domingo, 6 de agosto de 2017

Rupturas

Dizem que choramos ao nascer porque o ar, ao entrar pela primeira vez nos pulmões traz a sensação de fogo interno, afinal o ar fora do líquido amniótico carrega em si muitas toxinas e por isso choramos. A verdade é que choramos porque sabemos que nunca mais teremos a proteção do ventre. Esse é o motivo daquele choro quando vamos pro nosso primeiro berço, depois para a cama, depois a creche, escola... todos esses choros são choros de rupturas. Ele é necessário, tal qual ritos de passagem.

Mas nem sempre podemos ou até mesmo damos passagem a esse choro. Muitas vezes somos obrigados a deixar ele ali, no cantinho, afinal temos que ser fortes, demonstrar fraqueza é mal visto. E assim vamos deixando esses choros de rupturas se acumularem. Um após o outro. O outro após um. Não há barragem que, depois de certa quantidade de água, não ceda, não transborde, vaze de alguma forma. Há aquele instante onde uma única pedrinha que sustentava o todo resolveu sair de posição, rolar verterdouro abaixo. Uma única pedrinha. Duas dúzias de gramas frente à massa de toneladas de água retida. Há a ruptura. Engenheiros chamam isso de ponto de stress. Uma estrutura é programada a manter determinado peso, passando disso, inevitavelmente, há a ruptura. Sempre o acúmulo, o acúmulo e aquela fração de segundo, aquela grama a mais e tudo desmorona.

Talvez o único "sistema" que funcione bem gerindo esses acúmulos e rupturas sejam as nuvens. Elas condensam a água evaporada até certo ponto e, quando menos se espera elas chovem. 

Não, a chuva não é o choro, chuva é a ruptura necessária para a semente na terra germinar. É o necessário para o romper da casca da semente. Conforme a planta cresce ela rompe o solo. Conforme o solo se rompe a água entra mais fácil. Outras rupturas. Uma ruptura causando outra ruptura que irá causar mais uma ruptura.

Ruptura. No singular. Uma de cada vez. Um romper por tempo. Acho que, apesar de não gostar do som da letra R no começo de palavras, vou fazer uma exceção. Certa vez disse que só haviam duas coisas que me colocavam a pena à mão: amor e dor e que todo o resto que escrevia, por mais elogios que tivesse, não era visceral, não "valia" porque não tinha a emoção de um amor ou uma dor, era vazio. 

Pois agora, lendo as últimas linhas, aceito a exceção. Há mais uma palavra, porém no plural, pois ela é algo vivo e que ocorre sempre. Uso o termo oriental "kanji" pra definir o que me coloca a pena à mão (embora eu saiba que o termo "kanji" são os ideogramas que, em muitos idiomas, representam sílabas e não necessariamente um sentimento ou sensação, que é como eu interpreto os kanjis), o que me fará molhar a ponta de metal no tinteiro e me porá debruçado ao papel: rupturas.

Um comentário:

Ivana Professora disse...

O tempo todo passamos por rupturas, no sentido literal da palavra, sempre que precisamos escolher, temos que romper com algo que ficou para trás, e diferente das cobras, odeio cobras, mas sou obrigada a usá-las numa metáfora,, pois elas podem trocar de pele como eu troco de blusa, já nós não, nossa troca de pele é ao vivo, se arranca a pele atual, sem direito a anestésico e se fica exposto ao frio e a todas as intempéries do tempo, esperando que a outra nasça e cresça, e isso demora, e como já disse Shakespeare, " não importa em quantos pedaços se coração se partiu, o mundo não para para que você o conserte",então é isso, continue a viver, a produzir, a sorrir, enquanto espera que as feridas se curem e para piorar ainda mais, "há aqueles que estão do mesmo lado que você, mas deveriam estar do lado de lá" ou seja eles vão te espetar só pra ver até onde você aguenta, e você aguenta, você é forte, até mesmo quando acha que já não pode mais, você ainda consegue ir mais além, erguer a cabeça e seguir, apesar de tudo e de todos, porque no final é só você...ou melhor é só nós.