segunda-feira, 27 de março de 2017

Duas Canecas

Era uma vez um vendedor de canecas. Meio hippie, meio comerciante, meio muitas coisas, inclusive meio vendedor de canecas. O vendedor caminhava por aquele balneário turistico onde muita gente morava, onde muitos visitavam. Foi numa de suas andanças que o vendedor encontrou e negociou a caneca de metal que viria ser dele. A gravação do nome foi instantânea. Como ele vivia sozinho tudo se bastava. Cerveja, água, refrigerante, suco, ele bebia de tudo naquela caneca.

Quando o período sabático acabou e tanto ele quanto ela voltaram a dividir o mesmo teto o vendedor reapareceu. Pouca coisa nele havia mudado, apenas o cabelo estava maior e a periodicidade de banhos menor. Fizeram-se as honras. O vendedor com a trouxa cheia de canecas metálicas deu todas as opções. Ela se demorou alguns instantes e escolheu a caneca acinturada. O nome foi gravado mais rápido que o nome dele. Na caneca ela beberia de tudo. Cerveja, água, refrigerante, suco. Tudo mesmo.

Acontece que as canecas, outrora tidas como de metal, na verdade tinham esse nome para simplificar a venda, uma vez que elas eram de uma liga barata de alumínio que, com pouco cuidado, deteriorava-se. Por ela beber mais refrigerante de cola o fundo da caneca acabou por ganhar uma coloração escura antes da dele. 

Alguém lavava ambas as canecas diáriamente. Às vezes até pegava uma palha de aço para devolver parte do brilho original tanto do lado externo quanto do lado interno. Porém, com o passar do tempo essa atividade tornou-se mais penosa, mais demorada e inútil. Com o correr de alguns anos ela desistiu de tentar lavar tal caneca e preferiu jogá-la fora. "Vai pra reciclagem" e lá se foi a caneca dela misturada às latas. Reciclar-se os materiais para que pudessem virar outros materiais úteis.

A caneca dele seguia lá. Agora fosca pelos anos de uso e relaxo no cuidado. Já não era mais usada para bebidas, o fundo estava torto, ao lado do lixo. Vez por outra usada como uma simples caneca que servia para jogar água na pia afim de limpar a pia. Mas, sempre ao fim daquele serviço, ela voltava para a lateral direita do lixo.

Em um dia quase esquecido alguém resolveu buscar o brilho daquela velha caneca. Era em vão. O processo de ariar acabava por riscá-la ainda mais. Talvez fosse a hora da caneca dele seguir o caminho da caneca dela. É chegado o momento da caneca dele ir, muito provavelmente ela iria para a mesma fábrica que foi a caneca dela e, quem sabe tornar-se-ia novamente uma caneca que iria primeiro para a mão dele, depois para a dela...

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