sábado, 12 de março de 2022
Whisky com gelo
domingo, 6 de março de 2022
Esperança
Grigory soltou grande lufada de ar enquanto abria os olhos de súbito se sentando e vendo, em sua frente, Irina que tinha entre o polegar e o indicador uma xícara que ele julgou ser café pelo cheiro.
- Não consigo dormir.
- É pelo cheiro de café?
- Não, esse cheiro traz uma paz, o problema é... diferente.
- Diferente... como? - Irina arqueou a sobrancelha enquanto bebericava mais um gole da bebida escura como a noite que cruzavam - É pelos...
- Sim, cada vez que passamos por um poste, um carro parado em uma passagem de nível, cada vez que um clarão invade a cabine passa um filme pela minha cabeça, fora esse som das rodas...
- O trem não foi uma boa escolha, afinal.
- O problema, Irina, não é o trem, sou eu.
- O único problema aqui, Grigory, é você achar que é o problema.
- Mas não sou?
- De maneira nenhuma - Ela bebeu mais um largo gole de café - Não fosse por você metade das pessoas nesse trem ainda estaria presa... ou pior - Vendo o olhar de Grigory descendo ela resolveu intervir colocando a mão no queixo dele - E eu não teria conhecido o amor da minha vida.
- Mas...
- Sem mas - Ela calou ele com a ponta dos dedos e, dando um passo adiante selou seus lábios nos dele - Se quiser café, podemos conversar até chegar em Lviv...
- Não, você vai querer descansar.
- Não, até estar fora daqui eu não vou querer pregar o olho.
- Se importa se eu não falar nada...? - Ele a olhou nos olhos temendo a reprimenda - Quero dizer...
- Não, de forma nenhuma.
- Eu só quero pedir uma coisa... se não for incomodo.
- Claro.
- Promete não rir?
- Fala logo - Irina tinha no semblante uma expressão que aparentava dureza, porém trazia no olhar uma doçura que Grigory não via faziam anos - Se for café eu posso pedir outro, o rapaz passa aqui de dez em dez minutos e...
- Não - Ele ruborizou a interrompendo - Eu só quero... que você segure minha mão, quer dizer, se isso parecer estranho.
Sem falar nada Irina tomou a mão de Grigory na sua dando, em seguida, um beijo suave e sentando-se ao seu lado. Ela não conseguia mensurar os horrores que ele havia passado, as coisas que devia ter feito para cumprir suas missões, se manter vivo e chegar até ali. Por mais que pudesse parecer uma novela publicada em jornal, ela, realmente, se apaixonou por ele no primeiro instante que o viu, ainda paramentado com a farda completa e a PPD-40 parcialmente suja de lama, assim como ele inteiro.
Enquanto sentia a mão dele apertar a sua se lembrava do local onde estavam quando soou o alarme, a casa de seus avós que era abrigo para duas dúzias de pessoas. Entre o som da primeira explosão e a habilidade dele em empurrar todos para a minúscula despensa que havia sido construída com pedras mais de uma centena de anos atrás. Ele era o último para entrar quando o clarão se fez na casa. Todos os tímpanos com o zumbido que persistiram por semanas a fio.
Porém com Grigory a sequela foi pior. Sua perna esquerda completamente dilacerada agora era uma poça de sangue, poeira e pólvora. Tão logo o bombardeio cessou médicos e enfermeiras passaram por ali. Foi um mês de muita morfina e lágrimas que acabaram com as chances dele voltar ao front. Não poderia ser em melhor hora, afinal, informações ainda desencontradas diziam que Berlim havia caído e a rendição era questão de dias.
Distantes ainda centenas de quilômetros de seu destino e, com os primeiros raios de sol rompendo o horizonte, a mão de Grigory amoleceu de súbito fazendo o coração de Irina parar por um instante, tempo suficiente para que ela o visse cair no sono com uma lágrima rolando pela face e um sorriso nos lábios. A esperança ganhava forma a cada vila não bombardeada que o trem parava e pessoas desembarcavam reencontrando entes queridos na estação. Pousando o rosto no ombro dele, ela se permitiu cochilar também e sonhar com dias melhores adiante. A paz vinha com a luz de um novo tempo, de um novo dia.
sábado, 20 de novembro de 2021
Aos 34
E aqui estamos nós para aquela postagem que vai acontecer haja o que hajar, afinal é uma das poucas tradições ainda em pé nesse quase moribundo espaço.
Sei que não postei absolutamente nada esse ano além da ode aos anos de Itajaí, mas não quer dizer que eu parei de escrever ou entrei em um hitato imenso, longe disso, eu apenas... não ando com saco de compartilhar muita coisa que escrevo. Cogitei até dar fim ao blog em algum momento durante o ano mas, felizmente, não o fiz.
Esse ano foi bem estranho em vários aspectos, pra começar eu acabei pegando a doença da moda. Sim, eu tive corona, foi uma experiência bem merda, não cheguei a ir pra hospital nem nada (quer dizer, eu passei pelo posto onde me prescreveram uma penca de remédio que não funciona) e, depois de umas duas semanas eu estava melhor, não é algo que eu deseje pra ninguém.
Ah, antes da covid eu tive um outro revés: meu HD foi para o saco, meu hitachi de 1tb morto... tive que tirar dinheiro do cu e comprar outro HD, felizmente tive ajuda e, bem, foi ótimo porque agora eu tenho um HD mais rápido (coisa pouca, admito, nada muito "woooow que rápido") e que espero durar mais uns anos.
Depois do HD e da Covid tive umas pequenas tretas com os vizinhos barulhentos, mas nada que valha muito mais que algumas linhas, só digo uma coisa: Sal grosso tem muito poder, puta merda. Ah, e eu também tive que parar a terapia por falta de dinheiros e... enfim. Vida que segue.
Não fiz nenhuma grande custom de carrinhos esse ano porque simplesmente não tive saco. Mas a página dos carrinhos passou de 500 seguidores dia desses, bem interessante ver que eu consigo fazer as coisas "pra fora"... falando nisso, desde que eu aprendi a editar áudio eu montava uns arquivos com uma hora ou mais de um determinado estilo, aí esse ano eu resolvi colocar eles pra voar e isso acabou me inspirando mais e fiz mais algumas e tem mais mixtapes a caminho.
Além disso eu acabei lançando uns outros projetos nas redes que foram: a página no Instagram da Maria Letícia (que é a cachorra que mora aqui em casa), uma página pra postar as fotos de ônibus que tão no meu HD "dormindo" (link) e um outro projetinho que é recém-nascido mas tem um potencialzinho pela frente.
Sinceramente não espero muito do próximo ano, só que ele seja um pouco mais leve do que foi esse, mas mantendo a chama da inspiração acesa, mantendo todos os projetos andando, quem sabe fundando outros... Mas eu, secretamente, torço pra que o ano seja o melhor possível.
ps.: vi agora que faz dez anos que faço esse tipo de texto e.. caraio que doido
terça-feira, 12 de janeiro de 2021
Sete
Esse post estou escrevendo com uma certa nostalgia estranha dentro de mim. Em parte porque ela representa o fim de um ciclo, mas não uma porta que se fecha e sim uma era que agregou muito no meu desenvolvimento como serzinho nessa grande bola de pedra achatada (sim, a Terra é levemente achatada nos pólos) que fica vagando no espaço preso pela atração/repulsão gravitacional dessa estrela de quinta grandeza (pois é...) que chamamos de Sol.
Esses dias estava voltando da terapia (sim, Lu faz terapia agora, vou falar mais ali pra frente) e estava relembrando um artigo que li vários anos atrás que dizia que a vida útil de uma célula é de uns 7 anos e que essa renovação é constante, porém com a idade, muitas células simplesmente não voltam a existir, há uma queda no número de células o que ocasiona o envelhecimento e, invariavelmente, a morte.
Mas o objetivo da postagem não é falar sobre morte e sim fazer um retrospecto em tom de agradecimento. Sei que ninguém reparava, mas nos meus textos/contos eu NUNCA escrevo números em forma de números e sim por extenso. Como uma pessoa mais de humanas que de exatas acho os números no meio do texto feio, estraga a beleza e atrai a leitura pra algo que não é pra ser lido antes do resto... alilás, esse foi um pequeno problema durante a faculdade, porque escrever número por extenso era tão natural que tinha que arrumar na revisão.
Bom, a verdade é que no ano de 2013 eu vim morar em Itajaí (SC) e estava meio sem rumo naquela época, tentei um trabalho só pra ganhar dinheiro mas não era a minha praia... eis que no final daquele ano eu passei no vestibular e no ano seguinte iniciei a faculdade de publicidade e propaganda. No mês de setembro de 2014 eu entrei no estágio e aprendi muita coisa. Assim como na faculdade acabei desenvolvendo novas "técnicas" e hoje a quantidade de softwares específicos que eu sei usar com propriedade me torna uma pessoa que tem um leque bom pra áreas da publicidade.
Falar na faculdade ela mereceria muito mais que um parágrafo. Muito além do conhecimento adquirido eu fiz amizades que vou levar comigo pra sempre. Não vou citar nomes porque não quero correr o risco de esquecer ninguém. Mas pessoas, vocês sabem que eu admiro, agradeço e desejo que nossa amizade continue por muitos anos a fio.
Acabei demorando um semestre a mais pra terminar a faculdade e um ano a mais pra me formar (N problemas que aconteceram cá dentro, não vou entrar em detalhes) e num dia de junho de 2019 eu me formei. Com beca e os caralho aquático. Foi legal pegar o canudo, uns dias depois receber o certificado... é uma sensação de que eu posso completar as coisas. Acho que fora o ensino regular esse foi o primeiro curso que eu começo e vou até o fim (teve um de WebDesign, mas acho que ele nem conta mais) e, por mais na fossa que eu estivesse naquela época (os N problemas, lembram?) eu senti que poderia ser o começo de uma coisa nova. E era. E foi. E ta seno.
No comecinho de 2020 as projeções eram as melhores possíveis: estava trabalhando na área que me formei... tá, eu tava fazendo umas coisas a mais do que eu imaginava, mas beleza, era um trampo. Show! SQN, veio corona e, enfim, acabei voltando à situação de desempregância o que acabou por trazer o retorno dumas inquietas sombras.
Só que não vou falar disso hoje. Supondo que a teoria de que as células se renovam a cada 7 anos eu posso dizer que, aqui em Itajaí, eu me renovei inteiro. Cheguei uma pessoa e saio outra, não vou dizer que cem por cento nova porque a essência segue a mesma, porém outras coisas... uau. Descobri coisas sobre mim que agora fazem tanto parte de mim quanto essa habilidade de escrever.
Falando em escrever um parenteses se faz necessário: Foi no ano de 2015 que eu terminei meu primeiro livro, Rupturas, depois foi quase um ano revisando e em 2019 eu registrei ele e meio que ta a venda. Digo meio porque eu "sentei em cima" dele. Minha terapeuta meio que diz que não posso fazer isso, que tenho que colocar ele pro mundo... mas... seilá. Não sinto que seja o momento. Alilás: foi nessa cidade que eu comecei várias outras personagens o que me permitiu ir além da Elisa. Janaína, Sophia, Letícia e seus devidos coadjuvantes... tem material pra mais uns livros aí, quem sabe um dia eles veem a luz da ribalta né? Parentese fechado.
Agora estou aqui pensando... já pausei a escrita duas vezes pra olhar pra parede no meu quarto semi-escuro (só com o brilho do monitor) e tentar me afastar de mim alguns instantes pra ver o quadro todo (algo meio impossível, afinal, eu estou "dentro" de mim, mas vamos por algo metafísico) e, seja por mitose ou meiose (formas que as células se reproduzem) eu digo que eu me renovei muito nesses 8 anos em Itajaí.
Como eu tinha prometido lá em cima, vou falar da terapia. Pois bem, com os auspícios do começo de 2020 eu resolvi ir atrás de algo que sempre quis fazer por conta própria. Comecei a fazer terapia e hoje sou aquela pessoa que toda reclamação da vida respondo com um "faça terapia", porque vale muito a pena! Não sei se o universo conspirou ou o quê aconteceu, mas minha terapeuta é uma das pessoas mais interessantes que já conheci. É cada tapão na cara durante as sessões que, tem dias, que saio completamente sem rumo... mas é aquele famoso se perder pra se encontrar. Não é nada raro eu ficar completamente perdido durante a sessão e, na volta pra casa, eu ter o momento Eureka. Tem sido muito importante sobretudo pra eu me encontrar e definir umas coisas cá dentro... o famoso meme: quem conhece sabe. Pela força do roxo huh.
Agora fui dar uma olhada lá no começo e dei uma de Machado (de Assis, um dos meus autores preferidos) e atei as duas pontas do texto, comecei falando que tive o vislumbre de algo biológico que tive voltando da terapia e no fim (ou perto dele) eu olho tudo isso, todo esse tempo e digo que, é, eu renovei todas as minhas células, não só as biológicas mas também as mentais. Daqui pra frente são outras jornadas, outras histórias, outros caminhos... não, o blog não vai acabar, longe de mim acabar com ele, no máximo eu vou fazer ele num WordPress da vida pra deixar mais bonitinho (o blogger é prático, mas convenhamos que é meio ultrapassado) e organizar melhor, separar o shoyo do trigo.
Enfim, é isso. Obrigado por tudo Itajaí. Certamente você tem um lugar imenso na minha biografia daqui em diante. Na data que essa postagem sair vou estar de partida pra uma jornada, que espero que seja, curta em outra cidade e dali pra frente... ah, dali pra frente eu não pensei (mentira, eu pensei sim). Mas agora de células novas vem aí os próximos 7 anos.
Enfim, é isso², obrigado pessoas que entraram (e saíram) da minha vida nesses anos todos, agora é uma nova jornada que se inicia, um novo elo, um novo marcador no mapa dos lugares que já morei, um novo CEP e, mais importante, um novo eu. Tanto biológica, quanto emocionalmente.
Tinha pensado em alguma música pra encerrar... mas nenhuma cobriu tudo que eu queria expressar, então vamos sem música (ou eu coloco depois), mas sigamos bailando!
sexta-feira, 20 de novembro de 2020
Aos 33
Então chegou a única postagem que, não importa o que acontecer, vai sair no dia e hora programada: a postagem encerrando o ano e fazendo meus desejos ao ano vindouro.
Caramba o que foi esse ano né? Quer dizer, ainda tá sendo. Mas vamos começar pelo começo: apesar de registrado e a venda (não na amazon, tio Bezos não me aceitou, seila porque caralhas) meu livro vendeu zero. Algumas pessoas receberam de graça mas só uma leu... Não sei vender minhas coisas. Bem dizem que casa de ferreiro espeto de pau.
Depois, umas duas semanas depois de entrar em vinte vinte (ou dois mil e vinte, vulgo esse ano) eu consegui um emprego! Finalmente um dinheirinho entrando fixo na minha conta todo mês e fazendo o que eu gosto. Tava tudo bem até vir essa pandemia, mas dela falo mais depois.
Com dinheirinhos fixos entrando eu resolvi ir atrás de: terapia. Não sei se eu é que dei sorte, mas de cara consegui uma terapeuta muito boa, que me deixou super seguro pra falar muita coisa que eu tava querendo dizer, abrir/mostrar coisas que eu precisava ver a reação de outro serumano sem ser via uma tela e foi... Transcendental (ufa, esse ano não escrevi "mágico" haha), pessoas se vocês quiserem uma única dica minha é: façam terapia. Melhor investimento da vida de vocês.
Dentre as muitas coisas que aconteceram a mais incrível e inesperada foi a pandemia, é como diz o meme "cansei de viver um evento histórico". A merda é que o coronga acabou levando com ela meu emprego... Então eu arrumei um trampo e perdi um trampo nesse ano. Fiquei triste? Fiquei, triste? Pra caralho, mas é como disse minha prima: dessa vez eu fui até o fim, não desisti no meio. Vida que segue.
Consegui manter a oficina dos carrinhos com uns projetinhos novos, nada muito wooow mas refinei umas técnicas, fiz uns projetinhos legais. Mas, como tudo esse ano, fiz mais pra mim do que pra sair postando. O mesmo vale pros escritos: apesar de ter pouca postagem esse ano eu escrevi até bastante, mas não postei nada porque... Esse ano ta doido.
Depois disso tudo eu sinceramente não sei o que esperar do ano que inicia agora, mas espero que alguns planos saiam do papel e outras coisas (tipo escrever e a oficina) se mantenham ativas na medida da vontade (afinal é quase um hobby) e que consiga algumas coisas que eram pra ter sido continuadas esse ano mas né, coronga.
Vai parecer história de pescador, mas no dia que saí do trabalho eu fui nos molhes (o canal onde entram os navios pro porto) e esse navio tava entrando... Achei que nunca fosse ter um navio preferido na vida, mas agora tenho. Nunca fui de acreditar muito nisso, mas olha o nome do navio... Parece muito aquela coisa de filme que dali pra frente vai ser um ponto de virada.
A grande e imensa verdade é que já não tenho mais todo aquele ranço de fazer aniversário, porém não tenho lá muitos motivos para comemorar e, pra ser sincero, eu não ando sentindo nada nas coisas que faço, as coisas ruins são rápidas, as boas são prazeres tão efêmeros quanto um por-de-sol... espero, de coração, que essa nova volta ao redor do sol melhore isso de alguma forma.
