terça-feira, 15 de outubro de 2013

Pão Francês

Faziam algumas semanas que ele não encontrava uma padaria decente no seu bairro. A cidade nova era boa de se viver, o ar era mais tranquilo, a praia ficava a poucos minutos de moto, os pores-de-sol eram infinitamente mais coloridos e a pianista havia entrado em sua vida, ele não saberia dizer se entrado para ficar, mas, como diria um de seus poetas preferidos "que seja eterno enquanto dure". Pensar nessa frase lhe fazia pensar nela... foi eterno enquanto durou. Quer dizer, isso se tivesse realmente acabado. Aquela SMS enviada após a noite de trovões em que sua mente se encontrava era o quê seu coração sentia, ainda a amava, claro, mas era melhor se manter afastado por algum tempo, tal qual a música do skank "Em paz eu digo que eu sou, o antigo do que vai adiante, sem mais eu fico onde estou, prefiro continuar distante"... Mas, na sequencia da playlist vinha outra frase que ecoava em sua mente "... e quando o sol se inclinar, eu posso por uma toalha e te servir o jantar...". Jantar. Ontem não havia comprado pão, a padaria do bairro era terrivel, a melhor era uma quase do outro lado da cidade, próxima da praia. Olhou o relógio, checou a carteira. Deu de ombros pegando as chaves e indo até a garagem. Colocou a jaqueta de couro, o capacete, trancou a casa e saiu.

A estrada seguia parecida com dois meses atrás. A pianista encontrava-se em um congresso de um mês sobre pianos. E ele tinha pequenos trabalhos a fazer, a grande maioria deles já havia sido feitos e um de seus antigos clientes o tinha chamado. Ele, sem querer recusar e sem saber se poderia aceitar, disse que assim que estivesse na cidade daria um toque ao tal cliente. Na superficie de sua mente era esse o motivo de estar viajando as mais de cinquenta milhas entre sua casa e aquela cidade. Se fechasse os olhos sabia onde seu GPS mental o levaria, por isso permaneceu de olhos bem abertos. No caminho resolveu parar e almoçar, enquanto almoçava tratou de negocios com o cliente. A tarde o trabalho transcorreu mais rápido do que ele planejava. Antes de sair do lugar deu uma rápida olhada pra cima como se perguntasse "estas me mandando um sinal?". Como a resposta dela nunca havia sido mandada ele pensou mil coisas, menos a mais óbvia, que talvez ela estivesse sem créditos no celular para responde-lo.

O sol se arrastava lento para o horizonte, na direção das montanhas que, aqui, eram feitas de concreto até onde a vista se alcançava. Decidiu se permitir e ir até lá. Tinha de ir. Era sua obrigação. Mesmo depois de tudo o que aconteceu sentia falta daquele lugar pequeno, não tão calmo, não tão limpo, não tão perfeito, mas ainda assim era a melhor padaria que ele conhecia. Ao estacionar na frente da mesma olhou de relance o prédio dela, no fim da rua, ele seguia com o mesmo tom salmão meio desbotado pelos anos... provavelmente daqui não mais de dois anos alguem mandaria pintar afim de tornar o edificio mais valioso e, quem sabe, aumentar o condominio, melhorar a reocupação, pois muitos haviam se mudado para outros apartamentos mais bem localizados, maiores, com as paredes mais grossas e prestações menores. Maldita espucalação imobiliaria.

Se sentou ao balcão. O lugar seguia identico ao que se lembrava. Olhou rapidamente em volta temendo vê-la. Ela não estava aqui. Sorriu quando o dono do lugar se aproximou dele e o cumprimentou. Conversaram por bons dez minutos, ele pediu um queijo quente e uma soda nesse meio tempo. Ao primeiro pedaço de pão com queijo derretido descendo pela garganta dele um misto de felicidade e saudade o inundou. O quanto ele estava com saudade daquilo! O sol se afastou mais na direção do horizonte, foi então que ele sentiu um perfume conhecido. Aquele perfume que ele havia dado para ela anos atrás e ela tomou por "... meu 'cheiro' daqui pra frente.".

Ela olhou, ele olhou. Ela sorriu, ele sorriu. O sorriso dela se alargou, o sorriso dele se alargou. Ela corou suavemente, ele corou suavemente. Apesar de estar cheia, a padaria tinha dois bancos vazios: um próximo do banheiro, que praticamente ninguem sentava-se nunca e outro, onde ele, intuitivamente, havia posto o capacete. Ele tirou o capacete, ela se aproximou, ele se sentiu um adolescente que via aquela menina de que ele sempre foi afim e ela vinha pedir ajuda com alguma matéria que ele sabia. Ela sorriu. Estava num vestido solto, desses de verão, com borboletas desenhadas no tecido, nos pés uma sandália com um salto baixo, provavelmente ela veio apenas buscar pão, como sempre. Ela agradeceu e se sentou ao lado dele. Os olhares se cruzaram. As mãos dele que, até então, estavam sobre o balcão, agora estavam entre "vou pro colo" e "fico aqui", no fim elas acabaram ficando como se grudadas ao balcão. A mão esquerda se precipitou aproximando-se da dela, que pousou no balcão com tamanha graça e elegancia que parecia ter asas nas pontas dos dedos que frearam ao máximo o pouso. No inicio o assunto foi o clichê "como tem passado?", depois o assunto foi se prolongando, conforme a noite tomava seu lugar no céu e a lua brotava no exato oposto de onde o sol havia pego o rumo para o Japão. Aquela noite prometia ser longa.

sábado, 21 de setembro de 2013

Maré

Era estranho como os dias passavam praticamente sem nenhuma alteração. Para ele os dias, as sensações, todas as coisas estavam paradas. O novo porta-retratos na estante da sala brilhava quase sem poeira, a foto ainda era dele, mas agora era com a pianista em frente ao mar. Depois daquele dia bebendo vinho. Tinha sido doloroso aquilo de tirar a foto dela dali da sala. Ainda que não tivesse tirado completamente a foto dela de suas vistas. Ela estava em sua mesa de trabalho, onde repousavam diversos livros abertos, lidos pela metade, desenhos pela metade, alguns CDs, carrinhos de coleção... aquela bagunça era ele. E aquele olhar dela por sobre a bagunça era a desaprovação a isso tudo. Talvez por isso que ele não arrumava nada, queria afrontar, queria pirraçar como uma criança que não ganha o brinquedo que queria. Talvez por isso que ele e a pianista não se falavam haviam dias, a moça não sabia como reverter a situação a seu favor e optou por se afastar... esse era o destino dele afinal, ficar sozinho. Suspirou tirando alguns papeis para o lado.

Dois envelopes que havia pego na caixa de correio mais cedo ainda esperavam para serem abertos. Uma conta e um envelope daqueles comuns, que se compra em papelaria e tem aquela borda mesclando verde e amarelo. A chuva havia borrado o destinatário, borrado apenas o nome, ainda podia ver partes do endereço. Com o estilete abriu tomando cuidado para não estragar a carta. Letra bonita. Palavras bonitas que levaram ele às lágrimas, não só pelo escrito, mas pela carta, papel, físico, algo além da efemeridade de e-mails, mensagens de celular... ao fim a assinatura era da pianista e o "p.s." pedia que ele enviasse mensagem de texto quando precisasse. Ele sorriu ao fim da carta curta, escrita em uma página dessas com muitas linhas pequenas, onde se escrevem partituras. Deixou o papel sobre a mesa e foi para a laje, apenas com a gaita de boca.

Tentava tocar alguma coisa, qualquer coisa. Era impossivel, era como se o pouco dom de música que tinha tivesse fugido dele e ido embora, talvez para sempre. Que merda. Quando tomou o celular nas mãos afim de pedir ajuda o portão se abriu. Ficou em silêncio deixando a visita que o encontrasse. No fundo ele queria que fosse... fosse... quem ele queria que fosse? Ela? A pianista? A prima? E se fosse um bandido que notou a porta aberta e resolveu tentar a sorte? Esperou dois minutos, contados no visor do celular. Ninguem veio até a laje, o que era habitual, afinal todo mundo que o conhecia sabia que, se ele não estivesse dentro de casa, com a porta dos fundos aberta, ele estaria na laje.

Desceu temendo encontrar alguem armado. A pequena casa com as cortinas fechadas, as luzes apagadas, o escuro dominava o ambiente. Se já tinha algum receio de encontrar alguem mal encarado, violento, criminoso seu temor aumentou. Com o celular em mãos digitou o número de emergência ainda sem discar. Ouviu um barulho vindo da sala. Caminhou a passos temerarios, lembrou de filmes americanos em que sempre surgia um taco de beisebol na mão do mocinho e ele se livrava de qualquer marginal. Havia um pequeno brilho naquele ambiente, parecia o crepitar de uma vela. Se aproximou com o dedo sobre o botão de discar para a emergência. Seu temor, seu até medo se tornou um sorriso fino que se prolongou por toda a extensão possivel de seus lábios.

Era a pianista, um violão no colo, sentada sobre o tapete e uma vela dessas com cheiro de flor de laranja em frente dela. Ele se sentou ao lado dela, o dia ameaçava chover, as nuvens haviam rondado o dia inteiro, era inevitavel que viesse a tempestade. Conversaram alguns minutos e as luzes da cidade ao redor da casa invadiram a janela e o comodo, apesar das cortinas. O som de água caindo no telhado com força, os raios seguidos de trovões anunciavam que perduraria aquela situação. Foi no instante que ela começou a dedilhar uma música e anunciar que era para ele a energia eletrica acabou deixando tudo ao redor escuro, as ruas, o rádio do vizinho, as casas, as televisões... apenas aquela vela os iluminava. Foi então que ela dedilhou cantando em tom baixo, suavemente rouco sem ser sensual, quase numa confissão e a música caiu como uma onda de maré alta quebrando na praia, tamanho o estrondo que fez nele. Cantaram juntos muitas outras músicas, mas aquela primeira música ficou presa à mente dele. E provavelmente da pianista também quando ela a ouviu e soube que era para ele.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Bebendo Vinho

Não seria a primeira garrafa de vinho que morria em suas mãos. Não seria, muito menos, a última. Mas era a primeira que descia com tanta... facilidade? Devia ser. Sinal de que o figado estava cada vez mais amaciado, cada vez mais sereno. Tinha coisas a fazer, mas hoje ignoraria todas elas e dormiria com o celular desligado, telefone fora da parede, despertador sem as pilhas. Só não desligou a chave geral da casa por não querer comida estragada na geladeira. Se afundou nas cobertas e deixou que o porre fizesse o trabalho por ele. Dormir sem se preocupar com o dia seguinte. E como dormiu. Doze horas depois acordou sem dor de cabeça. O corpo todo relaxado. Tomou um banho demorado e religou o celular enquanto preparava uma bela xícara de leite com achocolatado.

Duas ligações e meia dúzia de mensagens. Primeiro as mensagens. Propaganda da operadora, um boa noite de alguem que morava extremamente longe e um convite. Nas ligações o mesmo número, repetido. A mensagem mais recente era a reclamação do número das chamadas perdidas "não vai atender ou não pode? Preciso te ver, assim que puder, me liga, beijos.". Bebeu um gole do achocolatado gelado - odiava beber isso quente, lembrava de coisas ruins da infância, coisas que siquer lembrava, mas sabia que tinham sido ruins - pensando se deveria responder. Na mesa uma moeda de cinquenta centavos - o troco pela garrafa de vinho - lhe deixava com a ideia de tirar na sorte se responderia ou não. Alea jacta est. Lançou a moeda ao ar. Sorriu de canto. A moeda parecia saber o quê ele desejava fazer. Ela devia saber o quê ele planejava. Bom ser compreendido. Respondeu a mensagem com um "amanha, na praia, fim de tarde, leve o violão que levo a gaita.".

Amanha. Porque hoje tinha uma coisa mais importante a fazer. Comeu um qualquer coisa na geladeira, colocou a jaqueta de couro, pegou o capacete, a moto e subiu a serra. Podia ir de olhos fechados que chegaria ao objetivo. Ao longe pode ver a fachada na cor salmão surgir no horizonte. A poluição daqui era terrivel e, no trajeto ate relativamente curto entre a rodovia e aquele prédio, já havia espirrado três vezes. Na mochila tinha remédio pra isso. Resolveu não tomar. Que se foda. Estacionou diante da padaria. Comeu um queijo quente e um pão de queijo. Respirou fundo e adentrou no edifício. O porteiro por um instante estranhou ele ali justamente quando ela não estava mas sabia que ele vinha às vezes quando ela não estava.

Subiu o elevador e, ao chegar no andar, notou a única porta com tapete. Aquele tapete que não queria ser usado como capacho. Na caixa da mangueira de incêndio a chave ainda estava lá. Coberta por uma fina camada de poeira tamanho a falta de uso ou de alguem pega-la nas mãos. Destrancou a porta e tudo estava praticamente igual. O sofá estava mais para o lado e a TV mais para o canto. Pensou em escrever uma carta... não. Chega de cartas. Merda. Estava conflitante consigo mesmo.

Acabou escrevendo uma pequena carta e a deixou sobre a mesa. Deixou o chaveiro da chave que havia usado sobre a carta, o lápis que havia escrito junto. Olhou em volta. Suspirou dando uma olhada rápida na foto dela que lhe encarava. Ele não tinha reação ao vê-la. Se levantou e deixou o papel ali. Ao sair evitou pisar no tapete afim de não suja-lo com seu calçado sujo. Trancou a porta e suspirou novamente. Da mochila tirou uma pequena caixa, dessas de aliança. Desceu colocando a chave dentro dela. Ao passar pelo hall deixou com o porteiro a caixa e disse à ele que entregasse nas mãos dela. Feito isso voltou à padaria. Comprou uma coca-cola em garrafa e seis pães. Sua janta estava pronta. Subiu na motocicleta se despedindo mentalmente dali. Ganhou a estrada, o ar limpo fez seus pulmões respirarem aliviados, um certo alivio pelo ar poluído da cidade. A estrada era pra onde apontava o guidão. Sem rumo, sem destino e sem pressa alguma em chegar ao futuro.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Réquiem

Depois daquela carta tudo pareceu se aquietar dentro dele. Era o Tempo se fazendo presente. Nem mesmo depois de um final de semana de sorrisos com a prima que não morava longe, agora, quando o termometro estacionava na casa dos oito graus a casa parecia fria. Por mais cobertores que colocasse sobre a cama o frio não dissipava. Algumas mensagens de texto na quarta-feira de futebol na TV foram, talvez, a pá de cal que tudo aquilo precisava. Não houve o adeus antes, não havia o adeus agora e não haveria o adeus nunca. Embora sempre tivesse ouvido o cliche de "nunca diga nunca" achava ele ridiculo ao ponto de, se encontrasse o autor dessa frase, diria algumas boas verdades a ele.

Era fim de tarde. O sol se afastava para o Japão. A chaleira anunciava a água quente. Uma blusa velha por cima dos ombros, calça de moletom - dessas mais surradas - e, claro, chinelos de dedo com o adendo de meias nos pés. Preparou o mate. Nunca entendeu o motivo para as pessoas dessa região gostarem tanto disso, pensava assim até vir morar ali e ter contato com isso. Agora bebia aquilo nos finais de tarde. Às vezes acompanhado da prima, às vezes acompanhado de algum colega do trabalho, às vezes acompanhado del... não. Com ela nunca havia apreciado o bom amargo.

Preparou a erva na cuia, a água na garrafa termica, quando se preparava para se sentar frente à máquina para tocar algum velho projeto viu aquela caixa na garagem. Ainda haviam várias caixas para desfazer e algumas que nunca seriam desfeitas pela falta de espaço na casa. Abriu uma das abas: seus velhos discos de vinil e uma vitrola dessas mais recentes, que tinham saída RCA e podiam ir como auxiliar em aparelhos de som novos. O home theater ganhou uma compania na sala, a velha vitrola gradiente que ainda funcionava. Resolveu ver na caixa os discos.

Legião Urbana, RPM, Roberto Carlos, Black Sabbat... haviam vários discos variados. Junção das coleções dos discos de seu pai, de sua mãe e os que havia comprado em sebos. Engenheiros do Hawaii haviam vários. Olhou um, outro, resolveu por um na vitrola afim de ver se o som dela ainda era bom. Passou um pequeno pedaço de algodão na agulha. Tirou o pó da tampa. Perfeito. Aquele ranger baixo dos pequenos grãos de poeira arrastados pela agulha amplificando cada canal microscópico do velho vinil. Lembrava-se que tinha quase todas essas músicas em CDs, MP3, alguns até em DVD. Mas o som não se comparava ao vinil.

Havia algo na voz daquele cara, Gessinger era o nome, alguma coisa nas letras tão dele. No íntimo ele sabia que aquele compositor havia composto para ele proprio. Se sentou no sofá, casa escura a cuia na mão bebericando lentamente o mate amargo. Checou o celular. Não haviam mais compromissos, não havia mais uma agenda. Pensou em ligar... não. Foi quando a água na garrafa termica estava se acabando que o vinil apontou outra faixa. Aquela que finalizava o lado A do disco. O coração dele parou ouvindo. Ao terminar a casa manteve as notas finais ecoando pela casa por mais dois ou três segundos misturado ao som da agulha rodando até o fim do vinil e batendo no ponto final dando um suave clique, até que tudo silenciou.

sábado, 10 de agosto de 2013

Lua Cheia

Os últimos dias tinham sido introspectivos demais. Perdido em devaneios ele mal se alimentava, apenas reagia aos estimulos. Foi quando, em meio a algumas caixas ainda não desmontadas desde a época da mudança encontrou algo que havia ganhado de seu pai, que havia ganhado do pai dele, que havia trazido junto de si de quando veio da distante Ucrânia: uma gaita de boca. Estava em uma pequena caixa, dessas de doce, pequena, mas grande o suficiente para caber a tal gaita envolta em papel de seda.

Resolveu limpa-la e tentar tocar alguma música. Tentou sem sucesso. Seguiu para a laje - fonte eterna de suas inspirações -, onde, sim, relembrou uma ou outra canção. Algumas notas, alguns refrões. Foi quando ouviu o portão abrindo e passos. Quem seria? Se esticou crente de que era ela. O sorriso largo se instalou nos lábios dele, ela havia vindo lhe ver e ouvirá a gaita e, surpresa por saber que ele sabia tocar algum instrumento, tomou a liberdade de entrar e se aproximar. A cadência dos passos era diferente dos passos dela.

Poucas palavras podem explicar o sorriso dele, de largo e cheio de felicidade, para algo mais fino, esguio, até com certa malícia. O gênero estava certo. A surpresa no rosto da outra pessoa também. Mas não era ela. Era a pianista de noites e noites atrás. Ela trazia no ombro um violão e nas mãos a chave de um carro. A praia. O plano dela era sentar na praia e dedilhar o violão, quem se aproximasse teria espaço para sua canção. A pianista trajava um longo vestido, uma sandália rasteira e uma blusa de alças. Nada sensual. Estava mais para despojada do que para sedução. Ele pensou um instante. Aceitou o convite. Ficar em casa sozinho seria pior, emburrecer em frente a programação televisiva de sábado a noite era um péssimo plano.

Seguiram para um canto mais afastado, onde a iluminação até chegava, mas não era tão forte. Lá podia se ver as estrelas com uma plenitude absoluta. Talvez apenas em desertos ou nos polos que se veem mais estrelas que ali. Do porta-malas do carro a pianista tirou esteira, uma bolsa e o violão. Ele se prontificou em carregar as coisas mais pesadas. Logo mais algumas pessoas se aproximaram, alguns turistas que ousavam passear em regiões litoraneas em pleno inverno. Embora inverno apenas no calendário, pois o clime estava ameno.

Foi quando ele, em meio ao dedilhar dela ao cantar que a chuva traga alivio imediato, ouviu seu celular. Era ela. O sinal do celular na praia era horrivel e, ao atender, pedindo um segundo e se afastando do grupo que cantava em um coro de fazer inveja a muitos corais, a ligação caiu. Checou as mensagens, haviam duas. A primeira anunciando a chegada dela, enviada da estrada. E a outra, enviada da porta da casa, que ela viu toda trancada ao chegar. Ele se afastou um pouco ligando para ela. Falaram poucos minutos. Ele a convidou para vir à praia encontra-lo, não mencionou a pianista. Ela recusou o convite, disse que só tinha vindo de passagem. Dez minutos, ele pediu. Discutiram brevemente e ela cedeu. Ele tomou um ônibus e chegou antes dos dez minutos se findarem. No caminho a pianista havia mandado inumeras mensagens perguntando onde ele havia se enfiado. Ele ignorou e apagou todas.

Sentia-se culpado pelo que havia acontecido. Será que ela sabia? Pergunta idiota. Claro que ela sabia. Ele sabia que ela tinha vindo se certificar de que aquilo que sentiu no coração era fato. Ele não tinha palavras. Era um deslise. Ele não podia ter feito aquilo. Nas duas centenas de metros que separavam o ponto de ônibus da casa dele, pensou bilhões de coisas pra dizer. Sabia que ela pensou o mesmo bilhão de coisas para dizer. Ele imaginava que ela teria uma terceira guerra mundial pronta à começar diante do que ele tinha feito. Na manhã seguinte do ocorrido ele tinha ido com a pianista para buscar o piano eletrico dela e receber pela noite. Ouviu de uma moça, morena, que havia gasto uma quantia consideravel em bebidas caras. As peças do quebra-cabeça começavam a se encaixar. Merda, foi o quê proferiu três ou quatro vezes.

Ao vê-la, ali encostada na lateral fria do carro, braços cruzados, cenho franzido, careta de emburrada ele sabia que era sério. Ao vê-lo entrar na rua ela tirou do bolso o celular. Checou a hora. Ele abaixou o olhar. Ela estava puta da cara e o culpado era ele, apenas ele. Assim que ele se aproximou fez menção em falar. Ela pediu que ele se calasse. O coração dele parou. O ar parou. O tempo parou. Apenas o olhar se moveu vendo a mão dela lhe desferir um tapa no rosto dele. Logo em seguida, antes que ele pudesse expressar qualquer outro sentimento ela o puxou para si pela gola da camisa. Foi então que um beijo se fez e a lua cheia, grande e gorda brotou no horizonte.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Refrão de Bolero

Os dias depois daquele último beijo os dias tinham sido terriveis. Eles nunca haviam terminado propriamente dito. Não teve aquela briga violenta onde pratos voam, roupas são jogadas pela janela. Apenas foram rareando os encontros. Ele, por motivos alheios à sua vontade tinha se mudado para outra cidade. A casa era menor, porém o clima era mais ameno e havia uma laje de onde se podiam olhar as nuvens - A forma secreta que conversavam - e as estrelas. O acontecido era semelhante à uma fogueira que não se alimenta: aos poucos ela vai rareando, ficando menor até se apagar completamente. O quê outrora era luz e calor. Hoje eram trevas e frio. Frio.

Naquela noite não queria ficar no frio e na escuridão da casa. Suspirou caminhando até o portão o trancando. A motocicleta na garagem. Algumas caixas ainda residiam ali por pura falta de onde colocar tudo. Ao menos estava protegido da chuva. Algumas revistas e coisas que não tinham tanta importância ou necessidade de estarem guardadas em um local mais específico. Um carro passou lento, vidros abertos rumando para aquele bar. Não queria pensar, seguiu a rimar, foi ao bar. O lugar parecia aquecido. Entrou e se sentou em uma mesa ao fundo. No pequeno palco havia um teclado, um microfone e uma banqueta. Pediu um vinho barato, daqueles que esquentam. Doces demais.

A luz diminuiu gradativamente e uma voz grave anunciou a atração. Uma pianista. Olhou rapidamente em volta, muitas pessoas bem vestidas, roupas caracteristicas de uma época mais antiga. E ele de calça comum, camisa comum. Claro, haviam pessoas vestidas com trajes atuais. Mas um grupo que estava proximo do palco estava com trajes dos anos cinquenta. Assim que a moça entrou - trajando um belo vestido de noite, desses que ninguem compra, apenas aluga - saudou os presentes e se sentou ao piano. Na terceira música ele já estava embriagado, não só pelo vinho pobre, mas pela música, pela voz da jovem, que, dificilmente, teria mais de vinte e dois anos. Embora a maquiagem tentasse, em vão, dizer que ela era mais velha.

Ao fim da apresentação ele a chamou para dar os parabéns por tal performace. Ela, visivelmente envaidecida, agradeceu. A refeição fizeram ali. Beberam outro vinho, mais encorpado, mais caro inclusive. Estavam conversando quando um amigo a chamou. Ele sorriu ciente de que sua compania iria embora. Roeu o canto da unha do dedo minimo, puro vício. Enquanto se distraiu com a propria mania ela voltou. Cantarolou "frágeis testemunhas de um crime sem perdão" e se sentou novamente à mesa com ele. Retomaram a conversa. Ela tinha fala fácil, conversava, contava histórias como se fosse uma cigana dessas que leem mãos pela rua.

Conversaram até tarde da noite. Foi quando veio a proposta, a principio inocente, motivada pelo bar que iria fechar: continuar a conversa em outro lugar. Ela morava em um bairro distante. Ele morava a poucas quadras. A escolha foi um tanto quanto óbvia. Passaram a noite juntos. Cantarolaram diversas músicas. Contaram cada qual sua história, suas feridas, suas dores, suas alegrias e amores. Acabaram atraídos um pelos lábios dos outros. Havia uma dor muito grande nela que ele não havia conseguido chegar. Ao vê-la sair da cama e procurar pela bolsa ela pediu um local para fumar. Péssimo hábito. Triste sina. Ele indicou a laje enquanto iria preparar o café. Enquanto preparava o café se perdeu no pensamento, apesar dos amigos, ela parecia tão sozinha, parecia que era a personificação da solidão dele. Quando ela voltou tomaram café, combinaram de se ver novamente mais tarde. Ele, antes de sair para o trabalho, checou o celular. Nada. Nenhuma mensagem. Jogou o aparelho no bolso e saiu, sem ideal nem esperança.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Último Beijo

Eu ainda conhecia o endereço de cor e salteado. Podia ir de olhos fechados que não me perderia. Mesmo que a chuva tirasse a percepção e deixasse o clima mais frio eu ainda sabia exatamente o lugar de tudo naqueles quarteirões. Antes de seguir até lá resolvi ver meu antigo endereço. A casa tinha uma luz acesa na frente, o jardim estava bem cuidado... provavelmente uma familia estava morando ali. Reslvi não bater nem me fazer apresentar. Tem coisas que melhor deixar como estão. Sendo assim segui o rumo.

Aquelas ruas eram iguais ao que eu me lembrava. Também pudera, não faziam nem seis meses que eu havia estado aqui pela última vez. Que tinha tomado um chocolate quente e... também chovia. Curioso. Quase as mesmas condições climáticas - hoje estava, absurdamente, mais frio -, e a padaria - que estava fechada -, constrastavam no ambiente comparativo daquela outra vez. Olhei pra cima e o prédio impunha respeito. Oito. Oitenta e quatro. Puxei a gola do sobretudo e segui em frente. Precisava fazer isso de uma vez por todas.

Assim que adentrei no hall de entrada o porteiro me olhou, sorriu já dizendo que ela não estava em casa e... disse que só precisava fazer uma coisa e já saíria. O elevador já estava funcionando, mas fiquei de costas para o grande espelho que continha no aparelho. O frio fazia minhas feições ficarem avermelhadas. Meus olhos ficavam mais lacrimejantes... eu não nasci pra essa região do mundo. Tinha de trabalhar pra me mudar pra qualquer lugar acima dos tropicos, quanto mais perto da Linha do Equador melhor. E de frente para o mar, como naquele antigo sonho que tivemos.

Oitavo andar. Aqui estamos. Respirei fundo e saí. As chaves seguiam no mesmo lugar. Escondidas dentro da caixa onde ficava a mangueira de incêndio. Destranquei a porta olhando o tapete, não era mais aquele de borboletas. Era um outro, simples, desses que se compra em lojas de preço único. Lamentavel, sorri de canto entrando. O apartamento tinha um ar gelado, porém, apesar disso, ainda muito acolhedor, rico em lembranças. Caminhei no escuro como se fosse morador dali. Ao chegar na geladeira tudo arrumado, a lavanderia explicou o tapete simples: o de borboletas estava secando próximo da maquina de lavar. O apalpei... ainda estava úmido. Deixei-o ali, repousando tranquilo.

O quarto estava arrumado, o armário tinha menos roupas que o habitual. As malas não estavam em cima do armário, eu sabia que ela tinha viajado, por isso estava aqui. Tinha de vir uma última vez. Última. Quando essa palavra ocorreu por minha mente uma lágrima ousou brotar no canto de meus olhos. Respirei fundo. Tinha de ser forte o suficiente e continuar isso. Seguir adiante. Porta a fora e seguir o rumo. Assim era a vida. Antes algo me chamou a atenção, um reflexo de luz se fez jogando um pequeno feixe de luz em algo brilhante. Um porta-retratos. Desses com armação de aço inox. Sem muito luxo.

Eu conhecia aquele sorriso na foto. Aquele sorriso gostoso que ela tinha quando estava feliz. Quanto estava satisfeita. Quando cozinhava algo que dava certo. Quando conseguia me surpreender, quando me levava às lágrimas ela sorria daquela forma. O sorriso triunfante. Porém, o sorriso ao lado dela, que por muito era meu. Já não era mais. Dei um beijo suave sobre o vidro, na testa dela. O porta-retratos voltou ao lugar de origem. Saiu entrando no elevador. Se deixou olhar no espelho. Aquele último beijo tinha mesmo um gosto estranho, naquele último beijo um sabor de despedida.

domingo, 14 de julho de 2013

Chuva II

Era uma terça-feira. Antony, ou melhor Tony, como gostava de ser chamado as odiava. Sempre o dia mais parado da semana. Os crimes do final de semana já foram solucionados, os da quarta-feira de esportes na TV ainda seriam cometidos. Deu uma última tragada no cigarro o jogando o restante - menos da metade - pela janela três andares abaixo. Brandiu algum xingamento por seu escritório estar tão próximo do chão. Os fios de eletricidade, os caminhões que passavam pela rua tapavam sua visão. Seu telefone tocou, não, não era o telefone, era interfone. "Fala" apertou o botão já desgastado pelos anos de uso interpelando sua secretária, do outro lado da parede. O comissário de policia veio ao seu encontro. Enquanto ele entrava com um charuto fedorento entre os dedos. Por um segundo Tony pensou se havia pago aquelas multas todas... até onde se lembrava, não tinha. Sem a menor cerimonia o comissário se sentou reclamando das cadeiras. Vou ser direto Tony, brandiu ele com uma coluna de fumaça saindo junto da voz, Jack está vivo e fugiu do hospital. Jack.

O famoso assassino que levou um tiro de calibre doze no corredor de seu apartamento naquele dia de chuva. Tony sabia quem havia atirado nele. Sabia porque havia sido ele. Jack sempre foi muito esperto em esconder seus traços, seus assassinatos eram brutais. O comissário sabia que era ele na maioria dos casos, mas nunca havia nenhuma prova. Um único detetive particular, Tony, havia descoberto o rastro e, quando estava próximo de solucionar o caso, Jack matou sua esposa. O golpe foi baixo demais. Agora era pessoal, esse foi o motivo principal que levou Tony ao apartamento de Jack aquele dia. Que fez Tony descarregar os dois canos da espingarda calibre doze no peito de Jack. Por achar ter feito tudo certo saiu. Mas, pelo visto não. Puxou outro cigarro do maço e o acendeu quase sem fazer movimentos desncessários. O comissário sabia que havia sido Tony a ter feito o disparo, por isso não soltou a noticia para a imprensa. Não tinha provas, mas sabia que era pessoal.

Então, continuou o comissário batendo a cinza no cinzeiro já cheio, o quê vai fazer? O quê acha? Vou terminar o que comecei, respondeu Tony esmagando o restante do cigarro no cinzeiro. Tinha de parar com isso. O cigarro o mataria antes de Jack. Tony abriu a gaveta e de lá saiu uma pistola nome milimetros. Ele checou o pente se estava carregado. Estava. Engatilhou a arma e colocou às costas cobrindo com a blusa. Tem um problema, aquele homem corpulento, sentado à frente da mesa continuou, ele está fugindo com uma garota, filha do prefeito, não que eu goste do prefeito, mas... Tony entendeu a indireta. Não ligava. Mataria quem quer que fosse para lavar sua honra. Sabia que isso não adiantaria merda nenhuma, mas não ligava. Queria mais era vingança, vendetta. Quando pensou na moça pensou de mata-la primeiro, de modo a fazer Jack sentir o golpe. Mas ele era frio o suficiente pra pegar essa hesitação de Tony e acabar com ele.

Mais algumas frases foram ditas, a policia sabia onde Jack estava indo. Eles dariam algumas horas de vantagem para Tony. O comissário sabia como era isso de vendetta, afinal ele também tinha descendência italiana, sabia como a máfia agia e respeitava esse tipo de coisa, mesmo achando errado. Dito o que tinha de dizer ambos saíram. Na rua cada qual entrou em seu carro. Tony ia naquele velho Mustang Fastback dos anos 60, azul escuro que havia achado por uma pechincha. O comissário em seu taurus, um carro de policia descaracterizado, mas que trazia no porta-luvas o giroflex vermelho, semelhante àqueles de seriados americanos dos anos oitenta. Com o endereço em mãos Tony seguiu pelas ruas certo de seu plano. E depois? Depois não importa. O quê importa é o agora. Na frente da velha fundição havia um carro, uma Chevy Suburan. Pela cor - verde escuro - ele deduziu ser da moça que estava com Jack. Tirou a pistola da cintura. Checou as balas uma última vez. Puxou o para-sol, a foto de sua mulher sorrindo lhe abençou. Tinha mais fé nas pessoas que nos santos, até mesmo mais fé que em Deus, isso se, claro, ele existisse mesmo. Se benzeu e saiu do carro.

Ao entrar no prédio sentiu o ar pesado. Sabia que aquele seria o último de seus casos, depois pretendia se aposentar e, quem sabe, escrever um livro com suas investigações. Quem sabe pudesse, assim, ter alguma paz dentro de si. Estava ficando velho, beirava os cinquenta anos já, não convinha esse tipo de ação para alguem tão velho. Caso ainda estivesse na policia certamente já estaria em funções administrativas, preso à uma mesa de escritório esperando a data da aposentadoria chegar. Avistou Jack. Jack avistou Tony. Um apontou a arma para o outro. Trocaram nem meia duzia de palavras. Tony atirou ao fim de suas palavras. O disparo de jack saiu torto, os meses no hospital o fizeram perder a precisão no tiro. Vendetta cumprida. Logo após o quê se ouviu foi outro tiro. Michele, a filha do prefeito, amante de Jack, disparando em Tony. Porém o tiro de Jack havia ricocheteado e achado alguns tonéis de combustivel. Agora a velha fábrica ganhava luzes produzidas pelas chamas que tomavam o lugar. A vingança de Tony foi cumprida. O sonho de Jack de ter sua vingança também. A Michele coube apenas fugir do incendio. Quando a policia chegou ela disse que os dois lutaram bravamente e um atirou no outro. Ela, filha de um siciliano, neta de um mafioso conhecido, tinha garantido a honra dos dois, e da dela. Honra lavada com sangue é honra mantida. O quê ambos nunca souberam era sua origem: ambos de famílias opostas, ambas da pequena ilha ao sul da Itália. Ambos mantendo a tradição que nunca nem ao menos souberam existir. E ambos mantendo a balança em equlibrio.