sábado, 15 de fevereiro de 2014

Universo em Criação

"Trovões no céu, um corpo ensanguentado no chão e no ar o cheiro de polvora completava o ambiente hostil...". Não. Janaina amassou a folha assim que terminou a frase a atirando ao lixo em seguida. Pensou por um instante em seguir os conselhos de sua amiga Helena e escrever no computador, afinal, no computador é mais "ecologicamente correto". Mas sempre que ela se sentava em frente à máquina ela fazia mil outras coisas e não tinha a concentração suficiente para escrever. Por isso ainda optava pelo papel e lápis - caneta não tem sentimento, lápis, grafite, sim, ele tem sentimento.

Bem dizem que, quando se pensa em uma pessoa, ela acaba aparecendo de alguma forma ou de outra. No visor do celular que tocava aparecia o nome "Helens". Era Helena. Por um instante deixou o aparelho tocando e se lembrou de quando tinha colocado o número da, então sua nova amiga, na agenda. Janaina andava em uma fase meio infantil, havia achado alguns videos antigos dos trapalhões, onde o, finado, Mussum, dizia toda hora as palavras terminando em 's'. Enfim atendeu. Helena queria convidar a amiga para sair, beber... essas coisas que a idade sempre convidava. Janaina, a principio não queria, mas pensou que, assim, poderia ter 'a' inspiração e escrever seu livro de histórias de terror, ficar famosa, rica, dar entrevistas, ganhar premios. Tanta a viagem que sua mente fez que ela acabou sorrindo sozinha enquanto pensava o que vestiria, antes mesmo de desligar o celular.

Não fez grandes escolhas de roupa, não precisava disso. Era naturalmente bonita, cabelos pretos, um corpo esguio com curvas definidas. Unhas parcialmente roídas - sobretudo a do dedo mínimo - e pouca maquiagem completavam o visual. Talvez fosse hora de assumir algumas coisas na vida, ir ver o mundo além dessa cidade. Olhou a caixa de joias que um dia foi de sua mãe. Sorriu passando a ponta dos dedos por sobre os brincos, anéis, correntinhas... não ousava usa-las, não com as taxas de roubos altas como andavam. As peças valiam mais do que o financeiro, eram parte de lembranças. No canto da penteadeira onde repousava a tal caixa de joias havia uma foto de seus pais. Faziam alguns anos desde que aquele acidente havia tirando eles dela. Herança nenhuma a consolou totalmente. Decidiu sair da cidade onde morava - no litoral de Santa Catarina - e vir para a tal cidade grande. Tinha de afastar algumas lembranças ruins. Vendeu a casa, os dois carros, já tinha idade pra viver sozinha, beirava os vinte anos quando se mudou.

Já tinha concluído o colegial e esperava por algum lampejo de ideia de algum curso de faculdade que poderia cursar. "Letras" diziam muito à ela. Não servia pra professora. Até gostava de letras, mas a ideia de lecionar lhe causava arrepios. Enquanto isso administrava alguns fundos que rendiam em bancos e alguns imóveis alugados em São Paulo. Não rendia muito, é verdade, mas dava pra levar o estilo de vida que Janaína tinha. O armário era com poucas roupas caras, a grande maioria era comprada em brechôs, lojas populares... e era uma dessas roupas mais simples que usaria. Helena, ao contrário sempre se vestia muito bem e haveria de reclamar da amiga vestida igual uma hippie. Uma hippie? Não, ela não se via assim. Era despojada e tinha seu proprio estilo de vestir. Maquiagem feita - apenas realçando os lábios e olhos - Janaína saiu trancando a porta atrás de si.

Desceu os lances de escada até a rua e já podia ouvir Helena vindo em um vestido azul-marinho, drapeado da cintura pra baixo, parecido com aqueles dos anos cinquenta. O cabelo displicentemente presos mas fugindo com o vento que cortava a rua. A maquiagem dava a amiga alguns anos a mais do que realmente tinha. Se abraçaram e caminharam na direção de uma rua onde haviam alguns bares, restaurantes. Por irônia ou por destino mesmo, encontraram alguns conhecidos, amigos, conhecidos de amigos e juntaram várias mesas. Janaína morava perto, então não precisava de carro para ir embora e, Helena, caso precisasse, dormiria com ela.

A reunião de amigos que, no começo, era regada a cerveja, batata frita e petiscos diversos, agora tinha uma garrafa de whisky caro rodando de mão em mão. Todos beberam, ao menos, três doses. Helena era uma das mais animadas, já havia bebido sozinha três latas de cerveja e agora estava na quarta do destilado escocês. Quando Janaína sentiu seu limite ela simplesmente parou de beber, não gostava de se sentir bebada, não na rua. Em casa gostava de beber afim de buscar alguma inspiração. As horas passavam e o grupo foi diminuindo. Cada um que saía jogava uma nota de vinte reais pra pagar a conta que, a essa altura, já passava de duzentos reais. Dinheiro não era problema, era a solução.

Janaína bem que tentou levar Helena consigo, mas ela dizia que voltaria com um vizinho, amigo seu. A morena, a principio, não levou muita fé, mas, devido a insistência da amiga, deixou-a ali e saiu a francesa para seu esconderijo. O dia seguinte prometia alguns negocios com aquela empreiteira que havia comprado a casa onde morou. O prédio que subiria ali teria uma dúzia de andares, belas colunas e dois apartamentos de Janaína, pra ela fazer o que bem entendesse. Entrou em casa decidindo que os alugaria. Tomou um banho rápido e se deitou. No dia seguinte tratou de seus negocios - ganhou uma boa quantia. Ao voltar pra casa sua amiga Helena estava sentada ao pé da porta, uma pequena mochila em seus pés e com uma grande história que começava na sarjeta, se desenrolava com extrema sorte e terminava com ela ali no tapete.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Travessia

Eu não vim nos navios, eu não passei a necessidade que meus avós, bisavós passaram ao chegar aqui, nessa terra de mata fechada. Nessa selva coalhada de animais ferozes, de doenças que lá, no velho continente, não existiam. Dos poderosos de coisa nenhuma ganharam, quando muito, dois pacotes de prego, punhados de sementes variadas e mais nada. Mas o preço era alto demais: Tiveram seus nomes, sobrenomes anotados por algum funcionário preguiçoso que os mutilou completamente, o quê um dia foi o símbolo máximo de um clã, de uma família agora era algo diferente, em letras diferentes, em sotaques diferentes. Subiram a gigante serra do mar que, na época, era algo feito de terra batida, quando muito um caminho onde passava - raspando nos galhos das árvores - uma carroça que sacolejava mais que o navio que enfrentou o mar.

Ao chegar na capital a coisa não melhorava. Havia um trem, disseram, um trem que levava até metade do caminho, de lá em diante haveria um barco que levaria à uma cidade. Uma cidade. Todos aqueles homens e mulheres, muitos que abandonaram suas casas vendo a eminência da guerra galgando a passos largos, vindo depressa à soleira das portas. Nessa hora ninguém é covarde se foge afim de sobreviver. Jamais. Ao contrário: tem de ter muita coragem em sair do seu país e ir desbravar algo completamente desconhecido.

O trem lhes custou o resto de suas últimas moedas. Agora estavam apenas com as sementes e o pacote de pregos. Decidiram descer o rio. Acharam um campo que falaram ser fértil, ser tranquilo e o clima lembrar bastante a velha terra amada. Por sorte - ou até mesmo por uma total coincidência - alguns haviam trazido em suas malas algo além de roupas, esperanças e sonhos de recomeço. Haviam trazido coisas práticas como martelos, serrotes... logo após as primeiras árvores derrubadas notaram que os pregos que haviam ganho seriam insuficientes. Rapidamente desenvolveram formas de construir sem usar tantos pregos, logo construiram pequenas casas, foram ocupando subempregos, alguns progrediram, mas o lugar ainda era completamente diferente. A língua, barreira na negociação do nome agora era barreira feroz na hora de se ambientar àquele lugar. Não posso dizer se passaram fome, sede... mas provações, sei que passaram. E superaram.

E hoje, quando olho meu sobrenome na identidade, sinto orgulho, não sou um décimo da garra e da força, a covardia corajosa, a capacidade de se adaptar a algo completamente insosso, algo sem precedentes. Aposto que os ancestrais de meus ancestrais não esperavam por essa mudança, esperavam que toda a família ficasse unida pelos séculos que viriam a frente. Não ocorreu, houve a divisão. Talvez, se não tivesse isso, eu estaria nas ruas protestando. Talvez a família nem existisse mais... pensar nisso me trás uma saudade de meu avô paterno que, pasmem, não conheci e ainda assim sinto falta! Obrigado pela covardia corajosa de vir rumo ao desconhecido! Obrigado por terem dado a seus descendentes o orgulho que pulsa firme em meu peito. Sim, sou brasileiro, mas também tenho uma pontinha de coração batendo lá em minha eterna - ainda que eu não tenha pisado lá - pátria, minha Ucrânia! Chy Bude Ukraina!

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Mexicana

Estava semi-nua, depois de vários dias com a pele exposta e rasgada era de se esperar que já não sentisse mais tanta dor quando aquela lâmina de fio extremamente afiada passa por seu ventre. Não daria a informação, mesmo que isso lhe custasse sua vida. Longe dela querer morrer, porém era tudo uma questão de prioridades: não queria morrer, no entanto, mais que isso, não queria entregar ninguem. Jamais entregaria seu bando para os cães de Escobar. Dizem que em certo ponto até mesmo o cérebro entra em parafuso com a dor e acaba falando até mesmo as coisas que se controlou tanto para não contar. Esperava ou ser salva ou morrer antes disso. Mas como seria salva? Será que alguem do seu bando sabia que ela havia sido sequestrada? Não... ela havia saído daquele prédio ao sul de Tihuana por conta própria, já não conseguia mais sustentar aquela condição de ver Cristina, nos braços de Ruan. Claro, eles formavam um casal incrivelmente perfeito e lindo... O que Carolina queria agora, era a segunda opção, logo. Foi quando o estampido se fez. Seguido de diversos outros, alguns curtos, secos - tipicos tiros de pistola - e outros mais longos - tiros de carabina. Ainda pode se ouvir alguns tiros cadenciados, metralhadora quem sabe? Perdeu totalmente a noção do tempo. Sorriu ao ouvir a voz de Cristina. Sorriu e deixou-se apagar em meio a dor que sentia. A primeira opção venceu. Mais uma vez a morte teria que esperar.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Sarjeta II

E agora? Pensa, pensa. Quem sabe as roupas daquela anta coubessem nela. Apesar do alcoolismo estar presente nunca manti a casa bagunçada. A faxina era rara, é verdade, mas ainda assim haviam faxinas periódicas. A deitei em minha cama e, com uma toalha molhada limpei o rosto dela. Bonita. As roupas estavam inteiras, um pouco sujas da sarjeta, mas ainda assim limpas. Assim que abri a bolsa ela abriu os olhos. Ótimo. Nenhuma lesão na cabeça. O celular dela tinha senha. Documentos enfim. Helena e... ela pediu água. Servi. Enquanto ela bebia ofereci uma ducha e carona até em casa. Ainda que eu não tivesse carro podia dar um chute na porta da bicha e pedir o dela. Pedir não. Chutava a porta, colocava a pistola na cara e ia pegando a chave. Depois devolvia, ou não, tanto faz.

Ela aceitou pedindo desculpa. No armário tinham toalhas limpas que trouxe da lavanderia ontem, deu sorte. Pensando um pouco fechei a porta e me sentei na sala abrindo uma cerveja. Não parecia uma riquinha, parecia só uma garota assustada que confiou em amigos e esses amigos que devem ter bebido tanto quanto ela a esqueceram por ali. Faz parte. Eu mesmo já esqueci e fui esquecido por companheiros no balcão do bar, na sarjeta... até mesmo na frente da corporação. Bons tempos. O delegado me jogou pra dentro, deu um café amargo e pronto, eu estava pronto pra ação. Hoje em dia nem dirigir bebado podia mais. O mundo estava, realmente, acabando. Maldição.

Nem quinze minutos se passaram a moça, praticamente uma menina, saiu do quarto com as mesmas roupas que chegou. Quinze minutos e eu tinha matado quatro cervejas. Forte abraço pros alcoolicos anônimos. Não consegui ficar mais do que cinco minutos lá sem querer socar a cara de alguem. Melhor pra eles eu ter saído. Ela se aproximou receosa, claro. Prudência e água de coco não fazem mal a ninguem. Falei que era da policia, mostrei o distintivo, contei um trecho curto da minha história de vida. Pulei as partes chatas e só falei das coisas legais, tipo pegar bandido, dar tiro em pneu de carroo... essas babaquices que acham que policial faz.

Apesar de parecer emocionalmente instavel ela parecia boa pessoa. Boas pessoas também tem dias ruins. Ela se sentou no sofá ao meu lado e contou sua história. Brigas na familia, perda de pessoas queridas. No suprassumo de qualquer pessoa tinha problemas com familiares e perda de pessoas amadas e acabava descontando isso de alguma forma. Drogas, alcool, auto-mutilação chegando ao ápice do suicidio. A vizinha crentelha devia pregar que isso era pecado. Tanto pecado quanto ela não respeitar os outros com sua ladainha irritante. Ela é outra que merecia um belo de um disparo de 357 no meio da cara. Mas com ela preferia não arriscar, afinal vai que o senhor dela me ferra ali mais pra frente? Tomar tiro, apesar de ser bonitinho na TV, doi pra caralho.

Assim que ela se recompôs disse que tinha que ir e ficava resmungando baixinho que o pai dela ia matar ela. Não duvido. Eu mataria se fosse minha filha. Mas essa coisa de porre é coisa da idade, é daquelas experiências que todo mundo tem que ter na vida pra aprender como é e ver se gosta ou não. Eu, particularmente, gostei. Assim que saímos do apartamento caminhamos devagar até o sexto andar. Bati educadamente na porta e pedi que Helena esperasse um minuto. Vinte segundos e voltei com as chaves do carro e três notas de dez. No caminho achei prudente parar em alguma lanchonete e comer algo. Passavam das quatro e meia quando paguei. Um café pra viagem. Amargo.

Sendo guiado por ela chegamos a uma rua tranquila, algumas árvores, calçada bem cuidada, varrida, muros sem pichação... esse bairro era um dos menos violentos da cidade. A indicação da casa me fez parar em frente à um pequeno sobrado com pintura começando a descascar na parte próxima da janela da direita. Uma frondosa árovre dava o clima de casa do interior àquele pedacinho de tranquilidade. Ela agradeceu e já soltava o cinto de segurança quando puxei do bolso meu cartão. Pro caso de encrencas com a familia os pais dela que me ligassem. Se ela precisasse eu livraria a barra dela. Voltei pro meu muquifo. Devolvi as chaves pro vizinho e fui direto pra cama. Pensar nela me trouxe a lembrança de minha filha. Amanha ligaria pra ela. Quem sabe nas férias eu não visitava ela? Assim como minha pequena, Helena ainda tinha a vida inteira pela frente. E eu, tecnicamente também. Sorri satisfeito. Dormi como a muito não dormia. Dormi tranquilo e sereno.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Sarjeta I

Decididamente hoje eu não tinha bebido o suficiente. E o pior que hoje, depois de trinta e seis horas de plantão naquela pocilga, tudo que eu mais precisava era um bom porre pra afastar meus demonios e me fazer relaxar o suficiente pra não chegar em casa chutando a porta do vizinho com aquele seu louvor evangelico ou aquele vizinho viado que ia me ouvir subir e ia parar no batente da porta praticamente se oferecendo. Aquela bosta de prédio não tinha nem a porra de um elevador. Também, com essa ninharia de salário que pagavam, o máximo que dava pra morar, precariamente, era nesse antro. Logo eu que tive uma infância católica. Se bem que foda-se, nunca fui praticante. Se pisei numa igreja foram duas duzias de vezes.

Ao sair pensei em acender um cigarro. Ouvi dizer que da cancêr de esofago, de pulmão, deixa o cara brocha e pode até matar. Dei a primeira tragada. O calor que essa porcaria jogava dentro do meu peito era tranquilizante. Aspirei a maior parte da fumaça que pairou no ar depois da baforada. A garganta já deu o primeiro sinal da infecção de dias atrás. Soquei a carteira de cigarro no bolso do paletó. Debaixo do ombro estava com minha fiel amiga - uma Magnum 357 -, que me protegeria do que quer que fosse. Amém.

Nessas horas que penso na minha ex-mulher - aquela vadia - que sempre me sugeriu um chapeu, dizia que eu ficaria parecendo aqueles patrulheiros que ela via na TV. Os rangers. O Chuck Norris. Duvido que aquele cara seria tão macho a ponto de entrar no meu distrito e aguentar ficar um dia e meio sem dormir e, depois de sair, ir pro bar mais sujo da cidade encher a cara. A merda desses cigarros é que duravam pouco e custavam caro. Ouvi dizer que o governo aumentou o imposto sobre eles numa tentativa de fazer as pessoas pararem de comprar. Só a porra do meu salário que não aumentava. Maldição.

Duas quadras depois e um vulto jogado na calçada. Tsc. Merda. Quando eu digo na delegacia que o mundo ta se acabando e piorando a cada dia me chamam de exagerado, de doente. Bando de crianças recém-saídos da academia querem duvidar de mim, que estou tem mais de vinte anos aqui. Babacas. Cheguei perto, afinal vai que é mais um daqueles riquinhos de bosta que se entupiram de droga e agora estão morrendo numa overdose lenta e com as burras cheias de grana? De vez em quando parece que o cara lá de cima vai com a minha cara, sei lá. Ao chegar mais perto vejo que é uma garota, não devia ter mais de vinte anos. Irônico. O quê ela tinha na vida eu tinha nas ruas. Por um segundo me lembrou minha filha que aquela puta levou. A última vez que falei com ela - anos atrás - ela tinha bons planos pro futuro: ser advogada, casar, formar familia...

Dei uma olhada rápida pra cima. O relógio marcava três da manhã. Ela estava bem vestida. Não parecia com aquelas quengas que faziam ponto aqui perto. Chequei o pulso. Estava viva. Da boca dela escorria um liquido esbranquiçado. Essa fez a festa que não fiz. Maldição. Olhei em volta, ninguem ao redor. Mas, se eu a deixasse aqui logo alguem daria um jeito nela. A peguei no colo. Pra onde levar? Nem sabia onde ela morava. Ao menos ela tinha uma bolsa. Catei também, toda evidência coletada pode ser útil numa investigação, não é?! Sorri de canto com minha canalhice em pensar isso. Algum daqueles peritos esnobes tinha dito isso. Aqueles merdas ganhavam o mesmo que eu pra não encarar o perigo. Maldição.

Como estava relativamente perto preferi leva-la ao meu apartamento até o porre dela passar. Caralho. E essa porra de elevador não funcionando. Mas são só seis andares, nem da pra cansar. Afinal, o quê são quase dois dias sem dormir, alma entupida de café e o conhaque vagabundo de agora a pouco? Cansaço é pra crianças. A bichinha do quarto andar ficou posessa ao me ver com uma mulher no colo e voltou pra dentro do seu muquifo bravinha. Ótimo. Se vier me encher o saco dou um tiro com a 357 e já era. Digo que não estava por perto e ela se matou de desgosto. Posso forjar a cena que eu quiser. Destranquei a porta do meu apartamento e, com um belo de um chute, arregacei a porta. Com outro chute a fechei assim que passei.


... termina na sexta-feira!

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

os 26

Eu tinha dito pra mim mesmo (e pra mais algumas pessoas) que eu não escreveria nenhuma crônica sobre os vinte e seis por simplesmente não ter nada pra escrever a respeito da chegada dos vinte e seis anos. Decidi isso unilateralmente ignorando o fato da audiência desse blog meio que esperar algo assim vindo de mim no dia do meu aniversário... a verdade é que eu não tinha nada pra escrever, fiquei pensando por vários dias até decidir isso de não escrever.

Ocorre que essa deusa semi-louca que é a inspiração (que, pra mim, além de ser uma especie de fada é quem me coloca a "pena à mão") veio e me deu inúmeras ideias do que escrever, do que falar e tudo mais, mas isso não era o suficiente, então hoje eu estava lavando louça quando me veio a inspiração certa, aquela que, além da pena na mão, me cutucou até que eu viesse aqui escrever essas linhas. O quê me veio foi variar, eu me encontro numa fase de mudanças no que diz respeito a literatura e formas que eu escrevo, mentalmente ando em uma torrente cerebral imensa que, infelizmente, se esvaem antes que eu possa agarrar uma que seja.

Fazem dias que meu objetivo maior era estudar para o vestibular que vou fazer no dia vinte e quatro (quatro dias mais velho!) e andava mais racional que outra coisa, chegando a conclusões na quimica e na física que, depois do vestibular, não vão ter grandes utilidades práticas na vida (talvez se eu virar terrorista e for fazer uma bomba... abraços Obama! hahahaha) então estudo e classifico esse conhecimento como temporário, algo que, daqui alguns meses, eu malmente vou lembrar que uma transformação isocorica é uma transformação termodinamica onde tanto a temperatura quanto a pressão podem aumentar sobre um gás ideal que ele vai manter o mesmo volume.

Se, nos anos ateriores eu meio que fiz planos e não via grandes coisas feitas no meu passado, se as vesperas do cumpleaños, eu me via melancólico e relativamente deprimido e preocupado com o futuro agora eu vejo que sim, fiz muita coisa no passado, muitas coisas ruins, muitas coisas boas, muita merda e muita coisa cheirosa. E a tendência, é eu fazer igual no futuro, claro que as perspectivas pro amanha são ótimas, os planos, sonhos, desejos nunca estiveram tão pertos de se concretizarem e tals... mas, quero aproveitar a minha crônica de aniversário não pra planejar o praguejar. Não. Quero agradecer não só pra todos que vieram até aqui comigo, como pra todos que ainda vem comigo, quero agradecer a meus pais, ainda que eu não seja o melhor dos filhos, acho que um dia eu chego lá!

A verdade é que, umas três semanas atrás (ou seja: já tinha começado o meu "inferno astral" (ainda que eu não acredite cegamente nisso)) meu dente do siso começou a querer nascer (meu siso cresce um pouco e pára, cresce, e pára, como se o juízo me viesse aos poucos) e doer um pouco, não aquelas dor de sofrer, mas aquela dorzinha chata que incomoda. Depois de ler o Gita (pois é, acabei gostando do budismo...) eu acabei chegando a conclusão de que não vale a pena se preocupar tanto com a matéria (claro que eu adoro ganhar presentes, conquistar as coisas físicas, ainda não atingi o nível de evolução que eu supere essa "deficiência") e sim com as pessoas, em fazer o Bem sempre, sempre seguir pelo caminho da reta-ação. Juntei meu siso com a reta-ação só pra chegar a conclusão de que, se eu estou aqui hoje, alguns dias antes do aniversário propriamente dito, com um fino sorriso nos lábios e uma lágrima teimosa quererndo sair, é porque eu me sinto bem. Estranhamente bem. Estou preocupado com o vestibular, em conseguir um emprego no começo do ano que vem... mas, sinto aqui dentro de mim, que tudo isso vai aparecer ao seu tempo.

Me prolonguei e devo ter me perdido no meio da crônica, mas, esse ano, quero simplesmente agradecer aos meus amigos e amigas, meus pais, meu cachorro e até, porque não, Deus por tudo que vivi/senti (pra mim, as sensações/sentimentos, sempre valeram mais do que vivências em si) até hoje e fazer um pequeno desejo: que os vinte e seis sejam vinte e seis vezes melhores do que foram os vinte e cinco!

sábado, 9 de novembro de 2013

Tranca

Entrar nesse prédio nunca foi dificil. Não pra mim. Portão com grade, porteiro, cerca eletrificada... nada me impedia de entrar. Sempre dava um jeito e entrava. E agora cá estava eu, a poucos lances de escada da porta dela. Meu joelho dolorido denunciava a falta de um elevador aqui, porém era o quê deixava o preço do apartamento menor em comparação à outros da mesma região e mesmo tamanho. Bati nos bolsos, merda, esqueci (ou perdi, não sei) a chave do apartamento dela. E era o com mais trancas no total, eram duas além da principal que ficava do lado direito. O problema é que eu quem tinha dito para ela instalar essas outras duas fechaduras, pois, apesar de Paris ser uma cidade turistica e, em teoria, haver um grande efetivo policial a imensa maioria dos policiais estava cuidando, obviamente, dos turistas deixando o resto da cidade à propria sorte, ou, como ela gostava de dizer "ao Deus dará".

Não tinha problema. Chequei embaixo do tapete na fina esperança dela ainda ter o costume de deixar as chaves debaixo do tapete. Não... ela sabia que eu estava viajando, que eu estaria na República Tcheca, mais precisamente em Praga, resolvendo alguns assuntos pendentes acerca de problemas antigos que, com o passar do tempo o apetite de Cronos aumentava. Franzi o cenho dando uma rapida olhada em volta. O corredor estava escuro o suficiente pra minha presença não se fazer percebida. De debaixo de alguma das portas vinha um som estereofônico de uma orquestra tocando juntamente de uma banda de rock, dessas mais atuais. Será que seria um DVD recém-comprado e tocado em alto volume quando a mãe do adolescente que ouvia saiu? Ou o pai que resolveu ver e descobriu que era bom, ou ainda a propria mãe que queria ver o quê seus filhos ouviam e acabou gostando, ou, ainda, quem sabe alguem que morava sozinho e pouco se importava com o volume. Muito embora pouco importava mesmo, as paredes dos apartamentos eram grossas o suficiente pra isolar o som, ao contrário das portas que, apesar de terem pequenos adornos que simulam uma porta trabalhada habilmente por um carpinteiro, eram finas e simples demais, ao ponto de que o som escapava por ela e ocupava o corredor.

De um dos bolsos - o da direita na parte de trás - tirei um pequeno arame. A "chave". Com certa facilidade destranquei a tranca do meio. A de cima e, consequentemente a de baixo, era daquelas do tipo tetra. Mais dificeis de se abrir, com uma tranca dupla que tinha que ser acionada simultaneamente. A maior dificuldade em abrir ela, talvez seja o fato dela equivaler a quatro chaves normais e não apenas duas, como pode parecer. Tanto que cópias dessas chaves eram inviaveis, era muito mais prático simplesmente se trocar a fechadura inteira. Volto a olhar em volta pensando ter ouvido um barulho... não. Impressão minha. Me abaixo pra "trabalhar" a fechadura de baixo. Só agora me veio, quase que de relance, o fato de que, se ela estivesse em casa, a tranca pega-ladrão estaria fechada, o quê tornaria o trabalho de abrir as outras três fechaduras inútil, porque aquela só se abria por dentro. Embora com um tranco bem dado provavelmente ela deveria abrir. Provavelmente.

Enfim a fechadura cedeu. Venci as três em pouco mais de dois minutos. Deveria ser um novo recorde. Agora apareceriam fotografos, uma apresentadora me felicitando pelo feito, platéia entusiasmada aplaudindo, o auditor do Guiness Book me comprimentando e dando os parabéns, o microfone da apresentadora viria à minha mão e eu agradeceria todos que torceram por mim para que eu conseguisse realizar esse feito e tudo mais. Agradeceria a minha mãe, ao meu pai que me ensinou a arrombar portas, à minha irmã por me apoiar, ao meu cachorro, ao velhinho que fica tocando sanfona próximo do Arco do Triúnfo, no fim da Chantz Elisè. Pisquei e a realidade voltou completa. A escuridão, os fotografos, a apresentadora, o auditor, a platéia e o recorde sumiram dando lugar ao som que ainda vazava por baixo da porta do oitocentos e dois.

Girei a fechadura. Ela não estava. Chequei o relógio. Vinte e duas horas e alguns minutos. Onde ela estava? Fechei a porta atrás de mim, trancando apenas a do meio. Adorava esse apartamento, tinha a vista da Torrei Eiffel toda iluminada, agora ganhando ainda mais luz pelo natal que se aproximava. Fui à cozinha e coloquei água para ferver. O vento frio começava a cortar nesse meio de novembro, o inverno esse ano prometia ser menos rigoroso que em anos anteriores. Talvez o aquecimento global fosse verdade afinal de contas. Caminhei pelo apartamento vendo que um dos quartos foi tranformado em um pequeno estúdio, sobre a cama dela algumas partituras... provavelmente ela tinha se inspirado por música agora. Faziam o quê? Dois, talvez três anos que não vinha aqui. Nossos últimos encontros sempre foram ou em minha cobertura, seis quarteirões daqui, ou em Edimburgo. A chaleira avisou com aquele apito irritante que a água estava quente e pronta pro meu chá. Sejamos britânicos, eu pensei fazendo um chá de laranja com gotas de leite e limão, mas sem açúcar. Caminhei na direção da sacada, queria ver a obra do Gustav brilhando e bebericar minha "água quente com gosto", como ela sempre disse. O quadro que ela havia pintado de mim, anos atrás, me encarou por alguns segundos. Cronos estava cada vez pior comigo. Me sentei e beberiquei o chá. Foi quando a porta do apartamento se abriu. Meu único movimento, praticamente involuntario, foi o canto dos lábios formando um fino sorriso. Logo ela viria ao meu encontro.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Pão Francês

Faziam algumas semanas que ele não encontrava uma padaria decente no seu bairro. A cidade nova era boa de se viver, o ar era mais tranquilo, a praia ficava a poucos minutos de moto, os pores-de-sol eram infinitamente mais coloridos e a pianista havia entrado em sua vida, ele não saberia dizer se entrado para ficar, mas, como diria um de seus poetas preferidos "que seja eterno enquanto dure". Pensar nessa frase lhe fazia pensar nela... foi eterno enquanto durou. Quer dizer, isso se tivesse realmente acabado. Aquela SMS enviada após a noite de trovões em que sua mente se encontrava era o quê seu coração sentia, ainda a amava, claro, mas era melhor se manter afastado por algum tempo, tal qual a música do skank "Em paz eu digo que eu sou, o antigo do que vai adiante, sem mais eu fico onde estou, prefiro continuar distante"... Mas, na sequencia da playlist vinha outra frase que ecoava em sua mente "... e quando o sol se inclinar, eu posso por uma toalha e te servir o jantar...". Jantar. Ontem não havia comprado pão, a padaria do bairro era terrivel, a melhor era uma quase do outro lado da cidade, próxima da praia. Olhou o relógio, checou a carteira. Deu de ombros pegando as chaves e indo até a garagem. Colocou a jaqueta de couro, o capacete, trancou a casa e saiu.

A estrada seguia parecida com dois meses atrás. A pianista encontrava-se em um congresso de um mês sobre pianos. E ele tinha pequenos trabalhos a fazer, a grande maioria deles já havia sido feitos e um de seus antigos clientes o tinha chamado. Ele, sem querer recusar e sem saber se poderia aceitar, disse que assim que estivesse na cidade daria um toque ao tal cliente. Na superficie de sua mente era esse o motivo de estar viajando as mais de cinquenta milhas entre sua casa e aquela cidade. Se fechasse os olhos sabia onde seu GPS mental o levaria, por isso permaneceu de olhos bem abertos. No caminho resolveu parar e almoçar, enquanto almoçava tratou de negocios com o cliente. A tarde o trabalho transcorreu mais rápido do que ele planejava. Antes de sair do lugar deu uma rápida olhada pra cima como se perguntasse "estas me mandando um sinal?". Como a resposta dela nunca havia sido mandada ele pensou mil coisas, menos a mais óbvia, que talvez ela estivesse sem créditos no celular para responde-lo.

O sol se arrastava lento para o horizonte, na direção das montanhas que, aqui, eram feitas de concreto até onde a vista se alcançava. Decidiu se permitir e ir até lá. Tinha de ir. Era sua obrigação. Mesmo depois de tudo o que aconteceu sentia falta daquele lugar pequeno, não tão calmo, não tão limpo, não tão perfeito, mas ainda assim era a melhor padaria que ele conhecia. Ao estacionar na frente da mesma olhou de relance o prédio dela, no fim da rua, ele seguia com o mesmo tom salmão meio desbotado pelos anos... provavelmente daqui não mais de dois anos alguem mandaria pintar afim de tornar o edificio mais valioso e, quem sabe, aumentar o condominio, melhorar a reocupação, pois muitos haviam se mudado para outros apartamentos mais bem localizados, maiores, com as paredes mais grossas e prestações menores. Maldita espucalação imobiliaria.

Se sentou ao balcão. O lugar seguia identico ao que se lembrava. Olhou rapidamente em volta temendo vê-la. Ela não estava aqui. Sorriu quando o dono do lugar se aproximou dele e o cumprimentou. Conversaram por bons dez minutos, ele pediu um queijo quente e uma soda nesse meio tempo. Ao primeiro pedaço de pão com queijo derretido descendo pela garganta dele um misto de felicidade e saudade o inundou. O quanto ele estava com saudade daquilo! O sol se afastou mais na direção do horizonte, foi então que ele sentiu um perfume conhecido. Aquele perfume que ele havia dado para ela anos atrás e ela tomou por "... meu 'cheiro' daqui pra frente.".

Ela olhou, ele olhou. Ela sorriu, ele sorriu. O sorriso dela se alargou, o sorriso dele se alargou. Ela corou suavemente, ele corou suavemente. Apesar de estar cheia, a padaria tinha dois bancos vazios: um próximo do banheiro, que praticamente ninguem sentava-se nunca e outro, onde ele, intuitivamente, havia posto o capacete. Ele tirou o capacete, ela se aproximou, ele se sentiu um adolescente que via aquela menina de que ele sempre foi afim e ela vinha pedir ajuda com alguma matéria que ele sabia. Ela sorriu. Estava num vestido solto, desses de verão, com borboletas desenhadas no tecido, nos pés uma sandália com um salto baixo, provavelmente ela veio apenas buscar pão, como sempre. Ela agradeceu e se sentou ao lado dele. Os olhares se cruzaram. As mãos dele que, até então, estavam sobre o balcão, agora estavam entre "vou pro colo" e "fico aqui", no fim elas acabaram ficando como se grudadas ao balcão. A mão esquerda se precipitou aproximando-se da dela, que pousou no balcão com tamanha graça e elegancia que parecia ter asas nas pontas dos dedos que frearam ao máximo o pouso. No inicio o assunto foi o clichê "como tem passado?", depois o assunto foi se prolongando, conforme a noite tomava seu lugar no céu e a lua brotava no exato oposto de onde o sol havia pego o rumo para o Japão. Aquela noite prometia ser longa.