quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Lata de Coca

"Socorro." As palavras tem fugido dele e, quando eram pra ela, elas enchiam a garganta tal qual Bentinho depois do primeiro beijo em Capitu. A vontade de gritar mil coisas ao mesmo tempo, fazer com que a voz possa emitir uma palavra por cima da outra. A parede, outrora inspiração, agora era opressora. O cansaço, que até não muito tempo atrás era mera formalidade após um dia a mais vivido agora é fator determinante que me me açoita tal qual o cilício açoitava os penitentes da idade média.

O pior talvez não seja nem as palavras subirem a garganta, vindas do coração, todas ao mesmo tempo. Se fosse possivel registrar a cena seria como a Imigrantes em feriadão. O pior é aquele sufocamento que tal sensação cause. A sensação - que já chegou a ser boa e hoje era mortificante - matava aos poucos. Num dos raros intervalos do trabalho fugiu dos colegas que eram fumantes e dos viciados em café. Ambos os cheiros o faziam ter nauseas, se afastou. Na cantina comprou uma Coca-Cola, sem motivo especifico. Ao abrir a lata aquele barulho ecoou por todo o ambiente regressando pra ele amplificado. Logo no primeiro gole ele torceu o nariz. Como ela gostava tanto dessa porcaria? Aliás, por que diabos ele havia comprado isso? Caminhou até a janela, queria pragueja-la, reclamar por ela ter passado os vicios pra ele. Não os vicios propriamente ditos, mas as manias. Os transtornos obcessivos compulsivos. Da cantina até a janela mais próxima eram quatorze passos. Quatorze. Par. Ela havia lhe passado essa mania de, vez por outra e sem nenhum motivo aparente, "moldar as situações" pra elas sempre acabarem em números par. Se precisava, no meio do trabalho, ir ao banheiro, se propunha fazer mais dois roteiros antes de se levantar. Fazia um e o segundo era feito às pressas, já com a bexiga estourando. E ambos ficavam bons pros superiores dele.

Ao chegar na janela o tempo estava fechado. Chuvoso. Era uma quinta-feira. Sorriu de canto reclamando com ela por ter lhe passado aquelas manias doidas dela. Será que ela ainda pensava nele? Uma nuvem tratou de responder que sim, ela ainda tinha ele nos pensamentos. Assim como ele ainda a tinha em seus pensamentos. Ao longe ouviu seu nome. Não era com ele. Duas, três, quatro, cinco... na sexta vez ele se virou. Lhe pergutaram onde estava e ele só deu de ombros. Ninguem entenderia o longo e sério papo que havia tido com aquela grande nuvem cinza. O dia transcorreu sem maiores sobressaltos. A sexta se aproximava e ele não tinha planos para o final de semana. E se...? Ele decidiu arriscar tudo.

No sábado, ainda nublado, mas sem previsão de chuva, logo cedo pegou o capacete, a jaqueta, encheu o tanque da motocicleta, colocou duas mudas de roupa na mochila e subiu a serra. No caminho parou no prédio dela. O porteiro o reconheceu, dez minutos de conversa e ele tinha o novo endereço dela. Por que ele nunca fez isso? Esse era mais um daqueles mistérios da vida que ninguem sabe explicar. De quebra ainda pegou algumas correspondências que ela não tinha vindo buscar naquela semana. Graças ao celular descobriu uma rota para chegar lá. Uma casa baixa, de muro médio e um portão de gradezinha fina. Estacionou a moto fora do alcance de visão. Bateu palmas e berrou a plenos pulmões "carteiro", quando tudo que queria gritar era "socorro", não no sentido real da palavra. Mas num sentido semelhante ao do Ali-Babá abrindo a grande caverna de pedra. Veio todo o caminho pensando que estava numa situação desesperadora. Dormia mal, trabalhava demais. Por isso o pedido de socorro, ela era a tranquilidade dele. Ela, apesar das idas e vindas da vida, era o porto seguro dele, assim como ele também era o porto seguro dela. Ambos, duas ambulâncias prontas pra atenderem um ao outro. Quando a porta fez barulho de destrancar ele quis fazer mil coisas: evaporar, sair correndo, se mostrar desde o início. Mas não. Ficou numa posição onde ela podia ver que havia alguem no portão, mas não ver quem era. Assim ela viria até ele e eles teriam aquela coisa que só eles sentiam, que não se explicava, que apenas se sentia... se vivia.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Número Desconhecido

Tinham se passado vários meses e algumas semanas desde que ele, ou por cansaço ou por falta de vontade, havia deixado de procura-la. Não tinha sido uma decisão fácil ou tresloucada, pelo contrário: ponderou muito antes de tomar esse caminho. Porém decidiu, unilateralmente, que era melhor para ambos se ele se afastasse em definitivo. A verdade é que, com cérta lábia, havia conseguido o novo endereço dela. Várias vezes saiu para lá mas pegava o primeiro retorno na estrada e voltava para casa.

A vida seguia seu fluxo tal qual rio que passa por debaixo de uma ponte. Seus esporádicos trabalhos bancavam a vida que levava e os poucos colegas de faculdade lhe davam a diversão de que precisava. Sentia falta dela? Claro que sentia. Chegou a guardar o porta-retratos em que ela, a extremo contra-gosto, posou pra foto com os cabelos cacheados. Em sua mesa não haviam mais fotos. Apenas um outro papel e muita bagunça organizada da forma que apenas ele compreendia.

Passou a sair nos sábados e tornar pra casa apenas nas primeiras horas de domingo. Bebia dentro do seu limite, comia dentro da sua saciedade, festejava dentro do seu bolso. Vez ou outra tinha algumas lembranças dela (sobretudo quando olhava para a Lua) porém era algo que logo passava e se esvaía no ar. Não faltava material humano para fazer-lhe esquecer dela. Esquecer não, mentalmente riscou esquecer. Para fazer supera-la. E estava tendo êxito.

Em uma noite em que não tinha nenhum programa na televisão ou aula na faculdade decidiu procurar pessoas em sua rede social, numa dessas encontrou a pianista. Conversaram por horas a fio, conversavam por mensagens no celular boa parte do dia. A pianista dizia estar bem estabelecida na Bélgica e não tinha planos para voltar... ele viajava nas fotos que ela enviava. Paralelo à isso problemas familiares com a prima o trouxeram de volta ao seio familiar. Assim a vida seguia até o fatídico dia em que seu celular se jogou ao chão. Nunca mais o aparelho deu sinal de vida. Acabou comprando outro aparelho, porém a agenda se perdeu. Aos poucos foi recuperando alguns números e deixando outros sem querer saber de atualização.

Em um dos sábados que não teve vontade de sair - parte pelo frio, parte por preguiça - ele se deitou na laje vendo o sol se por e as estrelas brotarem no céu. As luzes da cidade frustravam um pouco a visão dele mas, ainda assim, podia tentar recitar o Soneto XIII de Bilac, lembrava-se da música do kid abelha, mas o poema em si esquecia de um ou outro verso. Foi quando o celular, igualmente deitado ao lado dele, acendeu apagando em seguida. Uma mensagem. Olhou a hora. A pianista devia estar dormindo a essa hora, a prima deveria estar em casa... deveriam ser alguns dos colegas o chamando para sair. Deixou suspensa a leitura da mensagem enquanto pensava se estava afim de sair. Puxou pela lembrança quanto dinheiro tinha. "Por que não?". Alcançou o celular. "Esta em casa?" questionava a mensagem de número desconhecido. Tentou lembrar de quem era o número. Não, nenhuma lembrança. "Quem é?" Respondeu, voltando as suas lembranças de Bilac. "... E ao vir o sol, saudoso e em pranto, inda as procuro pelo céu deserto..."

domingo, 27 de julho de 2014

Noite de Sábado

Podia ser mais uma noite tranquila. Mas não. A vizinha do andar de cima caminhava com aquele salto pra um lado e pro outro. Será que minhas macumbas deram certo e ela estava com uma puta diarréia? Só que acho que não devia ter usado farofa de mercado, a diarréia veio, mas o salto era pra me castigar por usar produto barato no serviço. Do outro lado a vizinha gótica do apartamento do lado ouvia aquele rock melódico, extremamente afinado e gostoso de ouvir, porém não às três horas da manhã. A vizinha crente do outro lado deixava naquelas rádios de exorcismo enquanto transava descontroladamente com o primeiro macho que achou na rua. Essas noites de sábado nesse muquifo eram cada vez piores. Ainda se eu tivesse algum no bolso pra tocar o terror em algum puteiro próximo, mas estava mais duro que pão dormido, claro que podia colocar a farda e conseguir algum fingindo blitz falsa, mas, desde aquele incidente eu não consegui mais ser exatamente como era. Fui na janela, acendi um cigarro e o joguei fora depois da primeira tragada, chega dessa porcaria na vida.

Tinha de sair dessa vida. Embora fosse confortavel, podia ir e vir da corporação a pé e alguns vizinhos ainda me respeitavam. Respeitavam o "puliça". Outros vizinhos me ignoravam, eram educados nos raros momentos de convivência, fora isso cagavam pra minha existência assim como eu cagava pra deles. E, os maconheiros do quatrocentos e vinte fugiam ao me ouvir. Era melhor mesmo, se eu pegasse daria uma coça tão grande neles que iam entrar até na igreja.

Aquela garota, Helena, me fez repensar muitas coisas na vida. Parar de fumar era uma delas. E olha que só ficamos juntos o quê? Umas três ou quatro horas. Mas foi o suficiente pra eu me pegar pensando e não apenas reagindo a tudo. Podia ir a cada um dos apartamentos resolver isso, pedir pra vizinha de cima tirar os cascos, dizer pra crente do lado que ela devia procurar a igreja e se tratar depois dizer pra gótica que, ao contrario dela, muita gente aqui precisava dormir. Quem sabe convidasse a gótica pra sair. Quer dizer, não hoje, amanhã tinha que trabalhar. Doze horas trabalhando e mais doze fazendo hora extra, me sobravam vinte e quatro de folga, seria uma boa sair com a gótica e esquecer um pouco aquela desgraçada da minha ex. Pensar nela me trouxe minha amiga cefaléia. Fui até a cozinha.

Abri a geladeira, peguei a vodka e uma aspirina. Não lembro porque guardava remédio na geladeira. Tirei a tampa da vodka e engoli a aspirina. Fechei tudo e fui pra cama. Tinha de descançar um pouco que fosse e da forma que fosse. Durante a ronda passaria em alguma banca e compraria o jornal procurando outro apartamento dentro das minhas possibilidades financeiras e próximo da corporação.

Deitado esperando o efeito dos "remédios" o teto parecia querer cair com os cascos da vaca misturado com o exorcismo e a voz da Simone Simons. Formigas. Lembrei o motivo do remédio na geladeira. Na geladeira era o único lugar que elas não entravam. Antes de pegar no sono lembro de ter saído na janela e dado dois tiros pro alto e ouvir o silêncio se fixar. Talvez nem tenha feito isso realmente. Ou talvez tenha.

terça-feira, 8 de julho de 2014

A Copa das Copas

No começo da copa comprei uma bandeira grande e coloquei lá em cima, na laje. Veio a chuva forte, entortou o mastro que eu estava usando (um trilho velho de cortina) o quê me fez tirar a bandeira e achar um mastro mais forte (outro trilho de cortina, mas, dessa vez, com um cabo de vassoura dentro) e coloca-la de volta a tremular com o vento. Ou, como eu gosto de dizer "a bandeira sendo desfraldada pelo vento". Nas ruas todas as casas tinham uma bandeira do Brasil, todas as lojas tinham uma bandeira do Brasil. Alguns até pintaram ruas, cobriram o capô dos carros com bandeiras. E o quê era aquele hino? Eu devo admitir que me emocionava ao ouvi aquele coral imenso cantando o hino junto.

O hino devo admitir que é um caso a parte, uma história a parte pra mim. Sempre achei lindo o hino nacional. Minto, não só o nacional: todos os hinos, fosse o da Marinha, da Independência, da Bandeira, todos eles. A primeira vez que me emocionei com o hino foi alguns anos atrás, quando tive a incrivel oportunidade de ver a banda da Marinha Brasileira tocar ele e, em seguida, o hino da Marinha (aquele do "qual cisne branco que em noite de lua, vai navegando num lago azul..."). Admito, fui as lágrimas cantando junto com o coral. E agora, na copa, no Brasil. Véi, no primeiro jogo eu fechei os olhos, no jogo seguinte eu fiquei de olhos marejados. Devem me achar meio idiota por gostar dessas coisas. De ser patriota.

Oras. Temos por base achar "lindo" tudo que vem dos Estados Unidos e lá eles colocam a bandeira nacional nas varandas, cantam o hino TODOS os dias antes da aula, antes de eventos. Quem já assistiu as 500 Milhas de Indianápolis sabe do que eu falo, 300 mil pessoas de pé cantando o hino de seu país! E quem é de fora quietinho, só admirando. Mas brasileiro só gosta de copiar o quê é feio. Só copiamos a baixaria, os programas de televisão, a "cultura" pobre. Por que não copiamos isso também? Temos uma cultura riquíssima. Milhares de músicos Brasil afora cantando músicas em nossa língua, diversos autores lançando mensalmente centenas de livros de uma qualidade riquíssima e o quê valorizamos? O quê vem de fora. A mídia costuma dizer que temos uma cultura incrivel e bla bla bla. A Argentina (que ganhou duas copas) já ganhou um Oscar, o Uruguai (que também já ganhou duas copas) também. O Chile (que não ganhou copa nenhuma) já ganhou, pasme, um Nobel de literatura! Tudo bem, o futebol (e esporte duma forma geral) é importante. Mas a cultura também é. Mas a cultura ensina o povo a pensar, e isso não é bom pra grande mídia brasileira... porém não vou ficar falando de mídia.

Eu venho de um tempo em que se cantava o hino toda semana e, na semana da pátria se cantava todo os dias intercalando com o hino do município e o hino da bandeira! E se eu falar que nem faz tanto tempo assim? Não tem 20 anos. Não vou fazer discurso político ou coisa que o valha, não é lugar disso aqui. Mas, voltando ao hoje, depois do jogo fui lá na rua ver o movimento... todos que passavam por mim tinham um ar de velório. E eu entendo isso. Entendo sim. Quando meu Corinthians caiu pra série B do brasileirão eu senti esse tipo de dor. Esse tipo de comoção. Mas não deixei de ser corinthiano um só minuto, pelo contrario: no dia seguinte eu saí na rua com a camisa do Corinthians de orgulho. A derrota foi feia? Foi, horrivel. Nunca vi um time jogar tão mal assim na vida inteira, sério. Mas e daí? Tirando quem apostou muito dinheiro em bolão a vida do resto do mundo não muda. Os jogadores continuam ricos, a população continua tendo que se virar. A vida continua.

Comecei falando da bandeira, não é? Pois é, enquanto meus vizinhos, muito provavelmente, vão tirar as bandeiras eu vou deixar a minha lá. Tremulando e demonstrando o meu orgulho de ser brasileiro. Corrupção todo lugar tem. Violência todo lugar tem. Pobreza todo lugar tem. Não posso fazer quase nada pra ajudar outros países, mas o meu país eu posso fazer muita coisa. Posso eleger quem julgo ser mais honesto, posso não furar fila, posso não jogar lixo no chão. Infelizmente no Brasil ainda reina a hipocrisia... mas, isso fica pra outro dia. Hoje vou cantar a plenos pulmões "Dentre outras mil és tu, Brasil, ó pátria amada, dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada, Brasil".

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Trem

Muitos sempre disseram que o fim era algo melancolico. Claro que, entre eles, essa melancolia de fim existiu. O romance deles respirou com a ajuda de aparelhos por vários meses - mesmo ele sendo a favor de, em caso de sofrimento do paciênte, que se desliguem as máquinas de uma vez por todas - até que, enfim, tudo se esvaiu. O poder de existência que mantinha aquela pequena fagulha ainda acessa se evadiu. Sem alarde, sem um porque, sem uma razão. Apenas subiu no trem - porque não há, em toda a literatura forma mais definitiva de ir do que um trem, aquele lento sacolejar de vagões, aquele desaparecer em uma curva e depois o som do motor da locomotiva se dissipando é algo que outras formas de despedir nunca são ou serão tão belas e definitivas que o trem - e foi-se.

E, então quando o trem se vai, quando aquele sentimento que, sim, existiu e foi vivido ao extremo da palavra viver se extingue fica, claro, um vazio. Claro que ela se virava em sorrisos e, a seu modo, seguia adiante e ele, também a seu modo, se virava e tentava tapar aquele buraco fundo. Obviamente uma colher de chá para tapar uma cratera há de demorar algum tempo... a menos que, claro, alguem apareça com uma retroescavadeira ajuda muito.

Então o silêncio se fez, nunca mais trocaram uma palavra. Não havia necessidade. Ele tinha conseguido o endereço dela, mas... ela tinha o endereço dele e nunca foi atrás dele. Então por que ele iria? Claro que várias vezes ele se pegou parado em frente do novo endereço dela. No começo ficou uma hora, depois menos e menos até não ter mais a necessidade de ir até lá. A prima dizia que era assim que livrava de vício. Teria sido ela um vício pra ele? Um lento suspiro e ele chegava a conclusão de que não. Um sentimento, um amor nunca era um vício. Vício denota um tom pejorativo e o que eles tiveram não foi pejorativo. Houveram alguns momentos ruins, claro, mas... era assim mesmo.

As lembranças vinham com uma música no rádio. Com alguma imagem, porém... vinha um sorriso de canto e uma lembrança boa. Apenas isso. Seu foco agora era outro, provavelmente o dela também. Assim era a vida, fosse isso bom ou ruim. Para ele, pelas lembranças serem boas - as ruins fez questão de esquecer - gostava de lembrar e, vez ou outra, olhava para aquela caixa de sapato em cima do armário e relia algumas cartas. Viesse quem viesse, fosse a mulher que fosse, se falasse qualquer coisa em "jogar fora aquele monte de velharias" colocava-a para correr. Aquelas eram as lembranças boas que ele nunca iria esquecer. Até o dia que apareceu uma que, curiosa com a caixa, bisbilhotou e achou lindas as lembranças que ele guardava e compartilhou as suas. Seria esse som ao longe um novo trem que apitava entrando na estação?

sábado, 17 de maio de 2014

inquietação

Sentia necessidade de fazer algo. Qualquer coisa que fosse, se sentia sufocado. Aquela sensação o sufocava. Talvez fosse hora de ir atrás dela. Talvez fosse hora de não adiar mais e ir até ela. Claro que não tinha o novo endereço dela, mas, quem liga? Era só passar a conversa no porteiro e pronto. De quebra ainda levaria as eventuais correspondências para ela. Perfeito. Perfeito? Quando já tomava o capacete nas mãos pensou na palavra. Perfeição é o primeiro passo para o fracasso. Nada, absolutamente nada, que dure muito tempo é perfeito. Havia sido assim entre eles. Passavam um tempo em mares tranquilos até que uma simples gota fazia o copo transbordar.

Era essa intranquilidade, essa eterna corda bamba que os mantinha juntos. Até mesmo quando ele, por motivos alheios às vontades de ambos, teve de se mudar. Ainda se viram por um tempo. E todas as vezes que se viam era perfeito. Ora ele fazia aquela cena de cinema, entrando no apartamento dela antes dela chegar cansada do trabalho e preparando o jantar, ora ela indo até ele trazendo uma pizza congelada e uma coca retornavel. Era perfeito demais para durar. Estava na garagem, capacete nas mãos, jaqueta de couro lhe cobrindo os ombros quando se deu conta de tal coisa. Suspirou olhando de relance para o quartinho que ficava na garagem. Lá ainda residiam algumas caixas da mudança sem serem abertas, provavelmente coisas que eram deles e que ele, até o momento, não havia dado por falta.

Estava com a chave do quartinho presa a da motocicleta. Naquele molho de chaves estavam a chave do portão, da porta da cozinha, da porta dos fundos, da motocicleta em si e do quartinho. Com a ponta dos dedos selecionou a chave que abria o diminuto cômodo nos fundos. Provavelmente onde a empregada dos primeiros donos dormia. Não tinha mais do que três por quatro metros, provavelmente caberia aqui uma cama de solteiro e um armário comum. Talvez até um criado-mudo onde uma televisão que seus patrões, pra não jogar fora, deram à tal empregada que se desenhou na mente dele vendo as novelas do vale a pena ver de novo e depois se dividindo entre o filme da sessão da tarde e de recolher a roupa da laje e preparar o café de seus patrões.

Sorriu de canto imaginando a empregada se derretendo pelos atores. Ou assistindo por assistir, afim de relaxar os pés, talvez fosse uma guria vindo do interior, com aspirações altas, nobres e lúcidas e quem sabe se realizaveis, sonhasse em cursar uma faculdade, mandar algum dinheiro para seus pais no interior do estado, pessoas que muito sofriam com a lida diaria de sol a sol carpindo, plantando, colhendo e vendendo em alguma feira da propria cidade pequena à algum atravessador que lhes pagaria uma merreca e, depois, revenderia pelo dobro à outro atravessador que, novamente, dobraria o valor até chegar ao consumidor final que ficaria feliz em achar o produto por preço tão atraente. Talvez ela lutasse para fugir desse ciclo vicioso vindo para outra cidade maior, achando que era o ideal, achando que a quantia de um salário mínimo, que na roça é uma fortuna, seria incrivel em uma cidade onde até água potável teria de pagar. A cidade grande era uma mentira. Para todos. Provavelmente ela logo perceberia isso e acabaria trocando de emprego ou voltaria para a sua cidade natal afim de contar as histórias de suas peripécias na cidade grande, levaria causos, se casaria com um borracheiro e viveria numa felicidade plena até suas filhas repetirem seu sonho de ir para a cidade grande.

Ou talvez, então, fosse uma senhora idosa, que sem oportunidades de emprego para completar sua renda que a aposentadoria não supria - nem mesmo seus remédios ela conseguia pagar! - e sem suporte de sua familia que havia se mudado, anos atrás, para uma cidade ainda maior, havia aceitado o emprego de empregada doméstica nessa casa. Nas suas horas de folga talvez ligasse a televisão na sessão da tarde e, entre uma cena e outra, desse um breve cochilo lendo algum dos livros que seus patrões deixavam na grande estante que ornava a sala. Nesses poucos anos dentro dessa casa, praticamente inserida nessa familia, ela já havia lido quase todos os livros e tinha por sonho ler todos antes de morrer. Ela tinha consciência que logo morreria e queria liquidar algumas curiosidades de histórias que, em um passado remoto, no interior, havia ouvido falar por intermédio de seus professores.

Curioso. Tanto a jovem quanto a idosa, para ele, vieram do interior. Era um esteriótipo típico das empregadas em cidades grandes, não? Pensava ele, quem em sã consciência vai aceitar ser empregada doméstica e dormir num quarto que mede pouco mais do que um banheiro? Tantas divagações que aquela ânsia, aquele desejo, aquele sufocamento lhe veio ao peito novamente. Não era real essa sensação. Era algo que, por mais que lhe fechasse as vias respiratórias, dificilmente o mataria. Resolveu pegar uma das caixas sem nada escrito. Quer dizer. Estava escrito "Sabão em pó". Quem faz muitas mudanças de endereço durante a vida - como ele - sabem que caixas de papelão, grandes, onde veio o sabão em pó para os mercados, são as mais resistentes.

Ao abrir a caixa seu sorriso de alguns segundos atrás se alargou e se afinou diversas vezes enquanto, com a ponta dos dedos, dedilhava o velho toca discos que havia sido de seu pai e que, há vários anos, não via ou emitia algum som. Um velho toca discos philips. As caixas de som estavam ao lado da caixa. Talvez curioso não fosse o toca discos em si mas o vinil menor, um EP. O nome estava apagado, mas, ao limpar a agulha e trazer o aparelho para o lado de dentro e ele, enfim, tornar a emitir som o sorriso se desfez. Ficou preso à voz. Ficou preso àquela música por todas as horas que se seguiram em que o EP foi ouvido acompanhado não da sua eterna companheira vodka, mas de um vinho tinto que havia ganho de alguem da empresa meses atrás. Cada gole era algo além que vinha em seu ser. Aquele sufocamento ia sendo empurrado garganta abaixo a largos goles da bebida. Deixou a música tomar conta de si e lhe fazer viajar. Não restava mais nada na garrafa. O EP tocava uma última vez. Ele deixou a música no volume máximo e se deitou no sofá. Livre de ânsias. O capacete na mesa da cozinha, uma garrafa de vinho vazia e um vinil balbuciando em francês "ne me quitte pas, ne me quitte pas, ne me quitte pas..."

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Pérola Branca

Depois de alguns meses o Pérola Branca - um belo veleiro de casco grande e cabine com os luxos de um pequeno apartamento - sai do cais de NY. Sua capitã ruma sem um destino certo. A única certeza que tem é que quer sair sair dali, talvez pra sempre, talvez por uns meses. Queria conhecer o mundo. Tinha aprendido nos anos que já possuía o veleiro todas as formas de guia-lo mar adentro. Os estoques de comida e água haviam sido abastecidos na noite anterior à sua partida, calma e serena pelo rio Hudson com os primeiros raios da manhã e a calentadora brisa matinal.

Os poucos barcos que se atreviam sair naquela hora tinham como destino ou o golfo do México, Caribe ou ainda alguma ilha particular próxima. O Pérola era o único que saía daquela baía com um destino incerto. Fixado o timão sua hábil capitã foi ao convés, como se fosse se despedir daquela cidade que tanto a acolheu nos últimos tempos. Uma lágrima teimosa ousou sair e lhe escorrer pela face. Mas o vento frio vindo do mar e a névoa aos poucos engoliam a grande maçã atrás dela. Os tempos agora eram outros.

As coisas não tinham saído como ela havia planejado. Poxa, não tinha cometido nenhum de seus deslizes anteriores então porque não deu certo? Tantas dúvidas. Tanto tempo que passaria no mar afim de sepulta-las naquela imensidão de água. Era a hora de uma nova aventura. Dessa vez não era a ruiva que desaparecia ao amanhecer, dessa vez era morena, a quem a ruiva tanto se apegou nos últimos tempos e quem dividia uma parte vital - o fígado, que a ruiva dilacerou nos anos pelos bares mundo afora- quem optava por essa forma de superar as dores e as mágoas vividas. Aspirou grande quantidade de ar e virou, suavemente a embarcação para o sudeste. Velho continente. Primeira parada, Paris.

sábado, 22 de março de 2014

Pedra de Gelo

Se sentou naquele balcão. O garçom levou três, talvez quatro segundos até chegar nele e perguntar o que queria. Por um instante ele olhou fixamente para o homem. Respirou fundo. Talvez ali não fosse o lugar exato pra se estar naquela situação. Os dedos doíam, os pés estavam moles. O corpo com uma dor aqui, outra ali. Do sono nem falava mais: era sua quase-rotina dormir não mais do que quatro horas por noite - não sentia falta do repouso. Piscou demoradamente voltando ao universo atual. Whyski, duas pedras de gelo. Foi seu pedido prontamente atendido. Constatou na comanda que essa era (ou devia ser) uma das bebidas mais caras da casa. Tudo por um punhado de grãos destilados e fermentados na antiga caledônia. Suspirou dando um gole curto. Ao menos aparentava ser original, fiel ao rotulo que postulava atrás do balcão.

Podia arrumar alguma companhia, quem sabe alguem para jogar uma boa conversa fora. Deveriam fazer o quê? Três meses que não falava com ela? Então era assim afinal. Havia superado mais essa. Brindou consigo mesmo sorvendo um gole maior do que o anterior. Ainda era cedo não havia ninguem no lugar. Talvez duas dúzias de pessoas, metade em volta de uma mesa só e duas em outra. As restantes eram um homem barbudo, gordo e com camisa xadrês - um tipico lenhador. O outro era um homem com a barba feita e uma gravata solta. Era sexta afinal de contas. Provavelmente aquele tipo estava esperando colegas do trabalho para comemorarem algum contrato, alguma promoção ou, até mesmo, a morte do chefe. A outra era uma mulher, bonita, bem vestida, que mexia no celular com tanta frequência que devia estar terminando a relação pelo tal do whatsapp. Ponderou se deveria falar com ela. Melhor não, não era correto interferir na briga do casal.

Assim sobrava apenas uma mulher. Aparência simples, sentada em um dos cantos do balcão. A sua frente uma long neck. Será que afogava as mágoas ou apenas esperava as amigas? Decidiu fita-la por alguns instantes. Ela tirou o celular da bolsa. A tela iluminou o rosto dela por alguns instantes. Bonita. A frustração se demonstrou no rosto dela tal qual nuvens de cinzas no céu demonstram a chuva que está por vir. Sorriu de canto, era a hora da caçada. Porém a dúvida lhe resoou de dentro do copo onde apenas as pedras de gelo derretiam silenciosamente: seria presa ou caçador?