quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Sarjeta I

Decididamente hoje eu não tinha bebido o suficiente. E o pior que hoje, depois de trinta e seis horas de plantão naquela pocilga, tudo que eu mais precisava era um bom porre pra afastar meus demonios e me fazer relaxar o suficiente pra não chegar em casa chutando a porta do vizinho com aquele seu louvor evangelico ou aquele vizinho viado que ia me ouvir subir e ia parar no batente da porta praticamente se oferecendo. Aquela bosta de prédio não tinha nem a porra de um elevador. Também, com essa ninharia de salário que pagavam, o máximo que dava pra morar, precariamente, era nesse antro. Logo eu que tive uma infância católica. Se bem que foda-se, nunca fui praticante. Se pisei numa igreja foram duas duzias de vezes.

Ao sair pensei em acender um cigarro. Ouvi dizer que da cancêr de esofago, de pulmão, deixa o cara brocha e pode até matar. Dei a primeira tragada. O calor que essa porcaria jogava dentro do meu peito era tranquilizante. Aspirei a maior parte da fumaça que pairou no ar depois da baforada. A garganta já deu o primeiro sinal da infecção de dias atrás. Soquei a carteira de cigarro no bolso do paletó. Debaixo do ombro estava com minha fiel amiga - uma Magnum 357 -, que me protegeria do que quer que fosse. Amém.

Nessas horas que penso na minha ex-mulher - aquela vadia - que sempre me sugeriu um chapeu, dizia que eu ficaria parecendo aqueles patrulheiros que ela via na TV. Os rangers. O Chuck Norris. Duvido que aquele cara seria tão macho a ponto de entrar no meu distrito e aguentar ficar um dia e meio sem dormir e, depois de sair, ir pro bar mais sujo da cidade encher a cara. A merda desses cigarros é que duravam pouco e custavam caro. Ouvi dizer que o governo aumentou o imposto sobre eles numa tentativa de fazer as pessoas pararem de comprar. Só a porra do meu salário que não aumentava. Maldição.

Duas quadras depois e um vulto jogado na calçada. Tsc. Merda. Quando eu digo na delegacia que o mundo ta se acabando e piorando a cada dia me chamam de exagerado, de doente. Bando de crianças recém-saídos da academia querem duvidar de mim, que estou tem mais de vinte anos aqui. Babacas. Cheguei perto, afinal vai que é mais um daqueles riquinhos de bosta que se entupiram de droga e agora estão morrendo numa overdose lenta e com as burras cheias de grana? De vez em quando parece que o cara lá de cima vai com a minha cara, sei lá. Ao chegar mais perto vejo que é uma garota, não devia ter mais de vinte anos. Irônico. O quê ela tinha na vida eu tinha nas ruas. Por um segundo me lembrou minha filha que aquela puta levou. A última vez que falei com ela - anos atrás - ela tinha bons planos pro futuro: ser advogada, casar, formar familia...

Dei uma olhada rápida pra cima. O relógio marcava três da manhã. Ela estava bem vestida. Não parecia com aquelas quengas que faziam ponto aqui perto. Chequei o pulso. Estava viva. Da boca dela escorria um liquido esbranquiçado. Essa fez a festa que não fiz. Maldição. Olhei em volta, ninguem ao redor. Mas, se eu a deixasse aqui logo alguem daria um jeito nela. A peguei no colo. Pra onde levar? Nem sabia onde ela morava. Ao menos ela tinha uma bolsa. Catei também, toda evidência coletada pode ser útil numa investigação, não é?! Sorri de canto com minha canalhice em pensar isso. Algum daqueles peritos esnobes tinha dito isso. Aqueles merdas ganhavam o mesmo que eu pra não encarar o perigo. Maldição.

Como estava relativamente perto preferi leva-la ao meu apartamento até o porre dela passar. Caralho. E essa porra de elevador não funcionando. Mas são só seis andares, nem da pra cansar. Afinal, o quê são quase dois dias sem dormir, alma entupida de café e o conhaque vagabundo de agora a pouco? Cansaço é pra crianças. A bichinha do quarto andar ficou posessa ao me ver com uma mulher no colo e voltou pra dentro do seu muquifo bravinha. Ótimo. Se vier me encher o saco dou um tiro com a 357 e já era. Digo que não estava por perto e ela se matou de desgosto. Posso forjar a cena que eu quiser. Destranquei a porta do meu apartamento e, com um belo de um chute, arregacei a porta. Com outro chute a fechei assim que passei.


... termina na sexta-feira!

Um comentário:

Andy Stark disse...

Muito bom,um dia ainda vou comprar um livro teu ;*