terça-feira, 31 de maio de 2016

Álibi e5s2: Merda

Agora ela tinha passado de todos os limites aceitáveis. Aquela vadia ia pagar caro por ter invadido meu apartamento, bagunçado tudo e ainda por cima querer marcar um encontro. Sophia não sabia o que tinha plantado quando entrou aqui. E o notebook? Merda. Por que diabos ela deixou a porra do notebook? Pior: Por que eu fiquei entretido com as informações que tinha nele e esqueci da minha pizza? Se bem que o ketchup picante resolvia bem e pizza fria não era de todo ruim.

O molho respingou no canto do teclado enquanto eu buscava qualquer coisa útil pra levar aquela desgraçada pra justiça. Ou pra vala. Tanto faz. A porra é que ela me fez ir até lá embaixo e falar com aquele velhote que cuida da portaria essa hora da madrugada. Ele não era mal funcionário, longe disso, mas ele era tão surdo quanto a porta. Por isso ele não ouviu a hora que perguntei das câmeras de segurança do elevador. Não podia culpar a pessoa errada. O palavrão foi mais forte que eu quando descobri que: Primeiro: essa bosta de prédio só tem câmeras dentro do elevador. Segundo: A Sophia usou as escadas, ela sempre teve uma certa fobia de elevador. Tanta coisa pra ter medo e vai ter medo logo de uma... okay, era uma caixa fechada, sem janelas, que se movia e o sistema de pedir socorro nunca funcionava direito.

Enquanto fuçava descobri que ela não havia começado a fazer o que fez aqui. Aliás, sempre quis ver o que tinha nesse notebook, desde quando a gente resolveu morar juntos, meses atrás. Nada demais. Muitos artigos de leis - que eram justificados por ela fazer faculdade de direito. Muitas fotos do passado no que parece ser o sul - que é de onde ela diz ter vindo. Muitas buscas sobre hotéis, pousadas, hosteis em vários lugares do país - perfeitamente aceitável de pensar que ela estava em fuga e que ela fez das suas em outras cidades pequenas. E em um arquivo com meu nome, uma pequena mensagem.

"Encontrou o que procurava, Sérgio? Cansei de fugir. Venha me encontrar na rua Fernando Pessoa, 3340 depois de amanhã, no fim da noite. Vamos resolver todas as nossas pendências. Não preciso pedir que venha sozinho, porque sei que virá. Não precisa trazer o notebook, depois eu passo aí pegar. Com amor, Soph."

Confesso. Minha vontade foi estourar o notebook da Sophia na parede. Ela era petulante. Petulante ao ponto de que eu me sentia desafiado. No arquivo tinha a data do encontro. Provavelmente cega pela vingança ela não tinha notado que só ia ter a chance de vir aqui no dia seguinte. Ou será que ela me queria lá depois de amanhã? Tanto faz. Amanhã era meu dia de folga, então não custava nada passar lá e, se não tivesse ninguém passaria no dia seguinte dizendo que tinha recebido uma pista de algo. Se não fosse verdade ou o endereço estivesse errado ganharia meio dia de folga. Comi mais dois pedaços de pizza gelada pensando em como resolver e preparando os pentes de munição. Três pentes de vinte e um tiros deviam dar pro que planejava. Ou presa, ou no saco preto. Ela só tinha essas opções.

Tentei dormir um pouco. Mas o máximo que consegui foram pequenos cochilos intercalados por pesadelos que me despertavam e me faziam acordar com a arma em punho. Numa dessas acordadas cheguei a dar um tiro na janela que dava para a rua. Por sorte - ou cagada mesmo - ninguém estava no caminho. O vizinho do lado interfonou perguntando do tiro, falei que estava jogando com o volume alto, pedi desculpas e passei a dormir com a arma debaixo do travesseiro, não sobre o peito. Depois de duas dúzias de sonos com meia hora dormi o resto do dia. Ao fim deles chequei todo o equipamento e liquidei a pizza. Bebi um gole de vodka pura. Perfeito.

Segui de taxi para o endereço indicado, pois se qualquer uma das minhas opções acontecesse eu precisaria deixar meu carro no lugar e seguir com uma viatura. E de acordo com o site de mapas e com o conhecimento do Peçanha, o bairro ali era barra pesada. Por isso evitei ir com o meu carro. Um taxi me levava lá e pronto. Claro que iria sair uma bela facada. Por isso, ao invés do tradicional taxi, preferi aquele aplicativo que todos diziam ser mais em conta. No fim da corrida pareceu mais em conta mesmo. O lugar parecia aqueles depósitos velhos de filme americano onde os ladrões formulavam um plano de assalto ao banco.

Assim que passei pela pilha de carros desmontados reduzidos à carcaças, desviando de peças soltas no chão que, se eu trombasse, podiam fazer algum barulho. Mas o calçado fazia um pouco de barulho nesse chão de concreto armado. Merda. Devia ter ou vindo com aquele tênis de corrida que tinha pago os olhos da cara, ou entrado de meias. Depois de chegar no grande salão do depósito pude ver Sophia parada. Desarmada. Só com um pequeno controle parecido com o de alarme de carro nas mãos. E eu com a pistola na parte de trás da calça. Ela não parecia querer fugir. Por isso deixei que ela falasse primeiro. Não veio aqueles clichês de história triste, de abuso infantil que justificasse o que ela fez. Ela só começou a fazer o que fazia porque deu vontade. Só isso. Depois foi minha vez de falar. Porém minha fala foi interrompida por um estalo. Um barulho forte vindo do lugar onde eu havia acabado de passar veio acompanhado do cheiro de pólvora. Merda.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Madrugada

2:48.

O frescor da madrugada atingiu ele parado do outro lado da rua. Ouviu um ranger de metal antigo e, por um instante, pensou que fosse a placa pendurada naquela tabacaria no dois prédios a esquerda. Não, a placa estava imóvel. O que se abriu foi o portão. Aquele portão rangendo parecia o da velha casa em que ele e ela viveram tanto tempo e que hoje era bem cuidada por uma família com dois filhos pequenos que tinha vindo do interior buscando melhores condições de educação para as crianças. O olhar dele estava baixo quando ela se aproximou, quase como se mantivesse um respeito frente à figura dela.

Ele estava envolto em seus pensamentos. Tinha planejado ir embora quando a figura se aproximou mais. Quis sair correndo. Sumir. Fazer qualquer coisa. Mas algo prendeu seus pés ao chão. Correntes mais fortes do aço mais forte que jamais foi forjado mantiveram ele ali. Imóvel. Um vento frio ousou passar entre eles. A rua que antes tinha algum barulho ao longe tinha perdido todo o ruído que pudesse atrapalhar a comunicação dos dois. Foi quando a mão dela se estendeu no ar e ele se deu conta de que era ela mesma. O pé descalço no chão frio e sujo foi a primeira coisa que chamou a atenção dele.

Ele tomou a pequena - e quente - mão dela na dele sendo invadido por um calor que a muito não sentia. "Devia colocar um calçado nesse pé". Ele ignorou a frase dita por ela. Eles não precisavam dos clássicos cumprimentos, as clássicas frases clichês que começa todo dialogo. Essa conexão que trouxe ele, novamente, até a presença dela era a sintonia de que tanto ele, quanto ela, estavam em um momento cinza da vida. A pianista havia sumido da vida dele. A faculdade. Os amigos. O emprego. A comida. Tudo havia perdido a graça. Era como se faltasse algo. Algo que o toque da mão dela o fez arrepiar.

Entre. Café. As duas únicas palavras que havia entendido ditas por ela. Sorriram seguindo pela pequena calçada em que alguns tufos de grama ousavam crescer entre as pedras. Estavam em um silêncio tão gritado que não havia necessidade de palavras. Vibrações sonoras. Diziam tudo que havia para ser dito ali, caminhando ao relento. Entraram na casa. O som estava ligado baixo. A casa em meia luz e o cheiro de café e tabaco inundando o ambiente. Ele fez uma caretinha habitual frente aos vícios dela. Ela sorriu. Foram até a cozinha onde o cheiro de café era quase insuportável. Mas, por estar na presença dela, ele suportava.

Como conhecendo ele mais do que ele mesmo, ela tirou uma lata de achocolatado do armário. Colocou sobre a mesa dizendo que se sentasse. Logo apareceu mais uma xícara, leite, colher e biscoito maria. Aqueles minutos em silêncio só foram quebrados por um cachorro que latiu por um inimigo invisível. Eles, que até então mantinham um cenho formal - apesar de nunca terem sido formais um com o outro - sorriram. Ele começou falando dele. Da vida. Da faculdade. Dos amigos. Do emprego. Da comida. E de como tudo isso havia perdido a graça. De como tudo tinha virado uma paleta de cores monocromática. Depois de vários pares de minutos ele deu por encerrado sua ladainha.

Ela bebericou um gole de café. Até agora ela não havia falado nada. Apenas ouvido. Ele sorriu bebendo um gole do achocolatado a vendo inflar o peito e soltar o ar em seguida. Ela esboçou um sorriso e começou a falar. Da vida. Dos amigos. Do emprego. Da comida. E de como tudo havia perdido a graça. Falou da escala de cinzas que havia tomado sua vida. Falou de seus casos depois que eles se separaram. De como odiava essa vinhança. Do quanto sentia falta da vista que tinha no apartamento e que o tapete de borboleta havia sido destruído por um gato de uma vizinha velha que morava do outro lado da rua. 

Nesse instante, depois de longos pares de minutos falando ela enfim se calou e o som da voz dela ecoou por toda a cozinha por não mais que meio segundo. Em seguida o silêncio imperou. Dois pares de minutos se passaram. O líquido em ambas as xícaras havia esfriado. Foi quando as mãos se tocaram novamente. Com isso os corpos começaram a se atrair como se puxados por uma força maior do que eles. Um magnetismo. Algo maior do que eles. Maior que a rua. Que o bairro. Que a cidade. Que o continente. Que o planeta. Que todo o universo junto. Quando os olhos se fecharam e a ponta dos narizes frios se tocaram veio um sorriso de ambos. Os lábios se tocariam, novamente o beijo deles seria capa de inúmeras revistas, a imagem ganharia inúmeros prêmios por plasticidade da imagem, por verdade no sentimento que demonstravam. O primeiro raio da manhã foi a última coisa que entrecortou-se entre os lábios deles antes do toque.

9:15.

O despertador tocou. Ele abriu os olhos. Tudo não havia passado de um sonho. Outro dia de merda começava.

domingo, 15 de maio de 2016

Para-Quedas

Para ele o universo tinha algo pessoal contra ele. Não podia ser. Tudo bem que ele nunca se esforçou para procurar alguém e os "alguens" sempre "caiam de para-quedas" na sua frente. Mas, estranhamente, todos que apareciam do nada na sua vida subiam no avião para saltar novamente - e, dificilmente, caiam na frente dele novamente. Não que não soubesse se virar, correr atrás do seu, fazer todos os esquemas, cálculos, planejamentos, que precisava fazer para sobreviver.

Falando sobre viver ele não se sentia vivo fazia um bom tempo. A laje, as estrelas e a Lua, suas únicas companheiras. Claro, não podia se esquecer da motocicleta preta estacionada na garagem. Parceira de tantas viagens, de tantos rolés... de súbito pensou que o frio estava chegando. Desceu para a cozinha. Não tinha a menor vontade de fazer chimarrão ou beber uma vodka. Do armário sacou uma caixinha de chá de erva doce que devia residir ali desde o inverno passado. 

Ferveu a água imaginando que ela estaria fervendo água pro café com aquele maldito cigarro entre os dedos. Ele sempre odiou cigarro, o simples cheiro desde criança lhe fazia ter ânsia de vômito. Mas com ela não sentia o cheiro. Não o cheiro completo. Sentia um cheiro fraco, como se quem fizesse o mau hábito estivesse distante uns dez, doze metros. Será que isso era culpa do sentimento? Quem sabe. Hoje ele havia voltado a sentir nojo extremo de cigarros e derivados. Depois que "separaram" nunca mais teve noticias dela. E não era culpa de ninguém. Subiram no mesmo avião, mas depois do salto cada um pousou milhas distantes um do outro.

Enquanto achava uma xícara no armário seu pensamento se perdeu na música que tocava em uma rádio dessas que não tocam a música da moda ou o último sucesso do sei-lá-quem. Era uma versão de Für Elise tocada com maestria por um pianista tcheco gravado dezenas de anos atrás. Foi aí que seu pensamento foi até a pianista. Merda. Essa sim entrou, literalmente, em um avião e saltou distante. O cabo da chaleira esquentou junto com a água. Tomou um pano de prato e jogou a água fervente na xícara onde o saquinho de chá aguardava. Essa era uma que deu as caras no começo do ano e depois sumiu. Provavelmente os ventos levaram o para-quedas dela para longe.

O liquido amarelou-se. Não colocaria açúcar. Nunca colocou. Mesmo em chá mate sempre preferiu beber in natura. Olhou o moedor de pimenta no balcão. Pensou um instante e moeu meia dúzia de voltas de pimenta dentro do chá. Bebericou um gole. E não é que sua invenção ficou boa? Um dia podia patentear isso e comprar um GPS, daria para as pessoas que gostava assim que elas subissem no avião. Quando elas chegassem ao chão ele saberia como procura-las. Terminou de beber sua mais recente invenção e recebeu um telefonema. Teria de ir à metrópole resolver alguns assuntos rápidos.

Pegou a jaqueta de couro. O capacete. A motocicleta. Trancou a casa toda e subiu a serra. Resolveu tudo que tinha para resolver em pouco mais de uma hora. Já que tinha vindo até aqui por que não acionar o GPS e ir procurar por ela? Não. Ainda não. Passou por sua velha casa. Os novos donos ou inquilinos estavam cuidando bem do jardim e da pequena horta que ele e ela haviam "desenvolvido" no fundo da varanda. A julgar pelas janelas bregas os novos donos deviam ter vindo do interior. Isso explicaria o fato de estarem cuidando das plantas. Que bom. Pretendia voltar quando resolveu ir até aquela padaria que ficava em frente do prédio dela. Ao chegar na padaria lembrou que ela não morava mais ali. Ainda lembrava de onde ela tinha ido morar. No caminho passou por alguns depósitos. Um deles estava em chamas que os bombeiros lutavam bravamente para combate-las. 

Chegou no endereço. Olhou a casa "viva". Janelas acesas. Música. Na verdade era apenas uma janela acesa - a da sala - e a música era baixa - o suficiente para ser ouvida mas não reconhecida - o silêncio na redondeza dizia para ele algo que ele só se deu conta ao olhar para o relógio do celular. Eram passados de duas da manhã. O cheiro de café misturado ao de tabaco veio da casa. Dois cheiros que ele nunca gostou. Dois cheiros que ele reconhecia como sendo dela. Será que ela estava tão acinzentada quanto ele? Será que aquela caixa de lápis de cor já havia se acabado? Desligou a motocicleta ficando do outro lado da rua. Na mochila que levava meia dúzia de pães. Provavelmente ela ainda teria achocolatado. Mas... a dúvida lhe ocorreu. Lhe percorreu por completo. Lhe consumiu de tal forma que ele ficou inteiramente inerte olhando para o muro nem tão alto que escondesse a casa e nem tão baixo que pudesse assanhar bandidos locais. Olhou para o céu como se buscasse uma resposta, uma luz divina, algo superior que lhe guiasse nessa hora de dúvida. Algumas estrelas apareceram entre as nuvens. Logo a Lua fez sua aparição e, no tempo de não mais que cinco minutos, o céu inteiro estava estrelado. Qualquer um que pasasse perto dele olhando para cima o teria por doido ou algo do tipo. Ele, citando Bilac, responderia "amai para entende-las! Pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e entendder estrelas.". Permaneceu inerte por mais tempo. Ficou sem ação. Será que ela sairia? As horas passavam-se sem que ele tivesse qualquer atitude. Ele ficou a espera de algo divino que lhe desse a resposta. Isso se essa coisa de divino, realmente, existia.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Álibi e4s2: Pizzaria

Decididamente existem dias bons onde tudo que você planeja dá certo. Todas as esquinas que você passa o semáforo está aberto. A vaga dos sonhos no estacionamento está vazia. Você vai pegar café e ele foi feito na última meia hora. O computador ajuda. Na volta pra casa você encontra aquela comida que você julgou ter acabado na geladeira atrás de algumas latas de cerveja que você também julgou não existirem.

Não, esse dia não foi hoje. Aquele planejamento feito na hora do banho foi um desastre. Alguma obra próxima fazia um barulho que era ouvido com mais intensidade justamente no lugar onde nos encontramos com nosso eu mais profundo: o banheiro. 

Todos os semáforos estavam fechados. E os sempre tinha algum babaca trancando o cruzamento. Fora os vendedores de bala. Vendedores de caneta. Vendedores de adesivo. Malabaristas. Pedintes. Crianças que lavam o vidro usam aquele rodinho que risca o vidro. Coloquei o distintivo no console e enfiei a mão na buzina várias vezes. Pensei em pegar a pistola, ameaçar alguns... mas nos dias de hoje qualquer ameaça já vai pras redes sociais e dá merda. Um soldado novato lá se fodeu lindamente ao dar dois tiros pro alto em uma festa de igreja semana passada.

Por causa desse atraso todo no caminho, as vagas do estacionamento estavam todas cheias. Só sobraram as vagas descobertas e do outro lado do planeta. Decididamente tem dias que deus - caso ele realmente exista - não vai com a minha cara. Pra foder com tudo ainda foi o dia mais quente do ano. Depois eu vi que tinha sido o dia mais quente dos últimos dez anos. Puta merda.

E o café? Desisti quando vi o aspecto dele na caneca do Soares, meu superior direto. Parecia água com terra. Molho shoyo. Disenteria. Rio Tietê poluído. Petróleo. Qualquer outra merda dessas escuras. Menos café. O cheiro lembrava aquela meia minha que ficou debaixo da cama e só fui me ligar da existência quando ela começou a feder. E fedia pra caralho.

O computador, pra variar, não parava de travar. Hoje eu tinha que ficar algumas horas na sede do batalhão digitando relatórios. Como com essa bosta de computador? O teclado parou de funcionar e aquele boyzinho filho do secretário de segurança que fingia trabalhar com T.I. trouxe um teclado branco que não tinha nem cedilha. Puta que pariu. O pior é que ninguém gostava do moleque. Ele sentava no canto dele com seu café da Starbucks que ele comprou com o cartão corporativo do pai e que, no fim, saía do nosso bolso. E pra completar a foda, sem cuspe e com caco de vidro, a merda do ar condicionado resolve parar de funcionar. Resultado: em vinte minutos todos estávamos putos, suados e fedidos. Decidi sair pra ronda. Ao menos isso não me trouxe aporrinhação. Só sacudir maconheiro em porta de escola.

Vinte e cinco horas depois. Com o stress lá na casa do caralho pensei em parar em algum bar. Mas e com que dinheiro? Cada dose de cachaça era dez, doze contos. É pra foder geral. Parei num mercadinho perto de casa e comprei aquela cachaça vagabunda que vem em garrafa plástica. Fígado? Ele que se vire. Na geladeira nada interessante - algumas saladas, uma pizza parcialmente podre, uma panela com cozido que fiz semana passada e no congelador, além de gelo, uns hambúrgueres baratos - o que me obrigou a pedir uma pizza. Que, no fim, não veio porque o motoboy foi atropelado. Resolvi ir buscar pessoalmente, ficava só a dois quarteirões daqui mesmo.

No caminho uma prostituta passava indo pra sua esquina padrão. Acho que o nome dela era Sheila e não era ela. Era a porra dum traveco. Na pizzaria ainda tive de esperar que fizessem minha pizza. Pela primeira vez hoje alguém fez algo bom e me deu um puta desconto na pizza. Além de quatro latas de cerveja. A corote iria sobreviver esse pós-plantão. A sorte começou a virar? Saindo da pizzaria a rua deserta. Ninguém pra me irritar. Ninguém pra me fazer querer dar uns tiros. O porteiro do prédio num bom-humor raro. Acho que o time dele ganhou o jogo. O que deve querer dizer que o meu time também tinha ganho, afinal, torcíamos pra mesma merda de time. 

No elevador a gostosa do andar de baixo entrou acompanhada de duas amigas e umas sacolas de comida congelada. Se eu não tivesse discutido com o pai dela talvez ela me convidasse pra ir com as amigas assistir filme e depois comer. Comer não apenas comida. Puta que pariu. Se existisse o ctrl + z da vida eu resolvia isso. Claro que o cheiro da minha pizza de calabresa empesteou o ambiente. Eu não convidaria elas. Mesmo que representasse perder uma foda grátis. Elas desceram rindo. Certamente falaram algo no WhatsApp. A porta do elevador fechou. O próximo andar era o meu.

Ao chegar no meu andar as luzes estavam acesas. Alguém devia ter passado por aqui. Os passos pelo corredor e o elevador saindo do meu andar em seguida. No minimo as cocotinhas tinham esquecido a bebida no carro. Podia oferecer pra elas minha corote. Ri mentalmente disso. Destranquei a porta sentindo o cheiro da pizza e imaginando ela descendo pela minha garganta. Qual filme assistiria hoje? Qualquer um. Ao dar o primeiro passo dentro do apartamento pisei em cacos. Liguei a luz. O apartamento estava revirado. Deixei a pizza e a cerveja no aparador perto da porta. Peguei a pistola. Não havia ninguém. Na tela da TV desligada, escrita com batom vermelho só uma frase:

"Você é o próximo, Sérgio. Cuide-se."

Puta que pariu, Sophia. Primeiro aquela ameaça de merda no e-mail, agora isso. Ficou pessoal.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Álibi e3s2: Carretera

Esse ano estava sendo de muitas primeiras vezes para Sophia. A primeira vez que agiria em mais de uma cidade. A primeira vez que tinha uma lista pronta. A primeira vez que já tinha planos prontos desde o inicio. A primeira vez que teria de interromper os planos por um motivo alheio à sua vontade. A primeira vez que se irritou com alguém que não era alvo. Seria a primeira vez que ela usaria o artigo dois do seu código de conduta. O primeiro era eliminar todos que o Estado não prendia. O segundo era eliminar todos que atentassem com a vida dela. E esse era o momento de resolver essa pendência de uma vez por todas.

Saindo de Uberlândia rumou para Belo Horizonte. Roubou dois turistas distraídos que deviam estar falando em espanhol ou algum dialeto guarani. A julgar pela aparência eles eram paraguaios. Logo, contrabandistas em potencial. Logo mereceram ter suas carteiras roubadas. Entrou no ônibus digitando uma resposta para Sérgio, agora eram horas de viagem onde ela teria de aturar uma jovem que não saía do celular. Aquela luz do dispositivo não deixava Sophia dormir nem planejar nada. Alguns minutos de observação fixa ela chegou a conclusão que a jovem iria encontrar o namorado que havia conhecido em alguma rede social. Se elas tivessem se conhecido horas antes do embarque Sophia buscaria a ficha completa do rapaz e diria à ela se valeria a pena ir atrás dele ou não.

Talvez no futuro Sophia podia viver disso. Buscando informações sobre as pessoas e dizendo se elas eram mesmo quem diziam ser. Em outros países muita gente ganhava rios de dinheiro fazendo esse tipo de serviço. E de quebra poderia financiar assim suas outras empreitadas. Era algo a se considerar. Finalmente a jovem notou que o brilho estava exagerado e diminuiu a intensidade de luz do dispositivo que usava. Sophia sorriu de canto como se agradecesse. Agora era cochilar e ver se traçava um plano para o quê fazer com Sérgio. Ele era sagáz. Ela sempre esteve dois passos a frente dele, porém na última ação do ano que passou ele a alcançou. Coube a ela agir como agiu e fugir. Claro que ele tinha atentado para com a vida dela e, teoricamente, rompido a segunda regra do seu código de conduta. Era ela agir agora e resolver tudo isso. Agora era dormir pra chegar descansada à grande São Paulo.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Piano Bar

Ele se sentia estranho. Podia ser culpa do calor. Da aparente tranquilidade no trabalho, nas aulas, no trajeto de casa até seu trabalho. Toda essa tranquilidade o deixava com aquela ponta de preocupação. Como se soubesse que algo fosse acontecer logo. E se acontecesse? Como seria? Como reagiria? Não que essas dúvidas lhe tirassem o sono, mas, lhe deixavam preocupado com o amanhã. Sempre o amanhã, que não aconteceu nada, preocupa mais do que o hoje ou até mesmo o ontem (onde, teoricamente, já aconteceu e, logo, não há nada que possa ser feito), tudo por causa do amanhã.

O céu azul continuava a irritar suavemente seu humor cinza. Não que o humor cinza fosse ruim, longe disso. Aquele "ser rabugento" era tão dele que, quem já o conhecia a mais tempo, nem questionava. Até mesmo quando ela foi embora sem deixar nem um bilhete ou algo do gênero ele sentiu o baque. Não havia baque. Não havia mágoa nem nada que equivalesse. Sabia que a vida era assim, certamente ela seguia em frente assim como ele. Ainda gostava de ir até a praia e ficar meditando frente à imensidão do mar. Gostava de deitar na laje e ficar batendo papo com as estrelas.

Nas férias descansou, colocou a leitura em dia, viu algumas séries que haviam lhe indicado, viu filmes e aquele velho projeto de livro, enfim, foi finalizado. Restava publicar, mas isso resolveria no decorrer do ano, já haviam sido vários anos até escrever, agora um tempo a mais para publicar não seria nada demais. Aprendeu a ter paciência. Ou quase isso. Pois momentos de fúria o invadiam vez por outra e ele deixava que eles saíssem. Ele ponderava comprar um saco de areia, daqueles de academia, pra esses momentos, assim teria algo para socar.

Dias após a virada do ano uma mensagem no celular lhe chamou a atenção. Não era ela. Não eram parentes. Não eram amigos. Era alguém que havia entrado na vida dele para, logo em seguida, sumir e o deixar na mesma condição de antes. A pianista dizia estar com saudade dele. Queria saber se ele ainda ia ao barzinho. Queria conversar, ainda que de forma breve. Conversavam a conta-gotas. Estando no estrangeiro seus horários eram sempre conflitantes. Ele chegava do trabalho e ela estava se preparando para dormir. Ela acordava e ele ainda estava em alta madrugada. Logo conversavam muito pouco. Porém cada conversa. Cada mensagem era como se fosse uma história longa e repleta de detalhes.

Ao fim de algumas semanas de conversas curtas ela acabou por confessar que "muito em breve voltaria para o mundo novo". Que a experiência de tocar em algumas casas pequenas de espetáculo na Europa não haviam sidos tão ruins e que, logo que resolvesse algumas pendências ela voltaria. A pianista tinha planos. Queria dar aulas. Queria voltar a tocar na noite. Queria passar um tempo com ele, se possível fosse. Ele, na sua estranheza diária, não recusou nem aceitou. Sentiu um pequeno traço de calor brotar em seu peito. Achou estranho. Mas... tanta coisa era estranha. Essa deveria ser mais uma. Deveria sim. O final das férias representou não conversar mais com a pianista diariamente.

O fim das férias representava o retorno à rotina. Rotina que ele tanto abominava e tanto sentia falta. Excesso de folga não faz bem. Excesso de regras também. Por isso nesse ano ele havia se proposto a não levar tudo tão a sério. Claro que ainda seria profissional. Claro que ainda teria os momentos de total ócio. Seria um desafio pra ele se regrar sobre o que valia e o que não valia levar dentro de si. Por isso se afastou um pouco do grupo de amigos que ia frequentemente ao bar. Não sentia mais esse desejo. Não sentia mais vontade de conviver com pessoas. Por um instante, nesses momentos entre o trabalho e a faculdade ele se sentiu como Harry Haller sendo destroçado por suas inúmeras personalidades. Praticamente um Lobo da Estepe misantropo. 

Em um instante de reflexão. Um lapso de pensamentos que se juntavam tais como peças de um quebra-cabeças. Formou uma teoria. Harry. Não. Não queria pensar nisso. Balançou a cabeça lateralmente tentando não pensar nisso. Mudou o foco. O céu seguia azul. Isso. Hora de se irritar com o céu azul. Mas Hermínia era livre e... merda. Ele não soube dizer o rumo que tomaria isso. Não quis pensar. ... "salvou" o Harry de sua aniquilação. Balançou a cabeça novamente. Foco no céu. Isso. Respira fundo e se irrita com o céu estar azul quando ele o queria cinza. Algumas horas se passaram e ele falhou miseravelmente no seu ódio.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Álibi e2s2: Fúria

O bom de agir assim, pensava Sophia, era que podia repetir a mesma história em cada cidade que fosse. Só precisaria mudar o nome no começo da conversa. Novamente, durante a carona, ela perguntou algum hotel barato. Disse que havia sido assaltada, que era de um grande jornal de circulação nacional e por isso pagaria na hora de sair. Não que estivesse sem dinheiro. Longe disso. Apenas sabia que poupar era essencial. Ao sentar na cama não-tão-macia-quanto-gostaria a moça resolveu checar o email. Dois spams e a resposta de Sérgio. Não era sem tempo, ela pensou clicando. 

Segundos após ler o sangue subiu. Se notebooks tem santo protetor ele acabará de salvar o aparelho de Sophia, tamanha a fúria que tomou conta dela. O primeiro alvo foi a televisão do quarto que recebeu um chute violento. Em seguida, tentando se acalmar, ela caminhou até o banheiro para lavar o rosto e se acalmar. Em vão. Nem se a água viesse diretamente de um glaciar acalmaria Sophia nesse estado. Olhou-se no espelho e, sentindo mais raiva do que jamais tinha sentido o espelho estilhaçou-se frente ao soco dela.

Um banho de dez minutos em água fria - com roupa e tudo - fez ela se acalmar. Um pequeno fio de sangue brotou entre seus dedos anelar e pai-de-todos. Tinha de responder o email a altura. Mas primeiro os negócios. Tinha um espelho quebrado no quarto e a televisão seguramente estava quebrada. Por sorte havia confeccionado diversas identidades falsas entre o ano novo e a primeira missão. Recolheu suas coisas rapidamente e saiu pelos fundos do hotel. Não precisaria parar. Sabia as rotinas do alvo de cabeça. Era só esperar anoitecer e ele entrar em horário de serviço. Tinha a vantagem de agir na terça feira de carnaval e todo o policiamento estar distante da universidade de Uberlândia cobrindo os festejos. Sentada à praça passou o tempo relendo o email e esboçando uma resposta. 

Depois de muito pensar decidiu que responderia com a ação de hoje.Enfim a noite caiu e o alvo foi avistado. Com sua mochila em mãos e uma folha de papel se dirigiu ao segurança. Semanas antes arquitetará o plano de se passar por aluna do interior que tinha chego na cidade grande e iria ficar nos alojamentos que a universidade fornecia. Claro que até o mais idiota dos idiotas sabe que calouros só tem acesso aos quartos em dias em que a secretaria acadêmica está aberta. E agora não era a hora que estaria. 

Depois de não mais de cinco minutos de diálogo o alvo ofereceu seus aposentos para a pobre jovem ficar, claro que ele queria algo em troca. Sophia, dentro do papel de ingênua, topou. Foi aí que um movimento rápido se fez e a moça tirou do coldre do segurança sua arma e lhe deu dois tiros na nuca. O homem caiu sem vida. Sacando da bolsa o celular tirou uma foto. Agora tinha a resposta perfeita para o email de Sérgio. Sorriu de canto saindo dali. No corredor haviam câmeras, logo saberiam que havia sido a mesma moça que atuou em São Paulo e que agora mais unidade policiais iriam atrás dela país afora.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Álibi e1s2: Coronel

Bem dizem que muitas cidades pequenas escondem crimes e histórias escabrosas tanto quanto uma cidade grande. Claro que Sophia precisava estudar um pouco sobre a cidade, sobre o alvo e tudo demandaria tempo. Embora, vendo o calendário, tenha um longo ano bissexto pela frente. Mas, como disse uma colega sua de faculdade, pra que protelar o que já pode ser feito? Por isso Sophia estava com o notebook em cima da cama, sentada na posição de lótus bebendo um chá de capim cidreira com limão.

Todo aprendizado é útil. Em uma cidade pequena, com restaurantes mais focados em comida local, evite comer coisas que não demonstram uma cara boa. O duo clássico de feijão com arroz e batata frita raramente tinha erro. Mas não, quis experimentar uma costela bovina cozida na panela com batatas. Agora estava com um pequeno desarranjo no intestino. No entanto nada que pudesse lhe tirar o foco e a vontade de realizar o que iria realizar.

Se passando por uma jornalista da capital rapidamente conseguiu conversar com pessoas e descobrir podres. Gastou dois dias para achar a origem da maçã podre do cesto. Um rico fazendeiro que queria explorar ainda mais o gado comprando terras de gente humilde que não planejava vender. De filmes, novelas, séries, livros e, claro, vida real os ricos sempre conseguem o que querem, seja da forma atipica que era gastando uma fração do que tinham no banco ou da forma mais comum: gastando uma fração menor contratando capangas que davam algum jeito de expulsar os que ali viviam.

Obviamente toda transação bancária deixava rastros e tudo era feito em dinheiro vivo. Logo, as pegadas e as ligações eram todas frágeis e nenhum tribunal puniria alguém daquele calibre. No entanto eram muitas pessoas que, tendo a certeza de que a "jornalista" jamais revelaria nomes em sua "reportagem" confirmavam quem era, onde vivia... até mesmo os hábitos que tinha. O tal, como em muitas cidades, era chamado de "coronel".

Decididamente Cabeceiras não merecia alguém assim. Cidade simpática. Povo trabalhador. Belas paisagens. Tinha de fazer algo a respeito. Suspirou fechando o notebook. Achou ter ouvido o recebimento de uma mensagem. Concluiu que foi na televisão que reprisava uma novela qualquer. Sophia sempre pensou melhor com barulho. Claro que gostava das trevas para trabalhar. Mas, barulho na hora de planejar era quase uma fonte de inspiração.

Deitou olhando o ventilador de teto balançar para os lados. Sorriu de canto lembrando de quando era criança que tinha medo que ele se soltasse e decepasse a cabeça de quem estivesse embaixo. Logico que, seguindo as regras básicas da física, se ele caísse ele iria para o lado, por conta da força centrífuga que agiria jogando as hélices para o lado e não para baixo. Depois de um cochilo rápido tomou a decisão de fazer logo. Tinha as provas. Tinha a motivação e tinha um plano quase clichê.

Colocar uma roupa sensual e achar o "coronel" no melhor boteco da cidade não foi difícil. Nem manter a personagem da repórter que queria ouvir os dois lados da história. Claro que isso gerou uma exposição que Sophia queria ter evitado. Mas, para se fazer uma omelete é preciso quebrar alguns ovos. E em uma cidade dessas a população deveria ficar feliz com o sumiço de tal algoz. Claro que no pensamento dela era simples assim.

Pedir a entrevista e marcar ela para a manhã seguinte era ótimo. Na fazenda dele. Perfeito. Ele próprio viria busca-la. Sophia mal dormiu naquela noite. Soube que o coronel era viúvo e seu único filho, com quem ele tinha rixa pelo pobre coitado ser homossexual, vivia bem longe dali, no Rio de Janeiro. Mais um motivo para Sophia resolver aquilo de maneira rápida. 

Na manhã seguinte, oito e vinte e seis, ele veio ao encontro dela. Seguiriam para a fazenda dele, distante meia hora dali. Por um instante Sophia ficou imaginando se resolveria  tudo ali mesmo ou iria até a fazenda e, caso tivessem muitos capangas por lá, resolveria tudo na volta. Mas, ao chegar na casa nem mesmo uma cozinheira estavam na grande casa. Nada poderia ser melhor. Ao posicionar o celular gravando Sophia começou a fazer perguntas. Ela sabia entrar numa personagem quando precisava.

Em um instante, depois de vinte minutos de entrevista, o "lobo" mostrou suas garras. Ele tinha dispensado todos os empregados para que eles pudessem ficar a sós. "Filho da puta", pensou Sophia. Ela, obviamente, sorriu de canto e perguntou por uma bebida, afinal ficar tanto tempo falando a deixou com a garganta seca. Ele pediu que ela a seguisse até a cozinha. Ao passar pela mesa ela viu um pano de prato em uma das cadeiras. O sorriso lascivo se prolongou pelo restante dos lábios.

Numa pequena distração do alvo ao pegar a cerveja na geladeira Sophia passou o pano pelo pescoço do homem que até tentou se debater. Mas logo desmaiou. Ainda sem morrer. Com certa dificuldade Sophia o arrastou para o que ela julgou ser o quarto dele. O despiu parcialmente e, sem muito esforço pegou um dos travesseiros e segurou junto ao rosto do coronel. No meio do processo ele recobrou os sentidos. Não por muito tempo, é verdade, logo os braços perderam o movimento, as pernas se juntaram e fim. Tudo estava resolvido. 

Ao sair do quarto deixou o ar-condicionado do quarto ligado e programado para desligar em duas horas, isso enganaria uma improvável perícia quanto a hora da morte. Em um galpão ao lado da casa haviam duas motos sem placa, provavelmente usadas para fazer trilha por algum dos capangas, provavelmente usadas em suas "missões". Sophia pegou uma delas e guiou até a cidade. Deixando a motocicleta fora dos limites da cidade para não dar bandeira. Voltou ao pequeno hotel e se permitiu almoçar e pegar o ônibus das treze horas para a próxima cidade. Nova cidade. Mesmo cabelo. Só não agia da mesma forma para não cair em uma rotina. Odiava rotinas.