sábado, 22 de dezembro de 2018

Loba

Mandou um beijo com a palma da mão, agradeceu pela companhia até agora e deu tchau fechando a câmera. Suspirou aliviada deixando o corpo cair na cama. Tirou a peruca rosa a jogando para o lado. De olhos abertos Érika viu o teto do quarto sujo. Qualquer dia tinha de limpar, se bem que esse cômodo aqui só precisava estar arrumado o que ela queria mostrar nas lentes - no caso a cama, uma parede com funkos que ganhou de presente e um grande quadro de uma pinup que achou em uma loja por um preço ridículo.


Várias vezes pensou em parar. Aquilo ali não era vida. O pior é que ela gostava, fora que era um puta complemento de renda. Se ficasse apenas como garçonete nos finais de semana não poderia manter o padrão de vida que seus filhos tinham. Terça, quarta e quinta tinha show marcado. Enquanto alcançou o celular chegou na mesma conclusão que sempre chegava: pelo menos não era prostituição na rua, ela apenas se mostrava na câmera e sempre com quem pudesse pagar mais. Em um mês bom tirava quase oitocentos dólares limpos. A maior parte ia para a casa e uma parte guarva para alguma aventura.


Claro que ela tinha um sonho secreto. Ainda se lembrava do dia que uma russa lhe pagou cinquenta dólares para ficarem conversando, bebendo e se mostrando na câmera. Pensar nisso lhe deixou molhada. Balançou a cabeça negativamente. Puxou do canto da cama a calcinha que havia jogado longe, o sutiã que estava no mesmo canto também foi vestido junto do robe de uma marca vagabunda que havia comprado na internet mas era bonito. Quase confortável.


Do armário atrás do notebook pegou a garrafa de tequila. A mesma que havia comprado para um show onde, a cada dez dólares, viraria uma dose. Bebeu quatro doses naquele dia, dormiu com a câmera aberta. Ainda tinham dois terços de garrafa. Por trabalhar no horário da Rússia e da Ásia sempre trocava o dia pela noite e agora não tinha um pingo de sono. Olhou o relógio. Duas e cinquenta e três. Pensou em Amanda, sua filha com Wellingtown, semana que vem ela faria seis anos e passaria a ir para a escola. Tobias ainda tinha seus dois anos. E pensar que oito anos atrás teve uma oportunidade de ir embora do país.


Abriu a garrafa arrancando a tampa com a boca. Pensou que plot twist azedo se tornou sua vida. Bebeu um farto gole para abafar esse pensamento. Resolveu colocar seu fetiche em dia. No seu idioma. Entrou na sala de bate-papo. Agradecia aos céus por elas ainda existirem. Sempre ficava na câmera contra outra câmera. Perdeu as contas de quantas em vez de uma mulher viu outra coisa. Lamentável.

Foi quando viu um nick diferente. Desde sempre se dizia a Loba Morena. E agora na sua tela surgia a Raposa Solitária. Será que haviam parentesco entre lobos e raposas? Não sabia e não estava com a menor vontade de pesquisar. Bebeu um gole curto dando seu já clássico olá. Quatro minutos depois a Raposa respondeu.

Mais um gole. Um trovão rompeu o céu madruguento anunciando uma tempestade. Comentou com a Raposa que disse ter ouvido o mesmo. Não deviam morar longe. Será que hoje teria coragem de ir até o fim? Bebeu um gole longo. A metade da garrafa já ficou para trás. Hoje ia ver até onde era capaz de ir.

Falaram sobre inúmeros assuntos até chegar ao ponto da curiosidade sobre quem era por trás. Dessa vez não estava pronta caso fosse um homem. Hesitou um instante. Não haviam homens tão interessantes acordados esse horário.

Carregando. Érika viu o próprio corpo refletido na imagem da própria câmera. Um segundo mais e apareceu o corpo da Raposa. Os fios loiros cobriam uma camisola simples de tom rosa-chá. Mais algumas frases e logo decidiram mostrar rosto. Érika tinha um rosto ovalado, olhos pequenos, boca estreita e nariz fino, tudo herdado de seu avô, que veio do Japão. A Raposa propôs um brinde. O brinde aceito ambas beberam fartos goles. A Loba tequila, a Raposa vodka.

Logo o calor - uma desculpa - as obrigou a despirem-se. Érika sentiu o corpo tremer. A respiração subiu, o sorriso fino ao ver o corpo extremamente normal da Raposa lhe trouxe planos. Agora era a hora de realizar aquele velho plano. Trocaram telefones.

Assim a Loba Morena voltou a ser Érika e, agora, a Raposa Solitária passou a se chamar Janaína. Uma ligação se fez para confirmar as identidades. Obviamente todo aquele sangue no álcool das duas trouxe uma proposta que ninguém sabe de onde surgiu. Mas terminou com Érika retorcendo os lençóis da cama bagunçando tudo. Os gemidos baixos para não acordar ninguém dos quartos vizinhos era abafado pelo travesseiro.

Silêncio. Depois de quatro minutos as vozes voltaram à chamada telefônica. Érika tomou a iniciativa, tinha que colocar todo aquele desejo para fora, aproveitar a oportunidade. Propôs um encontro para já, o dia seguinte. Final da tarde. Janaína aceitou propondo local público. Um shopping para depois decidirem para onde iriam.

A ligação acabou com Érika com um sorriso imenso. Já devia ter machucado o lábio de tanto que o mordiscou. Se levantou, arrumou o lençol, desligou o notebook e caiu na cama. Acordou no meio da tarde com Wellington a chamando. Ele sabia que ela ganhava dinheiro com a internet. Ela dizia que de madrugada era mais propício para trabalhar porque alguns dos clientes que prestava consultoria eram asiáticos. Sua meia verdade fazia sentido. Meia verdade. Meia mentira.

Limpou o quarto, cuidou das crianças. Pensou novamente em largar tudo. Mas a grana era boa demais pra abrir mão assim. Pegou o telefone. Centenas de mensagens que foram sumariamente ignoradas. Tudo aquilo não podia ter sido fogo-de-palha, enviou uma mensagem para Janaína confirmando o encontro.

Se sentia errada mentindo. Mas era preciso, não haviam empregos para mãe de duas crianças. Todo mundo achava lindo um par de filhos mas ninguém sabia o que ela e Wellington sofriam para cuidar. Quando já se dava por resignada, seu encontro havia ido por água abaixo a tela do pequeno aparelho com uma rachadura na tela na lateral superior esquerda acendeu. Sorriu de canto. Aos viventes da casa disse que tinha uma reunião na sede da empresa que ficava do outro lado da cidade e, por isso, frente às últimas luzes do dia, sairia rumo ao outro lado da cidade. Sozinha no quarto vestiu uma calça jeans normal, uma blusa preta do Nirvana, nos pés um all star baixo. Na bolsa levava, além do celular, chaves de casa, algum dinheiro e spray de pimenta uma muda de roupa íntima mais sensual, infelizmente conforto e sensualidade não passavam pelos mesmos departamentos nas fábricas de lingerie. Deu um beijo em todos e seguiu rumo a porta.

Já no portão respondeu que estava saindo, mesmo que faltasse mais de uma hora para a hora combinada. Aproveitaria para passar pela loja e ver qual era o preço daquele telefone que Amanda queria e depois shopping. Se bem que ia propor um bar de rock não muito longe dali.

Dia de realizar desejos.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Raposa

Eram quase três horas da manhã, amanhã ainda era quinta-feira e cá estava Janaína em frente ao computador. Queria algo que lhe fervesse o sangue, algo que lhe desse algum prazer, seja mental, sexual, espiritual... tanto faz. Queria algo diferente essa noite.

Não devia ter bebido.

Era o pensamento que corria por sua mente nesse instante. Em uma aba anônima do navegador adentrou nas salas de bate papo. Se surpreendeu por elas ainda existirem. A principio colocou para espionar. A imensa maioria eram de homens querendo ver outros homens. Bem dizem que a noite todos os gatos são pardos. Apostaria tudo que tinha que boa parte ali eram casados querendo algo diferente das esposas que dormiam no quarto.

Bebeu mais um farto gole.

As salas comuns só tinham homens tarados ou robôs divulgando sites pornográficos decadentes. Ficou saltando entre as várias salas até ter uma espécie de iluminação e ir para uma sala de lésbicas, não que fosse, mas queria algo mais do que uma simples masturbação vazia vendo outra pessoa. Queria algo que lhe deturpasse o pensamento, alguém com um bom papo, não apenas abrir a câmera e praticar algo sem sentimento.

Foi beber mais um gole, alguém lhe chamou.

Havia entrado com o nick mais idiota que sua cabeça alcoolizada conseguiu pensar naquele momento: Raposa Solitária. O mais incrível é que Janaína tinha total consciência de tudo que fazia. Não era daquelas que bebia e esquecia tudo que fez. Ela esquecia das coisas, mas não era por causa da bebida, a imensa maioria eram coisas do seu passado que não fazia a menor questão de lembrar.

Ao por a garrafa na boca lembrou que tinha sido chamada.

Loba Morena. Por um instante pensou em zoofilia ou naqueles documentários sobre a vida animal. Respondeu ao olá com outro olá. Não teve o mesmo "o que procura?" de outras conversas que havia tido naquela madrugada alcoólica. A segunda frase foi uma constatação do clima.

A garrafa foi para o lado.

Por um instante pensou no filo da raposa e dos lobos. Todos eram meio que parentes, abriu uma aba a mais no navegador. Mesma família. A raposa contou a feliz coincidência à loba. Conversaram inúmeras amenidades, trocaram receita de carne de panela, dramas. Claro que a raposa não contou a sua história. Aquela apenas Helena sabia.

A loba também bebia. Propuseram um brinde.

Resolveram abrir a câmera. Janaína não daria a mínima se a loba na verdade, fosse um lobo, não tinha dito nada que a pudesse identificar, não mostraria rosto, muito menos corpo nu. Do outro lado uma vasta cabeleira escura. Era uma mulher mesmo. Janaína sorriu de canto erguendo a garrafa de vodka vagabunda numa altura que pudesse ser capturada pela câmera. A loba fez o mesmo, a garrafa dela era de tequila.

Brindaram e o gole de ambas foi longo.

Conversaram mais. Quando o relógio mostrava além das quatro e meia da manhã as duas já tinham trocado inúmeras intimidades. Parte pela bebida, parte pelo próprio clima. O calor aumentou e obrigaram-se a despirem-se. Moravam na mesma cidade, bairros não muito distantes. Janaína mordiscou o lábio inferior enquanto pensava na imensa quantidade de coisas que poderia fazer.

Deu um gole imenso, secou a garrafa.

A loba comentou. A raposa sorriu descendo a câmera. Trocaram telefones. A vida era uma só. Assim a raposa virou Janaína e a loba Érika. Apesar do horário houve uma ligação para confirmar as identidades. Janaína saiu do bate-papo. Érika fez o mesmo. Ficaram apenas pela voz. Foi pela voz que veio a proposta da loba. Todo aquele álcool no sangue de Janaína a fez concordar. Logo se ouvia no cômodo gemidos baixos que precedeu um grande silêncio.

O calor vaporizou o álcool.

Combinaram de se encontrar no dia seguinte. Local público. O que Janaína estava fazendo? Quando a ligação acabou os primeiros raios de sol ousavam romper as cortinas. A cama completamente bagunçada, o corpo mais suado que o calor havia produzido. Adormeceu com um sorriso fino nos lábios e o sangue borbulhando em suas veias. Meia dúzia de horas depois acordou.

A ressaca veio com uma confirmação do encontro.

Janaína nunca foi daquelas que bebia e esquecia. Pelo contrário, tinha total consciência de tudo que fez. A mensagem enviada cinco minutos atrás. O sol reinava pleno no céu enquanto se arrastou para o banheiro fazer as higienes matinais. Havia um motivo para ter marcado em um shopping: havia comida e segurança. O horário marcado era dali quatro horas. Tomou um banho frio tanto para refrescar quanto fazer pensar melhor. Ao fim do banho enrolou a toalha nos cabelos e deu graças por morar sozinha. Abriu todas as portas do guarda-roupas e pensou em que roupa usaria. Calor. Lugar com ar condicionado. Uma saia longa com bolsos, uma blusa solta, uma sandália baixa, cabelo solto e maquiagem leve. Uma bolsa para levar as chaves e o celular. Pensar no aparelho lhe trouxe a necessidade de uma resposta.

Com um sorriso lascivo nos lábios digitou uma resposta em apenas cinco letras: claro. Na pior das hipóteses assistira qualquer filme no cinema e comeria algo diferente do que tinha em casa. Na melhor das hipóteses comeria algo diferente do que tinha em casa. Pareceu promissor.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Aos 31

Não vou começar essa crônica de aniversário com aquela coisa clichê de "ah, esse ano eu pensei em não escrever" porque, querendo ou não, essa é a única postagem 100% eu, é nela que eu olho pra esse ano que passou e vejo o que valeu a pena, o que não valeu... quase soa como um balanço.

Não vou fazer mês a mês porque isso é um saco. A verdade é que esse ano foi tão cinza quanto todos foram, tem sido e, provavelmente, serão. Não, não é pessimismo, é que me conformei mesmo. E acho que, me conformando, posso encarar isso tudo com mais naturalidade e não de forma tão auto-destrutiva como em anos anteriores. Talvez porque eu tenha aprendido a conviver bem com meus demônios, minhas sombras... parei de lutar com eles, são parte de mim assim como eu sou parte deles. Claro que eu sei que não posso ficar na onda deprimida a vida inteira, porém... por enquanto está suportável apesar dos repetidos surtos.

Sabe que esse ano até que foi bom? Tudo bem, eu e meu grupo quase nos demos mal no último TCC... mas no fim deu certo. Ainda faltam uns pormenores técnicos mas, vai dar tudo certo.

Fora isso tudo eu comecei a trabalhar em casa, nada muito grande ainda, uns textos publicitários para uma agência. Uniu duas coisas que eu gosto: escrever e ficar em casa. Além disso me pagam, claro que ainda não é o suficiente, mas já está dando pra pagar umas contas, comprar umas coisas... e a perspectiva pro futuro é grande, então, vamos seguir batalhando né?

Sobre planos pessoais... mais um ano que protelo o registro/publicação do livro da ruiva, talvez ano que vem saia, ou não, ando ciumento com relação à história e não sei se estou preparado para críticas, paralelamente a isso tudo eu comecei o segundo (vão ser 3) e um outro que são histórias soltas de pessoas da "família" dela soltas no decorrer dos séculos... quem sabe eu solte uma ou outra história por aqui no futuro.

A oficina de customs de carrinhos segue viva, fotos dos carrinhos também, os projetos de podcasts esbarraram em fatores técnicos/financeiros.

No mais é isso. Estaria mentindo se dissesse que espero muito desse ano que se inicia hoje, mas não, não espero muita coisa, só espero que seja doce, porque doce é o que sobrou e, por enquanto, é o que me anima e me colocou a pena à mão. Que seja doce, só isso. Doce.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Vizinhança

Na mão esquerda a cuia de chimarrão, na direita a garrafa térmica. A velha cadeira lhe fazia doer as costas, mas tudo que ele pensava era como havia chego até aqui, como estava diante de tantas possibilidades e, ainda assim, distante de alcança-las. Enquanto pensava sorvia um gole curto da bebida pela bomba. Jogou a sobrancelha esquerda para cima pensando em como havia aprendido a fazer um bom chimarrão. Uma rápida olhada para baixo e não havia o menor sinal de erosão, tinha colocado a água quente no instante exato e isso criou uma parede que solidificou criando uma espécie de fiorde dentro da pequena cuia marrom escuro com o desenho que vagamente lembrava um cavalo entalhado.

Ao segundo roncar da bomba abriu a tampa da térmica completando o próximo chimarrão. Bebia sozinho. Gostava de ficar sozinho enquanto bebia. Às vezes dizia que a erva lhe fazia pensar melhor, talvez fosse verdade, talvez não. Segurou a bomba entre os lábios sem beber apenas sentindo o vapor bater em suas narinas. Leu em algum lugar muito tempo atrás que vapor d'água ajudava a desentupir o nariz. A rinite, eterna companheira de jornada, havia lhe dado a trégua no decorrer do dia. Então o vapor ajudava a desfocar a vista como se estivesse prestes a tomar a decisão mais importante da sua vida.

Apesar da música ligada alta ligada em loop podia ouvir sons da rua, carros, pessoas falando mais alto. Todos foram encobertos pela chuva que caiu pesada. Pensou em ir assistir a precipitação na varanda, mas não foi. Cada gole da bebida lhe aquecia de forma diferente. Tinha a certeza de que mais tarde esse consumo exagerado lhe trazia a azia, mas, não se importou com isso, ela vinha por qualquer motivo mesmo, era um subproduto do refluxo que diziam que tinha. Era uma boa hipótese. Ponderou se cuidar para não ter mais refluxo, mas ao ver a lista de alimentos "proibidos" desistiu. Entre a possibilidade de, talvez não ter nada e deixar de comer algo que gostava, preferia sempre a segunda.

Por duas piscadas pensou nela. O suspiro veio como um peso. O suspiro veio como um alívio. Tinha esse misto de sentimentos quando seu pensando era naquela mulher. O olhar percorreu sua mesa que não via uma arrumação faziam alguns dias. O terceiro piscar pensou em jogar tudo fora. Tudo. Sem exceção. A quarta veio misturada ao vapor e um gole mais curto. Era só arrumar e limpar. Lucidez. Assim como gostava de dizer que a erva, por vezes, lhe tirava de si, gostava de como ela podia lhe trazer calma e uma certa tranquilidade para tomar alguma decisão.

A tela escura do pequeno aparelho sobre a mesa acendeu. Pensou na pianista e em seus planos. Se tudo desse certo se veriam novamente depois de muito tempo. Claro que a viagem para a Metrópole não tinha o martelo batido, haviam muitos poréns e o seu departamento interno de "veja bem" lhe trazia prudência em qualquer decisão. Deixou a cuia sozinha um instante admirando o caminho do vapor até se dissipar no ar. Caiu a primeira lâmina de erva daquela parede dentro da água quente. Agora era questão de tempo até todo o chimarrão se transformar em uma espécie de sopa de erva mate bebida de canudinho. Ponderou refazer tudo. Não. Deixa como está.

Segurou a bomba entre os dentes sentindo o vapor lhe aquecer as maçãs do rosto. Aquela senhora tinha passado como um raio por sua existência e marcado. Soltou um largo suspiro sentindo a parte amarga do chimarrão na boca. Pensou como era curioso um gosto se fixar tão bem em apenas uma região da boca. Os dentes do fundo guardaram o gosto completamente amargo que fez ele pensar que a erva poderia estar estragada. Não estava. Era o excesso da bebida. As costas lhe diziam para dar um tempo daquela cadeira. Mas, ao mesmo tempo, ele queria continuar só mais um pouco, sentia que o mundo podia mudar a qualquer instante e ele queria estar diante dele e, se mudasse completamente, ele estaria sentado ante a mudança.

Sorriu balançando a cabeça negativamente. Alguém tinha de pesquisar se erva mate tinha poderes alucinógenos. Talvez tivesse, afinal ninguém era chamado de erva se não tivesse algum poder de desconexão com a realidade. Correu o olhar pela parede amarelada pelo tempo, as poucas lembranças do mural lhe traziam sentimentos distintos. Bebeu uma cuia inteira sem pensar em absolutamente nada. Quando ouviu o ronco da cuia parou. Ou será que quem roncava era a cuia? Enquanto abria o bico da garrafa térmica pensava em quem roncava. Ao longe a chuva dava sinais que pararia por algum tempo. A noite já havia cobrido a cidade de breu. Breu que era rompido pelas luzes dos postes, carros, casas, aviões que teimavam em tornar o escuro claro. Era como se a humanidade inteira tivesse medo de escuro. 

Ele também tinha uma luz, um velho abajur que a cúpula era apenas um papel de carta com o desenho de uma moça muito magra em uma bicicleta com um cachorro numa cesta. Nos cabelos havia um lenço comprido que combinava com a parte de cima do que deveria ser um biquíni. Na parte de baixo do tronco uma bermuda curta em um tom claro de marrom. Bem mais claro que a cuia. Uma palmeira do lado direito vergada para a esquerda enquanto o lenço estava rumando para a direita dizia que quem fez o desenho não se preocupou para que lado estava o vento. Ao longe uma roda-gigante fez ele pensar que o desenho se tratava do famoso pier de Santa Mônica, na Califórnia, fim da famosa Rota 66. Completando as discrepâncias do desenho a moça usava uma sandália de salto alto atada pelos tornozelos, não fazia sentido. Mas, ainda assim, era um belo desenho e ele gostava de tê-lo na mesa. Mesmo que agora o desenho, analisado, lhe passasse alguma estranheza ao olhar. Os lábios vermelhos da moça lhe faziam pensar. 

Estava a muito tempo apenas bebendo seu chimarrão e pensando em muitas coisas e em nenhuma. Tudo ao mesmo tempo. O pé, como se criasse vida própria, seguia o ritmo da bateria da música que estava a tanto tempo em loop que ele já não sabia mais como seria quando tirasse os fones. Sabia que esse momento chegaria. Suspirou enchendo mais uma cuia. A água não estava mais tão quente como já esteve. Com a ponta do indicador forçou a erosão a acelerar seu passo. As costas lhe diziam para sair daquela posição. A água na térmica acabando lhe dizia para sair dali. A bexiga dando sinais claros de estar cheia lhe dizia para sair dali. Aquela inércia. Aquela distimia. Aquela junção de coisas que ele não conseguia nominar lhe diziam para ficar mais um pouco. Decidiu. A próxima cuia duraria o tempo exato da última execução da música. Feito. Colocou o clipe em tela cheia. Usando toda a resolução que seu monitor permitia. Apagou o abajur convertido em luminária. Encheu a cuia. Suspirou. Clicou no repetir. A chuva voltou a cair com intensidade. O céu é a nossa vinhança.

sábado, 29 de setembro de 2018

Meio

Helena estava com a cabeça encostada no vidro da janela do ônibus, ainda tinha doze horas de viagem, nos fones tocava alguma música qualquer, ela não se importava. Só queria chegar logo. O sol já tinha se posto quando ela sentiu a vibração do veículo. Era diferente. A velocidade em que as árvores passavam foi diminuindo gradativamente. "Não fode" pensou murmurando.

Por sorte, destino ou qualquer coisa assim estavam muito próximos de uma cidade. De lá o motorista contatou a empresa. Outro ônibus só de manhã. Teriam hotel e refeições pagas. Hotel honesto. Todos os quartos com tv, internet, banheiro. Para Helena estava ótimo, quantas noites ela dormiu no relento? Em bancos de praça? Em boleias de caminhões? Pensar no último não foi uma boa ideia, lhe voltaram pensamentos de coisas que fez e, agora, voltando, se arrependia amargamente. Deixou a mochila sobre a cama e foi tomar um banho. Se viu no espelho. 

(TW: TEPT) Não adiantava quantos banhos tomasse. Quantos litros de perfume usasse. Quais cremes passasse. Não conseguia tirar aquele cheiro que impregnou na sua mente. Quis quebrar o espelho com um soco, tamanha a raiva que sentia de si mesma. Puxou os cabelos como se quisesse arrancá-los pela raíz levando com eles os pensamentos ruins. As lembranças ruins. Os momentos ruins. Encostou na parede e foi escorregando até acabar sentada no chão frio do banheiro. Não. Fechou os olhos, respirou fundo. Sorriu de canto.

Pegou na mochila a carteira. Deviam haver farmácias abertas. Faria algo que sempre fez em casa. Casa. Esse termo ainda remetia a algo não tão bom e que, o tempo na estrada, tinha ensinado que não era tão importante. Mas era. Na volta jantou. Caprichou na última refeição que faria. Delicioso. Ouviu um casal, colegas de ônibus, dizer que perderiam um casamento por causa disso. Complicado, mas é sempre melhor lidar com a possibilidade de que vai dar merda do que fazer tudo em cima da hora. O homem não gostou da sua resposta, mas a mulher viu verdade e logo os dois de convenceram de que Helena estava certa.

Voltou ao quarto, ligou a TV, precisava de barulho pro que ia fazer. Jornal, novela, programa religioso, jornal, mais novela, canal passando clipes. Achou estranho mas era ali que ia ficar. Da mochila saiu uma tesoura que tinha roubado de um dos diversos bicos que tinha feito de cabelereira para pagar a ida até a próxima cidade. Voltou ao banheiro. Aquele rosto refletido ainda lhe questionava, lhe cobrava diversas atitudes, lhe dizia que tinha errado e muito. Não discordava daquele rosto.

Respirou fundo mais uma vez. Passou a tesoura. Uma, duas, três, vinte, trinta vezes. Logo a pia estava cheia de cabelo. Passou uma escova para tirar os fios soltos e aplicou a tintura que havia comprado. Fez todos os procedimentos da embalagem, depois tomou um banho. Passou a mão no espelho para desembaçá-lo. Não acreditou. Aquela era ela. A versão dela que ela tanto lutou para soterrar. Era a ver da Helena antes dos surtos, das viagens, dos crimes voltar. Aquela que sempre quis de volta. Boa hora para ela voltar. Bem vinda.

sábado, 25 de agosto de 2018

Volta

Fazia quase um ano que ela havia deixado tudo para trás. Família. Amigos. Janaína. Pensar em Janaína ainda era a única coisa que lhe balançava o coração e lhe fazia parar no meio da estrada, três horas da manhã, uma Lua cheia fazia parecer dia. A carona que tinha conseguido tinha tentado o "algo mais", pulou fora, caiu no mato, se embrenhou e o agressor foi embora. Estava ficando experiente nessas fugas.

Suspirou olhando a Lua. Será que estava mais perto ou mais longe do que havia saído de casa pra buscar? Na mochila o documento de Clara estava fácil de achar, no fundo falso sua real identidade. Real. Identidade. Nesse local ermo. Essa hora da manhã. Não encontraria carona. A internet do telefone não funcionava, sinal que estava longe demais de qualquer área minimamente civilizada. Sem parar de caminhar seguia em frente. Uma hora sempre tem uma cidade. Não seria a primeira vez que teria de caminhar tanto. Talvez a primeira vez essa hora da madrugada. A primeira vez com essa Lua. Lua.

Seu olhar foi para a dona da noite. Foi impossível conter as lágrimas. O quê estava fazendo? Tinha tido tantas aventuras nos últimos meses. Cortado toda a comunicação com sua vida passada. Criado uma nova história para si. Ela era o que quisesse ser. Então por que? Por que não se sentia bem? De uns dias para cá vinha sentindo essa sensação. Esse desejo estranho. Queria um lugar confortável. Queria uma tranquilidade. Tinha planejado essa tranquilidade quando conseguiu o novo nome. Mas... por que não se sentia bem? 

Parou de caminhar sentando-se em uma pedra. Os pés doíam. O cotovelo amplamente esfolado de tantas vezes que havia pulado de um carro em movimento. Já podia trabalhar como dublê. Dublê. Clara era a dublê. Ela tinha de voltar a tomar o protagonismo. Voltar a tomar decisões acertivas, decisões que não passassem por estar no meio do nada, três e quatorze da manhã, sob a luz da Lua.

Da mochila bebeu um gole da águardente que tinha afanado em um mercadinho dois dias atrás. 

Deu mais um gole. 

E outro. 

E outro. 

E mais um.

Foi dar o próximo. A garrafa estava seca. Não conseguiria engolir mais. Quando a primeira lágrima saiu vieram toneladas de outras. Toda a dor. O sofrimento. A angústia retida nos últimos meses com essa viagem saiu toda de uma vez. O choro veio acompanhada de gritos. 

Berros. 

Sentiu a garganta queimar. 

Soluçou. 

Tornou a berrar.

O choro vertia do seu ser. Toda aquela fúria. Aquele ódio. Se um veículo grande passasse agora ela certamente pularia na frente dele. Quis o destino que ninguém aparecesse. Ela precisava desse tempo sozinha. Completamente sozinha. Era isso que ela tinha conseguido nesses meses todos? Conheceu muita gente interessante. Mas sempre que começava a ganhar afinidade ela sumia. Desaparecia sem deixar o menor vestígio. Quer dizer. Uma vez. Uma pessoa veio atrás. Uma moça. Queria saber mais dela. Queria a história dela. Dizia querer ajudar. Mas ela precisava se libertar completamente. Assim que a pessoa veio atrás ela deu um jeito de sumir. Saiu caro. Ela se sentiu mal na hora. Mas era preciso.

O berro foi cessando conforme a voz se esvaía. O corpo foi pesando. Pesando. Adormeceu ao lado da pedra. Não era a primeira vez que dormiria às margens de uma rodovia. Mas, talvez fosse a hora de ser a última. Sentiu frio. Com ajuda de um isqueiro roubado de um bar acendeu uma fogueira. Jogou alguns papéis e logo a fogueira ficou Clara.

Acordou com vozes. Perguntavam se ela estava bem. Se queria que chamasse uma ambulância. O braço todo esfolado e sujo. Um policial era quem lhe fazia as perguntas. Lhe pediu os documentos. Tirou do fundo da mochila, estavam amarrotados, sujos. O homem da lei ofereceu carona até a cidade mais próxima. Ela aceitou. Sorriu ao ver um ônibus com a placa indo até a metrópole. Dinheiro não seria um problema, nos meses de estrada conseguiu juntar uma quantia boa varrendo restaurantes, limpando motéis. 

Entrou no veículo. Não sem antes agradecer ao policial. Ele perguntou se ela queria mesmo ir para a Metrópole. Ela respondeu dizendo que tinha coisas a resolver por lá. Ele pareceu entender perfeitamente, lhe ofereceu um cartão, caso quissesse caminhar sozinha pela estrada novamente. Na primeira parada comprou um chip de celular. Com os olhos marejados digitou uma mensagem à unica pessoa que sentia total falta. Voltaria por e para ela. E por sí própria, claro. Respirou fundo. Enviou.

Mil quatrocentos e vinte e nove quilômetros ao oeste uma tela acendeu. Janaína não reconheceu o número. Abriu a mensagem. Seus olhos marejaram. A pulsação acelerou. O coração acelerou. A respiração acelerou. Tinha muita coisa para arrumar. Abraçou o diminuto aparelho. Tornou a olhar a tela. Era verdade.

A mensagem. Em poucas palavras. Sucinta como ela sempre foi.

"
Estou voltando.
~ Helena.
"

Cais

Fechou os olhos, abriu os braços e sentiu o vento gelado lhe atravessar o corpo. Sorriu abrindo os olhos lentamente. Janaína havia feito as pazes com o mar. Esse mar não era o seu, mas afinal, como algo que não para de se mover vai ser de alguém? As moléculas de água do mar podiam até ser diferentes, mas o mar como uma quase instituição planetária era o mesmo.

Agora começava uma etapa nova na vida dela. Aquela faculdade que lhe prendia acabou. Era hora de botar a cara, nadar de braçadas. Sabia do seu talento. Sabia de suas capacidades. E agora, diante do mar, se sentiu livre. Livre como não se sentia faziam anos. Anos com correntes nos pés. Nos braços. No corpo todo. Aquele vento gelado que afastou qualquer turista da praia dizia que aquele momento era só dela. Moldado no âmago do oceano, misturado no alto das nuvens, aquecido pelo sol da manhã. Tudo para fazer as pazes com Janaína. O sorriso era o acordo de paz selado.

Tirou as sandálias e caminhou pela areia fina, depois mais grossa e, por fim dura da praia. Esperou uma marola vir e molhou os pés. Ao longe um único pescador no lado esquerdo brigava com a rebentação em busca de um belo peixe para o jantar. Se bem que peixes da rebentação não sejam lá muito grandes. Janaína sorriu o olhando. Entreteu-se. Em seguida olhou para a direita. Cais. Barcos parados. Apenas ela. Resolveu caminhar até o cais.

Os passos ora com água cobrindo-lhe os pés, ora com os pés na areia dura se dirigiram ao pequeno cais que avançava não mais que duas dezenas de metros mar adentro. Sem muito esforço subiu na estrutura e caminhou até a ponta. Sempre dando umas olhadas para trás temendo que fosse proibido estar ali. Ao chegar na ponta sentou-se. Bolsa de um lado, sandálias do outro. Se permitiu chorar vendo, ouvindo, sentindo o mar. Era o fim de uma guerra que durou tempo demais. Quando as lágrimas cessaram ela viu o céu ficando azul, o calor - ainda que tímido - surgindo. Foi quando ouviu passos no tablado de madeira atrás de si.

Queria se virar. Devia se virar. Mas não o fez. Os passos cessaram. Pararam ao lado direito dela e se sentaram na beira do cais.

- Soube que gosta de torresmo.

Era ele. Aquele do carnaval. Trocaram não mais do que vinte palavras nos dias que se seguiram. Não eram adeptos de conversar pela tecnologia. Ele trazia consigo um pacote de salgadinho sabor bacon e um refrigerante gelado. Janaína sorriu ao vê-lo, o convidou para sentar, colocou as sandálias do mesmo lado da bolsa e ele se sentou. Ficaram calados alguns instantes, como se fizessem uma oração juntos. Ao fim disso se entreolharam e começaram a conversar. Não cabe a mim, como narrador, descrever toda a conversa, mas falavam da Lua, do mar, do salgadinho, do pescador solitário, do vento gelado. Quando, enfim, tocaram as mãos, as sombras se uniram. Se tornaram uma. Agora a paz estava completa. 

Janaína acordou com o sol na cara. Olhou em volta. O pescador estava lá. Mas e ele? Foi embora sem se despedir? Fechou os olhos um instante e sentiu-o por perto. Havia entendido o que aconteceu. Se levantou. Sorriu. Agradeceu.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Epifania

Faltava pouco para concluir aquela que seria uma das maiores empreitadas de Janaína. Mas e por que ela sentia isso tudo ruim? Ela não sentia a menor vontade de continuar. Era como aquela música de Raul "foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto e daí?" que tocava mentalmente a cada etapa vencida, ela tinha mais coisas do que essa faculdade ou o trabalho, algum tempo atrás tinha tido uma epifania que a deixou desgostosa de fazer tudo o que fazia.

Verdade seja dita: sempre teve esses pensamentos e agora era como se uma conclusão se desdobrasse e ela perdesse o objetivo. Como aquele velho quebra-cabeças que ficou quatro anos pela metade, com as peças não posicionadas dentro de uma lata de achocolatado para que não as perdesse, em um final de semana de pura inspiração - e algumas doses de vodka, diga-se bem da verdade - enfim finalizou o tal jogo. Cinco mil peças colocadas em ordem. Fotografou, registrou nas redes sociais seu feito, recebeu os louros da conquista e... e daí? Puxou as peças para dentro da caixa de volta desmontando tudo e liberando uma parte da mesa.

Dizem que quando se conquista algo se tem que ter outro objetivo em vista e outro e outro e outro e assim sucessivamente até o fim da vida. Janaína não conseguia pensar nisso, traçar planos a longo prazo? Pra quê? Podia acordar um dia em outro plano, aquele carro que furou o sinal e quase lhe atropelou podia ter passado do quase... tanta coisa podia acontecer que, criar expectativas e sonhos... pra que? Pra conquista ser tão vazia quanto ver que, depois de anos protelando, a imagem montada do quebra-cabeças é a mesma da caixa? Não, esses objetivos eram todos fúteis demais.

Ah mas desenvolver planos para o seu futuro só depende de você. Não que ela não quisesse traçar planos ou não almejasse algo maior, lá no fundo ela tinha algumas coisas que ela queria conquistar mas, por serem coisas próprias, ela não corria atrás, não valiam a pena, podiam ser conquistadas na hora que ela quisesse. E depois que conquistasse? Teria mais uma epifania e ficaria sem um objetivo. Se bem que, ao passar pela sacada, atraída por um barulho de sorveteiro e seu tradicional apito, ela esboçou um sorriso fino o suficiente para fazer Mona Lisa sentir inveja. Sempre havia "aquele" objetivo...