domingo, 10 de março de 2019

Salto de Fé

Faziam quase dois meses desde que Janaína e sua melhor cúmplice haviam se reencontrado por um fruto imenso daquela grande árvore do acaso. Ainda recebia uma ou outra mensagem de amigo da faculdade que a convidava para sair. Bares. Boates. Lanchonetes. Motéis... não era mais algo que ela queria. Ainda que nunca tivesse vivido tudo aquilo com a mesma intensidade de seus colegas. Ouviu a porta atrás de si abrir e só então se deu conta de que estava na varanda da casa que havia arranjado depois da peripécia de sua amiga.


- Oi... - Helena parou ao lado da amiga - ... um dólar em troca de saber o que se passa nessa sua cabeça.


- Você não tem um dólar - Janaína sorriu olhando para Helena que já não tinha mais a aparência cadavérica daquela malfadada noite - Como está?

- Me sentindo um lixo - Helena tirou o maço de cigarros do bolso e acendeu dando uma tragada forte soltando a fumaça na direção oposta da amiga - Mas não chega a ser uma novidade.

- Então somos duas... - Janaína fez careta ao ver o cigarro - Espero que esse seja o último.

- De hoje sim - Helena bateu a cinza no vaso de salsinha - E único... me propus a fumar um por dia até não querer mais.

- Bom... assim é bom.

- Mas e você?

- Que tem eu?

- Largou tudo pra cuidar de uma desmiolada como eu - Helena soltou a fumaça admirando o desenho no ar se dissipando - E aquela moça maluca lá... Érika, não é?

- O que tem ela?

- Vocês tavam de caso quando eu apareci...

- Caso? - Janaína riu - A gente se conheceu no bate-papo, marcamos um dia e depois disso a gente se viu uma vez numa lanchonete aqui perto, o objetivo dela era só o motel.

- Que vadia - Helena apertou a bituca na palma da mão - Vou tomar banho.



Helena havia definido tão bem que Janaína ficou sem palavras sentindo os auspícios da noite. Esse lado da cidade parecia uma pequena cidade do interior, poucos prédios, comércio onde as pessoas se conheciam pelo nome. Apesar de ainda estar na mesma Metrópole aqui podia ouvir grilos, cigarras... quase sentiu saudade de quando morava no sul. O celular no seu bolso tocou. No visor o nome de Érika se escreveu. Ponderou ignorar, mas hoje resolveria isso, atendeu tomando a dianteira.

- Alô...

- Hey, Janaína - Érika parecia alterada, bêbada talvez - Tudo bem?

- Não muito - Suspirou - Mas já-já melhora.

- Melhora sim - o som ambiente quase tornou a ligação insuportável por um instante, mas o silêncio imperou - Sobretudo se a gente sair pra tomar alguma coisa... que acha?

- Não ando muito afim de sair, Érika...

- Eita - A voz dela perdeu um pouco do tom alcoolizado - E por que?

- Por que eu ando ocupada...

- Ainda de babá? - Ela estava alcoolizada - Digo...

- Babá? - Janaína sentiu o sangue subir - Eu estou ajudando uma amiga, uma irmã a superar o vício em drogas, depressão e tudo mais e você diz que eu sou babá?

- Janaína - Érika sentiu que falou besteira, era a confirmação daquela máxima que o álcool entra e a verdade sai - Me desculpa, eu...

- Não desculpo não - A respiração de Janaína acelerou - Sabe por que?

- Por que?

- Porque eu não abandono as pessoas por uma noitada, uma tara, um desejo sexual qualquer - O tom era extremamente duro - Esses dias passei pelo seu bairro e vi um cartaz de desaparecida com a sua foto - Janaína caminhou para fora da varanda, não que Helena a ouvisse aos berros - Você foge de casa, deixa marido e dois filhos em casa pra que? Viver umas fantasias sexuais? Pelo menos tivesse a coragem de dizer que ia embora mas, pelo que assuntei, você meteu o pé no meio da noite, me diz, ta valendo a pena?

- Eu...

- Calaboca que eu não terminei - Janaína resolveu jogar toda a frustração que tinha em Érika - No fim você é só uma covarde que foge e fica procurando motivo pra transar ou experimentar algo insano qualquer - Hora do gran finale - Eu te respeitava quando você disse que era CamGirl, sério, eu me coloquei no teu papel e entendi que você precisou se virar pra sustentar sua família e, por mais incrível que pareça, eu aceitei que a gente se encontrasse porque eu também queria espairecer e até aceitava que poderia ter acabado no motel... buscar uma diversão assim até vai porque sei que ninguém é perfeito agora fugir na calada da noite deixando filhos? Caralho, você é mais egoísta do que eu imaginava - Janaína sentia a mão tremer, o coração acelerado, o silêncio perdurou por dois pares de segundos, em seguida ela suspirou -  na boa, volta pra sua família e vai se tratar, porque o que você tem não é safadeza ou desejos diferenciados... é doença mental.

O silêncio imperou. Janaína havia pegado pesado, porém tudo o que falou era o que remoía faziam dias toda vez que pensava em Érika. Ter família, ter filhos pode não ser muito compatível com uma vida oculta, mas não justificava abandonar um para dedicar-se apenas ao outro. A respiração pesada foi se aliviando e do outro lado da linha se ouviu um nariz sendo assoado.

- V-você t-tem razão - um ataque de lucidez? - E-eu... o quê eu tô fazendo?

- Sinceramente? - O tom seguia áspero - Eu não faço a menor ideia.

- M-me leva pra casa?

- Desculpa, Érika... mas não vai rolar - Janaína soltou um profundo suspiro - Preciso ficar de babá.

- Eu... 

Apesar do ódio e da vontade de abandonar, Janaína jamais deixaria uma pessoa na mão, mesmo que fosse uma tremenda filha da puta. Tinha horas que ela odiava esse gênio herdado de seus pais, mas era isso que a tornava a única pessoa que Helena confiava.

- Me passa o endereço de onde você tá - Janaína olhou a lua sair de trás de uma nuvem - E o endereço da sua casa, vou mandar um carro... depois disso não me procura mais até resolver sua vida... cara, eu fucei a rede social do seu marido e você tem uma família maravilhosa, aproveita isso e agradece a deus pela dádiva que você recebeu.

- E-eu... - o choro era extremamente audível do outro lado - Obrigada.

- Tudo bem, você tem cinco minutos para mandar os endereços, se não mandar eu mando descobrir onde você está e mando seu marido ir te buscar.

- Não precisa - Um dos endereços acendeu a tela do celular de Janaína - Eu... vou arrumar isso... não sei como, mas vou dar um jeito.

- Vai sim, você é capaz. 

- Tomara que seja mesmo... - Érika digitou e enviou o outro endereço - Mais uma vez obrigada.

- Tudo bem, agora resolve tudo isso - Janaína suspirou - Tchau.

- T-tchau.

E o silêncio se fez com o fim da ligação. Janaína enviou um carro e monitorou todo o trajeto, era incrível como ninguém conseguia rastrear Érika tão perto de casa, meia dúzia de bairros distante. Quando a corrida chegou ao destino julgou sua missão cumprida, agora era com Érika. Por dois segundos pensou que Helena havia feito basicamente o mesmo de fugir de casa... porém sem deixar marido e dois filhos.

- Difícil ser super-herói em tempo integral hem - Helena estava sentada no degrau entre a varanda e o pequeno pátio - Mas você tem potencial.

- Você acha? - Janaína se virou desligando a tela do aparelho - Aliás, desde quando você está aqui?

- Desde a parte do "eu sou babá" - Helena olhou para a lua, sorriu finamente retirando a toalha dos cabelos - Eu sou um fardo muito pesado pra você, Jana?

- Até que não... - Janaína se sentou ao lado da amiga - ... você é levezinha.

- Eu tô falando sério, Janaína Barcelos.

- Não é, Helena Vicent Stewart, não mesmo.

- Por isso que eu te amo - Helena virou o olhar para a amiga ao seu lado, ao passo que Janaína fez o mesmo. - Você mente duma forma que eu acabo acreditando.

- Mas é a verdade, sua besta - Janaína se levantou oferecendo a mão - Vem, vamos bolar um jantar.

- ... ou pedir uma pizza.

- Oh Hell, a vida não é só pizza - Helena se levantou seguindo a amiga para dentro - Tem macarrão também, você faz o molho enquanto eu tomo banho.

- Feito.

- Mas antes uma coisa... - Janaína parou na porta entre a cozinha e o corredor que terminava no banheiro - ... é bem sério e eu preciso te dizer.

- Que foi?

- Eu te amo, Helena.

- Eu também te amo, Janaína... - Helena sorriu se sentindo completa, não precisava de muito mais do que tinha agora - ... agora vai tomar banho pra tirar essa zica da Érika, anda, xô.

- Nossa, mó quebra clima.

Ambas riram enquanto Janaína ligava o chuveiro sentia o cheiro de cebola refogando. Era bom ver Helena nesse momentos. Que assim conserve até o momento que fosse avisar para a família dela que ela estava bem e que eles eram o problema. Se sentiu idiota por mandar uma pessoa voltar para o seio familiar enquanto mantinha outra afastada. No fim as duas podiam ter inúmeros problemas... o que diferenciava Érika de Helena? Janaína apenas conhecia a história de uma mais a fundo do que a outra. Talvez tivesse feito merda. Quando sentiu uma nuvem estacionar sobre sua cabeça duas batidas na porta do banheiro a despertaram, ela anunciava que o molho estava pronto e alguém tinha que fazer o macarrão. Janaína sorriu, a vida era tomar decisões e não se arrepender. Ela tinha tomado a dela e dito o que achava certo para Érika, se ela absorveu tudo errado, o problema não era mais dela. Fechou o chuveiro colocando um pijama e enrolando os cabelos em um coque. A vida era isso e agora tinha de cozinhar macarrão.

domingo, 3 de março de 2019

Despertar

Janaína não se lembrava onde havia largado os fones de ouvido, a última lembrança era a cama, caminhou a passos rápidos até o quarto e, enquanto girava a maçaneta sem cerimônia alguma lembrou-se que não morava mais sozinha, mas a ordem já havia sido dada para o cérebro, porém outra ordem sobre-escreveu a primeira: entrar e fechar a porta em seguida. 

As cortinas dum pano carmim filtravam a luz do sol e deixavam o ambiente em tons que iam do bordô até o rosa, que era o que iluminava o rosto de Helena que dormia com um sorriso quase enigmático. De repente a busca pelos fones de ouvido se tornou tão pequena diante daquela menina, daquela mulher dormindo ali, tão serena, tão doce... tomando o máximo de cuidado Janaína tirou do bolso da saia o telefone e tirou uma foto que não refletiu nem um décimo da beleza da cena. 

Sem saber porque se encostou na porta fechada do quarto e sentou no chão tentando imaginar com o que a amiga sonhava. As lembranças que deviam se passar pela cabeça dela, as dores, os traumas, as neuras... sem entender muito bem porque, quando deu por si novamente Janaína estava com os olhos rasos em lágrimas vendo Helena dormir como, por certo, a muito não dormia. Se lembrou daquela noite, para variar estava tendo o mesmo pesadelo do acidente, do carro, das cobranças, das vozes, de como gritou pra que se calassem e de acordar com o interfone. O porteiro da madrugada a chamava com urgência.

Em um piscar mais demorado toda aquela cena veio como um flash. Largou o interfone no ar e saiu porta afora de camisola, descalça entrou no elevador. Térreo. Desceu. Ao chegar o rapaz havia acomodado Helena em um sofá que havia na portaria, os olhos dela fechados, uma baba viscosa corria pelo canto da boca da moça. Por um instinto Janaína foi checar a testa. Ela estava fria, sem saber exatamente porque checou o pulso, aquelas milhares de horas assistindo seriados teriam de valer alguma coisa. Parecia fraco. Quando questionado o porteiro se limitou a dizer que um carro prata parou e jogou ela pra fora. Sentiu ódio por não conseguir rastrear o tal carro e poder socar a cara de todos aqueles desgraçados. Sua respiração ficou pesada um instante, trincou os dentes. Helena se moveu um pouco sem despertar e dissipou toda aquela raiva de Janaína. 

Os dias que se seguiram foram tão terríveis quanto aquela noite. Os médicos diziam não poder garantir se ela voltaria e, muito menos, se teria alguma sequela ou coisa do tipo. Foi só no segundo dia em que Helena não acordava que alguém lhe disse que era uma overdose. Janaína se sentiu terrível naquele momento. Como pode deixar que sua partner in crime cair tanto assim? E como não notou os sinais? Por sorte as enfermeiras foram com a cara dela e a deixavam dormir no mesmo quarto, em uma poltrona. Enquanto via os sinais vitais claudicantes Janaína abraçava os joelhos e chorava. Nada mais fazia sentido. Quase chegou a prometer para algum santo da capela do hospital qualquer coisa para que a amiga voltasse. 

Ela não comia, não bebia, só ia ao banheiro. Uma das enfermeiras lhe disse que tinha que se cuidar para quando Helena acordasse a visse bem. Foi só no terceiro dia que voltou a cuidar de si, ainda que minimamente e foi, no quarto dia, que Helena abriu os olhos e disse o quanto odiava ver Janaína chorar, ainda mais sabendo que ela se achava a causa. 

Abriu os olhos despertando daquela lembrança. Deu uma rápida olhada para cima e agradeceu aos céus por ter tido essa oportunidade de fazer mais por alguém e agradeceu de novo por esse alguém ser Helena. Nunca foi de religião nenhuma, mas, naquele momento, agradeceu a deus por tudo até aqui. A paz que sentiu dentro de si lhe preencheu como nunca havia se sentido completa e, sem saber bem porque, deixou que as lágrimas rolassem.

- Odeio te ver chorar - Helena estava com os dois olhos abertos, porém não havia movido um músculo além dos que controlam as pálpebras - Me sinto errada... de novo.

- Você não é errada - Janaína limpou as lágrimas - Eu estava chorando de alegria.

- Alegria? - Helena arqueou uma das sobrancelhas - Conte-me mais.

- Ah... - Janaína suspirou com um sorriso nos lábios - ... te ver dormindo assim é tão... lindo sabe? Te ver bem faz eu me sentir útil...

- Lá vem você com isso - Helena deu um pulo pro lado - Vem cá que vou mostrar sua utilidade.

- Assim, no meio do dia? 

- Problems, where? - Helena notou que Janaína estranhou a proposta - Vai lá, fecha a casa, eu te espero...

Ainda um pouco contrariada Janaína levantou do chão e saiu do quarto deixando a porta aberta. Sabia que, quando Helena propunha algo assim, ela não podia negar, até porque ela sabia que ela também precisava disso. Era biologicamente necessário. Trancou a porta, colocou o cadeado na única janela que havia aberto. Na volta para o quarto pegou uma garrafa de água, afinal não precisar sair do cômodo naquele momento tão delas era crucial. Voltou ao quarto deixando a porta só encostada, afinal podiam precisar sair correndo para o banheiro.

- Pronto - Janaína deixou a garrafa do lado da cama pedindo espaço para se deitar ao lado de Helena - Enfim sós.

- Oba! - Helena abraçou Janaína que abraçou de volta roubando um selinho - Gostei disso.

E, sem se preocupar com mais nada ao seu redor, como se toda a criação houvesse parado para que as duas pudessem vivenciar aquele momento em sua plenitude não se ouviu, naquele resto de dia, nenhuma buzina, nenhuma sirene, nenhum carro com som alto, nenhuma voz vendendo algo na rua. Os únicos sons que se ouviam naquele instaste raro eram de alguns carros ao longe, de pássaros no telhado e da respiração de Helena e Janaína se acalmando aos poucos até que, enfim dissiparem os pensamentos ruins com uma das atividades mais básicas de todo ser vivo. Com um sorriso fino ambas se permitiram dormir no meio de uma tarde de terça-feira.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Beco

Faltavam dez minutos para o horário combinando quando Janaína rumou para a praça de alimentação. Por ser véspera de final de semana só haviam jovens casais, grupos de amigos e uma ou outra pessoa soterrada dentro de seus próprios fones de ouvido. Se não estivesse com um encontro marcado Janaína seria do último grupo, com os fones enterrados o mais fundo possível dentro das orelhas de modo que abafasse ao máximo os barulhos externos, odiava ouvir vozes, pessoas rindo ao seu redor lhe faziam pensar que ela era o assunto das vozes, ela era o motivo dos risos. Às vezes era complexada demais. Credo.

Caminhou lentamente como se procurasse alguém e, pela primeira vez em anos, procurava mesmo. Puxou o celular do bolso da saia e ponderou um instante. Quando era mais nova sempre se perguntava porque saias não tinham bolso e agora cá estava com uma saia com ele. Checou as mensagens. Nada. Olhou em volta minuciosamente, ninguém parecido com uma loba. Com a agilidade de quem escrevia demais na tela do diminuto aparelho mandou mensagem.

"Já chegou?"

Dez segundos e a resposta veio. Janaína gostou da agilidade. Estava com o coração na mão e nenhuma gota de álcool no sangue. Quase cogitou cancelar tudo, mas ao ler a resposta sua pulsação foi tão forte que pensou se tinha risco de uma arritmia.

"Já, tô na escada rolante, como você está?"

Tinham combinado tudo tão nas coxas que nem tinham dito com que roupa iriam nem nada do tipo. Janaína era amadora demais nisso. E se a loba fosse uma traficante de órgãos? Sorriu com a própria paranoia. Dedilhou uma resposta tipicamente sua, das que faria respondendo Helena.

"De roupa, infelizmente."

Antes que a loba pudesse responder Janaína completou.

"Saia longa, blusa e cabelo solto... e você?"

A resposta não veio. Não precisou. Érika havia chego. 

- Olá... Janaína?

- Loba?

- Não fale da minha identidade secreta - a morena riu enquanto Janaína levou alguns instantes para se acostumar à energia de Érika e entender como piada - E aí, tudo bem? - Trocaram beijo no rosto como se fossem velhas amigas se encontrando.

- Ah, tudo, só meio de ressaca - Janaína riu da própria mentira - e você, ta boa?

- Tô sim... quer ir pra um lugar mais daora?

Janaína não sabia se estava afim de sair do shopping e ir para um lugar qualquer. Toda aquela experiência era nova para ela, talvez fosse melhor ir com calma e não ir para o motel logo de cara. Pensar nisso a fez corar. Érika notou a timidez da mulher à sua frente. Não era tão gostosa quanto havia sonhado, mas também não era de todo ruim. Corpo normal, cabelos loiros meio castanhos, pele branca típica do sul. A sugestão da morena foi um bar de rock um pouco afastado, não queria correr o risco de ser pega por algum parente ou até mesmo vizinha fofoqueira. Por alguns segundos se sentiu fora da lei cometendo um crime. E, sem saber ao certo o motivo, adorou a sensação.

Houve alguma hesitação da raposa quanto ao convite. Claro que ela queria ir para um lugar mais reservado, mais silencioso e até mesmo mais escondido. Apesar da Metrópole ter seus mais de doze milhões de habitantes sempre encontrava algum conhecido da faculdade, da sua rua, do seu prédio. Ao mesmo tempo que a cidade era imensa parecia um ovo. Ela acabou topando. Tinha ouvido falar do lugar que Érika sugeriu... ou não? Deixou a morena em frente do shopping enquanto ia no estacionamento do outro lado da rua buscar o carro. Com a destreza de uma piloto de fuga Janaína estacionou em fila dupla em frente de Érika que logo embarcou colocando o cinto.

Dentro do carro Janaína notou que Érika tinha nas mãos uma carteira de cigarros. Primeiro ponto negativo de Érika: fumava. Se bem que ela não parecia uma fumante típica. A loba colocou a carteira de cigarros, que tinha comprado no bar em frente do shopping, no porta-luvas do carro, como se fosse seu. Não sabia porque, mas se sentia a vontade com Janaína, mesmo ela sendo terrivelmente quieta. 

- Você é bem quieta - Érika falou olhando de canto de olho para Janaína que parecia compenetrada com a direção. - Tá tudo bem mesmo?

- Hum? - Janaína saiu de seu transe, pensava em Helena e onde ela poderia estar, a mensagem de que ela voltaria já tinha completado quase um mês e nada dela aparecer, na verdade nem mesmo uma resposta, tudo isso a preocupava muito, ao longe a voz de Érika parecia uma lembrança de porque ela estava ali agora - Está sim... só estava pensando...

- É? - Érika se virou sorrindo, já pensou em mil coisas que sempre quis fazer e agora estava com a oportunidade - E posso saber em que?

- Em uma amiga - Helena era muito mais que uma amiga, mesmo não tendo nada sanguíneo elas eram irmãs, mesmo não tendo nenhum laço romântico eram amantes, mesmo não sendo uma a terapeuta da outra eram confidentes.

- Amiga ou amiga algo mais?

- Amiga mesmo - Janaína era ótima em contar meias verdades - Foi viajar e não mandou mais notícias... mas sei que ela está bem, sabe se cuidar... - Deu a seta e virou para a esquerda seguindo orientações do GPS - ... eu espero.

- Logo ela aparece - Érika sentiu o clima ficar meio pesado - Mas me diz, fora ficar de madrugada na internet, você trabalha? Estuda? Namora?

- Aparece sim, se não eu arranco a espinha dela - Janaína sorriu para Érika a primeira vez desde que entraram no carro - Então, eu trabalho com publicidade, já me formei, não é meu costume ficar a madrugada toda na internet... ontem eu só estava... - Ponderou um instante parando atrás de um carro luxuoso no semáforo - Dando uma variada... mas e você? Trabalha? Estuda?

- Trabalho pra uma multinacional, nossos clientes estão na Rússia e na Ásia, aí fico on-line a madrugada toda - Érika também era boa em falar meias verdades - Estava pensando em voltar a estudar, mas ainda não, tenho umas coisas pra resolver antes...

- Tipo um casamento? - Janaína era ótima observadora, tal qual uma raposa percebeu na mão esquerda da loba o anel dourado, devia ser um quilate baixo, talvez fosse apenas folheado a ouro e não de ouro mesmo, sabia de uma pessoa que conseguiria identificar isso em uma olhada, mas ela estava longe demais e também não importava - Desculpa, sou ótima observadora, quando não estou me vendendo para alguma agência de publicidade costumo escrever.

- Eu... - Érika, que sempre foi muito falante a ponto de abafar outras pessoas com suas falas agora calou um instante, por mais que tentasse correr a verdade sempre a alcançava - Quanto à isso estou bem resolvida.

- Está mesmo? Quero dizer, não estou julgando - Janaína pensou um instante - É que on-line de madrugada, no bate-papo, bebendo tequila em plena quinta-feira, com aquele cenário atrás...

- Olha só - Érika saiu da postura defensiva e resolveu ver quais cartas a loira tinha nas mãos - Estou ouvindo sua teoria.

- Então - A rua estava vazia, a manutenção do carro estava boa ao ponto de se poder largar o volante e ele seguir em linha reta, Janaína estralou os dedos enquanto o fluxo de veículos ao seu lado ia ficando cada vez menor, sinal de que se aproximavam de seu destino - Eu apostaria que pela qualidade da câmera, você trabalha com ela, pela sua desenvoltura... - Janaína sorriu passando a língua no canto esquerdo dos lábios - ... você trabalha como camgirl ou algo assim.

Érika empalideceu por completo. Foi desmascarada tão rapidamente que pensou quantas pessoas mais deveriam desconfiar isso dela, sentiu o corpo inteiro gelar. Balançou a cabeça negativamente buscando retomar o controle da situação. Se bem que era a primeira vez que saía com alguém que conheceu na internet. Tinha duas opções: negar tudo ou confirmar. Olhou para a direita, os prédios baixos tomavam conta da lateral juntamente com alguns muros pichados e algumas árvores, sem saber ao certo porque se sentia confortável com Janaína, talvez porque ela não representasse nenhuma ameaça.

- Você é ótima observadora, Raposa. - Érika passou a olhar fixamente para Janaína como se buscasse alguma coisa aparente para ter como trunfo - Acertou em cheio.

Janaína sorriu, sempre teve essa espécie de dom/maldição de conseguir ler as pessoas e descobrir coisas sobre elas antes mesmo delas falarem. Foi assim que sentiu que Sophia não era uma pessoa tão boa assim e, tão logo pode, se afastou. E com Helena esse "poder" parecia não funcionar, porque não pressentiu nada dela. Antes que pudesse pensar em algo, o GPS indicou que o lugar era aquele. Desconectou o aparelho vendo que tinham levado pouco menos de meia hora para vir do shopping ali e que o silêncio foi o que imperou na conversa das duas. Era bom, gostava de silêncio, mesmo que fosse um encontro ou algo do tipo. Pensar em encontro a relembrou de Helena, não era raro se encontrarem em situações absurdas.

O carro foi parado em um estacionamento ao lado do bar de rock que Érika dizia ser um bom lugar. Fachada bem cuidada, música boa vazava pela porta semi-aberta, ambiente sem fumaça... Janaína conferiu se o carro estava bem fechado e ligou o alarme. Afinal, confiava em deus, mas sempre trancava as portas e janelas. Apesar de já ter passado das vinte e duas horas o local não estava tão cheio. Novamente o pensamento de Janaína foi para Helena. Suspirou enquanto deixou que Érika decidisse o cardápio. A morena optou por uma porção de fritas e, quando foi pedir dois chopes Janaína recusou, disse que estava dirigindo. Uma meia verdade para encobrir que não gostava de cerveja, a loba pareceu aceitar e a raposa optou por um guaraná.

O papo aos poucos foi fluindo, Érika se soltava bem com álcool. Janaína, por ser quase imune aos efeitos de bebida que não fosse sono, se soltava no mesmo ritmo. Falavam de fatos da vida, de planos de carreira até chegarem ao ponto exato que ambas tinham pensado em chegar. Colocar desejos para fora. Depois do segundo chope a Loba estava mais liberta das amarras que a prendiam dos desejos. Já a raposa estava em uma fase da vida que estava disposta a experimentar tudo que pudesse, mesmo que isso pudesse a matar, afinal se Helena podia, por que Janaína não podia?

Ainda restavam alguns palitos de batata no prato, uns pedaços de bacon relegados à mistura de ketchup e maionese que Érika havia feito no seu canto da tigela. Na caneca da Loba não tinham mais que dois dedos do terceiro chope. No copo da Raposa não deveria haver um dedo de refrigerante - agora de limão. Do seu lado do prato Janaína deixou fragmentos de cebolinha. Helena adorava cebolinha na batata frita, hoje ela pensava demais na amiga que tinha sumido, mandado um sinal de vida e sumido novamente. Dizem que quando se pensa muito em uma pessoa ela tende a aparecer, como se atendesse a um chamado.

- Raposa... - Érika estava com a voz mais mansa, não estava bêbada, mas estava com a língua mais enrolada - ... o que acha da gente ir para um lugar mais reservado?

- Vai acabar pegando esse apelido - Janaína riu brevemente, mordiscou o lábio olhando para Érika - Acho ótimo.

Como se fosse um movimento ensaiado a exaustão Érika chamou o garçom enquanto Janaína procurava um motel no aplicativo de mapas. Tão logo a conta veio Janaína comprou uma embalagem de bala de eucalipto, leu em algum lugar que aquela bala somada ao gosto de outra pessoa era algo incrível. Hoje testaria tal teoria. Érika, ao ver o movimento de Janaína teve um pensamento muito semelhante, porém já havia testado com Wellington. Pensar nele trouxe uma certa dor no peito que durou o tempo exato de uma respiração, não era traição porque era com uma mulher e não com outro homem. Acreditou nessa própria versão de não-adultério. Funcionou na sua cabeça.

Érika saiu dois passos atrás de Janaína que já procurava as chaves do carro na bolsa. Com a chave na mão checou em volta, não havia nada muito suspeito além de um beco entre dois prédios baixos onde, com toda a certeza, várias prostitutas faziam seu trabalho. Janaína pensou nisso e logo ponderou que o trabalho de Érika era quase isso a diferença é que a camisinha era o firewall do computador. Fixou o olhar ali enquanto a morena se aproximou esperando o destravamento das portas. Parecia haver movimento, talvez fosse sua imaginação. 

Assim que Janaína entrou Érika demorou-se um segundo, talvez o álcool tivesse fazendo efeito e os movimentos da Loba ficavam mais lentos. Um dos vultos saiu do beco correndo na direção do carro. A Raposa pensou em arrancar, podia ser um assalto, mas algo a impediu de sair com o carro, por isso acompanhou a corrida. Uma mulher, jovem, veio aos berros, falava algo sobre ali não ser seguro ou algo do tipo. Um estalo e o instinto de ser humano vindo do interior fez Janaína descer do carro para ajudar. 

Seu coração parou quando o vulto vindo definiu-se em sua mente. Afastou os lábios. Completamente em choque. Mas quando? Como? Não fazia sentido. Érika, acostumada aos desesperos da cidade, ao ver a moça com sangue, catatônica e quase desmaiada a posicionou deitada no banco traseiro do carro e já se posicionou no banco do passageiro fechando a porta. Janaína seguia parada. Tudo aquilo não fazia sentido. Um grito vindo do interior do veículo a puxou de volta à realidade. Se colocou na pilotagem e saiu em disparada enquanto a Loba buscava um hospital ou local que pudesse atender a desconhecida. A Raposa só estava reagindo à toda aquela situação a que foi exposta. Foi quando uma voz vinda do banco traseiro a fez despertar. 

A voz chamou seu nome. A Loba não entendeu nada. Janaína entendeu menos ainda a puta coincidência. Doze milhões de pessoas, milhares de ruas, centenas de becos escuros e do único que estava perto saiu a única pessoa que Janaína queria encontrar. Seria obra de um deus? Milagre de ano novo? Não sabia dizer. O que importa é que seu rolê acabaria agora. Ao diminuir para passar em um semáforo que piscava amarelo, a Raposa explicou para Loba quem era a pessoa, a incrível cagada disso acontecer ali, justamente hoje. Érika demonstrou entender, apesar de trabalhar com o que trabalhava tinha uma religiosidade forte o suficiente para acreditar que foi deus quem fez a moça aparecer e impedir que as duas acabassem no motel. Janaína disse que não sentia que precisava levar ninguém ao hospital, que ela resolvia, a Loba entendeu e pediu para lhe deixar em alguma estação do metrô. A loira não concordou e levou a morena o mais próximo possível de casa. Passavam das quatro da manhã quando a Loba deu um beijo suave nos lábios da Raposa e disse que ainda não ia desistir dela, demorasse o tempo que demorasse. Era o álcool falando.

Como último pedido da noite Janaína pediu ajuda para colocar a passageira no banco ao lado do seu e a fixar com o cinto. Ela logo acordaria. A Raposa conhecia esse tipo de reação, primeiro acelerada, depois alguns machucados leves e por fim histeria. Vários colegas de faculdade tinham isso nos finais de semana. As duas despediram-se com um beijo mais ardente. Era o primeiro beijo de Janaína em outra mulher. Não era o primeiro mas certamente o melhor beijo de Érika em outra mulher. A Raposa pediu alguns dias para resolver tudo e marcarem novamente, dessa vez no apartamento dela. A Loba concordou e aceitou o convite. Enfim Janaína saiu com o carro agradecendo a ajuda. Ao ver o corpo despertando com uma respiração pesada a loira sorriu diminuindo a velocidade do carro. Tanta coisa passou por sua cabeça na última hora que não conseguia concatenar os pensamentos e pensar em nada para dizer. Respirou fundo e, num suspiro aliviado, disse como a quem desperta depois de uma bela noite de sono em um tom de voz tão doce que faria inveja à qualquer doceria. A intrusa merecia esse tom doce, pelo menos agora. 

- Helena?

sábado, 22 de dezembro de 2018

Loba

Mandou um beijo com a palma da mão, agradeceu pela companhia até agora e deu tchau fechando a câmera. Suspirou aliviada deixando o corpo cair na cama. Tirou a peruca rosa a jogando para o lado. De olhos abertos Érika viu o teto do quarto sujo. Qualquer dia tinha de limpar, se bem que esse cômodo aqui só precisava estar arrumado o que ela queria mostrar nas lentes - no caso a cama, uma parede com funkos que ganhou de presente e um grande quadro de uma pinup que achou em uma loja por um preço ridículo.


Várias vezes pensou em parar. Aquilo ali não era vida. O pior é que ela gostava, fora que era um puta complemento de renda. Se ficasse apenas como garçonete nos finais de semana não poderia manter o padrão de vida que seus filhos tinham. Terça, quarta e quinta tinha show marcado. Enquanto alcançou o celular chegou na mesma conclusão que sempre chegava: pelo menos não era prostituição na rua, ela apenas se mostrava na câmera e sempre com quem pudesse pagar mais. Em um mês bom tirava quase oitocentos dólares limpos. A maior parte ia para a casa e uma parte guarva para alguma aventura.


Claro que ela tinha um sonho secreto. Ainda se lembrava do dia que uma russa lhe pagou cinquenta dólares para ficarem conversando, bebendo e se mostrando na câmera. Pensar nisso lhe deixou molhada. Balançou a cabeça negativamente. Puxou do canto da cama a calcinha que havia jogado longe, o sutiã que estava no mesmo canto também foi vestido junto do robe de uma marca vagabunda que havia comprado na internet mas era bonito. Quase confortável.


Do armário atrás do notebook pegou a garrafa de tequila. A mesma que havia comprado para um show onde, a cada dez dólares, viraria uma dose. Bebeu quatro doses naquele dia, dormiu com a câmera aberta. Ainda tinham dois terços de garrafa. Por trabalhar no horário da Rússia e da Ásia sempre trocava o dia pela noite e agora não tinha um pingo de sono. Olhou o relógio. Duas e cinquenta e três. Pensou em Amanda, sua filha com Wellingtown, semana que vem ela faria seis anos e passaria a ir para a escola. Tobias ainda tinha seus dois anos. E pensar que oito anos atrás teve uma oportunidade de ir embora do país.


Abriu a garrafa arrancando a tampa com a boca. Pensou que plot twist azedo se tornou sua vida. Bebeu um farto gole para abafar esse pensamento. Resolveu colocar seu fetiche em dia. No seu idioma. Entrou na sala de bate-papo. Agradecia aos céus por elas ainda existirem. Sempre ficava na câmera contra outra câmera. Perdeu as contas de quantas em vez de uma mulher viu outra coisa. Lamentável.

Foi quando viu um nick diferente. Desde sempre se dizia a Loba Morena. E agora na sua tela surgia a Raposa Solitária. Será que haviam parentesco entre lobos e raposas? Não sabia e não estava com a menor vontade de pesquisar. Bebeu um gole curto dando seu já clássico olá. Quatro minutos depois a Raposa respondeu.

Mais um gole. Um trovão rompeu o céu madruguento anunciando uma tempestade. Comentou com a Raposa que disse ter ouvido o mesmo. Não deviam morar longe. Será que hoje teria coragem de ir até o fim? Bebeu um gole longo. A metade da garrafa já ficou para trás. Hoje ia ver até onde era capaz de ir.

Falaram sobre inúmeros assuntos até chegar ao ponto da curiosidade sobre quem era por trás. Dessa vez não estava pronta caso fosse um homem. Hesitou um instante. Não haviam homens tão interessantes acordados esse horário.

Carregando. Érika viu o próprio corpo refletido na imagem da própria câmera. Um segundo mais e apareceu o corpo da Raposa. Os fios loiros cobriam uma camisola simples de tom rosa-chá. Mais algumas frases e logo decidiram mostrar rosto. Érika tinha um rosto ovalado, olhos pequenos, boca estreita e nariz fino, tudo herdado de seu avô, que veio do Japão. A Raposa propôs um brinde. O brinde aceito ambas beberam fartos goles. A Loba tequila, a Raposa vodka.

Logo o calor - uma desculpa - as obrigou a despirem-se. Érika sentiu o corpo tremer. A respiração subiu, o sorriso fino ao ver o corpo extremamente normal da Raposa lhe trouxe planos. Agora era a hora de realizar aquele velho plano. Trocaram telefones.

Assim a Loba Morena voltou a ser Érika e, agora, a Raposa Solitária passou a se chamar Janaína. Uma ligação se fez para confirmar as identidades. Obviamente todo aquele sangue no álcool das duas trouxe uma proposta que ninguém sabe de onde surgiu. Mas terminou com Érika retorcendo os lençóis da cama bagunçando tudo. Os gemidos baixos para não acordar ninguém dos quartos vizinhos era abafado pelo travesseiro.

Silêncio. Depois de quatro minutos as vozes voltaram à chamada telefônica. Érika tomou a iniciativa, tinha que colocar todo aquele desejo para fora, aproveitar a oportunidade. Propôs um encontro para já, o dia seguinte. Final da tarde. Janaína aceitou propondo local público. Um shopping para depois decidirem para onde iriam.

A ligação acabou com Érika com um sorriso imenso. Já devia ter machucado o lábio de tanto que o mordiscou. Se levantou, arrumou o lençol, desligou o notebook e caiu na cama. Acordou no meio da tarde com Wellington a chamando. Ele sabia que ela ganhava dinheiro com a internet. Ela dizia que de madrugada era mais propício para trabalhar porque alguns dos clientes que prestava consultoria eram asiáticos. Sua meia verdade fazia sentido. Meia verdade. Meia mentira.

Limpou o quarto, cuidou das crianças. Pensou novamente em largar tudo. Mas a grana era boa demais pra abrir mão assim. Pegou o telefone. Centenas de mensagens que foram sumariamente ignoradas. Tudo aquilo não podia ter sido fogo-de-palha, enviou uma mensagem para Janaína confirmando o encontro.

Se sentia errada mentindo. Mas era preciso, não haviam empregos para mãe de duas crianças. Todo mundo achava lindo um par de filhos mas ninguém sabia o que ela e Wellington sofriam para cuidar. Quando já se dava por resignada, seu encontro havia ido por água abaixo a tela do pequeno aparelho com uma rachadura na tela na lateral superior esquerda acendeu. Sorriu de canto. Aos viventes da casa disse que tinha uma reunião na sede da empresa que ficava do outro lado da cidade e, por isso, frente às últimas luzes do dia, sairia rumo ao outro lado da cidade. Sozinha no quarto vestiu uma calça jeans normal, uma blusa preta do Nirvana, nos pés um all star baixo. Na bolsa levava, além do celular, chaves de casa, algum dinheiro e spray de pimenta uma muda de roupa íntima mais sensual, infelizmente conforto e sensualidade não passavam pelos mesmos departamentos nas fábricas de lingerie. Deu um beijo em todos e seguiu rumo a porta.

Já no portão respondeu que estava saindo, mesmo que faltasse mais de uma hora para a hora combinada. Aproveitaria para passar pela loja e ver qual era o preço daquele telefone que Amanda queria e depois shopping. Se bem que ia propor um bar de rock não muito longe dali.

Dia de realizar desejos.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Raposa

Eram quase três horas da manhã, amanhã ainda era quinta-feira e cá estava Janaína em frente ao computador. Queria algo que lhe fervesse o sangue, algo que lhe desse algum prazer, seja mental, sexual, espiritual... tanto faz. Queria algo diferente essa noite.

Não devia ter bebido.

Era o pensamento que corria por sua mente nesse instante. Em uma aba anônima do navegador adentrou nas salas de bate papo. Se surpreendeu por elas ainda existirem. A principio colocou para espionar. A imensa maioria eram de homens querendo ver outros homens. Bem dizem que a noite todos os gatos são pardos. Apostaria tudo que tinha que boa parte ali eram casados querendo algo diferente das esposas que dormiam no quarto.

Bebeu mais um farto gole.

As salas comuns só tinham homens tarados ou robôs divulgando sites pornográficos decadentes. Ficou saltando entre as várias salas até ter uma espécie de iluminação e ir para uma sala de lésbicas, não que fosse, mas queria algo mais do que uma simples masturbação vazia vendo outra pessoa. Queria algo que lhe deturpasse o pensamento, alguém com um bom papo, não apenas abrir a câmera e praticar algo sem sentimento.

Foi beber mais um gole, alguém lhe chamou.

Havia entrado com o nick mais idiota que sua cabeça alcoolizada conseguiu pensar naquele momento: Raposa Solitária. O mais incrível é que Janaína tinha total consciência de tudo que fazia. Não era daquelas que bebia e esquecia tudo que fez. Ela esquecia das coisas, mas não era por causa da bebida, a imensa maioria eram coisas do seu passado que não fazia a menor questão de lembrar.

Ao por a garrafa na boca lembrou que tinha sido chamada.

Loba Morena. Por um instante pensou em zoofilia ou naqueles documentários sobre a vida animal. Respondeu ao olá com outro olá. Não teve o mesmo "o que procura?" de outras conversas que havia tido naquela madrugada alcoólica. A segunda frase foi uma constatação do clima.

A garrafa foi para o lado.

Por um instante pensou no filo da raposa e dos lobos. Todos eram meio que parentes, abriu uma aba a mais no navegador. Mesma família. A raposa contou a feliz coincidência à loba. Conversaram inúmeras amenidades, trocaram receita de carne de panela, dramas. Claro que a raposa não contou a sua história. Aquela apenas Helena sabia.

A loba também bebia. Propuseram um brinde.

Resolveram abrir a câmera. Janaína não daria a mínima se a loba na verdade, fosse um lobo, não tinha dito nada que a pudesse identificar, não mostraria rosto, muito menos corpo nu. Do outro lado uma vasta cabeleira escura. Era uma mulher mesmo. Janaína sorriu de canto erguendo a garrafa de vodka vagabunda numa altura que pudesse ser capturada pela câmera. A loba fez o mesmo, a garrafa dela era de tequila.

Brindaram e o gole de ambas foi longo.

Conversaram mais. Quando o relógio mostrava além das quatro e meia da manhã as duas já tinham trocado inúmeras intimidades. Parte pela bebida, parte pelo próprio clima. O calor aumentou e obrigaram-se a despirem-se. Moravam na mesma cidade, bairros não muito distantes. Janaína mordiscou o lábio inferior enquanto pensava na imensa quantidade de coisas que poderia fazer.

Deu um gole imenso, secou a garrafa.

A loba comentou. A raposa sorriu descendo a câmera. Trocaram telefones. A vida era uma só. Assim a raposa virou Janaína e a loba Érika. Apesar do horário houve uma ligação para confirmar as identidades. Janaína saiu do bate-papo. Érika fez o mesmo. Ficaram apenas pela voz. Foi pela voz que veio a proposta da loba. Todo aquele álcool no sangue de Janaína a fez concordar. Logo se ouvia no cômodo gemidos baixos que precedeu um grande silêncio.

O calor vaporizou o álcool.

Combinaram de se encontrar no dia seguinte. Local público. O que Janaína estava fazendo? Quando a ligação acabou os primeiros raios de sol ousavam romper as cortinas. A cama completamente bagunçada, o corpo mais suado que o calor havia produzido. Adormeceu com um sorriso fino nos lábios e o sangue borbulhando em suas veias. Meia dúzia de horas depois acordou.

A ressaca veio com uma confirmação do encontro.

Janaína nunca foi daquelas que bebia e esquecia. Pelo contrário, tinha total consciência de tudo que fez. A mensagem enviada cinco minutos atrás. O sol reinava pleno no céu enquanto se arrastou para o banheiro fazer as higienes matinais. Havia um motivo para ter marcado em um shopping: havia comida e segurança. O horário marcado era dali quatro horas. Tomou um banho frio tanto para refrescar quanto fazer pensar melhor. Ao fim do banho enrolou a toalha nos cabelos e deu graças por morar sozinha. Abriu todas as portas do guarda-roupas e pensou em que roupa usaria. Calor. Lugar com ar condicionado. Uma saia longa com bolsos, uma blusa solta, uma sandália baixa, cabelo solto e maquiagem leve. Uma bolsa para levar as chaves e o celular. Pensar no aparelho lhe trouxe a necessidade de uma resposta.

Com um sorriso lascivo nos lábios digitou uma resposta em apenas cinco letras: claro. Na pior das hipóteses assistira qualquer filme no cinema e comeria algo diferente do que tinha em casa. Na melhor das hipóteses comeria algo diferente do que tinha em casa. Pareceu promissor.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Aos 31

Não vou começar essa crônica de aniversário com aquela coisa clichê de "ah, esse ano eu pensei em não escrever" porque, querendo ou não, essa é a única postagem 100% eu, é nela que eu olho pra esse ano que passou e vejo o que valeu a pena, o que não valeu... quase soa como um balanço.

Não vou fazer mês a mês porque isso é um saco. A verdade é que esse ano foi tão cinza quanto todos foram, tem sido e, provavelmente, serão. Não, não é pessimismo, é que me conformei mesmo. E acho que, me conformando, posso encarar isso tudo com mais naturalidade e não de forma tão auto-destrutiva como em anos anteriores. Talvez porque eu tenha aprendido a conviver bem com meus demônios, minhas sombras... parei de lutar com eles, são parte de mim assim como eu sou parte deles. Claro que eu sei que não posso ficar na onda deprimida a vida inteira, porém... por enquanto está suportável apesar dos repetidos surtos.

Sabe que esse ano até que foi bom? Tudo bem, eu e meu grupo quase nos demos mal no último TCC... mas no fim deu certo. Ainda faltam uns pormenores técnicos mas, vai dar tudo certo.

Fora isso tudo eu comecei a trabalhar em casa, nada muito grande ainda, uns textos publicitários para uma agência. Uniu duas coisas que eu gosto: escrever e ficar em casa. Além disso me pagam, claro que ainda não é o suficiente, mas já está dando pra pagar umas contas, comprar umas coisas... e a perspectiva pro futuro é grande, então, vamos seguir batalhando né?

Sobre planos pessoais... mais um ano que protelo o registro/publicação do livro da ruiva, talvez ano que vem saia, ou não, ando ciumento com relação à história e não sei se estou preparado para críticas, paralelamente a isso tudo eu comecei o segundo (vão ser 3) e um outro que são histórias soltas de pessoas da "família" dela soltas no decorrer dos séculos... quem sabe eu solte uma ou outra história por aqui no futuro.

A oficina de customs de carrinhos segue viva, fotos dos carrinhos também, os projetos de podcasts esbarraram em fatores técnicos/financeiros.

No mais é isso. Estaria mentindo se dissesse que espero muito desse ano que se inicia hoje, mas não, não espero muita coisa, só espero que seja doce, porque doce é o que sobrou e, por enquanto, é o que me anima e me colocou a pena à mão. Que seja doce, só isso. Doce.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Vizinhança

Na mão esquerda a cuia de chimarrão, na direita a garrafa térmica. A velha cadeira lhe fazia doer as costas, mas tudo que ele pensava era como havia chego até aqui, como estava diante de tantas possibilidades e, ainda assim, distante de alcança-las. Enquanto pensava sorvia um gole curto da bebida pela bomba. Jogou a sobrancelha esquerda para cima pensando em como havia aprendido a fazer um bom chimarrão. Uma rápida olhada para baixo e não havia o menor sinal de erosão, tinha colocado a água quente no instante exato e isso criou uma parede que solidificou criando uma espécie de fiorde dentro da pequena cuia marrom escuro com o desenho que vagamente lembrava um cavalo entalhado.

Ao segundo roncar da bomba abriu a tampa da térmica completando o próximo chimarrão. Bebia sozinho. Gostava de ficar sozinho enquanto bebia. Às vezes dizia que a erva lhe fazia pensar melhor, talvez fosse verdade, talvez não. Segurou a bomba entre os lábios sem beber apenas sentindo o vapor bater em suas narinas. Leu em algum lugar muito tempo atrás que vapor d'água ajudava a desentupir o nariz. A rinite, eterna companheira de jornada, havia lhe dado a trégua no decorrer do dia. Então o vapor ajudava a desfocar a vista como se estivesse prestes a tomar a decisão mais importante da sua vida.

Apesar da música ligada alta ligada em loop podia ouvir sons da rua, carros, pessoas falando mais alto. Todos foram encobertos pela chuva que caiu pesada. Pensou em ir assistir a precipitação na varanda, mas não foi. Cada gole da bebida lhe aquecia de forma diferente. Tinha a certeza de que mais tarde esse consumo exagerado lhe trazia a azia, mas, não se importou com isso, ela vinha por qualquer motivo mesmo, era um subproduto do refluxo que diziam que tinha. Era uma boa hipótese. Ponderou se cuidar para não ter mais refluxo, mas ao ver a lista de alimentos "proibidos" desistiu. Entre a possibilidade de, talvez não ter nada e deixar de comer algo que gostava, preferia sempre a segunda.

Por duas piscadas pensou nela. O suspiro veio como um peso. O suspiro veio como um alívio. Tinha esse misto de sentimentos quando seu pensando era naquela mulher. O olhar percorreu sua mesa que não via uma arrumação faziam alguns dias. O terceiro piscar pensou em jogar tudo fora. Tudo. Sem exceção. A quarta veio misturada ao vapor e um gole mais curto. Era só arrumar e limpar. Lucidez. Assim como gostava de dizer que a erva, por vezes, lhe tirava de si, gostava de como ela podia lhe trazer calma e uma certa tranquilidade para tomar alguma decisão.

A tela escura do pequeno aparelho sobre a mesa acendeu. Pensou na pianista e em seus planos. Se tudo desse certo se veriam novamente depois de muito tempo. Claro que a viagem para a Metrópole não tinha o martelo batido, haviam muitos poréns e o seu departamento interno de "veja bem" lhe trazia prudência em qualquer decisão. Deixou a cuia sozinha um instante admirando o caminho do vapor até se dissipar no ar. Caiu a primeira lâmina de erva daquela parede dentro da água quente. Agora era questão de tempo até todo o chimarrão se transformar em uma espécie de sopa de erva mate bebida de canudinho. Ponderou refazer tudo. Não. Deixa como está.

Segurou a bomba entre os dentes sentindo o vapor lhe aquecer as maçãs do rosto. Aquela senhora tinha passado como um raio por sua existência e marcado. Soltou um largo suspiro sentindo a parte amarga do chimarrão na boca. Pensou como era curioso um gosto se fixar tão bem em apenas uma região da boca. Os dentes do fundo guardaram o gosto completamente amargo que fez ele pensar que a erva poderia estar estragada. Não estava. Era o excesso da bebida. As costas lhe diziam para dar um tempo daquela cadeira. Mas, ao mesmo tempo, ele queria continuar só mais um pouco, sentia que o mundo podia mudar a qualquer instante e ele queria estar diante dele e, se mudasse completamente, ele estaria sentado ante a mudança.

Sorriu balançando a cabeça negativamente. Alguém tinha de pesquisar se erva mate tinha poderes alucinógenos. Talvez tivesse, afinal ninguém era chamado de erva se não tivesse algum poder de desconexão com a realidade. Correu o olhar pela parede amarelada pelo tempo, as poucas lembranças do mural lhe traziam sentimentos distintos. Bebeu uma cuia inteira sem pensar em absolutamente nada. Quando ouviu o ronco da cuia parou. Ou será que quem roncava era a cuia? Enquanto abria o bico da garrafa térmica pensava em quem roncava. Ao longe a chuva dava sinais que pararia por algum tempo. A noite já havia cobrido a cidade de breu. Breu que era rompido pelas luzes dos postes, carros, casas, aviões que teimavam em tornar o escuro claro. Era como se a humanidade inteira tivesse medo de escuro. 

Ele também tinha uma luz, um velho abajur que a cúpula era apenas um papel de carta com o desenho de uma moça muito magra em uma bicicleta com um cachorro numa cesta. Nos cabelos havia um lenço comprido que combinava com a parte de cima do que deveria ser um biquíni. Na parte de baixo do tronco uma bermuda curta em um tom claro de marrom. Bem mais claro que a cuia. Uma palmeira do lado direito vergada para a esquerda enquanto o lenço estava rumando para a direita dizia que quem fez o desenho não se preocupou para que lado estava o vento. Ao longe uma roda-gigante fez ele pensar que o desenho se tratava do famoso pier de Santa Mônica, na Califórnia, fim da famosa Rota 66. Completando as discrepâncias do desenho a moça usava uma sandália de salto alto atada pelos tornozelos, não fazia sentido. Mas, ainda assim, era um belo desenho e ele gostava de tê-lo na mesa. Mesmo que agora o desenho, analisado, lhe passasse alguma estranheza ao olhar. Os lábios vermelhos da moça lhe faziam pensar. 

Estava a muito tempo apenas bebendo seu chimarrão e pensando em muitas coisas e em nenhuma. Tudo ao mesmo tempo. O pé, como se criasse vida própria, seguia o ritmo da bateria da música que estava a tanto tempo em loop que ele já não sabia mais como seria quando tirasse os fones. Sabia que esse momento chegaria. Suspirou enchendo mais uma cuia. A água não estava mais tão quente como já esteve. Com a ponta do indicador forçou a erosão a acelerar seu passo. As costas lhe diziam para sair daquela posição. A água na térmica acabando lhe dizia para sair dali. A bexiga dando sinais claros de estar cheia lhe dizia para sair dali. Aquela inércia. Aquela distimia. Aquela junção de coisas que ele não conseguia nominar lhe diziam para ficar mais um pouco. Decidiu. A próxima cuia duraria o tempo exato da última execução da música. Feito. Colocou o clipe em tela cheia. Usando toda a resolução que seu monitor permitia. Apagou o abajur convertido em luminária. Encheu a cuia. Suspirou. Clicou no repetir. A chuva voltou a cair com intensidade. O céu é a nossa vinhança.

sábado, 29 de setembro de 2018

Meio

Helena estava com a cabeça encostada no vidro da janela do ônibus, ainda tinha doze horas de viagem, nos fones tocava alguma música qualquer, ela não se importava. Só queria chegar logo. O sol já tinha se posto quando ela sentiu a vibração do veículo. Era diferente. A velocidade em que as árvores passavam foi diminuindo gradativamente. "Não fode" pensou murmurando.

Por sorte, destino ou qualquer coisa assim estavam muito próximos de uma cidade. De lá o motorista contatou a empresa. Outro ônibus só de manhã. Teriam hotel e refeições pagas. Hotel honesto. Todos os quartos com tv, internet, banheiro. Para Helena estava ótimo, quantas noites ela dormiu no relento? Em bancos de praça? Em boleias de caminhões? Pensar no último não foi uma boa ideia, lhe voltaram pensamentos de coisas que fez e, agora, voltando, se arrependia amargamente. Deixou a mochila sobre a cama e foi tomar um banho. Se viu no espelho. 

(TW: TEPT) Não adiantava quantos banhos tomasse. Quantos litros de perfume usasse. Quais cremes passasse. Não conseguia tirar aquele cheiro que impregnou na sua mente. Quis quebrar o espelho com um soco, tamanha a raiva que sentia de si mesma. Puxou os cabelos como se quisesse arrancá-los pela raíz levando com eles os pensamentos ruins. As lembranças ruins. Os momentos ruins. Encostou na parede e foi escorregando até acabar sentada no chão frio do banheiro. Não. Fechou os olhos, respirou fundo. Sorriu de canto.

Pegou na mochila a carteira. Deviam haver farmácias abertas. Faria algo que sempre fez em casa. Casa. Esse termo ainda remetia a algo não tão bom e que, o tempo na estrada, tinha ensinado que não era tão importante. Mas era. Na volta jantou. Caprichou na última refeição que faria. Delicioso. Ouviu um casal, colegas de ônibus, dizer que perderiam um casamento por causa disso. Complicado, mas é sempre melhor lidar com a possibilidade de que vai dar merda do que fazer tudo em cima da hora. O homem não gostou da sua resposta, mas a mulher viu verdade e logo os dois de convenceram de que Helena estava certa.

Voltou ao quarto, ligou a TV, precisava de barulho pro que ia fazer. Jornal, novela, programa religioso, jornal, mais novela, canal passando clipes. Achou estranho mas era ali que ia ficar. Da mochila saiu uma tesoura que tinha roubado de um dos diversos bicos que tinha feito de cabelereira para pagar a ida até a próxima cidade. Voltou ao banheiro. Aquele rosto refletido ainda lhe questionava, lhe cobrava diversas atitudes, lhe dizia que tinha errado e muito. Não discordava daquele rosto.

Respirou fundo mais uma vez. Passou a tesoura. Uma, duas, três, vinte, trinta vezes. Logo a pia estava cheia de cabelo. Passou uma escova para tirar os fios soltos e aplicou a tintura que havia comprado. Fez todos os procedimentos da embalagem, depois tomou um banho. Passou a mão no espelho para desembaçá-lo. Não acreditou. Aquela era ela. A versão dela que ela tanto lutou para soterrar. Era a ver da Helena antes dos surtos, das viagens, dos crimes voltar. Aquela que sempre quis de volta. Boa hora para ela voltar. Bem vinda.