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sábado, 14 de março de 2020

Ganido

Não há um momento exato em que surgi, talvez sempre estive aqui dentro adormecida, apenas esperando a hora certa para despertar e cuidar de você, menina. Eu sei que não gostas que te chamem assim, mas é como lhe vejo.

Posso não ter a memória exata de quando cheguei, mas lembro-me de quando tomei o controle a primeira vez, tinhas algo na mão, um brilho, um movimento rápido que meus olhos recém-abertos não acompanharam, lembro de ver pele, chão, sangue... sangue? Foi quando assumi. 

Tomei sua forma enquanto você se reconstruía. Calma. Calma. Deixe tudo comigo. Você não respondeu, apenas deu de ombros. Quando dei por mim estávamos em um local bonito. Árvores. Paredes limpas. Som de pássaros. Foram nesses dias que me batizou, lembra? 

Você e sua imensa curiosidade sobre mitologia oriental me deu mais que um nome, me deu uma forma. É curioso pensar nisso hoje. Até aquele momento eu não tinha uma forma, não que eu fosse uma ameba, longe disso, eu apenas vivia tão oculta nas sombras que nunca atentei para qual era minha forma ou quais eram minhas extremidades.

Foi assim que como se uma luz se ascendesse no meu cômodo dentro de ti... espera. Cômodo? De acordo com a psicanálise eu, muito provavelmente, sou uma parte da sua consciência, do seu id. Sendo assim eu sou seu inconsciente. Sou responsável por cada atitude sem pensar. Tresloucada. Tsc. Eu sei que gosta de assumir suas atitudes, menina, mas tens que admitir que já usou o meu mostrar de dentes para explicar diversas atitudes suas, até mesmo com a menina-loba.

Falar nela me traz uma paz confusa. Acho que não convivemos na natureza. Se bem que em regiões com neve... É, hoje não é o momento de falar disso. Ainda mais pelo fato de não sermos seres biológicos... quer dizer, aquela criatura tem um gosto bom. Forma estranha de me expressar, mas é assim que é, aquela loba tem um gosto diferente de tudo que já provei. Provei não, provamos.

A imensa verdade, menina, é que temos o mesmo péssimo costume de tergiversar e nos perdermos no que dizíamos. Pensar que comecei a falar de minha origem e acabei indo parar nela. De veras estranho não é mesmo? Eu sou grata por você, sei que também és por mim. Temos uma simbiose perigosa aqui.

Perigosa sim. Pois quando lhe surgem momentos ruins eu assumo, me recompensa com suas caças. O pagamento é justo, eu sei, mas te deixo com pouco do que sentir, sobretudo nas suas caçadas noite a dentro. Em contrapartida te deixo sentir cada mínimo prazer com a loba. O perigo está justamente nesse instante, eu sei que não devo, mas acabo te deixando ir com ela, torço para que nunca aconteça nada de ruim e... enfim.

Sim, minha menina, eu torço por você. Sempre torci e nunca escondi isso de ninguém. Por isso assumi o controle várias vezes, para que pudesse se remontar, se reconstruir. Aparentemente eu soube guiar a gente até um momento melhor, não é mesmo?

Ah sim, falava sobre minha origem e como me nomeaste. Sua fascinação pelo oriente até te fez comprar uma casa no bairro mais nipônico da Metrópole. Pena que não pudemos ficar lá muito tempo. Céus, sim. Foco. Naquela noite na praia, depois dos ocorridos na estrada, eu me lembro da Lua brotando no mar, foi ali que te segurei o mais firme que pude e que, em homenagem à sua paixão por ela passou a me chamar de Tsuki. Lua em japonês. Confesso que não entendi bem como uma menina com os cabelos dourados como o por-de-sol pode ter tamanha adoração por algo tão ligado com as trevas. 

Durante as caçadas na Metrópole entendi.

Gosto de nossas conversas, menina. Tudo bem, você odeia que eu te chame assim, como preferes? Janaína? Posso lhe chamar assim se quiseres, mesmo que para mim siga sempre sendo a minha menina. Vou me calar. A loba chegou. Chegou sim. Sinto seu cheiro de longe. Como é que se diz mesmo? Itadakimassu.

sábado, 7 de março de 2020

Ruptura II*

Talvez o pior luto seja o luto das pessoas vivas. Aquele que você sabe onde as pessoas estão, onde elas vão, ainda tem uma certa noção da rotina delas, às vezes até encontra com elas em algum corredor, rua, esquina em comum, vê num reflexo. Assim foram aqueles dias antes da minha explosão, aquele maldito momento em que eu estava com a porcaria de uma faca na mão e a visão turvou.

Agora não vale a pena tentar relativizar, achar uma desculpa mirabolante. Tive um ápice de fúria. Não tem essa de possessão demoníaca ou qualquer coisa do tipo. Fui apenas eu, Janaína Barcelos, sem controle da minha raiva. Nos dias que antecederam aquela situação eu tive inúmeros momentos em que eu me desprendi de meus pais, eu os via como estranhos. Por dentro sabia que eram meus pais, mas lá no fundo eu sabia que eram dois estranhos. Parece cruel pensar assim, mas era como eu me sentia. E na época eu sabia que era completamente errado pensar nisso daquela forma.

Aquele inverno foi comprido. Depois do incidente com a faca eu tentei efetivamente morrer também. Na verdade eu já estava morta, faltava tomar consciência disso. Porém quando tentei resolver a situação eu não consegui. Na real não deixaram. Quando dei por mim estava em um lugar bonito, árvores, o som de um riacho... era bom estar ali apesar do que acontecia quando ninguém olhava. Uma das meninas que estava lá mais tempo dizia que alguns monitores davam em cima de algumas internas. Não duvido, mas aquela mesma menina dizia que estava sendo perseguida por alienígenas. Também não há de se duvidar que uma menina chamada Clarisse tenha tanto a oferecer.

Desculpa. De novo me desviei da história principal, às vezes tenho desses devaneios e acabo esquecendo o que estava falando... ah sim, do meu luto. Depois que saí daqueles dias em repouso tudo pareceu tão alheio, tão distante. Tanto faz o fato de eu estar chapada de calmantes. Hoje sei que pode ter sido uma despersonalização, uma forma que minha mente encontrou para que eu pudesse suportar toda aquela situação. E confesso que era uma sensação gostosa no começo, eu me via de cima, como se estivesse vendo outra pessoa. Aliás, esquizofrenia ou não, era outra pessoa. Ou melhor, outra criatura. Tsuki, minha raposa interna quem controlou cada ação naqueles dias.

Foi só naquele dia que viajei que ela me deixou retomar o controle. Era como se ela pudesse prever o que viria... você é vidente, Tsuki? Agora você se cala e finge dormir. Muito bom, ótima atriz. Kitsune. Cheguei, encontrei com meus pais, jantamos no shopping de rico. Na época eu ainda procurava alguma coisa para direcionar a vida, alguma coleção que pudesse ocupar minha cabeça, definir um hobby podia me ajudar a pensar em uma futura carreira. Olhando hoje parece tão idiota esse pensamento. Meu pai tinha um carro bom. Confiável. Espaçoso. Naquela época eu não parava para pensar se era compatível com a renda que ele tinha. Penso que ele tinha seus rolos e suas formas não-ortodoxas de ganhar algum extra, afinal, trabalhando com despacho aduaneiro sempre é possível liberar uma carga antes da hora, basta carimbar no lugar certo.

No meio do caminho uma chuva torrencial despencou. Em nenhum momento cogitamos parar e esperar aquela tempestade passar. Muitos carros pela estrada fizeram isso, dava para ver os pisca-alerta no acostamento. A entrada dos postos de gasolina tinham até ônibus estacionados. Alguns poucos carros ainda se arriscavam por aquele asfalto molhado, foi quando uma imperfeição qualquer da estrada fez ter um acumulo de água justamente na entrada de uma curva. O volante não virou. O carro foi reto. Lembro de chacoalhar primeiro para trás quando saltamos a canaleta na lateral da estrada e depois o baque violento ao achar uma parede de pedras. Bati a testa no encosto do banco de meu pai. O rádio tocou mais uma nota e parou. Merda, não consigo lembrar a música que tocava, lembro que era boa. Depois disso apenas o som da chuva no teto do carro. Uma paz. Uma tranquilidade que me fez crer que eu tinha morrido. Mas é aquela coisa, esse tipo de sensação nunca dura muito, logo voltei pra dentro do carro. 

Os dois airbags da frente fizeram sua função. Mas o impacto foi grande demais. Lembro da voz serena deles dizendo que tudo ia ficar bem. Meu pai dizendo que dali alguns dias íamos andar de patins na praia. Minha mãe dizendo que tudo bem eu fazer faculdade que não dava dinheiro no começo, eles podiam me dar o suporte que eu precisasse para dar os primeiros passos sozinha. Aquela paz. As vozes eram serenas. Conversamos muito. Colocamos todas as desavenças em ordem. As arestas aparadas. Não sei precisar quanto tempo ficamos ali. Sei que era agradável, apesar da chuva ter engrossado consideravelmente não chovia dentro do carro. Foi quando vi uma sirene piscando em vermelho e branco atrás de nós. A noite começava a cair e a chuva não cessava. Era o resgate. Um bombeiro, acho que no uniforme estava escrito sargento Bastos ou algo assim, não me recordo muito bem. Torci o pé ao sair do carro, mas estava tudo bem.

No dia seguinte acordei no hospital. Três médicos estavam próximos da minha cama. Falaram que meus pais não sobreviveram. Foi um baque maior que o choque com a pedra. Como? Estávamos conversando até acharem a gente. Na semana seguinte o laudo da perícia dizia que, mesmo com o airbag, o impacto foi forte demais e eles morreram na hora. Como? Conversamos por um tempão. Foi você, Tsuki? Não, claro que não. Ela não seria capaz de brincar com algo tão sério. Ou seria? O foda que, por dentro eu sabia que eles tinham morrido no impacto. Vi as fotos do carro. Ficou parecendo aqueles carrinhos do Japão, super compactos. Mesmo onde eu fiquei deformou o suficiente para que eu tivesse algum ferimento. As manchas roxas na perna, braços e peito deviam ser isso.

Toda aquela conversa foi uma elegia. Uma forma que minha mente encontrou de viver aquele luto. Foi ali que senti que não mais pertencia àquela região, àquela família. Aquele lugar se tornou algo triste. Mas, mesmo assim, não chorei tudo aquilo. Os planos. Os projetos borbulharam dentro da minha cabeça. Se era por falta de sinal aqui estava um bem assinalado, gigantesco, um farol. Foi uma embarque em um ônibus, mala com roupas e umas lembranças e uma mochila com miudeza, uma voz quase robótica anunciando o embarque para a Metrópole. Aspirei o ar daquela terra uma última vez e embarquei. Foi ali que tive a minha primeira e, até agora, maior ruptura.



* Por Janaína Barcelos

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Diário de Janaína

Havia um extremo silêncio da casa. Janaína e Helena estavam fora. Os únicos ruídos dentro da residência eram provenientes da rua, casas vizinhas ou do motor da geladeira de segunda-mão que tinham, provavelmente uma manutenção na borracha da porta resolveria parte do problema. Na sala as poucas almofadas estavam todas de um lado, lembrança de alguém que se esticou por ali. Além do eletrodoméstico antigo, a cozinha ainda possuía um fogão e uma pia limpa com meia dúzia de talhes, dois copos e três pratos no escorredor. No banheiro cremes, shampoos, tudo deixava explicito que as duas habitantes da casa eram mulheres. No quarto, além das camas, havia um guarda-roupas grande o suficiente para todas as roupas e calçados da dupla de jovens, no fundo do armário uma caixa resistia e destoava de tudo, dentro dela lembranças, fotos, alguns cartões postais, um tsuru muito bem feito e um diário. Não qualquer diário. O último diário que Janaína escreverá na sua vida e que sobreviveu ao trágico fim de todos os outros que era o fogo. Por isso nesse silêncio, entre um ruído de motor e outro, o diário leu-se.


10/05

Sabe, diário, cada dia que passa eu sinto mais raiva daquela pessoa que eu não devia ter esse sentimento. Sempre me cobrando uma perfeição impossível, uma qualidade esmerada ao extremo, foi quando, sem querer, eu descobri que ela inventava conquistas minhas para se exibir pros parentes ricos. Eu já sabia que ela gostava de contar uma vantagem que não existia pros outros, de sempre parecer melhor. Mas isso? Ridículo. Até vindo dela.
Apesar de termos uma boa condição financeira graças ao papai, sei que não posso depender deles a vida toda e, por isso, sempre dou um jeito de arrumar algum dinheiro. Até porque, se for pedir pra mamãe dinheiro ela vai querer que siga todos os ritos de uma licitação, com inúmeras provas de que o que quero comprar é necessário e de que eu estou indo no de menor preço. Por isso digito trabalhos pros outros, corrijo, tem dado o suficiente pra comprar algumas bobagenzinhas.


12/05

Eu sei que diário é algo pra ser feito todo dia, mas, sinceramente, algo repleto de regras já basta a convivência aqui em casa. Nunca fui a aluna mais popular da turma, mas também nunca deixei de ter algumas boas amigas, dessas de sair, ir no cinema, sentar junto na sala. Só que quem não gosta? Exatamente. Tudo porque uma delas, a Rê, não é normal. Nunca tive problemas em outras épocas da vida, mas, desde que a história do namoro da Renata com a Victória se espalhou, a vida das duas virou o inferno. Até mesmo pra sair com elas ficou um saco, é mais fácil eu dizer que vou pro bordel passar o dia dando do que dizer que vou no cinema com a Renata, Victória e Luísa. Não consigo entender porque as pessoas não podem aceitar a felicidade alheia.


12/05

HOJE EU TÔ PUTA DA CARA. Não com você, diário, você é meu ponto de equilíbrio, você é onde eu posso vir com a certeza que não vou ser julgada. A tarde eu disse que ia sair com umas amigas dizendo que não era a Rê e a Vic... não é que aquela velha me seguiu? Deu maior fuzuê, no meio do shopping lotado! Não gosto de datar, mas hoje era domingo e tipo, toda a cidade tava lá dentro. Vou tentar dormir antes que eu faça alguma besteira.


15/05

Já faziam alguns dias que eu estava namorando aquele vestido sabe? Bem anos 50, o tecido gostoso, nem quente nem frio, o comprimento pouco acima do joelho, bem rodado. Pois bem. Já tinham alguns dias que eu estava de olho nele, mas não podia pegar, estava sem dinheiro e os velhos não liberariam, "você já tem roupa demais, Janaína, pra que mais? Ainda um vestido? Filha minha não vai ficar usando esse tipo de vestido." Pois então. Eu corri atrás e consegui o dinheiro. Comprei. Trouxe escondido pra casa, vou usar no baile do mês que vem. Aliás, vai ser outro parto pra conseguir ir nele, vou ter que inventar alguma história mirabolante porque "filha minha não fica indo em baile, dê-se ao respeito, Janaína. Quer conhecer alguém pra namorar? Frequente os eventos sociais que vamos." Bléh.


26/05

Já se vão mais de dez dias que eu não escrevia né? Tudo tem passado tão rápido que não ta dando tempo de parar pra escrever. Mas amanhã é o baile e estou ansiosa. Já provei o vestido e criei a história de que ia passar a noite na casa da Luísa. A mãe dela cobriria tudo, ela é muito mais gente boa do que o que tenho em casa. Depois era só voltar pra cá, dormia na casa dela e já era. Como boa escorpiana sou boa maquinando planos.


27/05

Sabe, diário, ontem foi perfeito. Não só pelo baile mas pelo que aconteceu no baile. Já fazia um tempo que eu estava arrastando a maior asa pelo William e, no baile, descobri que era mútuo. Ficamos a primeira vez bem no meio da pista, sob o olhar de todo mundo. E daí? É incrível como as coisas ganham cor quando estamos... nossa. Quase escrevi "apaixonada", será?


30/05

Muito bem, senhor diário, pode confirmar: Estou namorando! Agora vamos poder ir os três casais no cinema sem ninguém segurando vela: Renata e Victória, Luisa e Rubens e eu e o William. Tudo segue tão lindo que tenho medo de amanhã depois dar algum problema.


30/06

Nossa, tem um mês que eu não escrevia aqui! Mas esse sumiço teve uma ótima razão: O namoro engrenou e ontem, depois de muito querer mas sempre ter algo que desse errado aconteceu. Devo confessar que todos os anos assistindo pornografia me tornaram uma pessoa que mais ou menos sabia o que fazer naquela hora. Não digo que não doeu, doeu sim, ainda tá doendo um pouquinho, mas a forma como ele conduziu tudo foi tão... mágica, que o prazer que senti foi maior que a dor e, devo dizer, foi muito melhor do que eu imaginava! Sinceramente, hoje eu posso dizer que estou feliz e me sentindo completa! Agora sei porque adulto gosta tando disso... é muito bom! Já quero de novo! O foda é que... deixa pra lá haha


17/07

Aconteceu algo que eu temia: Não, ainda não foi descobrirem que a filhinha toda puritana dela não é mais virgem. Eu não resisti a um convite da Rê e fui pra casa dela depois que a Vic foi embora pra Alemanha (!) tentar consolar e distrair a amiga... ao contrário do que o senhor pode pensar, senhor diário, a ida dela pra lá nada tem a ver com o namoro, sério. Os pais dela super não ligavam. Claro, achavam estranho, mas achavam que era uma fase e se ela estivesse feliz beleza. Por que aqui não pode ser assim? Enfim, voltando ao ocorrido: Foi sexta passada, depois da aula resolvi ir com a Rê pra casa dela, como amiga mesmo, sabe? Só que aí... Não sei direito como aconteceu, estávamos no quarto dela quando ela apareceu com um brinquedo daqueles dos filmes. Fiquei na fissura, queria experimentar. Óbvio que a Rê curtiu a ideia (sobretudo depois de umas ervas que ela arrumou, dizia que a Vic que fez ela aprender a gostar daquilo) e lá fomos nós.
Devo confessar que beijar uma garota é mais gostoso que beijar um garoto. Não sei se é pela mistura do gosto dos batons, se é pelo lábio macio, pela pele macia, pela mão mais quente ou por saber exatamente onde tocar sem causar desconforto.
No entanto, o que aconteceu não foi eu ter transado com a Renata, pelo contrário, a gente estava dando uns beijos quentes, talvez até acontecesse, mas o que aconteceu foi pior: Não sei se eu mencionei, mas o William é irmão da Renata e... bem. 
DEU MUITA MERDA.
Foda que eu adorei a situação do flagra. Claro que nada disso chegou em casa e passei meia hora numa loja exotérica pra tentar tirar o cheiro de erva de mim. 


18/07

A continuação da merda de ontem foi tão colossal que acho mais fácil por em tópicos:
- William e eu terminamos porque, em tese, eu traí ele.
- Renata e Victória terminaram também, porque o William correu contar pra ela.
- Renata tá putaça comigo.
- William idem.
- Victória nem preciso dizer.
- Luísa até tentou me apoiar, porém quando soube a história toda também ficou putaça comigo.
- Minha mãe ficou sabendo de tudo e tá puta comigo em um tamanho que não sei dimensionar. Saber que a filhazinha pura dela além de não ser mais virgem, tinha beijado outra garota e usado maconha.
- Meu pai cogitou me mandar pra fora do país, sugeri a Alemanha, ele ficou puto.
Resumindo: Todos os meus amigos tão putos comigo. Meus pais também. E eu? Eu tô adorando. Assim posso ficar em casa dormindo o dia inteiro sem incomodar e ser incomodada por ninguém.


22/07

O clima amenizou. Acho que meu pai falou com a minha mãe e ela relevou tudo o que aconteceu. Mas Renata e William não olham na minha cara. Luísa até conversa comigo mas não quer ficar no meio da briga. Foda-se, esse é o último ano mesmo. Ninguém vai se ver depois da formatura. Talvez aceite a ideia do velho de ir pra algum país estudar. Queria alguma coisa de comunicação, ele não gostou da ideia, diz que não vê futuro nisso.


14/08

Foi inevitável. Eu juro. Eu queria parar, eu sentia a fúria dentro de mim. Foi uma explosão, eu não queria fazer o movimento. Eu estava... lúcida o tempo todo e ainda assim fiz. Desculpa diário. Hoje é só isso.


16/08

Acho que chegou a hora de falar o que aconteceu: Eu fiz algumas pesquisas, alguns testes vocacionais e vi que minha área seria alguma coisa de publicidade ou jornalismo. A mãe disse que eu tinha que fazer algo que desse dinheiro, porque não ia ficar me sustentando o resto da vida. Eu explodi em raiva. Falei que dinheiro não era tudo na vida. Ela discordou. Disse que eu falava igual os drogados (hippies) que vendiam coisa na praia e ia virar mendiga viciada ou qualquer coisa dessas. Eu estava pondo os pratos na mesa pro jantar. Tinha posto um garfo e só sobrou na minha mão uma faca. Ela estava de costas e eu cravei a faca pouco abaixo do pescoço, ali não tem nada de órgão, a coluna é mais pro lado. Foi um segundo de névoa na visão, quando vi meia faca estava nela, meu pai me empurrando pra longe e eu no canto chorando muito. Ela tá bem, o corte, apesar de profundo, foi sem gravidade. Fazem dois dias que eu estou tremendo. Tô com medo, sozinha. Acho que vou resolver isso tudo de uma vez só, pelo bem de todo mundo, vou fazer o que já devia ter feito ano passado.


24/09

Sumi né? Depois do ocorrido eu estava decidida, eu ia me matar. Já tinha o plano pronto, mas meu pai me impediu e me colocou num spa "pra passar uns dias tranquilos", mas era uma clínica psiquiátrica mesmo. Foram duas semanas chorando sem parar, depois secou. Nada mais tinha tanto sentido. Não era raro eu e outros internos darmos um jeito de transar sem pensar em nada. Fazem quatro dias que uma voz dentro de mim se pronunciou, se intitulou raposa e disse que, todo momento extremo da minha vida, era com ela. Gostei disso. Raposa.


26/09

Voltei a frequentar a escola. Dopada. O corpo estava lá, respondia a estímulos, mas, de repente, tudo aquilo ficou tão alheio na minha frente. Tudo perdeu seu sentido. Quero mais me formar logo e ir embora daqui, esquecer essa terra.


01/10

Luísa voltou a falar comigo. Mas ela parecia diferente. Renata também. William, contrariado e magoado, se aproximava aos poucos. "Se aproxime, eu não mordo", era a voz da raposa comandando tudo. Falta um mês pra eu me tornar maior de idade. Já pensava o quanto de aventuras eu poderia viver. Sobretudo sexuais, tanta coisa que vi em vídeo e queria experimentar... mas aqui, nessa terra pequena, não rolava. Acalma teu fogo, raposa.


02/10

Falta um mês. Exatamente um mês. Não vejo mais nada, só isso. Nem mesmo as broncas dos velhos fazem efeito. Ah, ela se recuperou bem, só ficou uma imensa cicatriz nas costas. Diz ela que tem uma cirurgia marcada pra corrigir isso e me joga na cara que a culpa é minha. Mas logo em lembra do que fiz e... ela se cala. Tão bom ter lenha pra queimar.


02/11

Pedi pra não fazer festa. O pessoal da escola reclamou. O pessoal em casa reclamou. Os parentes reclamaram. Pau no cu deles. Com a identidade comprei uma bela garrafa de vodka e me fechei no quarto. Bebi, dormi, assisti umas coisas. Provavelmente foi o melhor aniversário da minha vida. Parabéns pra mim.


16/11

Mamãe foi fazer a tal cirurgia na cidade dos príncipes. Nem perguntei se podia ir junto, não estava afim de ficar passeando. Tinha muita coisa pra bolar sozinha. Na Metrópole tem muitos cursos bons, consigo achar uma casa num valor legal. Fora que ficar sozinha é muito bom. Chamei a Renata pra vir aqui pra gente terminar o que começamos meses atrás. Ela me chamou de doida. Acho que ela não vem.


21/11

Houveram uns complicadores na cirurgia. Francamente. Cirurgia estética pra remover uma cicatriz. Eles ficariam mais uns dias fora. A despensa estava cheia, mas acabei discutindo brevemente no telefone. Eu não queria ir lá. Sentia que algo ruim aconteceria se eu fosse. Será que a maioridade me trouxe poderes místicos? Eu hein.


28/11

Declinei da minha clausura escola-casa, casa-escola. Como já não haveriam mais provas e minhas notas estavam ótimas eu aceitei o convite pra ir pra cidade dos príncipes, amanhã ela recebe alta e diz que quer que eu esteja lá. 


13/12

Não sei que forças me colocaram a caneta à mão. Mas eu preciso escrever essa elegia e dizer que agora, por mais que eu ainda não tenha me dado conta disso, estou completamente sozinha no mundo. Mais que isso, agora estou, enfim, de partida dessa terra aqui. Preciso me distanciar desse lugar. Daqui uma semana saem os papéis do testamento e eu sou a única beneficiária. Vesti a raposa tão bem com lágrimas e dor nesses últimos dias que a Janaína real, por baixo dessa pele toda, seguiu indiferente, anestesiada, como se nada daquilo fosse real. Eu lembro que chovia. Não havia animosidade dentro daquele carro, apenas o silêncio, o som do motor, do rádio, dos outros carros e da chuva. Um instante. Um maldito instante e tudo aquilo se foi. De repente só sobrou eu. Apenas eu. Mal entrei na maioridade e já tenho que me virar sozinha. Eu ainda não sei como foi que não me machuquei. Deus? Sei lá. Tentaram vir me dar apoio, me ofereceram ajuda, um monte de coisa. Mas eu já tinha planos de ir embora, agora os planos verão a luz do dia.

Obrigado por tudo pai, mãe, um dia a gente se encontra. Amo vocês.