segunda-feira, 29 de junho de 2015

Álibi IV

Bastaram alguns dias para que, na mente de Sophia, todo o plano se arquitetasse. Usou de um pouco de engenharia social para descobrir qual era o carro do tal professor. Com essa informação tinha como agir. Depois de um bilhete no para-brisa dele no qual ela dizia ter batido seu carro no dele e quebrado a lanterna ela o trouxe tal qual peixe que cai em rede de pesca para seu habitat: um canto distante do campus onde alguns alunos que moravam no campus deixavam seus carros e a iluminação era pobre.

Qual metodo usaria? Não tinha nenhuma arma consigo. Vasculhou o porta-luvas e achou um canivete, desses que se compra em lojas de quinquilharias. Checou a faca. Completamente cega, porém pontiaguda o suficiente para furar. Viu o carro do tal homem vindo. Não se lembrava do nome dele. Tinha de ser rápida, mais meia hora e levantaria suspeitas.

Assim que ele estacionou o carro perto do dela, Sophia saiu do carro jogando o cabelo de lado. "Olha, foi sem querer... eu posso pagar o conserto do seu carro...". Primeira parte concluída. Se fazer de vítma indefesa. O pato caiu na armadilha. "Claro meu bem, podemos negociar... o que acha de negociarmos aqui mesmo?" Soltou ele já com a mão sobre a braguilha da calça e um sorriso cínico nos lábios.

Escondendo o canivete Sophia concordou deixando que ele se aproximasse. Ela manteve o sorriso fino dando um olhar sutil a linha de cintura dele, como se tivesse entendido a indireta dele. Que sujeito nojento. Com a proximidade dele ela deu uma volta completa nele. Quando ele deu a brecha ficando de costas, ela o segurou pelo pescoço. Chave-de-braço. Mata-leão. Não importa o nome do golpe. Sérgio havia ensinado para ela em uma noite em que beberam vinho demais.

Em poucos segundos o professor perdia os sentidos. Lembrava que tinha, no porta-malas, alguns metros de corda de varal. Não era muito, mas seria o suficiente. Com cuidado checou o carro do professor. Muito material artistico, uma câmera fotográfica e alguns rolos de fita adesiva. Perfeito. O arrastou até um pilar de um dos prédios desativados. Seria ali. Colou a boca dele com uma meia e fita adesiva. As mãos e pés amarrados para trás. Agora era ele acordar.

Em questão de cinco minutos ele acordou com o olhar de pânico. Sophia se abaixou diante dele. Abriu-lhe as calças. O olhar dele se modificou. Tolo. Ainda achava que se tratava de um jogo. Quando a mão fria dela o tocou ele soltou um suspiro. O filho da puta estava gostando. Sem muitas opções cravou a pequena lâmina no escroto. Entre as duas bolas. Devia ter estudado anatomia. Errou todas as veias maiores. O pouco sangue que saiu mal lhe sujou a mão.

Se ergueu diante dele que agora retomou o olhar de pânico. "Gostando, meu bem?". O olhar de Sophia era de fúria. Por mais que Janaína não admitisse ele já havia dado em cima dela. Tal qual terrorista islâmico Sophia caminhou lentamente até ficar atrás do professor. Com uma mão na testa dele posicionou a lâmina no lado esquerdo do pescoço. Teria de fazer força se quisesse resolver isso logo. Um pequeno jorro se fez ao romper a carótida esquerda que levava sangue limpo ao cérebro. Ou seria a carótida direita que fazia isso? A segunda artéria se rompeu. O sangue manchou a camisa xadrês do dito professor. 

Não era como nos filmes onde o sangue jorrava vários metros para frente. No instante do rompimento sim, houve um breve jorro de sangue. Porém no instante seguinte o sangue começou a escorrer como em qualquer machucado. Mas com muito mais intensidade. Sophia ficou admirando o olhar dele ao perder seu liquido vital. Provavelmente ele não gritaria, se tivesse acertado o cálculo teria rompido as cordas vocais dele. O rosto foi ganhando um tom cada vez mais branco até ficar tão branco quanto a pintura que descascava lentamente no pilar. Deixou o carro dele aberto. Sabia que alguns bandidinhos locais passavam por ali vez por outra roubando carros. A chave estava na ignição. Com sorte eles sairiam com o carro e, quando descobrissem o corpo, o carro ou estaria em pedaços nas milhares de lojas de peças roubadas ou estaria no Paraguai, traficando cigarro falso.

Suspirou com a missão cumprida. Voltou ao seu carro limpando as mãos de sangue e jogando o papel em baixo dos bancos do carro. O que quer que fosse feito do carro os papéis sumiriam. No caminho para casa se livrou do canivete. Um dos vários riachos emcobriria seu parceiro por um longo tempo. Não precisaria ser eternamente. O suficiente já estava bom. Em casa o cheiro de macarrão ao sugo lhe entorpeceu. Apesar de pouca dor no pé Sérgio não deixou que ela lavasse a louça. Sophia buscou algum canal na televisão que mostrasse algo bom. No canal de filmes antigos achou o clássico de Hitchcock. Pacto Sinistro. Perfeito para encerrar a noite.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Prólogo - Álibi IV

Doença. Provavelmente até os melhores já passaram por isso. Aliás, doença, inclusive, já levou muita gente. E, com Sophia, não era diferente. Como dizia sua mãe que desgraça pouca é bobagem primeiro um resfriado que se tornou gripe e, graças aos cuidados de seu noivo Sérgio tudo não evoluiu para uma pneumonia ou algo mais grave.

Durante sua reclusão forçada acabou faltando aulas da faculdade. Todas as faltas seriam justificadas e todos os eventuais trabalhos seriam compensados de alguma forma. Era tudo que ela queria para voltar ao que considerava ser quase uma missão. Quando se preparava para voltar, fazer todos aqueles dossiês mentais que fazia de suas vitmas outra interpere cruzou seu caminho: um degrau pisado em falso e lá se ia o tornozelo esquerdo. Logo o esquerdo. O pé da má sorte fazendo mais uma das suas.

Por não conseguir repousar o tempo certo e temendo perder mais aulas e acabar reprovando em alguma disciplina Sophia forçava os passos, não tinha medo de caminhar pelos corredores do Fórum durante a tarde e pelos corredores da faculdade durante a noite. E de manhã mantinha a faxina do apartamento em dia. Sérgio quase brigava com ela por não conseguir parar quieta.

Ela não conseguia parar justamente por não poder fazer o que tinha planejado fazer durante aquele ano, se movimentar com coisas cotidianas lhe faziam espairecer. Já tinha atrasado o mês de abril, maio, junho e agora, em julho, tinha de retomar. Era sua tarefa. Nos dias que o tornozelo não a deixava caminhar muito fazia suas pesquisas nos bancos de dados da polícia. Buscava um novo alvo. Uma nova cena que pudesse dirigir por completo. Quando pensou nisso novamente a ideia de cena veio à sua mente. Será que ela não se daria melhor fazendo um curso de cinema? Talvez no verão. As leis eram sua paixão.

Apesar de reclusa na maioria do tempo, Sophia tinha lá sua cota de amigos na faculdade. Alguns amigos e algumas amigas. Habilmente escolhidos por inúmeras habilidades e por tons de afinidade em alguns assuntos e por tons de dissonância. Também tinha esse mesmo "cálculo" no estágio. O que, segundo pensamento dela, lhe traria alguma vantagem num momento oportuno. Fosse contato profissional, fosse o que fosse.


Dessa cota de amigos talentosamente selecionados uma amiga se destacava um pouco. Ela se dizia melhor amiga de Sophia e Sophia tinha lá sua dose de carinho por essa amiga. Não era grande a dose, se fosse possivel classificar entre números de um a dez, Janaína teria seus sete pontos e meio. E, por mais estranho que pudesse parecer, Janaína fazia um totalmente diferente. Ela cursava Publicidade. Viviam às voltas pelos corredores conversando sobre os mais variados assuntos. Desde Tolstói, Bukowski e Kant até receita de estrogonofe, cor de unha até marca de absorvente sem abas.

Foi em uma noite de animada conversa que soube de Janaína a existência de um professor que assediava alunas. Que abusava de sua autoridade como professor. Que agia arrogantemente. Como boa ouvinte Sophia prestava atenção nos relatos imaginando como seria bom se livrar desse cara. Já conhecia um pouco a má-fama do sujeito, mas nunca soube de algo além de soberba e um ego elevado.

(... continua na segunda)

terça-feira, 12 de maio de 2015

Lápis

Enfim centrei o pensamento. Em um lapso de consciência desde que cheguei aqui me lembro de terem falado algo como ter um caderno em uma das gavetas. Meu corpo não respondia como eu queria, esse devia ser o preço dos remédios que me empurravam goela abaixo. Nunca caminhar três passos foram tão dificeis. Ao lado do caderno havia um lápis e não uma caneta, alguém aqui dentro devia saber a teoria da Janaína que canetas não tem sentimentos.

Com o caderno em cima da mesa tentei lembrar a quanto tempo estava aqui. Essa memória sumiu. Pior que ao pé da cama não haviam aquelas plaquetas de filme em que acompanhavam meu andamento e blá-blá-blá. Tentei posicionar o lápis entre os dedos, a mão tremia. Levei o que julguei ser dez minutos pra escrever uma linha. É, Helena, bem dizem que sempre é possível cair mais. Mas, uma hora se chega ao Japão e se volta a ficar no topo. Ao tentar escrever isso uma enfermeira entrou, ela trazia dois copinhos de café, mas sem café. Em um pilulas no outro gelatina de limão. Ao me ver ao caderno ela sorriu. Puta merda, ela tem olhos puxados. Será que cheguei ao Japão?

Tomei os comprimidos e ela me disse que logo eu dormiria e que uma boa ideia era eu ir pra cama e que, se fosse o caso, mais tarde ela me ajudaria a escrever algo. Antes de apagar perguntei o nome. Natália. Apaguei

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Muro

Desde que Helena voltou pra casa, depois daquela temporada comigo o mundo tornou a acelerar, minhas aulas voltaram, um estágio surgiu o que acabou me afastando de Helena. Semanas depois recebi uma ligação, durante a aula, do pai dela me perguntando se eu sabia dela, que a situação havia se agravado... decididamente eu devia ter feito psicologia. Depois de alguns minutos falei que daria um jeito de ir até a casa deles no final de semana, quem sabe passar um dia inteiro lá. 

Claro que os novecentos e quarenta e oito trabalhos que eu tinha para fazer pra outra semana esperaria, afinal o que é uma nota frente a vida humana? Haviam dias de frieza, hoje era um deles. Botava a culpa na TPM - desculpa clássica das mulheres pra agir com grosseria - e ninguém questionava nada. Tirando as cólicas eventuais em que eu preferiria abrir minha barriga com uma adaga ritualística, invocar Satanás e vender minha alma pela menor oferta a continuar sofrendo de tanta dor, ser mulher tinha suas vantagens afinal. E, decididamente voltar pra sala, no meio de um seminário, sorrir de canto, arrumar uma mecha de cabelo atrás da orelha e sentar no meu lugar como se nada tivesse acontecido era incrivelmente vantajoso. Findado o seminário a semana correu depressa, depressa demais eu diria e logo era o dia de ir ao encontro de Helena. Pelo visto demorei pra vir, o muro parcialmente destruído e uma tábua fazendo de remendo demonstrava que algo grande havia acontecido.

E o que eu diria ou faria com ela? o que sera que havia acontecido? A julgar pela tranquilidade do bairro juraria que alguém deu uma marcha ré como não devia. O transito num sábado pela manhã era terrivelmente fraco, por isso cheguei dez minutos antes do combinado. Resolvi esperar a hora pensando em que fazer com Helena. Tinha um carinho imenso por ela, mas não conseguia organizar a merda do meu tempo pra vir vê-la com mais frequência. Ao fim dos minutos bati a campainha. O pai dela me recebeu com um sorriso amarelo e olheiras maiores que o canal de Suez. Me convidou a entrar, contou os fatos ocorridos nos dias anteriores e o quanto minha amiga tinha enlouquecido por causa, provavelmente, das drogas e o quanto ele, no desespero a internou numa clínica de reabilitação. No mesmo instante me veio a mente a musica da amy winehouse e seu rehab "don't go, don't go, don't go".

Ela ficaria lá por um mês até poder receber visitas. E eu o que faria? Ela sabia alguns segredos meus assim como eu sabia que as drogas eram os menores problemas dela. Outro problema surgiria: tinha o dia inteiro de folga, passei a sexta organizando um final de semana com Helena. Podia ceder ao convite dos pais dela de ficar e passar o dia com eles... nada contra gente velha. Mas convidaram por educação, inventei um compromisso de última hora e deixei os pais de Helena sozinhos, segunda feira mandaria alguém arrumar esse muro. Talvez fosse a única coisa que pudesse fazer agora por ela, além de torcer pra ela conseguir domar suas sombras.

Não que eu fosse eximia nisso. Mas se ela aprendesse a esconder tão bem quanto eu, talvez ela tivesse chance nesse mundo maldito. Esse era meu segredo, apenas ela sabia todos os temores e sombras que carregava em meu coração. No carro, voltando pra casa, pensei "e se ela falar sobre meu segredo?" Não aconteceria nada. Talvez fosse bom já me programar pra visita-la no final do mês. Talvez não, seria. Será.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Álibi III

Mesmo sendo extremamente racional, às vezes Sophia agradecia aos céus. No passado, durante sua infância seus pais a obrigavam a ir para a igreja todo domingo, sempre com sua melhor roupa, não que ela achasse ruim isso, era um momento em que as brigas entre seus pais cessavam. Aos doze ela desistiu de seguir os passos deles e parou de ir à igreja. Gostava de passar em frente ao prédio físico para admirar, tinha por gosto deitar em um dos bancos do fundo da Catedral de Nossa Senhora da Luz, depois da aula. Era isso ou aturar a gritaria e os palavrões em casa.

O agradecimento referido anteriormente foi justamente pela escala de plantão de seu noivo cair na data que tinha que seguir sua missão. Na hora que saiu da faculdade entendeu porque o Batman gostava tanto da noite: ela era um ótimo disfarce. Entrou na garagem do prédio e passou pela única câmera na entrada, a negligência em colocar mais câmeras aqui era algo que, em todas as reuniões de condomíniro, era colocado em pauta e ninguem resolvia. Sorte de uns, azar de outros. Aproveitou a situação para trocar de roupa, colocando uma saia curta e uma peruca loira, espirrou vodka pelo corpo afim de seu algoz achar que ela era uma vitma indefesa. Essa era uma de suas fantasias: parecer indefesa, a espera de um cavaleiro de capa e um cavalo branco. Claro que essa fantasia já não cabia mais nela, mas um dia ainda queria um cavalo branco... quem sabe um dia, não? Saiu por uma porta dos fundos da garagem e, dali, para a rua. Calçou a sandália de salto alto que havia ganho de alguem... quando foi? Amigo secreto da turma de faculdade talvez? Provavelmente.

Com certa dificuldade por andar de salto alto - talvez sua única da noite - chegou ao ponto onde veria o alvo. Da pequena bolsa tirou o cartão dele. Curiosamente era a primeira vez que via o nome dele. Alfredo. Nome estranho. Quer dizer, talvez estranho para qualquer outra profissão, mas, para taxista, era um nome que encaixava bem com a função, embora não acreditasse nisso de nome-para-essa-ou-aquela-profissão. Deu de ombros e, do número do chip de celular roubado que comprou mais cedo no centro, discou para ele. Deu o endereço, disfarçou a voz para parecer embriagada. Assim que ele chegou sorriu de canto e disse que preferia sentar atrás pois estava um pouco zonza.

Passou o endereço de onde queria ir. Uma rua distante dez quarteirões dali. Claro, era perigoso ela agir tão perto de casa, mas... e onde ficaria a dose de adrenalina? Conhecia a rua o suficiente para saber que, além de sair da rota várias vezes tornando a viagem mais cara, ele rumava para uma rua escura. Esse era o modus operandi dele: ficar em portas de boates, bares, levando vitmas para ruas escuras. Minutos antes dele para, Sophia abriu a bolsa como se buscasse a carteira. Ele, notando a inabilidade dela, sorria de soslaio, ela, só com o canto do olho notava pelo retrovisor o olhar de caçador. Devia ter feito teatro, Sophia fingia o olhar de caça muito bem.

Da bolsa saiu um pedaço de corda, dessas cordas náuticas que Sophia havia achado no lixo de seu prédio. Quer coisa melhor? Qualquer fibra que ficasse teria uma origem absurda: corda náutica que era vendida em, pelo menos, duzentas lojas apenas num raio de dez quilômetros. Se a busca expandisse para mais, vinte quilômetros a quantidade de lojas passaria fácil de mil. Quer álibi melhor? Agora veio uma dúvida: direita para a esquerda ou esquerda para a direita? Melhor direita para esquerda, a mão direita é mais forte para arremessar a corda para a mão esquerda, embora o lado esquerdo tenha a proteção das trevas e a mão direita tenha mais habilidade em pessoas destras, como Sophia. Decidiu pelo lado esquerdo.

Com a sensação de que era mais fácil do que parecia pediu que o algoz lesse o preço no taximêtro. Enquanto a visão dele se fixou no pequeno aparelho de números vermelhos ela passou a corda de um lado pro outro puxando em seguida. Com o joelho empurrou o banco para frente afim de agilizar o processo. Como um peixe fisgado ele se debatia tentando a todo custo se soltar. Tentou, em vão, tocar a buzina como se pedisse socorro. Os braços ficaram curtos. Tentou jogar o braço para trás afim de tentar bater no braço que segurava o pedaço de corda. Tudo inútil. Em menos de cinco minutos a traqueia esmagada deixou de passar ar, as artérias do pescoço deixaram de levar sangue para o cérebro. Fim. Os braços amoleceram. O movimento, outrora frenético, cessou. Por via das dúvidas segurou mais alguns instantes. Garantir nunca é demais.

Como se encenasse um assalto levou todo o dinheiro que tinha no porta-luvas. Deviam ter uns duzentos e poucos reais. Caminhou para distante do taxi enquanto repassava a lista de lugares onde tocou e onde limpou: maçanetas, banco, apoio de braço... tudo limpo com o bom e velho hipoclorito de sódio. Desligou os faróis, o motor... quanto mais tempo demorasse para acharem tudo, melhor. Como boa diretora de suas próprias cenas de vida, dona de seu próprio destino, já tinha deixado uma muda de roupa em uma lixeira próxima. Enquanto se trocava, tirava a maquiagem pesada e colocava um tênis, ficou pensando em "ser dona do próprio destino". Parecia coisa do velho oeste. Jogou cada peça do disfarce em um lugar diferente, a peruca, depois de lavada com o mesmo liquido de cheiro forte, seguiu o mesmo caminho das outras peças, a única excessão coube à sandália que seria lavada e emprestada a qualquer amiga ou colega que precisasse tão logo fosse possível. Em um passo rápido caminhou até a garagem do prédio sem se preocupar, na rua haviam duas dúzias de pessoas e três dúzias de carros. Entrou pela mesma brecha que saiu, abriu o porta-malas e, de lá, pegou a bolsa onde guardava o notebook e uma sacola com compras. Depois de um banho rápido resolveu assistir um filme até pegar no sono. Por que não um faroeste? Perfeito. Sexta-feira faria uns tacos, compraria uma tequila e, com seu noivo, assistiriam Gran Torino. Não era um faroeste, mas era do mestre de faroestes. Com esse pensamento em mente deixou-se levar nos braços de Morfeu.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Álibi II

Dizem que, depois da primeira vez, a seguinte é mais fácil. Não que a primeira vez de Sophia tivesse sido difícil, atraiu o alvo para onde ela queria, teve todo tempo que quis, até mesmo os álibis que nem precisava obteve. Tudo isso deu a confiança que ela queria para continuar com sua obra. Obra? Por um instante parou e pensou se o quê fazia era uma obra ou apenas uma faxina social. Desde aquela aula que soube que ninguem era preso por muito tempo e crimes de natureza sexual tinham pouquissimas denúncias por vergonha das vitmas ela tinha colocado na cabeça que tinha de fazer algo.

Seu noivo sempre disse isso, se ela colocava algo na cabeça ninguem conseguia tirar. E isso, convenhamos, era pouco ainda. Dessa vez o planejamento foi algo mais de última hora, sem tantos planos. Havia criado uma escala de dificuldade. Tinha feito uma vez e gostado da sensação. Do excesso de adrenalina na corrente sanguínea. Muitos fariam algum esporte radical, mas Sophia havia descobrido outra forma de esporte radical. Sabia que, se começasse e fosse muito afoita em agir, logo a pegariam. Por isso nos seus planos a meta era um por mês.

Afim de confundir alguma eventual investigação decidiu inovar: um mês e um dia. Esse seria o intervalo. Fazendo isso teria tempo de pesquisar sobre o alvo, conseguir alguma informação mais relevante e que facilitasse um pouco o serviço. Claro que teria que ser de maneira discreta. Mas, seu relacionamento com Sérgio, tinha acesso fácil na delegacia e conseguiria ver o quê precisava. Isso lhe pouparia tempo, ela teria tempo para criar eventos que justificassem sua ausência nos lugares onde deveria estar.

Com esse alvo não teria alguns contratempos que teve na vez anterior como o cabine do banheiro ser, relativamente, pequena. Agora seria num local aberto, um parque sem vigilância, às margens de uma rodovia com pouco movimento e no meio do caminho entre a faculdade e cidade vizinha onde tinha alguns amigos que podia visitar e, usar a boa desculpa do trânsito pra justificar a demora no deslocamento.

Usou de seus dotes de atriz. Fingiu ser mais nova que a filha de Sérgio que estava no auge dos seus dezesseis. O alvo não desconfiava dela. Achava que era mais uma menina que caiu em sua lábia. Para Sophia era a mesma coisa: ele caiu na sua lábia. Marcou o horario em uma das estradas vicinais que davam para a rodovia, dez quilometros adiante. Na fantasia do contato on-line disse que uma tia tinha uma pequena fazenda ali e que ela tinha as chaves. O idiota não desconfiava de nada. Como haviam ônibus periódicos ela dizia ir assim. Ele acreditou. Minutos antes da hora marcada ela estava a postos na casa abandonada que não devia ver seus donos haviam vários anos. Um riacho passava atrás. Se a casa havia sido abandonada era por algum motivo. Sophia investigou tudo, sempre com o cabelo preso e as mãos cobertas por luvas cirurgicas brancas.

Obviamente ninguem notaria que foi ali que ocorreu o ocorrido. Escondeu seu carro nos fundos da casa e se preparou, colocou uma roupa mais infantil, ficou atrás de uma janela vendo o carro do alvo chegar. Ele sorriu vendo-a parada ali. Ela sorriu vendo-o vir até ela. Ela disse que a porta estava destrancada. No instante que ele passou a porta ela mirou a espingarda no peito dele. Clemência ele pediu, disse que se entregaria e cumpriria pena. Sophia não ponderou nem um segundo o pedido dele. Um disparo seco no meio do peito. Distância média, uns seis metros. Calibre doze. O estrago não é tão grande assim. O sangue não jorra como nos filmes do Rodriguez ou Tarantino. O cinema era uma ilusão. Mas uma ilusão inspiradora. Talvez muita gente não saiba, mas o cartucho de uma calibre doze não é uma bala rígida como de outros calibres como o trinta e oito ou a nove milímetros, era apenas pequenas bolas de metal que rompiam a saída do cano numa velocidade considerável. Era como uma espingarda de sal do Nhó Lau, que disparava em formato dum spray, mas, ao invés de cloreto de sódio, havia sido trocado por chumbo. Ou qualquer outro metal que carregasse esse tipo de cartucho. Todo o planejamento culminou naquele instante. Os décimos de segundos entre o apertar de gatilho e o atingir.

O corpo caiu dando o último suspiro. Sophia calculou que o piso não seria tão dificil de limpar. A calibre doze havia encontrado na fazenda em uma primeira checagem dias atrás. As balas ela fabricou sozinha com tutoriais que havia encontrado no YouTube. Nessa primeira visita trouxe vários litros de água sanitária. Porém quando começou a arrastar o corpo notou que os projéteis não haviam atravessado o corpo, logo não sujariam o chão. Do ponto onde ocorreu até o riacho eram vinte metros. Com a destreza de quem já fazia isso haviam anos - ainda que fosse apenas sua segunda vez - colocou o alvo no tapete e o puxou até o pequeno mirante que apodrecia por falta de manutenção.

Antes de se desfazer das provas colocou no bolso interno do casaco do alvo um pequeno saco com algumas gramas de cocaína que conseguiu roubar de alguns colegas de faculdade. Sorriu por fazer duas boas ações ao mundo: livrar o mundo das drogas. Duas ações iguais, será que eram duas vezes ou em potência? Elevado ao quadrado? O rio vinha da cidade, por onde havia passado por diversos bairros violentos e com a "tradição" de jogar corpos mortos no rio. Era uma pena, mas esse não ficaria tão óbvio que tinha sido ela. Deu de ombros ao ver o corpo parar de rosto virado para baixo na água. Se seus calculos estivessem certos choveria o suficiente para aumentar a vazão do rio levando toda e qualquer prova. Restou o carro do alvo. Deu uma checada geral. Do porta-luvas tirou o documento do veículo. Alugado? A sorte sorriu para Sophia. Aquela estrava vicinal vinha dos tais bairros violentos. Tirou o carro da fazenda e o deixou alguns quilometros mais próximo da cidade. Ao voltar para a casa passou uma camada generosa de água sanitária no chão. Em dois, no máximo três dias, o cheiro desapareceria por completo. Jogou os frascos no rio. Tirou seu carro e rumou para a cidade. Tomou o cuidado de meter um prego no estepe afim de murcha-lo. Que álibi melhor que um pneu furado?

Ao chegar na casa dos amigos contou sobre o pneu furado e o jeito do cara que parou para ajuda-la. Ao fim de algumas horas resolveu voltar para sua cidade. Diminuiu ao passar por aquela estrada vicinal. Ela parecia idêntica a antes. Ao longe ela podia ver os raios se desenhando ao horizonte. Parou em um borracheiro já na cidade, próximo de onde morava e amigo de futebol nas quintas-feira de seu noivo, e consertou o pneu. Custou mais barato por ele e Sérgio serem amigos. Sophia pediu que ele não falasse nada para seu noivo. Tinha ido à um bairro um pouco barra-pesada entregar alguns documentos e alguem devia ter aprontado com ela. Ele pediu que ela relaxasse, coisas assim aconteciam, ainda mais com uma moça boa como Sophia. Ela agradeceu.

Assim que pisou em casa ouviu um trovão. E outro e mais um. Tomou um banho demorado, nas mãos usou sabonete esfoliante e hidratante. Preparou um macarrão à carbonara que ficou pronto no tempo exato que as chaves giraram no tambor da fechadura. Sérgio havia chegado. Sophia foi ao encontro dele, trocaram um beijo rápido enquanto ele dizia estar feliz que o cheiro que sentiu desde o começo do corredor era daqui. Antes que ela pudesse convoca-lo para a mesa ele correu ao banheiro dizendo tomar uma ducha apenas para tirar o suor do corpo. Cinco minutos depois ele estava à mesa onde ela servia o jantar e os primeiros pingos de chuva molhavam a janela. E a chuva forte prevista, afinal, veio.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Álibi

Parou no batente da porta do banheiro feminino ajustando o comprimento da saia ao correr da coxa. Uma rápida passada de mãos pelos cabelos, um sorriso fino no canto dos lábios, de soslaio olhou primeiro a direita, depois a esquerda. Não mais do que dois segundos e decidiu seguir pela direita. O som dos saltos no corredor praticamente vazio da faculdade ecoavam e se dissipavam com a mesma facilidade que a água na calçada secava ao sol de verão.

Enquanto caminhava observou que ali não haviam cameras de segurança. Mais uma coisa boa. Não era a primeira vez que fazia aquilo em um banheiro. Muitos pensariam porque um banheiro com tanto espaço isolado e longe de qualquer perigo de ser descoberto. Simples: Sophia amava a sensação de ser pega no flagra. No fundo era o quê ela mais queria. E, no mesmo fundo, era o quê ela menos queria. Afinal não seria nada legal ela, noiva de um dos policiais mais casca-grossa da cidade ser detida no banheiro com outro cara.

Ao contrário do que possa parecer aos meros olhares mortais ela, estudante de direito, achava que aquela ali era a melhor forma de colocar para fora aquele desejo que sempre teve desde quando era adolescente, nessa mesma cidade. Agora, maior de idade, podia realiza-lo sempre que fosse possível e sempre que achasse necessário. Foi vista por alguns professores que fizeram a pergunta óbvia: o quê ela fazia ali. Como uma lebre escapando do bote de uma cascavel disse vir devolver alguns livros. O sistema de empréstimo da biblioteca confirmaria. As cameras naquele corredor também. Não demorou mais do que meia dúzia de minutos no banheiro - tempo completamente aceitavel para uma mulher que vai ao banheiro - e, agora, comprava um pão de queijo na lanchonete mais cara do campus, pois ali tinham cameras. Se, fosse confrontada de ter feito o quê fez, ela tinha um excelente álibi: seus professores.

Irônicamente um dos professores era de direito penal, um de direito da família e a outra a professora de legislação. Conversaram não mais do que dez minutos sobre o ano, sobre as possibilidades que poderiam se abrir pra ela no ano que vem em carater de estágios no fórum. Agradeceria e até falou de pagar uma pizza aos professores se isso acontecesse. Todos riram e alguem falou que poderia ser algo da natureza de propina. Novas risadas. Sophia se despediu desejando para todos boas festas e todas aquelas coisas que todo mundo desejava a todo mundo.

Olhou o relógio. Vai ficar apertado. Acelerou pelas vias internas do campus até a saída. Passou o cartão do estacionamento no horario que queria. Perfeito. Enquanto dirigia pensou em todos os seus passos. Devolver o livro que havia pego semanas antes. Passar pelas cameras. Atrair ele para o banheiro feminino. Fazer o quê tinha que ser feito, sair, comprar um pão de queijo e ir embora. No caminho o bônus dos professores lhe fez somar mais pontos de álibi. No penúltimo sinal antes de chegar à casa de seu noivo policial retocou a maquiagem.

Sem nenhum pudor colocou o carro na garagem. Era um prédio simples, mas mais bem cuidado que Sérgio morava quando se conheceram. Ela veio fazer queixa que uma amiga havia sido assaltada, enquanto a maioria da delegacia fez a "operação-padrão" ele se prontificou em ajudar Sophia. Em parte por ela ser bonita e atraente, em parte por ver nela uma chance de recomeçar que Helena havia, indiretamente, plantado nele.

No elevador ela retocou, novamente, a maquiagem e arrumou a roupa no corpo. Deviam inventar algum método de dirigir um carro que não amassasse a roupa. Checou a hora. Ele havia chegado deviam ter alguns minutos. Com sorte convidaria ele para sair, pegar um cinema. Enquanto andava pelo corredor do quarto andar repassou que ninguem passaria naquele banheiro até amanhã. Ou, com sorte, até segunda-feira. Até lá os odores exalariam e ficaria claro o quê aconteceu ali. Repassou os horarios. Os álibis. Tudo dentro do planejado. Perfeito. Ninguem suspeitaria dela. Nem mesmo seu noivo com seu faro de detetive policial.

Na terça-feira seguinte soube que acharam sua obra. A televisão dizia que a, agora, vitma era suspeito de inúmeros estupros no campus da faculdade, a polícia, por meio de nota, disse não ter a menos suspeita de quem possa ser. Sérgio até questionou à Sophia se ela sabia de algo. Pelo estágio da decomposição alguns peritos dataram como entre quinta-feira e domingo mas que, com o calor que fazia nos últimos dias, não se podia precisar nada. Ela disse não saber nada, que ouvirá falar dos casos de estupro, mas era em outro bloco, distante do dela. Ele, claro, acreditou nela e trocaram de assunto. Faltava decidir onde passariam as férias, se no Rio ou na casa de praia dos pais dela em Angra. Decidiram por Angra. Angra dos Reis.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

os 27

Enfim cheguei nessa idade "maldita", não que eu acredite nisso e não que esse seja o melhor método de se iniciar uma crônica aqui, mas, é inegavel que muitos gênios morreram aos vinte e sete anos. Claro que eu ainda não estou no patamar de gênio, mas... enfim. Vamos começar? Hoje nem é meu aniversário ainda, eu acabei de fazer um trabalho de faculdade e estava aqui relendo as crônicas de aniversário que escrevo desde os vinte e quatro. Curioso como meu estilo de escrever mudou (penso que melhorou um pouco, apesar de ficar um pouco mais enigmatico) e eu acabei mudando também.

Se, aos vinte e quatro, eu já achava o máximo ter chegado até ali (quer reler? Clica aqui), aos vinte e cinco eu já achava incrivel ter "um quarto de século" (ficou curioso? Leia ) e aos vinte e seis eu demonstrava estar relativamente tenso ao que poderia vir pela frente (já que já leu os outros, lê mais esse), hoje, quatro dias antes de chegar aos vinte e sete eu me sinto tranquilo. Não estou nadando em um mar de rosas, mas, sinto que as coisas começam a ficar interessantes.

Esse blog, se a definição de blog é "servir como diário" eu fujo completamente disso pois eu raramente acabo falando de mim na primeira pessoa ou me colocando como personagem de crônica nesse universo. O normal aqui é ter histórias que se passam em um outro universo, paralelo ao nosso, que acabo compartilhando com outras excelentes escritoras (A Bell, a Iza, além, de, é claro da Thata e da Jéssica, com quem divido o blog que gosto de chamar, carinhosamente, de "projeto cartas") onde acabo escondendo devaneios meus, desejos secretos e algumas coisas que não admitiria nem sob tortura haha.

Acontece que esse ano que passou foi um ano repleto de coisas novas. A começar pela prova do vestibular que eu dizia que faria no "os 26": fiz e passei. Agora sou estudante de Publicidade e Propaganda. Acho incrivel ir pra faculdade todos os dias... e o mais legal: eu vou com ela, a minha inseparável Eleanor (que, se você não conhece, leitor, é minha bicicleta, que é mais que uma bicicleta, ela é algo maior... não sei explicar, não em palavras) ouvindo música no volume máximo. No mês de setembro desse ano aconteceu algo que eu queria que acontecesse mas não esperava que fosse acontecer: consegui um estágio remunerado na propria faculdade. Não vou falar que agora estou nadando em dinheiro, mas agora algumas coisas vão começar a melhorar. Não que eu me importe tanto com dinheiro, longe disso, ainda quero tentar um dia não ter essa coisa de "adoração à matéria". Longo caminho até lá, né?

Como sempre acontece enquanto escrevo, eu estou ouvindo música (agora a pouco era de duas bandas ucrânianas que recomendo: Mad Heads XXL e Ot Vinta, ambas eu, como descendente de ucrânianos entendo meia dúzia de palavras, mas o som e os clipes são legais) e liguei no aleatório pra ver se eu tinha uma música pra semi-encerrar a postagem. Acabei achando uma, que vou por um trechinho da letra e o link pra tradução ali no fim, porém quero aproveitar essa "janela" desse universo no blog pra agradecer todos que dividem essa coisa chamada existência comigo, que compartilham seu tempo comigo. Não vou nomear ninguem pois minha memória nunca foi boa com nomes, logo posso esquecer de alguem. Mas, quero agradecer sobretudo aos meus pais, por estarem sempre comigo independente do que acontece. Aos meus amigos fiéis, que são poucos, mas, são fiéis e, claro, aos meus amigos de data recente. A galera da faculdade, claro. Obrigado por tudo, viu, pessoas da minha vida?! De coração. Obrigado. E, como não pode faltar, vou encerrar com o "mantra" de todos os anos: que os vinte e sete sejam vinte e sete vezes melhor do que foram os vinte e seis.

Agora a música:

Ya estoy en la mitad de esta carretera (Eu estou no meio desta estrada)
Tantas encrucijadas quedan detrás (Tantas encruzilhadas ficaram para trás)
Ya está en el aire girando mi moneda (E no ar minha moeda está girando)
Y que sea lo que (E o que tiver que ser)
Sea (Será)

♫♪♫ Jorge Drexler - Sea ♫♪♫