terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Álibi VII e VIII - Epílogo

Sem muito esforço estilhaçou a janela de um deles e o arrombou. Quem liga pro alarme? Um alarme dispara no meio da madrugada e as pessoas só reclamam do barulho, não se importam em procurar saber se não é o carro delas. Assim Sophia chegou próxima de algumas ruas onde pequenas lanchonetes alimentavam jovens casais. Sorriu de canto. Agora estava em segurança. Do celular com chip clonado pediu um carro ao aplicativo. Demorou alguns minutos e lá estava o carro. 

Podia ir até próximo do seu prédio. Mas, além da corrida ficar muito cara, seria ruim. Por isso optou por descer dezoito quarteirões antes da sua rua. Lá pediu outro carro que a levou para próximo de um conjunto de apartamentos onde moravam alguns viciados em drogas, prostitutas e pessoas humildes. Se não a memória de Sophia não falhava aquele era o antigo prédio de Sérgio. Ela lembra de ter vindo com ele uma vez recolher a correspondência. De lá pediu mais um carro. Foi até seis quarteirões do seu prédio.

Por causa de todas essas manobras teve um pouco de dificuldade em pagar o último. Faltaram três reais. Por já ter passado das duas da manhã o motorista deixou passar. Agora era caminhar até seu prédio, sandálias nas mãos. Dar um fim em mais um chip de celular no primeiro boeiro que aparecesse. Ir até o carro e trocar de roupa.

Disparou o alarme do próprio carro e voltou correndo para o apartamento. Vinte segundos depois de entrar lá estava Sérgio. Na mesma posição. O interfone tocou. O prestativo porteiro da madrugada avisava que o carro estava com o alarme disparado. Sophia sorriu de canto e desceu desliga-lo.

Foi até a garagem. Desligou o alarme e pediu mil desculpas ao porteiro. Ao reentrar no apartamento encontrou Sérgio sentado no sofá acordado. Queria saber quem tinha ligado e onde ela tinha ido. O alarme disparou, amor. Ela respondeu o recomendando ir para a cama. Ele aceitou a sugestão e ambos foram para a cama.

Ela se cobriu. Sérgio ainda demorou alguns instantes dizendo estar no banheiro. Em seguida ele veio do banheiro. A nove milímetros que ele usava diariamente na mão direita. Uma lágrima se desenhava no canto do olho dele. Sophia demorou um instante para nota-lo com a arma em punho. Por que? A pergunta dele era justa. A falta de resposta dela também. Ele se aproximou. O temido fim havia chego. Merda. 

Pessoas emocionalmente instáveis são perfeitamente calculáveis. A mão de Sérgio estava trêmula. Ele não acertaria uma baleia mesmo que estivesse sentado em cima dela. O mais foda nisso tudo era que, apesar de não parecer, Sophia gostava dele. Esperava que pudesse ter algo com ele que durasse mais tempo, quem sabe ela até pudesse parar com aquela coisa dela. Tudo isso virou poeira que o vento levou.

Ele caminhou para perto dela dizendo que já tinha alertado algumas viaturas que chegariam em alguns minutos e que era hora dela se entregar. Mais dois passos se fizeram. Sophia já estava sentada à beira da cama. Mais um passo e pronto. O abajur virou cacos na cabeça de Sérgio. Não duraria muito o efeito do desmaio. A arma estava com a trava, por isso não disparou na queda.

Em um minuto e trinta segundos Sophia pegou todas as roupas que conseguiu socar em uma mochila e em uma mala grande, dessas de rodinhas. Na sala pegou o notebook, ponderou escrever uma carta, explicando suas motivações. Não. Não fez isso nas vezes passadas, por que faria agora? Foi até a garagem. Jogou no banco do carona sua pouca bagagem. No caminho passou por duas viaturas da polícia a toda carga indo para o prédio.

Os primeiros raios da manhã surgiam quando ela decidiu largar o carro próximo do gigantesco estádio municipal. Decididamente a pessoa que inventou aquele aplicativo de chamar carros merecia um prêmio. Sophia pediu que ele lhe levasse até a estação do metrô. Lá comprou um boné e outra bolsa para guardar o notebook. Em vinte minutos de metrô estava na rodoviária. Quando o sol, enfim, surgiu no horizonte angular proporcionado por prédios, embarcou em um ônibus indo em direção ao norte do país. A lágrima da ruptura que havia guardado durante a fuga apareceu agora. E junto dela vieram outras. Logo adormeceu completamente exausta. Ao acordar, horas depois, e pensar na possibilidade uma nova cidade sorriu de canto. O futuro, afinal, era promissor e apenas uma dúvida lhe vinha à mente: que cor pintaria os cabelos?

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Álibi VII e VIII

Ao chegar no lugar os dois alvos sentados no balcão. Um copo pequeno, daqueles de dose única, postado a frente de cada um. A julgar pelos movimentos mais largos aquela ali devia ser a segunda ou terceira dose deles. Sophia sorriu de canto, soltou a pequena bolsa no ar. Parecia uma das prostitutas que se encontravam no recinto. E pensar que uma de suas colegas de sala usava esse vestido para ir em casas noturnas. Sophia só o tinha porque a amiga esqueceu uma pequena mala com roupas vindas da lavanderia no carro.

Bagunçou o cabelo, começou a mascar um chicletes invisível. Achou que estava bem na personagem quando foi abordada por alguns caras numa mesa do canto onde jaziam oito garrafas de cerveja de pobre. Como toda puta que se preze, Sophia nesse papel, foi direto aos clientes que achava ter mais futuro. Por isso despachou os caras da mesa doze.

Sentou ao lado do sétimo. Pediu uma cerveja ao barman. Tipo filme americano a cerveja veio em uma long neck. Bebeu um gole e o alvo sorriu a ela e ao oitavo. Fisgou. Após cinco minutos de papo definiu que "faria um preço especial pros dois, pois o cafetão dela estava cobrando uma dívida de drogas dela". Tão logo tudo ficou decidido Sophia pediu uma garrafa de cidra para aquecimento e levou debaixo do braço. 

Foram para o carro do sétimo, que, na verdade, era roubado. Ou alguém tinha empresado. Embora fosse óbvio que ninguém emprestaria o carro para esses dois. O oitavo ao volante e o sétimo ao seu lado. Sophia no banco de trás rindo e pedindo pra ligar o rádio e procurar uma estação de música legal. Na diminuta bolsa ela moía seis comprimidos de dramim que havia trazido de casa. Será que com ácool o efeito potencializava? Provavelmente.

Sophia se recostou como se estivesse tendo alguma dificuldade em abrir a garrafa enquanto os dois amigos conversavam. Um dizia estar "comendo o pão que o diabo amassou", ela sorriu de canto. Iria fazer a bondade de faze-lo comer o pão que o diabo amassou in loco. Garrafa aberta, Sophia deu um gole curto e despejou todo o pó de dramim que conseguiu enfiar garrafa a dentro. Afim de misturar um pouco ela fingiu já estar bêbada na hora de entregar a garrafa.

O sétimo tomou primeiro, um gole longo. O oitavo, sem tirar os olhos da rua, bebeu um gole tão longo quanto o parceiro. Sophia pegou um gole e ameaçou beber um pouco. Logo devolveu a garrafa para os dois rindo e cantando a música que tocava. Conviver com as amigas piriguetes tinha lá suas vantagens.

Sophia sabia que eles tinham um lugar para "finalizar" seus negócios. E sabia que esse lugar ficava próximo da tal represa. Apesar da seca sabia que ali era um ótimo lugar. Não haviam muitas casas próximas, não haviam prédios. Era um excelente lugar na verdade, a iluminação pública era completamente deficitária nos últimos duzentos metros antes da margem da água. 

Embora o plano não fosse exatamente esse aquela rua às margens do local onde a água era captada tinha uma profundidade média de oito metros. Desde criança Sophia absorvia toda e qualquer informação, processava, categorizava e, em momento oportuno, a usava. Foi assim que soube dessa informação.

O carro parou. O remédio não tinha feito total efeito. O sétimo estava cambaleante mas o oitavo não. E ele acusou Sophia de colocar algo na bebida. Restou o último recurso. Ela saiu do carro, ao que foi seguida. Óbvio. A garrafa nas mãos logo encontrou o lobo frontal da cabeça do oitavo. Havia um resto de bebida na garrafa, o que respingou em Sophia. Merda. Teria de mandar lavar essa porcaria de vestido. Ou devolveria assim mesmo, a culpa era da lavanderia.

Como era de se esperar o oitavo caiu ao chão desmaiado. Merda. Sophia o arrastou para dentro do carro. Colocou o cinto de segurança, fechou as janelas. O sétimo estava preso ao cinto também. Engatou a primeira marcha, um tijolo no pedal de acelerador e o pé na embreagem. Bateu a chave. Antes da próxima ação pensou em todas as variáveis. Tinha de soltar a embreagem com calma se não o motor ameaçava morrer no processo de arranque. 

Pé direito dentro do carro. Pé esquerdo fora. Jogou o corpo para trás. Nunca tinha feito nada tão arrojado. Escorregou o pé, teve de se segurar à porta do carro para não cair. O carro deu uma guinada e ganhou um pouco de velocidade. Sophia teve tempo de tirar a perna e fechar a porta. O veículo seguiu até dar uma pequena decolada em de um pequeno barranco e cair na água fazendo muito barulho. Da bolsa saiu uma lanterna que foi usada para garantir que o carro afundasse e ninguém subisse. 

O carro afundou em três minutos. Ficou mais dez esperando alguém vir à tona. A menos que um deles fosse indiano e tivesse uma capacidade incomum de respirar debaixo d´água ambos estavam mortos. E isso encerrava a meta que havia proposto para ela mesma nesse ano. Agora tinha de ir embora. Passou por uma rua onde alguns carros seguiam estacionados. Achou a "carona".

domingo, 29 de novembro de 2015

Álibi VII e VIII - Prólogo

O plano estava feito. O azar do seu noivo com a perna quebrada era um azar dela também. Tinha de agir com mais discrição do que nunca, não que isso fosse um problema. Mas nos últimos tempos ela andava mais relapsa, menos sutil, até um pouco brutal. A ação anterior saiu em vários jornais. Tudo que sabiam era que o proprietário do lugar era investigado por aliciar crianças para uma rede de prostituição. 

Com um copo quase vazio de conhaque barato na mão onde duas pedras de gelo teriam o fim trágico de toda pedra de gelo, Sophia tramava o derradeiro ato deste ano. Teria de ser duplo. Apenas uma vez na vida fez algo assim e, essa apreensão por fazer algo relativamente novo a deixava mais nervosa. Por isso o conhaque que, Sérgio, insistiu em dizer que era paraguaio. Ela não o ouvia. Quer dizer. Ouvia, respondia, reagia, elaborava respostas, mas não sua parte racional. Deixava o corpo responder sozinho. Ligou o piloto automático para ele.

Como ele estava no sofá, perna esticada sobre um amontoado de almofadas, assistindo alguma série no netflix ela, postada não mais do que seis metros atrás, em uma pequena mesa, dizia ter um trabalho de faculdade "muito foda" que era pra ter sido em grupo mas o grupo deu pra trás e ela estava "se fodendo sozinha". Sérgio brincou dizendo que poderia dar voz de prisão pros tais amigos. Sophia riu-se e disse que não seria má ideia.

Sem muito esforço descobriu que o alvo sete e o oito frequentavam o mesmo bar em uma área próxima da maior represa que fornecia água pra essa cidade fétida. Por mais que morasse aqui tinha aprendido a nutrir certo ódio pela cidade. Não que sua cidade anterior fosse o paraíso, mas era melhor que esse caos, esse barulho eterno. Se ela pudesse fugia dali. Mas muito ainda tinha pra ser feito.

Estratégia traçada. Ainda era cedo quando Sophia decidiu que teria de resolver isso hoje, agora. Odiava protelar coisas. Ainda mais coisas tão simples. Só precisaria de um carro qualquer. Beber um pouco. Liquidar a fatura e fim. Mas como sair? Sérgio parecia um cão de guarda. Será que ele suspeitava de algo e, na verdade, não tinha quebrado a perna e estava ali para vigia-la?

Paranoia. A vez passada também teve esse tipo de paranoia e não foi o final feliz que tinha planejado. Embora soubesse que nunca teria um final feliz, pessoas como ela não mereciam finais felizes. Por isso misturou ao suco de Sérgio um remédio para dormir. Dois dramins moídos seguidos de uma aspirina pra aliviar as dores da perna que, provavelmente, estaria quebrada mesmo.

Deu o remédio e esperou. Trinta e dois minutos e Sérgio dormia igual um bebê no sofá da sala frente ao netflix ligado. Que cara de sorte, dormiu bem no fim do episódio. Sophia desligou a televisão e o cobriu. Rapidamente trocou de roupa. Um vestido mais sensual, um salto mais alto, uma maquiagem pesada e estava pronta.

Ao sair pela garagem foi até o carro. Ameaçou pega-lo, mas, na verdade, deixou ali uma bolsa com a roupa para colocar na volta. Saiu passando o muro dos fundos. Por um aplicativo chamou um carro. Gostava de certas modernidades. O aplicativo não guardava itinerários, passageiros, só distâncias. E o motorista não era como taxistas típicos. Ele se ateve a perguntar o destino e, ao fim da corrida, o valor. E, em nenhum momento ele olhou para ela pelo retrovisor. Perfeito.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

os 28

Então cheguei aos vinte e oito. Esse é o único post que escrevo falando de migo comigo mesmo, dou uma pausa nas crônicas e histórias diversas pra fazer um balanço da minha pequena existência nessa bola de carbono que convencionamos chamar de planeta e lar. Olhando aqui "de cima" dessa idade, não é nada demais. Sério. Nada interessante. Bem dizem que, depois de certa idade, o aniversário torna-se apenas um dia que te felicitam por algo que você não tem a menor culpa e que, muitas vezes, nem merece as felicitações.

Mesmo nunca tendo feito isso esse ano vou nominar de Lobo da Estepe em homenagem ao Hesse. O livro dele me trouxe dúvidas e questionamentos intrínsecos para a minha existência. Sério. Talvez tenha sido o ano mais estranhamente estranho dessa minha existência. Certos momentos foram rápidos e certos momentos duraram duas eternidades. 

Foi (e ainda ta sendo) o ano que me consolidei em algumas áreas dentro do gigantesco universo que é a publicidade. Editar áudio pra rádio que sempre foi uma das coisas que mais gostei (quem me conhece sabe da minha relação com as "ondas do rádio") e agora (uau) me pagam pra fazer isso. A outra, menos surpresa, a redação publicitária muito me interessou. 

No mais não tenho muito pra falar, esse ano comprei mais minis (preciso de espaço), mais livros (preciso de espaço²), um PC, mantenho a manutenção da Eleanor (minha fiel companheira de viagem, ela, que, se você leitor recente não conhece, é minha bicicleta que tem nome, história e gênio próprios)... 

Então quero, hoje que se registra a data em que nasci (curiosamente uma sexta feira, como hoje) agradecer todos que vieram parar na minha vida nesse ano (ou eu fui parar na vida deles, sempre me perco nesses paradoxos) e agradecer, sobretudo, quem já me conhece a mais tempo por permanecer na minha vida (sério, os parabéns são pra vocês por me aturarem). 

Agora se você não suporta o Corinthians foda-se, porque preciso dizer isso: eram vinte e três horas e cinquenta e dois minutos quando acabou o jogo e tornamo-nos hexacampeões brasileiros. A "taça" é um presente antecipado. Quem me conhece sabe que tenho um ligeiro fanatismo pelo Corinthians (leia aqui e aqui pra saber mais ;)

E... enfim. Finalizo com os votos de sempre: que os vinte e oito sejam vinte e oito vezes melhores do que foram os vinte e sete.


ps¹: Sobrevivi aos vinte e sete. Não sou o gênio que achava ser haha


ps²: Ainda gosto da música da crônica de aniversário do ano passado: Y que sea lo que... sea (e o que tiver que ser... será!)

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Álibi VI

Havia dado mais de um mês entre uma ação e o agora. Sophia sentia que era hora de continuar seu plano. Faltava muito pouco tempo para o final do ano e ainda tinha três alvos na sua meta. E se não conseguisse? Pergunta idiota. Claro que conseguiria. Por mais dificil que fosse ela sempre conseguia alcançar os objetivos que dava para si mesma no começo de cada ano. Fossem eles qual fossem. Claro que, numa cidade nova, como esse ano, ela teve de pegar mais leve. Em anos anteriores a conta tinha passado de duas dezenas. Porém, naquele ano em especial, ela estava em um ambiente que ela não conhecia completamente.

Tudo começava abrindo aquele pendrive do fórum em que estagiava que lhe dava as senhas dos arquivos deixados em um HD virtual. Naquele ano farto que teve ainda não confiava plenamente na internet e suas facilidades. Por isso guardava tudo em papel impresso. E foi esse papel impresso que lhe trouxe a ruína. Foi a única prova que lhe incriminou. Na hora em que sua máscara caiu pegou tudo que pode, colocou algumas roupas na mochila e, a caminho da rodoviária comprou uma tintura ruiva. Teve de abandonar as madeixas loiras que sempre foram sua marca registrada. Sempre foram seu chamariz. Sempre foram as mais perfeitas iscas. Embora ela tenha provado que, uma vez ruiva, atraía tanta atenção quanto sempre atraiu.

Devaneios a parte era hora de concentração e estudar os poucos hábitos de seu próximo alvo. Ele gostava de nadar em um clube desses de gente rica. Será que seria dificil para Sophia se infiltrar, o atrair e... porque não inovar. Já que "sua" casa estava praticamente toda destruída tinha de pensar em novas formas de agir. Com um pouco de engenharia social e uma boa lábia conseguiu se cadastrar no clube com outro nome. Tinha de ir um dia, descobrir todas as câmeras e saber evita-las. Claro que foi lá apenas uma vez. Ficou visivel para seu alvo. Ela trajava uma calça leggin tão justa que se respirasse de forma mais pesada temia estoura-la. Ele a viu. Ela deu a entender que estava dando mole. Um peixe tão fácil de fisgar que poderia ter economizado trinta reais nessa calça ridicula.

Em um movimento rápido entregou a ele o número de celular que ela havia comprado minutos atrás. Só teria esse número por alguns dias. Para ativar a linha colocou um dos inúmeros CPFs que guardava no fundo falso do notebook. Ao sair do clube não demorou dez minutos e o alvo lhe ligou. Perfeito. Ele disse ser um dos presidentes do lugar e que ele tinha acesso às chaves. Mais perfeito que isso apenas se ele já estivesse morto. Quer dizer, se ele já estivesse morto não haveria motivo de mata-lo e ela teria de achar outro alvo afim de completar sua meta. Combinaram um barzinho no fim de tarde. Como Sophia esparava ele bebeu mais do que o suficiente para sair da sobriedade. Não precisava de mais nada.

Voltaram ao clube por um comentário despretencioso - ou outra isca? - que Sophia jogou: ela tinha vontade de nadar nua com ele. Qual homem não acharia isso perfeito? Uma ruiva, jovem, bonita querendo nadar nua em um clube que se é um dos presidentes? Voltaram ao clube, vinte e duas e dezoito. Sérgio, noivo de Sophia, estava de plantão do outro lado da cidade e dificilmente chegaria aqui antes do amanhecer. Amanhecer, que era o fim de seu turno. Cairam na piscina nús. Sophia agradeceu mentalmente à sua irmã mais nova pela mesma ter lhe ensinado a nadar.

Aquelas mensagens que bombeiros dizem dos perigos de se beber e entrar no mar ou na piscina são reais. Talvez um tanto quanto exagerados. Mas não precisou mais do que vinte minutos dentro da água para o alvo começar a demonstrar sinais de que não aguentaria muito mais. Claro que uma pequena ajuda fez o corpo afundar mais rápido. Sophia parecia estar com mais pressa do que o habitual. Tinha pouco tempo e uma meta a cumprir. Por isso a pressa. Era o que dizia para si mesma. Era o que deveria ser verdade. Aliás, era a verdade.

Poucos minutos depois caminhou de volta até o carro. Prendeu os cabelos com a toalha que havia trazido de casa. No caminho para casa pensou que ainda tinha mais dois alvos até o final do ano. O tempo era apertado. Mas ela adorava desafios. Nem todos eles, claro. O desafio agora era escolher algum seriado que lhe prendesse a atenção por algum tempo e lhe inspirasse em novas ações. Achou. 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Álibi V - Epílogo

Sophia considerou o dia bom. Tudo havia dado certo. Já tinha o próximo alvo em vista, era o que havia perdido no ranqueamento para o medalhão. A julgar pela altura e intensidade do fogo não teria problemas. Assaria ele sem deixar nenhuma prova intacta. Pena que não poderia usar esse local novamente. Mas adorava um desafio. Dirigia pela estrada de terra muito bem cuidada imaginando o quanto precisaria para atrair o novo alvo. 

Um local, uma premissa, uma situação e a atração. Faltavam duzentos metros e Sophia sentiu necessidade de acelerar, alguma coisa lhe causou estranheza. Olhou no relógio, três e oito da manhã. Às seis e quarenta e quatro Sérgio chegaria. Tocou o primeiro pneu no asfalto. Um farol passou por todos os retrovisores do carro. Da esquerda para a direita, voltando da direita para o centro e se fixando no retrovisor central.

Das duas uma: ou era um carro velho com um dos faróis queimados ou era uma motocicleta. Por essa ser uma rodovia estadual Sophia teve certeza que era uma motocicleta. Acelerou. Por dez minutos se distanciou do farol. Até chegar a um semáforo. Não podia tomar multa, não estava ali. Foi quando a motocicleta parou ao seu lado.

No guidão havia alguma coisa anormal, mas não era identificável com aquela condição de luz e ali dentro do carro. Uma câmera? Não. Não podia ser. Seja lógica, Sophia. Deveria ser uma daquelas antenas pra evitar linha com cerol. Perfeito. Era isso

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Busca Madruguenta

Apesar de ter vinte e sete anos eu sentia na pele raiva e frustração. Mais uma vez minha mãe não quis forçar meu pai a me apresentar meus irmãos. Meio irmãos na verdade, o pai era o mesmo mas a mãe era outra. E o mais foda nisso tudo era que morávamos em cidades vizinhas - porém na maior região metropolitana do país, vinte milhões de pessoas, o que tornava a busca um pouco cansativa e complicada. 

Depois de mais uma discussão que durou duas horas fiz o que fazia desde quando era criança: peguei minha moto e vazei dali antes de fazer alguma burrada. Claro que, quando era mais nova minha moto tinha apenas três rodas era fabricada pela Xalingo. Hoje era uma Hornet de seiscentas cilindradas. Uma psicóloga da escola - lá da época eu fugia com minha Caloi - dizia que eu fazia isso pra me distanciar dos problemas e, assim, de cabeça fria, os solucionar.

Por isso eu estava na rodovia duas e quarenta da manhã a cento e quarenta por hora. Queria fugir dos meus problemas. Eu, Alice, dona de minhas faculdades mentais, fugia dos problemas igual a quando era criança. Foi quando pensava nisso que ouvi um estrondo seguido de um cheiro de fumaça. Nessa parte da estrada não haviam casas ou algo do tipo. Obviamente diminuí a velocidade e vi sair de uma dessas estradas vicinais um carro em alta velocidade. Pude ver o modelo, a cor e veria a placa, se um calafrio não me corresse por toda a espinha. Deixei o carro se afastar, mas logo estava atrás dele, parada em um semáforo na entrada da cidade.

No volante uma moça, meio ruiva, meio loira. Agora que tinha reparado a câmera estava instalada na guidão da moto. Será que ela era minha irmã? Já pensou? As probabilidades disso ocorrer eram pífias e mesmo assim aproveitei que a câmera estava ali e filmei a placa e meio rosto de minha irmã. No final de semana iriamos pra uma cachoeira não muito longe daqui, passaríamos horas conversando e depois... o caminhão dos bombeiros passou na direção oposta me tirando do mar de pensamentos. Melhor ir pra casa.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Álibi V

Sophia se deparou com um pequeno dilema enquanto se programava para a próxima ação. Queria saturar as investigações de peças ao ponto que eles demorassem muito tempo para montar. Igual aquele quebra-cabeças de mil peças que ninguém teve coragem de tirar da caixa. Tinha duas opções. Queria chegar a oito. Teria de dobrar a quantidade que havia feito e tinha de ser até o final do ano. Sorriu de canto ao pensar em resolver o que deveria ter se programado para fazer durante o ano inteiro em pouco mais de três meses. Seria correria. Mas em outros tempos também não havia sido fácil cumprir essa meta. 

Ao fim de algumas horas de investigações chegou ao dilema que lhe havia feito pensar em tudo. Os dois mereciam que fosse ela a ceifadora. Mas qual deveria vir primeiro? Tinha de fazer um ranking. Não. Racionalidade. Era só o que precisava. Pensar em qual despistaria melhor a polícia. Por um instante ignorou o fato de seu noivo ser o encarregado dessas investigações. Se o tal de destino existia ele conseguia ser sempre cretino com Sophia. Tudo bem que ela procurou-o, ela o conquistou, mas aí ele ser o escolhido para investigar o que ela fazia? Era ironia demais.

Proximidade física. Esse foi o critério. Quanto mais longe dos lugares onde ela sempre estava, melhor. Aquela velha casa na estrada a caminho da cidade vizinha viria a calhar. Já faziam alguns meses, então ninguém mais peregrinaria ali. Aliás, ali não havia nada que valesse a investigação. O segundo havia sido achado duas dezenas de quilômetros dali. A princípio tinham dito que era um corpo desovado pelos traficantes de rio acima. Mas logo as investigações demonstraram que ele não tinha nada de suspeito para ter ido falar com traficantes. Logo ligaram ao primeiro e agora deveria haver um quadro com fotos dos corpos, ligados por pequenas provas que devia ter deixado cair ligadas por um fio de lã, igual aqueles seriados.

Mas repetir cena? Sophia bebericou um gole de café amargo enquanto ponderou em algo diferente. E se queimar a casa? Ela estava abandonada mesmo. Não. O fogo poderia se alastrar e queimar o que restou de floresta. Se ainda fosse lá no sul poderia jogar do penhasco. Aquela estradinha de pedra a caminho do litoral era perfeita. A neblina sempre escondia as ações. Fora que na volta poderia comprar deliciosas balas de banana. Suspirou longamente ao lembrar daquele pedaço de paraíso. Pensou se um dia conseguiria voltar lá. Teria de conseguir.

A ideia de queimar voltou. Por que não? Havia um grande gramado baixo, uma piscina rachada. Agora tinha de atrair a vítima. Não era difícil. Em um dos plantões de Sérgio, Sophia saiu com colegas de faculdade. Naqueles encontros duas coisas eram certas: haveria uma discussão ferrenha sobre pena de morte entre dois pretensos juízes federais e depois de quarenta minutos os pretensos promotores-com-olhos-de-águia ficariam tão bêbados que não notariam o sumiço nem da sua mão direita. Perfeito. Mentalmente riscou perfeito. Ela sabia que perfeição era péssimo.

Passados quarenta e dois minutos as oito pessoas da mesa apenas Sophia estava sóbria - ela tomou refrigerante de limão a noite toda. O alvo tinha o péssimo hábito de ir à um botequim conhecido pelas frequentes mortes por causa de jogo de cartas, sinuca, prostitutas, futebol ou qualquer outro motivo banal. Só não fechavam aquela espelunca por ela ser usada por conhecido vereador do bairro para lavar dinheiro de emendas públicas roubadas do povo. Tal vereador seria o último.

Após uma dose de tequila com o alvo atual. Que já havia matado meia dúzia de almas perdidas em álcool nesse e em outros botequins, Sophia o arrastou para o carro. No porta-malas haviam cinco litros de óleo diesel. Enquanto o homem achava que estava se dando bem por arrastar uma gostosa pro meio do mato Sophia pensava em como seria. Não tinha armas. Não queria estrangular. Enforcar muito menos. Por um segundo quis perguntar pra sua amiga Janaína se ela tinha alguma ideia. Afinal ela seria publicitária e publicitários tem ótimas ideias sempre.

Como era noite devia haver neblina. Perfeito. Ao chegar na pequena propriedade abandonada tudo estava mais ou menos no mesmo lugar. O mato havia crescido um pouco. Deixou o farol aceso mirando a piscina. Arrastou-o para lá. Certamente aquela tequila havia sido uma das várias bebidas da noite dele, ele estava completamente bêbado. Ao descer a pequena escada o deixou em pé. Caminhou por trás e lhe deu um mata-leão. Não para quebrar seu pescoço, apenas faze-lo desmaiar.

Se seu amigo instrutor de Jiu-jítsu estivesse certo uma chave de braço deixaria quem levou o golpe desacordado por uns dez minutos. Sophia se lembrou que na casa ainda tinham cortinas. Correu na casa, arrancou a primeira cortina que viu. Enrolou a vítima como um medalhão de frango é enrolado por bacon. No caminho de volta havia pego o diesel. Jogou todo o conteúdo sobre o medalhão. Fez uma pequena trilha enquanto se afastava e riscou um fósforo. 

Assim que o pequeno palito bateu no chão correu em direção do medalhão. Sem explosão. Apenas fogo e uma fumaça escura. Sophia havia saído de suas atitudes sutis. Fez um puta sinal de fumaça para a polícia. Por um instante de lucidez percebeu o quê fez. Odiou ter saído de controle. Por alguns instantes ficou admirando enquanto o medalhão acordava com seu corpo em chamas. Um minuto e todo o movimento cessou. O fogo não se espalharia. Na volta pra casa parou em um mercado vinte e quatro horas. Toda aquela ação a deixou com fome. Fome de besteira. Comprou medalhão de frango enrolado em bacon. Foda-se a dieta com pouca gordura. Amanhã era segunda-feira. Amanhã começaria a dieta. Ótimo.