sábado, 12 de março de 2022

Whisky com gelo

O vento frio entrou acompanhada dele. Homem de meia idade, algumas falhas no couro cabeludo, terno bem cortado, gravada de linho tão brilhante quanto o balcão no começo da noite. Conforme me aproximei para atendê-lo pude notar o olhar, ele me esquadrinhou inteira. Talvez eu devesse deixar um botão a mais aberto na camisa para vir uma gorjeta maior, como me sugeriu uma das garçonetes que tinha mais tempo de casa. Amanhã, na frente do espelho, eu penso nisso.

- Boa noite - Sempre fui um pouco avessa à interações com o público, talvez essa experiência fosse boa para resolver isso - O que vai querer hoje?

- Um whisky, três pedras de gelo.

- Perfeitamente!

Deixei o sr. Whisky sozinho no balcão enquanto ele me seguiu com os olhos, estava interessado em mim ou na qualidade do destilado? Como não foi feita menção sobre qual a origem da bebida, optei pelo do Tennessee, mais barato e que ajudava a casa a lucrar mais, se viesse de Terras Altas Escocesas o drinque custaria facilmente o dobro. O sr. Whisky vai me agradecer no final da noite quando vier a comanda abaixo do que ele espera. Uma. Duas. Três pedras de gelo. Colherzinha de plástico preto para mexer. Guardanapo por baixo do copo e voila.

Um agradecimento com uma inclinação para a direita com, não mais que trinta graus se fez juntamente com um sorriso. Junto do sorriso minha visão foi atraída pelo anel dourado. Um gole curto e o semblante antes esbranquiçado fez o rosto do sr. Whisky ganhar vida. Rodando a banqueta para a pista ele parecia procurar alguém. Duvido muito que seja a sra. Whisky. Mas não vou julgar. Eu sou só a... barwoman? Termo ridículo. Bartender soa mais bonito e acho que era o que veio no meu diploma de mixologia. Mais um gole na bebida. Dessa vez um pouco mais demorado. Ele parecia ter encontrado quem buscava. A péssima iluminação da casa tinha por objetivo fazer com que as pessoas não se vissem completamente tendo que vir até o bar para ter um pouco de silêncio, luz e, de quebra, uma bebida. Muito perspicaz quem pensou nisso.

- Você namora, minha jovem? - O baixo movimento me fez ficar próxima o suficiente de Sr. Whisky a ponto de poder ouvi-lo alto e claro - Quer dizer, isso não é da minha conta.

- Sem problemas - Sorri de canto, quem sabe ele peça mais uma ou duas ou três doses, minha gorjeta é sempre maior - Não, não namoro, na verdade moro nesse lado da cidade tem pouco tempo.

- É? - Ele terminou o primeiro drinque - E morava onde antes?

- Zona Oeste - Uma olhada rápida para o copo onde os gelos derretiam solitários - Mais um?

- Boa pedida, mais um - Enquanto preparava mais uma dose Sr. Whisky voltava a olhar para a pista de forma saudosista - Se eu tivesse dois casamentos, três filhos e uns trinta anos a menos eu estaria ali no meio.

- A pista não vê idade - Servi a bebida - Além do mais, hoje em dia não há mais diferenças entre as gerações.

- De certa forma você está certa - Ele bebeu um gole farto, segurando a bebida dentro da boca alguns instantes - Mas hoje é só o drinque mesmo, não consigo entender essa música de hoje.

- Nem nós entendemos.

Rimos enquanto sr. Whisky bebia mais um gole. A julgar pelo anel devia estar casado no segundo casamento. Três filhos, dois do primeiro casamento, provavelmente adolescentes e um do casamento atual, usado para criar um vínculo para manter o casal unido. Provavelmente na casa dos cinquenta, talvez cinquenta e cinco, não mais que isso. Provavelmente trabalhava em uma das transnacionais que ficavam no bairro vizinho. O salário do mês dele deveria ser o meu do ano. Mérito dele, escolheu um curso melhor que psicologia e mixologia. O último gole foi bebido de forma integral, uma das pedras de gelo não voltou ao copo. Uma nota de cinquenta reais saiu do bolso dele parando dobrada ao lado do copo com um sorriso fino e uma piscada. Sr. Whisky generoso. As duas doses de bebida deveriam sair pouco mais que o valor da gorjeta. Tão logo parou em meu balcão saiu, levando consigo o vento frio.

domingo, 6 de março de 2022

Esperança

Grigory soltou grande lufada de ar enquanto abria os olhos de súbito se sentando e vendo, em sua frente, Irina que tinha entre o polegar e o indicador uma xícara que ele julgou ser café pelo cheiro.

- Não consigo dormir.

- É pelo cheiro de café?

- Não, esse cheiro traz uma paz, o problema é... diferente.

- Diferente... como? - Irina arqueou a sobrancelha enquanto bebericava mais um gole da bebida escura como a noite que cruzavam - É pelos...

- Sim, cada vez que passamos por um poste, um carro parado em uma passagem de nível, cada vez que um clarão invade a cabine passa um filme pela minha cabeça, fora esse som das rodas...

- O trem não foi uma boa escolha, afinal.

- O problema, Irina, não é o trem, sou eu.

- O único problema aqui, Grigory, é você achar que é o problema.

- Mas não sou?

- De maneira nenhuma - Ela bebeu mais um largo gole de café - Não fosse por você metade das pessoas nesse trem ainda estaria presa... ou pior - Vendo o olhar de Grigory descendo ela resolveu intervir colocando a mão no queixo dele - E eu não teria conhecido o amor da minha vida.

- Mas...

- Sem mas - Ela calou ele com a ponta dos dedos e, dando um passo adiante selou seus lábios nos dele - Se quiser café, podemos conversar até chegar em Lviv...

- Não, você vai querer descansar.

- Não, até estar fora daqui eu não vou querer pregar o olho.

- Se importa se eu não falar nada...? - Ele a olhou nos olhos temendo a reprimenda - Quero dizer...

- Não, de forma nenhuma.

- Eu só quero pedir uma coisa... se não for incomodo.

- Claro.

- Promete não rir?

- Fala logo - Irina tinha no semblante uma expressão que aparentava dureza, porém trazia no olhar uma doçura que Grigory não via faziam anos - Se for café eu posso pedir outro, o rapaz passa aqui de dez em dez minutos e...

- Não - Ele ruborizou a interrompendo - Eu só quero... que você segure minha mão, quer dizer, se isso parecer estranho.

Sem falar nada Irina tomou a mão de Grigory na sua dando, em seguida, um beijo suave e sentando-se ao seu lado. Ela não conseguia mensurar os horrores que ele havia passado, as coisas que devia ter feito para cumprir suas missões, se manter vivo e chegar até ali. Por mais que pudesse parecer uma novela publicada em jornal, ela, realmente, se apaixonou por ele no primeiro instante que o viu, ainda paramentado com a farda completa e a PPD-40 parcialmente suja de lama, assim como ele inteiro.

Enquanto sentia a mão dele apertar a sua se lembrava do local onde estavam quando soou o alarme, a casa de seus avós que era abrigo para duas dúzias de pessoas. Entre o som da primeira explosão e a habilidade dele em empurrar todos para a minúscula despensa que havia sido construída com pedras mais de uma centena de anos atrás. Ele era o último para entrar quando o clarão se fez na casa. Todos os tímpanos com o zumbido que persistiram por semanas a fio.

Porém com Grigory a sequela foi pior. Sua perna esquerda completamente dilacerada agora era uma poça de sangue, poeira e pólvora. Tão logo o bombardeio cessou médicos e enfermeiras passaram por ali. Foi um mês de muita morfina e lágrimas que acabaram com as chances dele voltar ao front. Não poderia ser em melhor hora, afinal, informações ainda desencontradas diziam que Berlim havia caído e a rendição era questão de dias.

Distantes ainda centenas de quilômetros de seu destino e, com os primeiros raios de sol rompendo o horizonte, a mão de Grigory amoleceu de súbito fazendo o coração de Irina parar por um instante, tempo suficiente para que ela o visse cair no sono com uma lágrima rolando pela face e um sorriso nos lábios. A esperança ganhava forma a cada vila não bombardeada que o trem parava e pessoas desembarcavam reencontrando entes queridos na estação. Pousando o rosto no ombro dele, ela se permitiu cochilar também e sonhar com dias melhores adiante. A paz vinha com a luz de um novo tempo, de um novo dia.

sábado, 20 de novembro de 2021

Aos 34

 E aqui estamos nós para aquela postagem que vai acontecer haja o que hajar, afinal é uma das poucas tradições ainda em pé nesse quase moribundo espaço.


Sei que não postei absolutamente nada esse ano além da ode aos anos de Itajaí, mas não quer dizer que eu parei de escrever ou entrei em um hitato imenso, longe disso, eu apenas... não ando com saco de compartilhar muita coisa que escrevo. Cogitei até dar fim ao blog em algum momento durante o ano mas, felizmente, não o fiz.


Esse ano foi bem estranho em vários aspectos, pra começar eu acabei pegando a doença da moda. Sim, eu tive corona, foi uma experiência bem merda, não cheguei a ir pra hospital nem nada (quer dizer, eu passei pelo posto onde me prescreveram uma penca de remédio que não funciona) e, depois de umas duas semanas eu estava melhor, não é algo que eu deseje pra ninguém.


Ah, antes da covid eu tive um outro revés: meu HD foi para o saco, meu hitachi de 1tb morto... tive que tirar dinheiro do cu e comprar outro HD, felizmente tive ajuda e, bem, foi ótimo porque agora eu tenho um HD mais rápido (coisa pouca, admito, nada muito "woooow que rápido") e que espero durar mais uns anos.


Depois do HD e da Covid tive umas pequenas tretas com os vizinhos barulhentos, mas nada que valha muito mais que algumas linhas, só digo uma coisa: Sal grosso tem muito poder, puta merda. Ah, e eu também tive que parar a terapia por falta de dinheiros e... enfim. Vida que segue.


Não fiz nenhuma grande custom de carrinhos esse ano porque simplesmente não tive saco. Mas a página dos carrinhos passou de 500 seguidores dia desses, bem interessante ver que eu consigo fazer as coisas "pra fora"... falando nisso, desde que eu aprendi a editar áudio eu montava uns arquivos com uma hora ou mais de um determinado estilo, aí esse ano eu resolvi colocar eles pra voar e isso acabou me inspirando mais e fiz mais algumas e tem mais mixtapes a caminho.


Além disso eu acabei lançando uns outros projetos nas redes que foram: a página no Instagram da Maria Letícia (que é a cachorra que mora aqui em casa), uma página pra postar as fotos de ônibus que tão no meu HD "dormindo" (link) e um outro projetinho que é recém-nascido mas tem um potencialzinho pela frente.


Sinceramente não espero muito do próximo ano, só que ele seja um pouco mais leve do que foi esse, mas mantendo a chama da inspiração acesa, mantendo todos os projetos andando, quem sabe fundando outros... Mas eu, secretamente, torço pra que o ano seja o melhor possível.



ps.: vi agora que faz dez anos que faço esse tipo de texto e.. caraio que doido

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Sete

Esse post estou escrevendo com uma certa nostalgia estranha dentro de mim. Em parte porque ela representa o fim de um ciclo, mas não uma porta que se fecha e sim uma era que agregou muito no meu desenvolvimento como serzinho nessa grande bola de pedra achatada (sim, a Terra é levemente achatada nos pólos) que fica vagando no espaço preso pela atração/repulsão gravitacional dessa estrela de quinta grandeza (pois é...) que chamamos de Sol.


Esses dias estava voltando da terapia (sim, Lu faz terapia agora, vou falar mais ali pra frente) e estava relembrando um artigo que li vários anos atrás que dizia que a vida útil de uma célula é de uns 7 anos e que essa renovação é constante, porém com a idade, muitas células simplesmente não voltam a existir, há uma queda no número de células o que ocasiona o envelhecimento e, invariavelmente, a morte.


Mas o objetivo da postagem não é falar sobre morte e sim fazer um retrospecto em tom de agradecimento. Sei que ninguém reparava, mas nos meus textos/contos eu NUNCA escrevo números em forma de números e sim por extenso. Como uma pessoa mais de humanas que de exatas acho os números no meio do texto feio, estraga a beleza e atrai a leitura pra algo que não é pra ser lido antes do resto... alilás, esse foi um pequeno problema durante a faculdade, porque escrever número por extenso era tão natural que tinha que arrumar na revisão.


Bom, a verdade é que no ano de 2013 eu vim morar em Itajaí (SC) e estava meio sem rumo naquela época, tentei um trabalho só pra ganhar dinheiro mas não era a minha praia... eis que no final daquele ano eu passei no vestibular e no ano seguinte iniciei a faculdade de publicidade e propaganda. No mês de setembro de 2014 eu entrei no estágio e aprendi muita coisa. Assim como na faculdade acabei desenvolvendo novas "técnicas" e hoje a quantidade de softwares específicos que eu sei usar com propriedade me torna uma pessoa que tem um leque bom pra áreas da publicidade.


Falar na faculdade ela mereceria muito mais que um parágrafo. Muito além do conhecimento adquirido eu fiz amizades que vou levar comigo pra sempre. Não vou citar nomes porque não quero correr o risco de esquecer ninguém. Mas pessoas, vocês sabem que eu admiro, agradeço e desejo que nossa amizade continue por muitos anos a fio.


Acabei demorando um semestre a mais pra terminar a faculdade e um ano a mais pra me formar (N problemas que aconteceram cá dentro, não vou entrar em detalhes) e num dia de junho de 2019 eu me formei. Com beca e os caralho aquático. Foi legal pegar o canudo, uns dias depois receber o certificado... é uma sensação de que eu posso completar as coisas. Acho que fora o ensino regular esse foi o primeiro curso que eu começo e vou até o fim (teve um de WebDesign, mas acho que ele nem conta mais) e, por mais na fossa que eu estivesse naquela época (os N problemas, lembram?) eu senti que poderia ser o começo de uma coisa nova. E era. E foi. E ta seno.


No comecinho de 2020 as projeções eram as melhores possíveis: estava trabalhando na área que me formei... tá, eu tava fazendo umas coisas a mais do que eu imaginava, mas beleza, era um trampo. Show! SQN, veio corona e, enfim, acabei voltando à situação de desempregância o que acabou por trazer o retorno dumas inquietas sombras.


Só que não vou falar disso hoje. Supondo que a teoria de que as células se renovam a cada 7 anos eu posso dizer que, aqui em Itajaí, eu me renovei inteiro. Cheguei uma pessoa e saio outra, não vou dizer que cem por cento nova porque a essência segue a mesma, porém outras coisas... uau. Descobri coisas sobre mim que agora fazem tanto parte de mim quanto essa habilidade de escrever.


Falando em escrever um parenteses se faz necessário: Foi no ano de 2015 que eu terminei meu primeiro livro, Rupturas, depois foi quase um ano revisando e em 2019 eu registrei ele e meio que ta a venda. Digo meio porque eu "sentei em cima" dele. Minha terapeuta meio que diz que não posso fazer isso, que tenho que colocar ele pro mundo... mas... seilá. Não sinto que seja o momento. Alilás: foi nessa cidade que eu comecei várias outras personagens o que me permitiu ir além da Elisa. Janaína, Sophia, Letícia e seus devidos coadjuvantes... tem material pra mais uns livros aí, quem sabe um dia eles veem a luz da ribalta né? Parentese fechado.


Agora estou aqui pensando... já pausei a escrita duas vezes pra olhar pra parede no meu quarto semi-escuro (só com o brilho do monitor) e tentar me afastar de mim alguns instantes pra ver o quadro todo (algo meio impossível, afinal, eu estou "dentro" de mim, mas vamos por algo metafísico) e, seja por mitose ou meiose (formas que as células se reproduzem) eu digo que eu me renovei muito nesses 8 anos em Itajaí.


Como eu tinha prometido lá em cima, vou falar da terapia. Pois bem, com os auspícios do começo de 2020 eu resolvi ir atrás de algo que sempre quis fazer por conta própria. Comecei a fazer terapia e hoje sou aquela pessoa que toda reclamação da vida respondo com um "faça terapia", porque vale muito a pena! Não sei se o universo conspirou ou o quê aconteceu, mas minha terapeuta é uma das pessoas mais interessantes que já conheci. É cada tapão na cara durante as sessões que, tem dias, que saio completamente sem rumo... mas é aquele famoso se perder pra se encontrar. Não é nada raro eu ficar completamente perdido durante a sessão e, na volta pra casa, eu ter o momento Eureka. Tem sido muito importante sobretudo pra eu me encontrar e definir umas coisas cá dentro... o famoso meme: quem conhece sabe. Pela força do roxo huh.


Agora fui dar uma olhada lá no começo e dei uma de Machado (de Assis, um dos meus autores preferidos) e atei as duas pontas do texto, comecei falando que tive o vislumbre de algo biológico que tive voltando da terapia e no fim (ou perto dele) eu olho tudo isso, todo esse tempo e digo que, é, eu renovei todas as minhas células, não só as biológicas mas também as mentais. Daqui pra frente são outras jornadas, outras histórias, outros caminhos... não, o blog não vai acabar, longe de mim acabar com ele, no máximo eu vou fazer ele num WordPress da vida pra deixar mais bonitinho (o blogger é prático, mas convenhamos que é meio ultrapassado) e organizar melhor, separar o shoyo do trigo.


Enfim, é isso. Obrigado por tudo Itajaí. Certamente você tem um lugar imenso na minha biografia daqui em diante. Na data que essa postagem sair vou estar de partida pra uma jornada, que espero que seja, curta em outra cidade e dali pra frente... ah, dali pra frente eu não pensei (mentira, eu pensei sim). Mas agora de células novas vem aí os próximos 7 anos. 


Enfim, é isso², obrigado pessoas que entraram (e saíram) da minha vida nesses anos todos, agora é uma nova jornada que se inicia, um novo elo, um novo marcador no mapa dos lugares que já morei, um novo CEP e, mais importante, um novo eu. Tanto biológica, quanto emocionalmente.


Tinha pensado em alguma música pra encerrar... mas nenhuma cobriu tudo que eu queria expressar, então  vamos sem música (ou eu coloco depois), mas sigamos bailando!

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Aos 33

Então chegou a única postagem que, não importa o que acontecer, vai sair no dia e hora programada: a postagem encerrando o ano e fazendo meus desejos ao ano vindouro.

Caramba o que foi esse ano né? Quer dizer, ainda tá sendo. Mas vamos começar pelo começo: apesar de registrado e a venda (não na amazon, tio Bezos não me aceitou, seila porque caralhas) meu livro vendeu zero. Algumas pessoas receberam de graça mas só uma leu... Não sei vender minhas coisas. Bem dizem que casa de ferreiro espeto de pau.

Depois, umas duas semanas depois de entrar em vinte vinte (ou dois mil e vinte, vulgo esse ano) eu consegui um emprego! Finalmente um dinheirinho entrando fixo na minha conta todo mês e fazendo o que eu gosto. Tava tudo bem até vir essa pandemia, mas dela falo mais depois.

Com dinheirinhos fixos entrando eu resolvi ir atrás de: terapia. Não sei se eu é que dei sorte, mas de cara consegui uma terapeuta muito boa, que me deixou super seguro pra falar muita coisa que eu tava querendo dizer, abrir/mostrar coisas que eu precisava ver a reação de outro serumano sem ser via uma tela e foi...  Transcendental (ufa, esse ano não escrevi "mágico" haha), pessoas se vocês quiserem uma única dica minha é: façam terapia. Melhor investimento da vida de vocês.

Dentre as muitas coisas que aconteceram a mais incrível e inesperada foi a pandemia, é como diz o meme "cansei de viver um evento histórico". A merda é que o coronga acabou levando com ela meu emprego... Então eu arrumei um trampo e perdi um trampo nesse ano. Fiquei triste? Fiquei, triste? Pra caralho, mas é como disse minha prima: dessa vez eu fui até o fim, não desisti no meio. Vida que segue.

Consegui manter a oficina dos carrinhos com uns projetinhos novos, nada muito wooow mas refinei umas técnicas, fiz uns projetinhos legais. Mas, como tudo esse ano, fiz mais pra mim do que pra sair postando. O mesmo vale pros escritos: apesar de ter pouca postagem esse ano eu escrevi até bastante, mas não postei nada porque... Esse ano ta doido.

Depois disso tudo eu sinceramente não sei o que esperar do ano que inicia agora, mas espero que alguns planos saiam do papel e outras coisas (tipo escrever e a oficina) se mantenham ativas na medida da vontade (afinal é quase um hobby) e que consiga algumas coisas que eram pra ter sido continuadas esse ano mas né, coronga.

Vai parecer história de pescador, mas no dia que saí do trabalho eu fui nos molhes (o canal onde entram os navios pro porto) e esse navio tava entrando... Achei que nunca fosse ter um navio preferido na vida, mas agora tenho. Nunca fui de acreditar muito nisso, mas olha o nome do navio... Parece muito aquela coisa de filme que dali pra frente vai ser um ponto de virada.


"ever smile" ou "sempre sorria" numa tradução googlistica

A grande e imensa verdade é que já não tenho mais todo aquele ranço de fazer aniversário, porém não tenho lá muitos motivos para comemorar e, pra ser sincero, eu não ando sentindo nada nas coisas que faço, as coisas ruins são rápidas, as boas são prazeres tão efêmeros quanto um por-de-sol... espero, de coração, que essa nova volta ao redor do sol melhore isso de alguma forma.

Alea jacta est.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Gotas de Delírio

Trovões no céu, um corpo ensanguentado no chão e no ar o cheiro de pólvora completava o ambiente hostil. Nathália tentava se lembrar como tinha vindo parar ali. Tudo era um grande vazio na sua mente. Não era a primeira vez que usava uma droga que lhe alterava a percepção do ambiente ou até mesmo do tempo. Balançou a cabeça negativamente notando as duas tranças, uma de cada lado, que ornavam seu cabelo preto.

Lembrou da primeira regra pós uso de alguma droga nova: Pensar no que se lembrava. Enquanto tirou da bolsa o celular desligado procurava com a ponta dos dedos a bateria extra que sempre trazia consigo. Teria de esperar alguns minutos até poder religar o diminuto aparelho. Olhou em volta buscando alguma explicação. Fora o cadáver não tinha muita coisa.

Uma poltrona onde ela estava, alguns quadros desses de artistas de rua com paisagens genéricas, uma mesa próxima da janela com um abajur e uma cortina marrom clara com desenho de pinheiros. As paredes de madeira diziam que ou era uma casa velha ou era uma casa de rico, nunca vai ser o meio termo. Com certa dificuldade ficou em pé dando o primeiro passo.

Trajava uma saia preta com adornos dourados, uma blusa curta que lhe deixava tanto a barriga quanto os ombros a mostra, nos braços diversas pulseiras, nos pés uma sandália rasteirinha atada tanto no peito do pé quanto no tornozelo. Os dedos traziam seus vários anéis, cada qual com um significado próprio.

Tomando cuidado para não pisar no corpo foi na direção da porta, não sem antes dar uma boa olhada na figura falecida. Parecia um efeito especial de filme ruim. Se inclinou sutilmente na direção do corpo masculino tentando reconhecer a figura. Nada. Nenhuma lembrança. Mas o ventre perfurado por diversos buracos contava uma história. Talvez um tiro de espingarda ou vários tiros de outra arma. O sangue em estado que aparentava estar seco lhe deu o último ponto básico de que aquela história havia ocorrido já tinha algum tempo.

Por mais estranho que pudesse ser não se abalou tanto em deixar o morto ali sozinho, afinal, ele já estava morto. Que mal haveria de ter? No máximo quem fez o que fez viria para tentar apagar as provas. Girou a maçaneta pouco mais de quarenta e cinco graus.

O primeiro passo fora do cômodo foi estranho, não saberia dizer se era a luz, o cheiro ferroso pairando no ar, os sons agudos oscilantes misturados a um barulho de algo batendo. Tudo pareceu tão ruim que ponderou um instante em ir adiante ou ficar ali. Podia aguardar o algoz do companheiro de quarto e ver se o destino guardaria para si algo melhor que para ele.

Não. Deu o próximo passo e todos os sentidos foram sobrecarregados, muita luz, muitos cheiros, muitos sons... dois segundos de síncope e tudo voltou ao normal. Estava no mesmo quarto. Na mesma poltrona. Ao lado do mesmo corpo. Se questionava se não podia ser efeito da droga que tinha tomado. De uma coisa tinha certeza: Fosse o que fosse logo o efeito cessaria e tudo voltaria a ser como era.

Tinha duas opções bem claras agora: Seguir se movendo durante a viagem e, no mundo real, acabar atropelada por um ônibus ou ficar onde estava correndo o risco acabar morta como a figura ali do lado.

Ônibus. Morta. De repente essas duas palavras acenderam na sua mente como dois pequenos pulsos. Perfeito. O efeito estava passando e já podia reencontrar a realidade. Esfregou as mãos no rosto. Uma vez tinha ouvido falar que tocar em si mesma durante o uso de alguns tipos de droga fazia uma ponte mais sólida com a realidade.

Conforme piscava tinha a impressão de que a cortina mudava de cor. A poltrona mudava de cor. A única coisa que seguia igual era o sangue no chão. Então ele era a única coisa real ali. Pelo menos era isso que Nathália imaginava. Resolveu tentar sair do cômodo novamente.

Passo. Pulou o cadáver. Passo. Girou a maçaneta. Passo. Luz branca. Passo. Sons altos. Passo. Cheiro ferroso. Passo. Síncope. Sentiu uma forte pressão no peito. Passo. Fechou as pálpebras. Passo para trás. Abriu os olhos.

Não estava mais na poltrona. Pronto. Acabou. Outra perspectiva. Não conseguia mover o corpo. Só os olhos. Tentou distinguir o que estava vendo. Pés. Uma parede... a lateral da poltrona. Quando tentou afastar os lábios o movimento de uma figura humana chamou sua atenção. O som da porta se abrindo juntamente dos passos lhe trouxe uma realidade incômoda: estava no chão. Será que...?

Com esforço moveu a cabeça o suficiente para ver que era ela o cadáver no chão. Mas não estava morta. Estava? Não conseguia conectar os eventos entre si. A sombra que passou sumiu porta afora. O silêncio perdurou durante dois segundos exatos, em todos os seus décimos, centésimos e milésimos. Uma grande pressão como se o teto desabasse em cima de Nathália a fez fechar os olhos de súbito. Quando abriu estava no mesmo lugar no chão.

Abriu os olhos. Passo. Poltrona. Passo. Ruídos baixos. Passo. Sem memória. Passo. Porta abrindo. Passo. Silêncio completo. Passo. Teto desabando. Acordou na poltrona. "Mas que porra é essa?", tentou se mover. O corpo estava inteiro. Checou tudo em volta antes de se levantar. O cadáver estava ali. Seu inconsciente dizia para ir na direção da porta. "Não!" pensou em voz alta. 

Com o cuidado de quem já tinha visto filmes de terror suficiente se aproximou do corpo supostamente morto, se abaixou tentando esquadrinhar um detalhe, algo que pudesse servir de pista para dizer onde estava. O cadáver estava de ventre rasgado e olhos abertos. Desceu mais seu rosto na direção do dele quando os olhos se moveram na direção dela.

O susto inicial logo deu espaço para a lógica: ele não estava morto. Mesmo tendo perdido tanto sangue. Não via uma solução plausível. Tentava pensar. Nenhuma resposta vinha à sua mente. Os lábios dele se afastaram.

- Vo-você quer alguma c-coisa? - Sua voz estava diferente do que se lembrava - O-onde estamos?

- Ônibus.

- Que? - Nathália se aproximou - Você sabe onde estamos?

- Ônibus.

Tentou lembrar de todos os filmes em que o fantasma falava uma única palavra e todas as vezes era algo relacionado à sua forma de morte. Então ele foi atropelado por um ônibus e largado ali? Mas estava em uma casa de madeira. Olhou em volta... tudo convergiu pro branco.

- Nath?

- Quem...?

- Nathália, não brinca comigo - Conhecia a voz, a silhueta mas não conseguia... o morto, se afastou de súbito - Que foi véi?

- Que... - Aos poucos todas as suas memórias voltavam e os pontos iam se aglutinando como partículas formando planetas ao redor de um disco de poeira estelar - Onde eu tô?

- Em um ônibus - A visão foi reconhecendo o ambiente e tomando forma, o cheiro ferroso vinha das péssimas condições da manutenção feita no transporte coletivo que atendia aos bairros mais afastados da Metrópole - Indo lá pra casa... cê ta bem?

- Não... quer dizer... sim... quer dizer... não sei.

- Eu disse pra você não tomar aquilo.

- Aquilo...?

- É, na rua andam chamando de gotas de delírio, coloca na bebida e você vai ter a viagem mais insana da sua vida.

- Mas... eu tomei isso fazem horas... ou não?

- Sim - Ele se ajeitou no banco, só agora Nathália se deu conta de que estavam na última fileira de bancos de um ônibus onde duas pessoas estavam sentadas próxima do cobrador e uma mãe e criança estavam na porta prontas para descer - Não fez muito sucesso na rua por fazer efeito muito tarde, isso quando faz.

- Quanto tempo eu...?

- Ficou chapada? - Ele sorriu de canto - A gente entrou no ônibus, sentou, você piscou, achei que ia dormir, paramos em um ponto, umas seis pessoas desceram falando de uns papos de morte e tals, mó sinistro... aí você acordou.

Como se fosse um vídeo acelerado toda a noite veio em sua mente. Saiu de casa, encontrou com seu namorado, Pablo, foram em uma casa noturna, bebeu um drink que tinha uma fatia de abacaxi. Colocou duas gotas da droga que queria saber se o efeito aparecia com música, pois nas repetidas vezes que tentou em casa nada acontecia, pensou que o ambiente barulhento pudesse lhe trazer novas sensações. Se frustrou quando nada aconteceu, como estava a meio caminho de casa e a meio caminho da casa de Pablo resolveu passar a noite com ele. Como naquela região carros de aplicativo raramente aceitavam corridas foram de ônibus. Diversas pessoas saindo de um culto, ternos, mulheres em vestidos de altura média, sem decotes e bíblia na mão. Em uma freada brusca o efeito esperado chegou.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Plata II

Abri os olhos sentindo meu corpo leve. Respirei fundo e... Nada. Não sentia meus pulmões enchendo ou esvaziando. O que está acontecendo? Espera. Eu acho que conheço aqueles dois ali embaixo. Pai? Mãe? Espera. Embaixo? Olhei para o lado e uma lâmpada cegou minha visão por alguns segundos. O que estava acontecendo? Espera... Não vai me dizer que... Não. Não. Não. Eu não posso morrer ainda. 

Vamos descer e voltar pro corpo. Se isso fosse como nos filmes eu entraria e acordaria do coma. Perfeito. De repente esse quarto parecia tão alto. Ou eu que descia devagar? Tentei forçar o corpo. Não tinha jeito de ir mais rápido. Quando estava quase chegando uma barreira me impedia de me tocar. Droga. Pensa. Qual foi a última coisa que eu me lembro? 

- Não adianta tentar lembrar - A voz vinha de um homem sentado próximo da janela, sobretudo, chapéu - É recente, mas com o tempo tudo vai se encaixar...

- Como você sabe? Aliás, quem é você? Como consegue me ver?

- Não é meio óbvio? - Ele sorriu dando um sutil peteleco na aba do chapéu revelando um rosto de um homem, uns quarenta anos, cabelo preto - Te dou três tentativas.

- Um anjo? Demônio? Ceifeiro? Deus? Diabo? 

- Pra quem acabou de chegar nesse plano você fala muito rápido - Do bolso interno do casaco saiu um palito que ele colocou no canto esquerdo da boca - Você errou todas as opções, eu sou apenas um detetive...

- ... Sobrenatural? - interrompi, parecia clichê - Esses trejeitos são meio noir, até um pouco... Caricatos.

- Na verdade - ele tirou o palito com a ponta dos dedos e se aproximou - eu sou uma representação do que você considera um detetive e estou aqui para lhe ajudar a solucionar quem te deixou assim.

- Então eu... Morri?

- Não, ainda não - Ele se aproximou oferecendo a mão - Vamos? Temos muito a fazer... A propósito, meu nome é Gustavo... E eu sei quem você é - Correspondi à mão estendida - agora vamos... Qual a última coisa que se lembra?

- O céu nublado... Acho que era quinta feira - Comecei a forçar a memória enquanto saíamos levitando pela janela - Nas quintas eu gosto de tomar um café perto de casa... - Fechei os olhos sentindo o gosto da bebida quente na garganta - De manhã tinha aula de história do cinema e técnicas cinematográficas, a tarde eu fazia um estágio na cinemateca da província de Buenos Aires e a tarde tomava um café antes de ir para casa... Casa... Moro em um prédio meio velho na alameda próxima ao edifício da Corina Kavagnah, no oitavo andar... Contrafrente, oito zero oito E...

Como se fosse um passe de mágica cá estávamos eu e Gustavo dentro do apartamento. As lembranças vinham como flashes. Havia mais alguém. Cabelo castanho. Não conseguia definir a imagem quando o trinco girou e dois homens entraram. Um deles - Aguilar - dizia que não entendia porque procurar algo afinal era uma tentativa de suicídio que deu errado. O outro - Martin - dizia que era o protocolo e precisavam procurar pistas, que a família dizia que ela não dava nenhum sinal disso.

- Você tem que me ajudar - Me virei para Gustavo que caminhava ao lado dos policiais procurando qualquer pista - O que eu faço?

- Não sei, moça - Ele me olhou - Você não tem fotos? Cartas? Uma anotação que seja...

- Tenho, claro que tenho... - Fechei os olhos tentando me lembrar, pensa, pensa, pensa - Está tudo nublado na minha memória...

- Esse notebook - Martin erguia o computador portátil completamente destruído - Já viu dias melhores...

- O que você diria? - Aguilar se aproximou - Briga? Dia de fúria?

- Os vizinhos relataram alguns gritos, mas nada que fosse anormal... Afinal ela é jovem, bonita... - O policial checava as anotações - Também ouviram som de furadeira...

- ... Que foi o que encontrou esse notebook - O outro policial seguia caminhando a passos lentos, tentando achar alguma pista - Será que foi coisa de droga?

Não vou dizer que sempre fui puritana, mas jamais usaria droga a tal ponto. Só agora havia me dado conta de que eu estava com a mesma roupa que me lembrava. Apalpei os bolsos. Bolso de trás. Do casaco. Da calça. Nem sinal.

- O que procura?

- Meu... - A cabeça doía ao tentar lembrar - ... Me fugiu a palavra, como se ficasse nublado.

- É importante?

- Sinto que é... Só que sempre que eu penso fica tudo nublado.

- Nublado... Pode ser uma pista - Gustavo guiou o palito de um lado para o outro da boca - Nublado é cinza, chuva, nuvens, frio...

- ... O que você disse? - Um estalo - Cinza, chuva...

- Nuvens.

- Puta merda, nuvem, isso! - De repente tudo fez sentido - Eu guardo muita coisa na nuvem... - Ao notar a cara estranha de curiosidade do meu acompanhante completei - ... Na internet, tipo uma pasta guardada em outro lugar.

- E como que faz para ver essa nuvem guardada em outro lugar?

- Precisa do meu...

- ... Aguilar, achei um celular.

- Daquilo.

- Ainda tem bateria? - Aguilar se aproximou do parceiro e vendo que a tela ligava prosseguiu - Tem senha?

- Senha? - Gustavo me olhou enquanto eu tentava lembrar - Como abre tal nuvem?

- A minha senha é onde moro... Sempre usei isso, assim nunca esquecia... Tem como eu falar com eles? Digo, sussurrar tipo nos filmes...

- Só se sua vontade for forte o suficiente...

- Não custa tentar...

Me aproximei de Martin e tentava falar a senha. Ele, ao contrário do que eu queria, evitava tentar alguma forma de de desbloqueio com medo de travar o aparelho inteiro. Aguilar vasculhava o quarto enquanto o policial com meu telefone se aproximou da porta. Parando diante do letreiro com o número do apartamento. A plenos pulmões gritei que essa era a senha. De repente tudo escureceu e ficou branco logo em seguida.

- Meu deus -conhecia aquela voz - ela acordou!

- Beatriz - Esse é o nome da minha mãe - Ela acordou!

- O que... - De repente todas as partes do corpo deram sinal ao mesmo tempo me trazendo desconforto - ... Aconteceu?

- Não se preocupa com isso agora filha... Você voltou para a gente e é isso que importa.

Alguns dias se passaram e já me sentia mais forte. Foi quando uma psicóloga veio me falar da morte dos meus amigos, todos envenenados, chorei lembrando de tudo até a quarta feira. Depois disso era nublado. Uma semana se passou e dois policiais vieram falar comigo, preencher lacunas. Como se fosse um choque todas as lembranças daquela quinta feira veio de uma vez só.

Depois da aula passei a tarde na cinemateca. Um grupo de estudantes queria saber de filmes gravados em Buenos Aires no último ano. Acompanhei eles até o acervo. Ao fim do meu expediente passei no café onde Camila trabalhava. Ela não aparecia faziam dois dias, voltei pra casa e ela estava me esperando, dizia que agora ninguém ia impedir nossa felicidade. Falando agora lembro de vários ataques de ciúme dela com meus amigos. Já tínhamos brigado muito sobre isso e ela sempre prometia que se controlaria mais dali pra frente. 

Só que naquela quinta feira nada disso aconteceu. Sob pretexto de uma festa surpresa atraiu todos os meus amigos para o apartamento e deu gelatina com veneno. Vi a cena dos corpos empilhados na banheira. Não sei como ainda tive sangue frio e tirei inúmeras fotos daquilo. Deixei o celular gravando a conversa que teríamos, mas não tive tempo. No áudio recuperado pude ouvir o exato momento em que ela me apagou e ficou balbuciando que tudo poderia ser melhor, por que eu tive que estragar tudo? Depois o som da furadeira, do armário abrindo, fechando, zíper de malas, a porta da sacada e o som do meu corpo sendo arrastado seguido da porta principal abrindo, fechando e sendo trancada.

De acordo com a investigação eu só não morri porque caí em cima de um jipe com teto de lona. Fraturei seis costelas, perfurei o pulmão, quebrei as duas pernas, o quadril, o braço direito além de um traumatismos cranianos. Fiquei seis meses no hospital até me recuperar bem.

Graças aos meus registros e as fotos que eu guardava na nuvem conseguiram localiza-la já próxima da fronteira com o Chile. As informações ne foram trazidas pelo prestativo policial Martin.

- Não sei de vai acreditar... - Ele me confidenciava com os faces ruborizando sutilmente - Mas quando achei seu celular algo me disse a senha e consegui achar uma foto sua com ela e o carro... Dali foi um pulo até a captura dela.

- E se eu falar que eu estava lá e te ajudei?

- Não vou duvidar...

- ... só que eu não estava sozinha - Minha vez de sentir meu rosto arder em vergonha - Tinha um detetive, com chapéu, sobretudo e sempre mascando um palito.

- Um... Palito? - Martin pegou a carteira abrindo e me mostrando uma fotografia - Era ele?

- C-como você... - Senti minha pressão baixar subitamente, retomei o controle do meu corpo - Q-quem é ele?

- Meu avô, foi policial nos anos de 1930 e 1940... - O sorriso em meus lábios misturava-se às lágrimas - Ele faleceu naquele hospital, a viatura dele caiu no rio, quando trouxeram levaram para o hospital ele aguentou mais alguns dias e não resistiu... Mas a busca dele por ajudar as pessoas foi algo que me inspirou a entrar para a polícia sabe?

- Vai parecer doido... mas... Qual era o nome dele?

- Do meu avô? - Martin deu uma olhada na foto, assenti com a cabeça - Ele se chamava... Gustavo.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Plata

Eu não acredito que perdi o controle de novo. Merda. E o foda que estávamos tão bem e de repente tudo desmoronou tão rápido que não consegui evitar aquele final. E não era a primeira vez. Bem feito, Camila, quem manda se apaixonar. Não pode só chegar em um lugar e ficar de boas, não, tem logo que arrumar namoricos que colocam tudo a perder.

Mas também agora não importa mais. Era incrível como a única coisa que aquele inútil do meu padrasto me deixou podia ser tão linda. Esse Opala ano 1974 rodava macio na estrada, o ronco baixo parecia um ronronar, velocímetro travado próximo dos cem quilômetros por hora fazia a paisagem passar rápido pela janela lateral. Seta, faixa da esquerda, acelera. O ronco encheu a cabine junto com o cheiro de álcool que alimentava as seis bocas do motor. Mais um ônibus ficou para trás.

Dessa vez vou mais longe, me impor uma barreira diferente: o idioma. Chequei o mapa no posto de combustível. Só mais seiscentos quilômetros. Em uma conta básica seis horas. Na realidade um pouco mais, talvez um dia inteiro, só eu, o Opala e a estrada. 

Buenos Aires parecia um bom lugar para se recomeçar. De novo. Verdade seja dita, eu nunca quis que isso tomasse a proporção que tomou. Quando eu dava por mim já estava obcecada. Fúria total. Hotel barato de beira de estrada aqui em nada lembra os que eu via nos filmes. Alguns tinham um restaurante outros eram ao lado do posto. 

Com os primeiros raios de sol rompendo a espeça camada de nuvens peguei a estrada. Cada quilômetro rodado era a esperança de que tudo pudesse começar e eu pudesse ficar em paz. Fronteira. Documentos meus. Do veículo. Tudo em ordem. A cidade parecia envolta em uma aura noir quando estacionei em frente do hostel que seria meu lar por alguns dias. Garagem segura. Logo na manhã seguinte consegui um emprego legal em um café. "Brasileña? Tenemos muchos turistas acá y creó que podría ayudar con ellos". Claro. Pareceu ótimo.

Não que eu não gostasse do emprego. Mas como fazia questão de não querer conhecer ninguém passava a maior parte do meu tempo livre no café, era um local silencioso, a quantidade de chás que eles tinham supria minha curiosidade fora que era próximo o suficiente do pequeno apartamento e de uma das maiores livrarias do mundo. Foi em um passeio por lá que encontrei um livro que tinha ouvido falar no ensino médio. Em português. Quais as probabilidades dum livro em português estar em uma livraria de Buenos Aires? Muitas se considerar que eu gostava de fuçar a área do sebo.

Oito meses e já me sentia completamente adaptada à cidade. Mesmo o clima que muita gente reclama já não me causava incômodo.  Estava nas últimas páginas do livro que tinha comprado quando ela apareceu. Em um castelhano horrível perguntou se eu era brasileira. Respondi que sim, em espanhol. Rimos. Ela perguntou se podia sentar. Pediu um chá. Conversamos sobre o livro. 

Letícia. Fazia faculdade de cinema. Cabelos lisos, pretos. Olhos levemente puxados. Sempre com um short jeans curto que deixava as duas tatuagens na panturrilha expostas. Um cacto e um cacto em flor. Uma camisa xadrez por cima do top escuro completava o visual. Eu não controlava mais nada. Quando notei já estávamos morando juntas. Dividindo a cama e todos aqueles amigos com direito de abraçar. Ficar próximo. Rir sem eu estar por perto. Merda. De novo não. 

A vantagem de não ser a primeira vez é que você já sabe como tirar o sangue das mãos e se livrar de tudo. Melhor ir dormir. Amanhã tinha mil e cem quilômetros pela frente.

Chile. Santiago.