domingo, 23 de outubro de 2016

Rodoviária

Ela sabia que era a hora. Dizem alguns que chega uma hora que da um clique e a pessoa acorda da sua inércia, daquela sua letargia, daquela coisa de vivenciar e sentir tudo que se passa na sua vida pra um estado onde tanto faz. Helena havia chego nesse instante. O clique havia sido tinham algumas horas, por isso ela estava com aquela mala diante da cama e as roupas entrando dentro dela. E daí que eram três e meia da manhã? E daí que amanhã de manhã Janaína tinha combinado de vir vê-la? Tudo que queria era uma fuga. 

Com a quantia que tinha guardado nesse ano todo de sobriedade poderia comprar uma bela passagem de para algum lugar distante o suficiente. Temia o que os outros diriam. Por isso enquanto colocava as camisas, calças, meias, calçados, documentos, um pato de pelúcia que havia ganho de Janaína pensava em quais palavras escreveria em sua elegia frente à vida que levava. 

Nesse ano de sobriedade finalizou o ensino médio, chegou a começar a estudar para algum vestibular - psicologia, era o que todos diziam - e descolou um emprego em meio período que lhe permitiu ajudar financeiramente em casa e ainda comprar coisas para si. Claro que tinha uma caixinha onde escondia algum dinheiro para "algo extraordinário" que faria. Sorriu de canto confrontando o espelho da penteadeira. Era agora o tal "algo extraordinário"? Mais ou menos.

Mais porque sair como ela estava pretendendo era, sim, extraordinário. Era aquela coisa de ruptura com o que se tem indo rumo ao que não se faz ideia do que seja. A sensação de estar fazendo a coisa mais idiotamente genial que alguém, na situação dela, poderia fazer. Claro que era algo tresloucado e relativamente "do nada", mas... as melhores coisas não são feitas assim em um impulso?

Menos porque sair como ela estava pretendendo era, sim, extraordinário. Era aquela coisa de ruptura com o que se tem indo rumo ao que não se faz ideia do que seja. A sensação de estar fazendo a coisa mais idiotamente idiota que alguém, na situação dela, poderia fazer. Claro que era algo tresloucado e relativamente "do nada", mas ... as maiores merdas não são as coisas feitas assim?

Por um instante olhou o espelho. Se questionou se devia ou não fazer isso. Tinha a resposta. Sabia o que devia fazer. Se sentou na cama um instante. A mala pronta. O coração cheio de desejos. A alma cheia de vontades. Lembrou daquela música do Nenhum de Nós, cantarolou baixinho enquanto se sentou na penteadeira, tomou uma folha de papel nas mãos, uma caneta preta. Respirou fundo, sorriu, chorou e naquela meia hora escrevendo sem parar, ela percebeu que, o que fazia agora, era importante sim. E não era uma fuga. Era a busca por um reencontro. Um reencontro consigo mesma. Deixou uma pequena estátua de bailarina sobre o papel, a caneta voltou à caneca onde residia, suspirou e saiu em direção à rua. Da rua um carro que chamou pelo aplicativo, de lá para a rodoviária. Escolheu o lugar por sonoridade. Viu o sol raiando pela janela do ônibus já na estrada, ainda teriam centenas de quilômetros até seu novo destino. Adormeceu com essa esperança e um fino sorriso nos lábios.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Vem Chuva

Eu não sou poeta, já reneguei inúmeros poemas meus à uma gaveta imaginária pra que eles nunca saíssem de lá, mas um dia desses, uma chuva se desenhava no céu noturno e ela, a Deusa da Inspiração veio e me acertou com estes versos, ei-los:



Vem Chuva

Vem chuva
Vem lavar os telhados
Vem molhar as ruas
Vem chuva
Vem embalar o sono do trabalhador, do velho, da criança
Vem chuva
Vem trazer mais cedo o filho que saiu e tranquiliza o coração da mãe que fica aflita a sua espera
Vem chuva
Vem regar as plantas
Vem molhar as arvores
Vem chuva
Vem trazer beijos molhados
Vem trazer paz pra criança
Vem regar o jardim de bonança
Vem chuva
Vem acalmar o mundo que sofre
Vem acalmar a alma de quem morre
Vem chuva
Vem dos céus, enviada divina
Vem molhar do peão à menina
Vem cobrir de bênçãos e ser cortina frente dum novo despertar
Vem chuva... vem.

domingo, 9 de outubro de 2016

Impacto

Dia desses estava aqui pensando em tudo que eu faço, tanto publicitariamente quanto em aula, no estágio, na relação com meus amigos, minhas amigas, colegas e pessoas que eu não conheço que, quando há uma troca de olhar eu respondo com um sorriso. Depois eu lembrei do que o Teddy Corrêa (vocalista da Nenhum de Nós) falou em um TEDx (procurem no YouTube) sobre o poder da música da banda dele e o quanto isso pode mexer com as pessoas. Posto isso fiquei relembrando meus trabalhos, minhas relações e o que eu escrevo de forma despretensiosa aqui no blog.

Acontece que, esses dias, minha mãe terminou de revisar/ler meu livro (quem já me conhece sabe a história da ladra ruiva, quem não conhece poderá conhecer quando eu publicar ;) e ela sempre diz que toda história tem que passar alguma mensagem, alguma lição, algo que agregue nas pessoas que as leem. E eu, como não achava nada demais na minha história tinha pra mim que não teria nada de "ohhhhhh, que livro incrível, que obra, mudou minha vida e bla bla bla", era só um livro que escrevi, literalmente, quando tinha vontade. Por isso levei praticamente seis anos pra escreve-lo. Mas voltando ao ponto da minha mãe ter lido (ela foi a primeira pessoa a ler ele inteiro, organizadinho, nem eu me prestei à isso) ela disse que, sim, meu livro tinha uma lição, uma mensagem de uma pessoa que busca uma espécie de redenção, busca uma forma de resolver seus problemas... e isso me deixou pensativo por dias. Até agora. Domingo, dois de outubro de dois mil e dezesseis, três e pouco da manhã. Muito provavelmente a data de publicação não é essa porque eu não quero publicar nesse horário ingrato, acho que esse texto merece ir além de uma repostagem de link no facebook e outra repostagem no twitter onde uma ou duas pessoas vão curtir, alguém talvez comente. Longe da presunção esse texto quero mais, acho que ele vale.

Mas, voltando ao que me colocou a pena à mão (termo lírico, uma vez que escrevo direto no teclado) e me pos a escrever: Desde que eu comecei a editar os áudios pra um programa de rádio da minha faculdade (O "Na Ponta da Língua", tem página no facebook) eu sempre quis colocar minha marca ali, meu detalhe próprio, minha cara naqueles menos de dois minutos de diálogo e alguma dúvida/curiosidade sobre língua portuguesa/personalidades/curiosidades da cultura pop. Aí, agora, depois de ter revisto aquele TEDx do Teddy eu fiquei pensando que eu sempre quero passar algo pra quem "consome" o que eu faço. Não quero só fazer algo pra ficar bonitinho ou coloridinho. Quero fugir da "parada de sucesso" (termo usado pelo Teddy) no que faço. 

Se eu não vou ser melhor aluno da sala. Se não vou ganhar o mérito estudantil. Se não vou me sobressair - pelo menos por enquanto. É algo que vai de encontro com o que li dia desses sobre pessoas que se satisfazem com a mediocridade. Por ora eu me encaixo nisso. Fujo um pouco do perfil do publicitário que tem que se pintar de verde fosforescente pra aparecer e vou ser aquele que fica quietinho, na sua, absorvendo os conhecimentos, aprendendo tudo que pode aprender antes de resolver usar tudo.

Eu acho que acabei me perdendo e, se alguém estiver lendo isso, é sinal de que resisti à súbita vontade de fechar o bloco de notas sem salvar o que escrevi até aqui. Espera... hum... ah sim. Esse é meu caminho, não querer parecer melhor que ninguém. Ninguém é melhor do que ninguém porque viu uma série diferente. Porque leu um livro em outro idioma. Gosto de pensar na vida como um jogo de videogame onde cada coisa nova que fazemos é uma conquista desbloqueada, mais pontos de experiência pros próximos desafios. Não preciso me exibir e querer achar que estou acima - esse é o meu princípio em ser mediócre - e que, por isso, posso fazer o que eu quiser. Não vou entrar em casos pessoais, mas já discuti com pessoas por causa das atitudes delas. Atitudes egoístas das pessoas em achar que, porque elas tem uma conquista desbloqueada a mais que eu, elas podem pisar, pagar de bilhete premiado. Pois tudo que fazemos (ufa, me achei) impacta o outro. Se uma pessoa que eu conheço passa por mim e não me cumprimenta eu penso de duas uma: ou ela está com problema ou eu fiz algo à ela. Mas, quando isso se repete dia após dia, semana após semana, passo a achar que a pessoa se acha o pacote de salgadinho com dois tazos. Resumo tudo que escrevi até aqui com a minha resposta e uma pergunta: Eu quero fazer algo que agregue coisas boas, boas referências, novas culturas (fora da "parada de sucesso"), algo positivo, quero obter a imortalidade que o Kundera disse só ser possível através da arte, agora, parafraseando minha mãe, tudo que agrega algo a alguém é arte. Esse vai ser o meu jeito publicitário de ser, contra a "parada de sucesso", contra a massificação, vou pagar por isso? Com certeza. Mas poder deitar a cabeça no travesseiro tranquilo de que algo que eu fiz fez - na pior das hipóteses - alguém sorrir já me faz querer isso como objetivo, como sonho (isso me lembrou a última aula com o professor Fogaça, onde ele questionava a gente sobre nossos sonhos), meta de vida. Não ligo de viver sempre com um carro não zero, uma casa pequena arrumadinha. Se eu puder viajar, absorver conhecimento, cultura, coisas pra passar pras pessoas... já me vai ser tudo que preciso.

E você, leitor, leitora, como você quer impactar o mundo?

domingo, 2 de outubro de 2016

Kunoichi

Dizem que no calor de uma batalha é que se forja um guerreiro. Janaína devia ser guerreira quando, do seu acampamento, colocou a máscara que todas as Kunoichis usavam antes de ir para a guerra que ocorria não muito longe de seu acampamento. Checou uma última vez todas as ferramentas que precisaria para a batalha. Tudo estava ali dentro do seu alforje. Garantiu que a vela que usou para essa conferência estivesse bem apagada pois não queria sua tenda em chamas. No percurso até o campo de batalha passou por diversos guerreiros feridos voltando para os alojamentos, algo que sempre a fazia perguntar se realmente era aquilo que ela queria.

Nunca teria essa resposta. Talvez nem quisesse essa resposta por enquanto. Não estava em condições de ficar questionando os motivos da guerra nem porque tanta gente lutava ferrenhamente enquanto os coroneis ficavam em suas confortáveis tendas. De um desses generais recebeu sua missão: se infiltrar em território inimigo, obter informações importantes e, se possível, não ser descoberta. Alguém mais atento notava que o alforje de Janaína só tinha um dos lados ocupados quando ela saiu de seu acampamento. Pois agora, uma vez com missão, ela preencheu o outro lado do alforje dando mais estabilidade ao carrega-lo.

A verdade que um estágio em um jornal não era o que Janaína sempre quis. Seu curso nem era esse. Mas tinha contas pra pagar e, por enquanto, era o que tinha pra hoje. Fotografia sempre foi uma de suas paixões. Mas a fotografia de paisagens - naturais ou urbanas - e não a desgraça humana. Não que fosse tão misantropa, porém a ideia de registrar protestos, cenas policiais ou qualquer outra coisa relevante pra esse veículo popularesco era válido e bem visto aos olhos do coronel. Coronel mesmo, reformado do exército, dispensado por excesso de contingente. Um país em tempos de paz é um saco pras forças militares.

Aquele dia tinha ouvido falar de um protesto que ocorreria no centro da cidade e que, provavelmente, haveria confronto de estudantes - como ela - e policiais. Janaína tinha nas mãos uma câmera que valeria uns cinco ou seis meses de salário. Mais se contar o valor das lentes. Ao chegar no lugar logo sacou a máquina e tratou de fazer dezenas de fotos dos alunos, das faixas, das reivindicações, do que eles queriam. Melhores condições. Justo. A polícia observava de longe. Que fiquem lá. Ficou duas horas, o protesto se dissipou sem balas de borracha, sem bombas de gás lacrimogênio, sem bombas de efeito moral. "Chato e sem graça" aos olhos dos editores do jornal que, certamente, ignorariam a maioria das fotos de Janaína e, no máximo, noticiariam o relato dela com aquela foto que não mostrava rostos nem faixas de reivindicações que eram contra o governo e, por tabela, contra o jornal. Por tabela porque o coronel tinha ajudado o governador a se eleger e como "agradecimento" o jornal havia vencido uma licitação milionária que valeria alguns anos de sobrevida à uma gazeta que vendia o suficiente para se manter com a equipe minima. Porém Janaína se deu conta de que, tanto ela quanto os outros três estágiarios, só estavam ali por essa verba extra. Ou seja, indiretamente ela era uma peça dessa máquina podre. Pensar coisas assim deprimem.

No caminho de volta pro jornal fotografou idosas em uma praça que faziam tai chi chuan. Conversou com a coordenadora, havia uma moça da faculdade de Janaína que estagiava ali e havia outra vaga, mas pra trabalho voluntário. Voluntariado era lindo, mas não ajudava a pagar os boletos que insistiam em vir mês após mês. Contrariando Nando Reis ela dizia que o mundo não é bão, Sebastião. Antes de entregar matéria pronta e as fotos descarregou as fotos das idosas e guardou pra si. Quem sabe conseguisse negociar e publicar em algum jornal menor, quem sabe o jornal da faculdade. Era uma.

Findado o estágio nossa nobre Kunoichi esvaziou o alforje e seguiu para a faculdade. Comeu um-qualquer-coisa no caminho. Seu curso de publicidade insistia em tentar transformar todos os seres sem iluminação - alunos - a serem aquele publicitário fodão, que ganha mil prêmios, que vai pra cannes todo ano, que abre agência aos vinte e seis, que se esgota aos trinta e dois, que vende a agência aos trinta e quadro, que aos trinta e cinco descobre uma úlcera e que, na porta dos quarenta, se sente frustrado com tudo e, ou vai dar aula, ou vai trabalhar em algum lugar pequeno. Janaína não curtia essa forma de viver. Ela, apesar de ter vivido boa parte da vida em uma cidade de duzentos mil habitantes sempre teve um lado com a natureza, com as coisas naturais, com o que não pode ser comprado, com as sensações.

Mais um dia acabou. Hora de driblar os convites pro "novo bar que abriu" ou praquele show daquela cantora que está bombando. Não. Tinha uma coisa pra fazer nos próximos dias que precisava fazer. Mais do que ir em bar, show, estágio, faculdade, casa, puta que pariu. Tinha de ir visitar Helena que havia respondido a mensagem. Dizia estar bem, que as coisas estavam se ajeitando e que também sentia saudade da amiga. Ao entrar em casa sorriu de canto tomando desse protótipo de escritor a pena e assumindo os escritos... Hey, Lu, esse é minha terceira crônica em sequência, posso pedir música? Posso né? Quero pedir Nenhum de Nós - Aquela Estação porque sei que escreveu outro texto ouvindo eles e que agora está assistindo enquanto escreve o DVD Acústico e Ao Vivo Dois. Agora pode pegar a pena de volta e terminar a crônica... Bom, depois de quebrar a quarta parede Janaína preparou algo para comer, tomou uma ducha rápida, colocou algum filme antigo no netflix. No próximo final de semana visitaria Helena. Foda-se faculdade, estagio... precisava de alguém que lhe conhecia a fundo e estava desatualizada. Por já ter citado Nenhum de Nós cantarolou "por favor me traga uma notícia, mas que seja boa" enquanto o filme fechava os créditos e se deixava dormir.

domingo, 25 de setembro de 2016

Deseo

Dizem que o corpo tem lá seus desejos e Janaína, do alto dos seus vinte e tantos anos não ousava deixa-los aprisionados. Claro que não teria as atitudes tresloucadas que Helena tinha, mas ainda assim gostava de dar vazão ao que tinha em mente. Ainda que lhe custasse algumas horas que não levariam a lugar nenhum. Aliás, o conceito "lugar nenhum" para ela também era um lugar. Afinal o Coragem morava lá. E se alguém mora em Lugar Nenhum ele existia. Mesmo que fosse num desenho animado.

Havia ouvido falar de alguns amigos/conhecidos de um PUB que tinha um ambiente legal, uma música boa, bebida gelada e não tão cara. Janaína, como boa ouvinte, ouviu a informação e guardou, um dia ela seria útil. E, nessa noite de sábado em que o inverno não tem mais saco de ficar esfriando tudo e o verão ta com preguiça de chegar que essa informação veio a tona. Se arrumou, colocou uma saia, blusa meio aberta, sandália de salto baixo. Se arrumou em menos de dez minutos. Certamente Helena ou qualquer outra de suas amigas, se soubessem que ela havia se aprontado pra sair em menos de dez minutos diriam que ela estava muito básica, porém se as mesmas amigas achassem que ela levou horas se arrumando diriam que ela estava deslumbrante, pronta pra matar. Nunca entendeu essa coisa de mulher. Não que fosse do tipo que não ligava, mas... é. Não se importava tanto com isso.

No elevador que - milagrosamente - estava funcionando pensou pra que reino estava indo dessa vez. Será que nesse lugar haviam príncipes? O taxi estava lhe esperando. Deu um endereço aproximado porque sabia que, se algum carro entrasse naquela rua badalada dificilmente sairia em minutos. Sempre pensou em facilitar a vida de todos e, por isso, sempre foi tida como meio estranha desde a época da escola. Pensou um instante nesse fato e sorriu de canto. Pagou ao homem de meia idade, camisa listrada e uma boina daquelas tipo do Angus Young. Caminhou não mais que dois minutos passando em frente de lanchonetes onde grupos de amigos, grupos de amigas e grupos mistos faziam refeições, riam, bebiam. E Janaína ali, sozinha. Na bolsa nada muito além do celular, cópias dos documentos, dinheiro suficiente para beber alguma coisa e depois voltar de taxi. 

Olhou de soslaio na fachada. O lugar era esse. Não tinha combinado com ninguém. Não gostava dos amigos que tinha a ponto de chama-los para sair. Quer dizer, Helena poderia chamar, mas ela estava no rehab ou já tinha saído? Merda. Por um instante pensou o quanto havia se afastado dela. Sentiu falta. Mas, dizem que notícia ruim chega logo. Então ela devia estar bem. Certo? Certo. Qualquer dia iria ao encontro da amiga para ver o que aconteceu. Deu passagem a um grupo pequeno onde uma moça bonita parecia ser a abelha rainha seguido de zangões machos e fêmeas que entraram cantarolando. Imediatamente ao passar a porta sentiu o cheiro de tabaco e a nuvem de fumaça que pairava na altura do teto. Devia ser o único lugar da cidade onde era permitido o fumo em local fechado. Fez uma careta mas resolveu dar uma chance ao local. Pediu uma gim tônica enquanto pensava no Axl Rose bebendo enquanto tocava November Rain. A música era boa, o barman além de bonito era talentoso com o drink, a localização era boa... sorriu pensando em virar crítica de PUBs, bares e afins.

Logo um tipo mandrake apareceu do seu lado puxando papo. Daqueles típicos que não tem uma boa prosa, corpo normal de lugares como aquele. Tratou de despacha-lo em poucos instantes, disse estar esperando a namorada. Assim que o rapaz se afastou ela riu e pediu mais um drinque. O grupo de abelhas agora estava no meio do salão dançando algum rockzinho antigo que aquela banda tocava. Resolveu assistir a cena. A cada pessoa que passava pela porta uma parte da fumaça era levada pra fora. Numa saídas de fumaça viu que uma fina garoa molhava a rua. Despachou mais um pretendente pensando se teria culhão de ficar com uma garota. Não era impossível, mas também não era plausível. Seus desejos pediam outra coisa. Não uma língua... quer dizer, não só uma língua. Um rapaz entrou em passos galopantes. Decidido foi reto na rainha da colmeia. Focou mais a atenção naquele cortejar. Um, dois minutos depois ele a levou pra fora com um sorriso nos lábios, sentiu na expressão dele a vitória. Merda. Hora de procurar alguém. Um dos zangões não era de se jogar fora e parecia sobrar no que sobrou do enxame.

Desceu do banquinho colocando a comanda na bolsa. Sentiu o efeito do álcool. Não que fosse fraca para tal, mas estava de estômago vazio. Não estava bêbada, mas também não estava sã. Sorriu ao desconhecido. Dançaram. Tentaram se apresentar - em vão, o barulho não era tanto, mas o suficiente para abafar vozes. Passavam das três da manhã quando ela deu a ideia de saírem dali. Em uma sociedade como a atual ainda era relativamente mal visto uma mulher chamar o cara para irem para um lugar mais reservado. E daí? Longe daquela coisa do emponderamento Janaína não reprimia seus desejos. Ele tinha carro, parado logo ali. Enfim conversaram mais um sobre o outro. Paulo. Futuro engenheiro de uma faculdade de uma das inúmeras cidades-satélite da metrópole. Menos mal, não corria o risco de vê-lo tão cedo novamente. Um motel sugeriu ele. Ela sorriu de canto e topou. Por mais que aceitasse e quisesse namorar alguém a sério não negava os desejos que seu corpo tinha.

Com os primeiros raios do sol seu parceiro se ofereceu em leva-la em casa. Janaína, matuta que só ela, indicou um lugar dezenas de quarteirões longe da sua casa. O rapaz se ofereceu em ir até a porta. "O porteiro da manhã é meio fofoqueiro e o síndico não gosta de gente estranha entrando, sabe?". Paulo entendeu e pediu o telefone dela. Ela disse que não lembrava de cabeça pois tinha trocado recentemente e o aparelho na bolsa estava sem bateria. Tudo perfeitamente crível, pois no pós-sexo, enquanto ele tomava um banho, ela tirou a bateria do aparelho. Ele deixou um cartão profissional dele. Nome completo, telefone fixo de onde ele trabalhava - a firma do papai - endereço, site e o escambau. 

Assim que ele se afastou o suficiente ela caminhou até uma padaria. Comprou três pães e oito fatias de presunto enquanto chamava um taxi. Assim que o motorista - sem a boina do Angus Young, sem camisa listrada e idoso - chegou ofereceu um café que ele aceitou prontamente agradecendo a gentileza. Janaína não ligava de ser assim, não morreria por ter pago um café e ele certamente ficaria mais feliz enquanto a cafeína perdurasse em sua corrente sanguínea. Desceu na esquina do seu prédio vendo que aquele domingo seria promissor pra uma tarde vendo filmes velhos e comendo porcarias. Os trabalhos de faculdade que se fodam. Foi quando sentiu o salto no asfalto, um vento frio por baixo da saia, sorriu pro porteiro. Ao entrar no apartamento jogou toda a roupa dentro da máquina de lavar. Durante a tarde batia tudo e estendia, agora seria muita filha-da-putagem com os vizinhos. Mandou uma mensagem para Helena perguntando dela, pedindo desculpas pelo sumiço e se dizendo com saudade. Suspirou se enfiando em um banho demorado pra tirar o cheiro de tabaco dos cabelos e resolveu mudar os planos. Fechou as cortinas, secou o cabelo, checou se sua mensagem tinha resposta - não -, suspirou novamente, espreguiçou, desligou o celular - agora de verdade - e resolveu curtir o domingo da melhor forma: dormindo. A ressaca e pensar em tudo deixa pra depois.

sábado, 3 de setembro de 2016

Baile de Máscaras

Estava tudo pronto. Ela escolheu o vestido. A carruagem estava a sua espera na porta do castelo. Agora tudo que tinha de fazer era descer os lances de escada, tomar a carruagem e ir para o baile de máscaras para o qual havia sido convidada. Não sentia vontade de ir, seu desejo era ficar em casa com seus livros, suas estátuas, seus anjos e seus demônios, suas luzes e suas sombras. Mas, naquele dia imbuiu-se de vontades e desejos e foi. 

Com zelo desceu as escadarias tentando evitar sujar a barra do longo vestido que trajava, tentava, inclusive, evitar pisar com seu sapatinho de cristal na barra do vestido e cair. Não usou nem o corrimão para não correr o risco de manchar as brancas luvas que lhe cobriam da ponta dos dedos até dois palmos além do cotovelo braço acima. Sorriu para o homem que baixou a ponte levadiça que ligava o castelo à estrada. O cocheiro aguardava ansiosamente por ela em seu vestido deslumbrante. Em uma das mãos trazia uma pequena máscara, dessas dos antigos carnavais de Venezia, daquelas que cobririam parte do rosto e tinha de ser amparada por uma pequena haste de madeira fina.

A carroça tinha uma bela parelha de cavalos que seguiam de maneira ordenada, rápida, silenciosa e macia pela estrada esburacada. Apesar da presença de outras carroças o tempo como se estivesse para chover afastou outros transeuntes de polular as ruas. Ela via o movimento do mundo ao seu redor. Paisagens passavam por sua janela como se fugissem, se aproximassem e fugissem novamente. Assim foi durante três quartos de hora até que, enfim, ela chegou ao imenso castelo onde seria o tal baile de máscaras. Com pronta ajuda do cocheiro desceu da carruagem agradecendo ao bom homem pelo auxilio. Como ato de bondade deu algumas moedas, ao passo que ele sorriu e foi-se embora com a bela carruagem.

Munida de uma pequena bolsa e da máscara na outra mão ela entrou no grande castelo. Outras pessoas já estavam ali, uma pequena camerata tocava as últimas composições de grandes músicos. Ela, alheia à toda essa novidade, ouvia cada música, cada nota, como se fosse a primeira vez - e talvez o fosse mesmo -, logo alguém a reconheceu e veio ao encontro dela com duas taças do melhor champagne que havia, aquele produzido na França. Nesse instante ela se deixou sorrir e esqueceu, por alguns instantes, que por pouco não quis vir para esse baile. Uma. Duas. Três taças depois já dançava com aristocratas de todas as classes, desde donos dos castelos menores, situados às margens do reino até os donos de castelos maiores que este que estavam. A chuva que se desenhou no trajeto do castelo dela até aqui se dissipou e estrelas brotaram no céu juntamente de uma lua minguante.

Logo a noite virou começo da madrugada. Não tinha de sair a meia noite. Não era um conto-de-fadas onde precisava sair meia noite se não tornar-se-ia gata-borralheira novamente. Entre uma dança e outra chamou um mensageiro, seus pés latejavam, suas pernas estavam cansadas, ao jovem mensagem pediu uma carruagem para voltar para seu castelo. Dançou mais duas valsas recém escritas por um grande compositor de uma região no interior do reino até que o mensageiro veio lhe falar que sua carruagem já a aguardava na porta do castelo. Ela agradeceu, despediu-se do jovem aristocrata que valsava.

O cocheiro da carruagem que havia pedido a aguardava. A barra do vestido não resistiu ao baile de máscaras e estava com pequenas manchas de sujeira em suas barras. As luvas tinham um tom levemente amarelado. A máscara e a pequena bolsa eram as poucas que voltavam para casa em seu estado praticamente original. Dessa vez a carruagem levou menos tempo para o regresso do grande castelo até o castelo dela. Os cavalos pareciam os mesmo da vinda, o cocheiro levemente mais idoso. Não haviam tantas interrupções no trajeto. E estrada estava umidecida, o que a fez pensar que havia chovido. Ou isso ou a neblina. Lembrou-se de quando era menina e residia em um grande castelo próximo do mar sempre tinha uma névoa úmida que vinha do mar e molhava as pedras das muralhas e cobria o céu entre o fim da tarde e o começo da noite. Sorriu com essa lembrança entretendo-se ao que o ouvia o cocheiro dizer, provavelmente para seu auxiliar, sobre como estava perigoso andar por estas terras. Ouviu atentamente a história de como o auxiliar havia sido saqueado dias atrás por dois jovens empunhando suas balestras prontos a disparar a qualquer movimento brusco do jovem e de sua passageira.

Tudo isso soava como uma realidade distante para ela. Misturou essa conversa com lembranças do baile de máscaras. Em pouco menos de dois quartos de hora estava em seu castelo. Agradeceu ao cocheiro lhe dando um pequeno saco de moedas que, seguramente, lhe pagavam o trajeto e sobraria para uma generosa porção de aveia para sua parelha de cavalos. Ao descer caminhou até a beira do fosso que separava seu castelo da estrada ouvindo o coche se afastar rapidamente. Logo um dos soldados responsáveis pela segurança a reconheceu - tomou o cuidado de não manter a máscara ao rosto - e baixou a ponte. Tão logo ela entrou a ponte tornou-se a levantar. "Segurança nunca é demais milady, estão havendo muitos saques por estas regiões sabe?". Ela assentiu com a cabeça dirigindo-se para a escada afim de chegar em seus aposentos. Tomaria um banho demorado. Ao fim do banho - preparado com uma habilidade pouco vista por uma de suas camareiras - ela trajou uma roupa leve. O sono ainda não viria por isso ateu-se a um livro que a muito residia na cabeceira de sua cama. Demoraria anos para lê-lo assim, duas páginas por dia. Mas não importava. A ficção a tirava, por alguns instantes, do seu mundo.

Por alguns instantes pousou o livro sobre a barriga já estando debaixo das cobertas. Janaína sorriu ao ver o quanto tinha feito de imaginação do simples baile que foi. Desceu pela escada porque o elevador estava quebrado. O longo vestido era de um brechó, o sapatinho de cristal uma rasteirinha que havia pago barato. Chamou um carro pelo aplicativo. Foi para um baile que alguém da faculdade a havia convidado e colocado seu nome na lista. Um clube caro, daqueles que ela, por conta própria não entraria jamais. Dançou com filhos de empresários ricos, filhos de vereadores ricos, até mesmo o filho de um grande advogado da cidade a tirou para dançar. Ao fim de algumas horas - e algumas latas de cerveja a mais - estava exausta e tudo que queria era ir embora. Como era tarde da noite pediu ao rapaz que cuidava do estacionamento que chamasse um taxi. O taxista, junto com o filho, conversavam sobre a violência e o assalto que o filho havia sofrido dias atrás frente a dois menores armados. Logo ela chegou ao seu prédio. O porteiro da madrugada demorou dez segundos para abrir o portão para Janaína. "Segurança nunca é demais dona, tem muito assalto por aqui sabe? Ta foda.". Coube a ela concordar "Ta foda.". Cansada ela se arrastou escada acima. Chegou no seu pequeno apartamento. Tomou um banho demorado com aquele shampoo que comprou em uma loja cara. Depois do banho largou o celular na cabeceira e ficou pensando em um baile de máscaras para o qual havia sido convidada, onde teria de escolher o vestido, a máscara...

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Aeon

Ele se sentia sufocado com tudo que tinha, com tudo que tinha de fazer. A grande verdade é que, por mais que estivesse tranquilo com relação em não ter mais Ela e nem a pianista ele sentia um vazio no peito. Claro. Sempre tinham os classificados do jornal que poderiam suprir sua necessidade física. Os bares locais para suprir um bom papo... mas ninguém para passar a noite, acordar no dia seguinte ouvindo alguém cantarolando Franz Ferdinand naquele banho matinal. Cada amanhecer era silencioso - salvo pelo vizinho com aquele gosto musical extremamente duvidoso que vez por outra o saudava matinalmente com músicas de corno - e sozinho.

Ele pensava que tudo deveria ter um propósito na vida. Não, ele não era daquele tipo que acredita que um deus tece o destino dele. Pelo contrário, ele determinava tudo na vida dele. Todas as escolhas foi ele que, forçado pelas situações, acabou por ter essa ou aquela atitude. Também não podia culpar o universo. Era... quem era que decidia tudo? Não podia ser só ele. Pensou um instante enquanto saía da cama naquela manhã. Faculdade. Amigos. Compromissos sociais. Trabalho. Tudo isso cansava ele. Enquanto o dia passava pensou no quão não estava bem. Na verdade não estava nem bem nem mal. Só estava. Sem um propósito ou razão. Quando voltou pra casa decidiu que ele cantarolaria Franz Ferdinand. Depois cantaria Ira!. Foi cantando Wander Wildner que lembrou de uma garrafa de vinho.

Nessa garrafa de vinho encontrou a lembrança das conversas que tinha, anos atrás, numa cidade litorânea que morou anos atrás, com uma poetisa. Lembrou-se de que, quando se mudou para essa cidade atual, ele, ao contrário do que toda tecnologia podia oferecer, preferiu trocar cartas com a poetisa. Cartas de papel mesmo. Selo. Correio. Fila. Carteiro. Um real e pouco pra enviar. Dias para chegar. Dias para a resposta voltar passando pelo mesmo processo de carta, papel, selo, correio, fila, carteiro, um real e pouco e dias para chegar. Nas cartas amenidades, desejos, histórias "secretas", sonhos compartilhados. Mas, como tudo e sem saber quem foi, as cartas pararam. Falta de tempo de ambos os correspondentes. Tempo. Esse maldito vilão desde os tempos imemoriáveis. Aeon.

Conversou brevemente com a poetisa por meio dos recursos tecnológicos. Compartilharam o desejo de largar tudo e sair correndo mesmo sabendo que isso não era "permitido". Planejaram se programar e ir para uma ilha famosa. Tudo dependeria da Marianne e seu barrete frigio. Novamente a coisa vinha a depender de algo muito maior que ele. E isso, essa coisa de inúmeras coisas terem de acontecer para uma coisa dele dar certo, o sufocava. O matava. Os próximos dias prometiam ser uma mistura entre stress, irritação e depressão. Suspirou dando fim no último gole de vinho que restou na taça - achava absurdo beber vinho direto do gargalo, vinho demandava sofisticação, por isso a taça - pensando no que precisava fazer, como fazer e quanto isso demandaria dele. Foi então que uma figura que ele conhecia apenas da literatura o chamou. Conversaram horas. Ele sorriu com a auto-intitulada-ruiva-da-outra-dimensão-paralela e concordou quando ela falou de lhe transmitir energia e força para não desistir.

Foi então que ele trocou o sorriso de lado nos lábios. Planejou coisas. Respirou fundo. Precisava ser rápido. Tudo aconteceria como tem que acontecer. Lá fora chovia sem força. A partir de amanhã as coisas começariam a mudar. Ou começariam a começar a mudar. Ele sempre teve problemas para mudar. Ou a mudança vinha de uma vez só ou ele tinha de planejar tudo minuciosamente e morrer a cada passo da mudança. Estava pronto para morrer aos poucos? Teria de estar. A ruiva do universo paralelo falava com ele - mesmo ele achando certa esquizofrenia - que era assim mesmo. Que toda ruptura doi. Era isso. Quantas rupturas ele sobreviveu até hoje? Essa era só mais uma. Mais uma.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Hubb

A vida onde Aleph havia nascido não era boa, mas também não consigo chegava a ser ruim, as perspectivas de estudo e de trabalho não eram as melhores. Foi assim, nesse turbilhão de coisas que ele se deixou convencer pelo discurso de um grupo paramilitares desses que vez por outra matam uma centena de pessoas. Recebeu treinamento, sabia usar um kalashnikov como poucos da sua antiga vila, conhecia o complexo onde estava como a palma da sua mão, sabia os corredores, os túneis por que interligavam cada prédio... ele tinha encontrado um propósito pra sua vida. Farlabah, ao contrário dele, não se juntou ao grupo por vontade própria, mas não era prisioneira, ela podia ir embora a hora que quisesse. Mas, como ela mesma dizia, por enquanto estava bom. Aleph, por um acaso trombou com ela num dos tuneis. 

Ela estava cansada da violência que o grupo propagava, mas ele seguia cego, iludido pela propaganda do grupo. Eles não sabiam, mas um amava o outro. Por isso ele foi atras dela quando ela recolheu seus poucos pertences e estava indo pelo caminho que saía do complexo. Ele, desesperado sem saber o que sentia sacou a pistola e apontou para ela. Uma ameaça. Bateram boca. Quando ela deu as costas para ele, ele, com a mão esquerda, a segurou pelo braço. Ela tentou se soltar. Foi aí que veio o estampido. Lado esquerdo, próximo ao rim. Era fatal. Não imediato. Por isso mesmo ela tentou tomar a arma dele. Veio  segundo tiro. Meio do peito, pouco abaixo da caixa toracica. Os dois corpos caíram juntos. No ar as mãos se entrelaçaram. Descobriram o sentimento na hora do fim. Bem dizem que o ápice é a melhor coisa da vida. Vida. Ele dezessete. Ela dezesseis. 

Vida. 

Morte.



Nota do autor: "Hubb" é a pronúncia de "amor" em árabe, se fosse ser escrito em alfabeto árabe seria: حب