rápidos.

Pegou a jaqueta de couro. O capacete. A motocicleta. Trancou a casa toda e subiu a serra. Resolveu tudo que tinha para resolver em pouco mais de uma hora. Já que tinha vindo até aqui por que não acionar o GPS e ir procurar por ela? Não. Ainda não. Passou por sua velha casa. Os novos donos ou inquilinos estavam cuidando bem do jardim e da pequena horta que ele e ela haviam "desenvolvido" no fundo da varanda. A julgar pelas janelas bregas os novos donos deviam ter vindo do interior. Isso explicaria o fato de estarem cuidando das plantas. Que bom. Pretendia voltar quando resolveu ir até aquela padaria que ficava em frente do prédio dela. Ao chegar na padaria lembrou que ela não morava mais ali. Ainda lembrava de onde ela tinha ido morar. No caminho passou por alguns depósitos. Um deles estava em chamas que os bombeiros lutavam bravamente para combate-las. 

Chegou no endereço. Olhou a casa "viva". Janelas acesas. Música. Na verdade era apenas uma janela acesa - a da sala - e a música era baixa - o suficiente para ser ouvida mas não reconhecida - o silêncio na redondeza dizia para ele algo que ele só se deu conta ao olhar para o relógio do celular. Eram passados de duas da manhã. O cheiro de café misturado ao de tabaco veio da casa. Dois cheiros que ele nunca gostou. Dois cheiros que ele reconhecia como sendo dela. Será que ela estava tão acinzentada quanto ele? Será que aquela caixa de lápis de cor já havia se acabado? Desligou a motocicleta ficando do outro lado da rua. Na mochila que levava meia dúzia de pães. Provavelmente ela ainda teria achocolatado. Mas... a dúvida lhe ocorreu. Lhe percorreu por completo. Lhe consumiu de tal forma que ele ficou inteiramente inerte olhando para o muro nem tão alto que escondesse a casa e nem tão baixo que pudesse assanhar bandidos locais. Olhou para o céu como se buscasse uma resposta, uma luz divina, algo superior que lhe guiasse nessa hora de dúvida. Algumas estrelas apareceram entre as nuvens. Logo a Lua fez sua aparição e, no tempo de não mais que cinco minutos, o céu inteiro estava estrelado. Qualquer um que pasasse perto dele olhando para cima o teria por doido ou algo do tipo. Ele, citando Bilac, responderia "amai para entende-las! Pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e entendder estrelas.". Permaneceu inerte por mais tempo. Ficou sem ação. Será que ela sairia? As horas passavam-se sem que ele tivesse qualquer atitude. Ele ficou a espera de algo divino que lhe desse a resposta. Isso se essa coisa de divino, realmente, existia.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Álibi e4s2: Pizzaria

Decididamente existem dias bons onde tudo que você planeja dá certo. Todas as esquinas que você passa o semáforo está aberto. A vaga dos sonhos no estacionamento está vazia. Você vai pegar café e ele foi feito na última meia hora. O computador ajuda. Na volta pra casa você encontra aquela comida que você julgou ter acabado na geladeira atrás de algumas latas de cerveja que você também julgou não existirem.

Não, esse dia não foi hoje. Aquele planejamento feito na hora do banho foi um desastre. Alguma obra próxima fazia um barulho que era ouvido com mais intensidade justamente no lugar onde nos encontramos com nosso eu mais profundo: o banheiro. 

Todos os semáforos estavam fechados. E os sempre tinha algum babaca trancando o cruzamento. Fora os vendedores de bala. Vendedores de caneta. Vendedores de adesivo. Malabaristas. Pedintes. Crianças que lavam o vidro usam aquele rodinho que risca o vidro. Coloquei o distintivo no console e enfiei a mão na buzina várias vezes. Pensei em pegar a pistola, ameaçar alguns... mas nos dias de hoje qualquer ameaça já vai pras redes sociais e dá merda. Um soldado novato lá se fodeu lindamente ao dar dois tiros pro alto em uma festa de igreja semana passada.

Por causa desse atraso todo no caminho, as vagas do estacionamento estavam todas cheias. Só sobraram as vagas descobertas e do outro lado do planeta. Decididamente tem dias que deus - caso ele realmente exista - não vai com a minha cara. Pra foder com tudo ainda foi o dia mais quente do ano. Depois eu vi que tinha sido o dia mais quente dos últimos dez anos. Puta merda.

E o café? Desisti quando vi o aspecto dele na caneca do Soares, meu superior direto. Parecia água com terra. Molho shoyo. Disenteria. Rio Tietê poluído. Petróleo. Qualquer outra merda dessas escuras. Menos café. O cheiro lembrava aquela meia minha que ficou debaixo da cama e só fui me ligar da existência quando ela começou a feder. E fedia pra caralho.

O computador, pra variar, não parava de travar. Hoje eu tinha que ficar algumas horas na sede do batalhão digitando relatórios. Como com essa bosta de computador? O teclado parou de funcionar e aquele boyzinho filho do secretário de segurança que fingia trabalhar com T.I. trouxe um teclado branco que não tinha nem cedilha. Puta que pariu. O pior é que ninguém gostava do moleque. Ele sentava no canto dele com seu café da Starbucks que ele comprou com o cartão corporativo do pai e que, no fim, saía do nosso bolso. E pra completar a foda, sem cuspe e com caco de vidro, a merda do ar condicionado resolve parar de funcionar. Resultado: em vinte minutos todos estávamos putos, suados e fedidos. Decidi sair pra ronda. Ao menos isso não me trouxe aporrinhação. Só sacudir maconheiro em porta de escola.

Vinte e cinco horas depois. Com o stress lá na casa do caralho pensei em parar em algum bar. Mas e com que dinheiro? Cada dose de cachaça era dez, doze contos. É pra foder geral. Parei num mercadinho perto de casa e comprei aquela cachaça vagabunda que vem em garrafa plástica. Fígado? Ele que se vire. Na geladeira nada interessante - algumas saladas, uma pizza parcialmente podre, uma panela com cozido que fiz semana passada e no congelador, além de gelo, uns hambúrgueres baratos - o que me obrigou a pedir uma pizza. Que, no fim, não veio porque o motoboy foi atropelado. Resolvi ir buscar pessoalmente, ficava só a dois quarteirões daqui mesmo.

No caminho uma prostituta passava indo pra sua esquina padrão. Acho que o nome dela era Sheila e não era ela. Era a porra dum traveco. Na pizzaria ainda tive de esperar que fizessem minha pizza. Pela primeira vez hoje alguém fez algo bom e me deu um puta desconto na pizza. Além de quatro latas de cerveja. A corote iria sobreviver esse pós-plantão. A sorte começou a virar? Saindo da pizzaria a rua deserta. Ninguém pra me irritar. Ninguém pra me fazer querer dar uns tiros. O porteiro do prédio num bom-humor raro. Acho que o time dele ganhou o jogo. O que deve querer dizer que o meu time também tinha ganho, afinal, torcíamos pra mesma merda de time. 

No elevador a gostosa do andar de baixo entrou acompanhada de duas amigas e umas sacolas de comida congelada. Se eu não tivesse discutido com o pai dela talvez ela me convidasse pra ir com as amigas assistir filme e depois comer. Comer não apenas comida. Puta que pariu. Se existisse o ctrl + z da vida eu resolvia isso. Claro que o cheiro da minha pizza de calabresa empesteou o ambiente. Eu não convidaria elas. Mesmo que representasse perder uma foda grátis. Elas desceram rindo. Certamente falaram algo no WhatsApp. A porta do elevador fechou. O próximo andar era o meu.

Ao chegar no meu andar as luzes estavam acesas. Alguém devia ter passado por aqui. Os passos pelo corredor e o elevador saindo do meu andar em seguida. No minimo as cocotinhas tinham esquecido a bebida no carro. Podia oferecer pra elas minha corote. Ri mentalmente disso. Destranquei a porta sentindo o cheiro da pizza e imaginando ela descendo pela minha garganta. Qual filme assistiria hoje? Qualquer um. Ao dar o primeiro passo dentro do apartamento pisei em cacos. Liguei a luz. O apartamento estava revirado. Deixei a pizza e a cerveja no aparador perto da porta. Peguei a pistola. Não havia ninguém. Na tela da TV desligada, escrita com batom vermelho só uma frase:

"Você é o próximo, Sérgio. Cuide-se."

Puta que pariu, Sophia. Primeiro aquela ameaça de merda no e-mail, agora isso. Ficou pessoal.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Álibi e3s2: Carretera

Esse ano estava sendo de muitas primeiras vezes para Sophia. A primeira vez que agiria em mais de uma cidade. A primeira vez que tinha uma lista pronta. A primeira vez que já tinha planos prontos desde o inicio. A primeira vez que teria de interromper os planos por um motivo alheio à sua vontade. A primeira vez que se irritou com alguém que não era alvo. Seria a primeira vez que ela usaria o artigo dois do seu código de conduta. O primeiro era eliminar todos que o Estado não prendia. O segundo era eliminar todos que atentassem com a vida dela. E esse era o momento de resolver essa pendência de uma vez por todas.

Saindo de Uberlândia rumou para Belo Horizonte. Roubou dois turistas distraídos que deviam estar falando em espanhol ou algum dialeto guarani. A julgar pela aparência eles eram paraguaios. Logo, contrabandistas em potencial. Logo mereceram ter suas carteiras roubadas. Entrou no ônibus digitando uma resposta para Sérgio, agora eram horas de viagem onde ela teria de aturar uma jovem que não saía do celular. Aquela luz do dispositivo não deixava Sophia dormir nem planejar nada. Alguns minutos de observação fixa ela chegou a conclusão que a jovem iria encontrar o namorado que havia conhecido em alguma rede social. Se elas tivessem se conhecido horas antes do embarque Sophia buscaria a ficha completa do rapaz e diria à ela se valeria a pena ir atrás dele ou não.

Talvez no futuro Sophia podia viver disso. Buscando informações sobre as pessoas e dizendo se elas eram mesmo quem diziam ser. Em outros países muita gente ganhava rios de dinheiro fazendo esse tipo de serviço. E de quebra poderia financiar assim suas outras empreitadas. Era algo a se considerar. Finalmente a jovem notou que o brilho estava exagerado e diminuiu a intensidade de luz do dispositivo que usava. Sophia sorriu de canto como se agradecesse. Agora era cochilar e ver se traçava um plano para o quê fazer com Sérgio. Ele era sagáz. Ela sempre esteve dois passos a frente dele, porém na última ação do ano que passou ele a alcançou. Coube a ela agir como agiu e fugir. Claro que ele tinha atentado para com a vida dela e, teoricamente, rompido a segunda regra do seu código de conduta. Era ela agir agora e resolver tudo isso. Agora era dormir pra chegar descansada à grande São Paulo.