segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Marian


A noite era fria. Eu estava envolto naquela onda melancolica haviam semanas. Semanas e mais semanas que tudo o que eu via e escutava era a mesma coisa de sempre: aquela rotina estava me matando. Mas dependia dela. Precisava de algo para me manter longe daqueles desejos... Mas tudo aconteceu alheio ao meu controle. Não podia mais conviver com aquela rotina. Ao menos o acerto ao fim da "rotina" - emprego de quadrinista numa revista de grande circulação nacional - rendeu bastante.

Porém - maldito sejas tu, porém! - gastei boa parte do dinheiro em bebidas, festas... precisava de algo pra me reerguer. Fui a última festa, aproveitar enquanto tinha algum dinheiro. Quem sabe lá tivesse a ideia. Entrei como sempre, procurei alguem para dançar. Foi quando a vi... morena, uma roupa normal, um belo par de sandálias nos pés igualmente belos. A chamei para dançar, para beber alguma coisa. 

Falava bem, se movimentava bem. Quando ela estava bastante alcoolizada, a chamei para sairmos dali, afinal eu tinha planos bem mais interessantes... fomos ao meu apartamento. Transamos. Bebemos mais. Transamos novamente, foi quando vi uma luz diferenciada bater sobre o rosto dela. Marian era o nome dela. Peguei meu material de desenho e rabisquei suas curvas, seu rosto... mesmo dormindo parecia incrivelmente expressivo. Depois de alguns minutos lá estava ela, eternizada no papel.

Logo o dia amanheceria. Tinha desenhado diversas histórias com ela. Já tinha duas duzias de desenhos e a personagem se formou completa em minha cabeça. Tudo. Uma heroína. Uma caçadora de recompensas... era disso que eu precisava para voltar. Perfeito. Quando a escutei se mover notei: não era perfeito. Tinha de quebrar a forma. Outros poderiam usar a mesma forma e, assim, arrancar meus lucros. Mas como fazer? Ela sabia onde eu morava, conhecia meu rosto... como?

Foi quando me veio a ideia que me arrepiou, será que eu teria coragem de fazer isso? Peguei o celular dela. A julgar pelos numeros ela morava sozinha. Então poucos sentiriam a falta dela. Talvez "mamãe", "Tha" e "Jé" que estavam com muitas ligações recentes... será que ela era uma lésbica afim de algo diferente? Mais uma coisa interessante para se acrescentar à "minha" Marian. 

Era cruel mata-la enquanto dormia. Mas era necessário. Assim o fiz. Dei um beijo suave nos cabelos dela como forma de agradecimento pela inspiração. Respirei fundo e cobri o rosto dela com o travesseiro. Não contava com o fato dela acordar durante o processo. Nos filmes isso parecia tão fácil... mais uma aprendizado. Os braços dela tentavam, desesperadamente, tirar os meus dali. Mas, convenhamos, um homem é muito mais forte que uma mulher. Quando o movimento dela cessou respirei mais aliviado.

Agora outro problema: o que fazer com o corpo? Esperei esfriar. Cobri com uma velha cortina que eu guardei por anos a fio. Depois coloquei num saco preto, desses de lixo, e encaminhei-me à lixeira... mas não podia ser a do meu prédio. Peguei as chaves do carro e dirigi até o outro lado da cidade. Já era noite quando a joguei na lixeira. Agora era esperar o caminhão de lixo compactar e sumir com aquilo lá. Adormeci e só fui acordar com o proprio caminhão tirando a caçamba a deixando limpa. Ninguem notou o grande saco preto.

Dirigindo de volta para casa pensei na investigação: iriam a casa noturna que foi o último lugar que ela foi vista. E lá teriam imagens minhas. Ainda em posse do celular dela mandei uma mensagem às amigas "surgiu um imprevisto, tive de visitar a mamãe que sofreu um acidente, volto em 3 ou 4 dias". As duas responderam quase que instantaneamente com algo resumivel a um "ok". Sorri satisfeito tirando o chip do aparelho e o jogando no rio em seguida. Quebrei o chip e joguei em um bueiro.

Quando era dia passei em frente da casa noturna. Estava fechada. Comprei um galão de óleo disel. Joguei na porta da casa noturna, o incendio estava iniciado calmamente. Voltei ao meu apartamento, recolhi os desenhos, minhas roupas e liguei para o senhorio. Disse que estava de saída por problemas familiares. Entreguei a chave na portaria e saí. Dirigi até uma velha cabana em que meus pais viveram os últimos dias. Desenhei toda a série de Marian em meio àquela paz toda. Depois de um ano a publiquei, ganhei milhões com a história... obrigado, Marian. 

Um comentário:

Thata B. disse...

Tadinha :T AUHSUAHS
Adorei, primo. Parabéns!