domingo, 13 de janeiro de 2013

Lata de leite

Da fila da padaria, dentro do mercado, podia vê-lo em frente a prateleira de leite em pó. As roupas maltrapilhas poderiam não dizer muito além da condição dele. Na mão não mais que meia duzia de moedas. Não precisava ser nenhum matematico para saber que aquelas moedas - ainda que fossem do maior valor possivel das moedas - jamais conseguiria pagar pelo que tinha nas mãos: uma caixa de leite comum e duas latas de leite em pó. Todos que passavam por ele não o viam, era apenas mais um maltrapilho qualquer que vinha ao mercado se iludir que poderiar comprar aqueles produtos que tinha em mãos. Suspirei. Provavelmente ele não tinha mais dinheiro do que aquelas moedas. Todos passavam indiferentes. Poderia apostar que ele tinha uma filha, recém-nascida. Podia dizer isso pelo esmero com que segurava aquelas latas e que ela tinha alguma necessidade alimentar especifica, ordens medicas, disseram. Era fácil para o médico que ganhava bem prescrever leite em pó especial para uma criança qualquer, ele poderia pagar. Se os seus pacientes poderiam? Não era da conta dele. Hipocrita. Sociedade hipocrita. Enfim minha vez na fila do pão. Peguei os meus e fui até o homem. Paguei a compra dele que não deu mais de vinte reais. Não me faria falta e, seguramente, faria a diferença para ele e sua filha. Boa forma de começar o ano: ajudando um completo desconhecido.

2 comentários:

Thata Bastos disse...

Luis: o cara que tem o dom de fazer meus olhos marejarem.

ઇ‍ઉ disse...

O segredo na vida, não é mostrar o que você tem com ela, mas quem se pode ser diante dela. E quanto a quem és, eu nunca tive dúvida!

Amo vc LorúPrê.